O que ele não sabe é que terá uma ajuda especial.
Os campos eram imensos, cheios de grama verde que convidava ao descanso, céus azulados cheios de nuvens brancas que eram levadas lentamente pela brisa fresca que insistia em fazer seus longos cabelos loiros se desarrumarem.
Paz eterna, como lhe foi prometido.
Ela odiava aquilo com todas as forças.
Por isso toda manhã, desde o grande decreto, ela vinha até aquele lugar, afastado de tudo e de todos, para treinar com sua espada, voltando para sua casa apenas quando a madrugada estava perto de acabar, dormindo não mais que poucas horas.
Apenas o suficiente para descansar e não enlouquecer com aquele marasmo insuportável.
Um giro com a espada por sobre sua cabeça.
Ela se lembrava do sangue dos inimigos de seu reino, manchando sua lâmina, enquanto corriam contra ela como cordeiros, achando que enfrentar uma mulher seria mais fácil.
As pernas torneadas se fixaram na relva, amassando a mesma e deixando pequenas pegadas, enquanto ela erguia novamente sua arma, preparando mais uma sequencia de movimentos.
Sua mente se voltou para quando ela sobrevoava os céus do reino, em seu corcel alado, procurando bravos guerreiros para guiá-los até o sagrado Valhalla.
Um giro do corpo e agora a espada cortava perfeitamente uma folha, que havia sido trazida pelo vento.
O vento, aliás, havia ficado mais forte de repente, mas ela aparentemente ignorara esse “detalhe” enquanto sua mente se voltava para as festas após as batalhas.
Quando o vinho corria farto, as canções diante das fogueiras contavam as lendas que surgiam a cada combate e, claro, o sexo.
Era algo que ela sentia falta em especial, mesmo não tendo encontrado um parceiro que a agradasse de fato, acabando por se afastar dos demais deuses e se entregar totalmente ao prazer proporcionado pelo combate, mas ainda assim ela apreciava o sexo logo após uma boa luta.
Mesmo com ela já sabendo o quanto os deuses eram narcisistas, só se preocupando com seus próprios desejos e necessidades.
Essa característica egoísta, aliás, fora um dos motivos que levaram os deuses nórdicos a deixarem os humanos abandonados à própria sorte, além, é claro do número crescente de heróis superpoderosos, o suficiente para fazer até os deuses se curvarem.
Algo impensável, o grande motivo pelo qual acabaram levando todo o panteão para longe da Terra, proibindo toda e qualquer interação com eles.
Esse era o Grande Decreto.
Foi o que os levou para aquele lugar monótono.
Mas isso iria mudar logo.
Outro giro com a espada e então a ponta da mesma parou encostada no diminuto pescoço de Ratatosk, o esquilo responsável por levar as mensagens de Odin a seus súditos.
- Salve grande guerreira! – Pouco a pouco o místico animal afastava a ponta da espada para o lado. - Brunhild, a maior entre todas as Valquírias!
- Se tem algum recado importante, ó mensageiro de língua macia e afiada, diga logo e me deixe à mercê de meu tédio...
- Nosso grandioso pai ordena que vá ao mundo dos mortais... Alguns humanos parecem estar tendo acesso a magia asgardiana, fomentando assim dor e caos no mundo...
- Ir para Midgard? Quando?
- Se possível for, o mais cedo que puderes e... Aonde está indo?
A garota descansou a espada sobre um ombro e começou a caminhar na direção de sua casa, quando percebeu que o pequeno animal místico ficara para trás, sem reação à sua atitude.
- O que foi mensageiro? Vamos ou não para Midgard?
- Mas... A-agora?
- Tem algo melhor para fazer?
Enquanto Ratatosk se apressava para alcançá-la, Brunhild continuou a caminhar, deixando a mente vagar, festejando o fim de seu tédio.
“Finalmente... A ação que eu tanto esperava”.
Ação era realmente o que ela iria ter.
E muito mais.
“Atenção passageiros com destino à Joanesburgo, por favor, dirijam-se até o portão 15 da Lexair. Embarque em quinze minutos.”
- Somos nós... Então é isso Bucky... Tem certeza que de não vem com a gente?
- Bem que eu queria Clint, mas depois da folga que tirei para investigar o laboratório de genética, vai demorar um pouco prá eu poder tirar outra... E as férias estão longe ainda... Fora que...
- Fora que o Capitão América não tira férias... – Rick falava enquanto abraçava sua namorada. – Ele adora falar isso... É um verdadeiro workaholic...
- Pelo menos isso não é maninho?
- Eu estou estranhando é você indo nessa viagem Dinah... Não vejo você fazendo algo divertido a... Putz... Nunca?
- Vamos nessa pessoal... – Clint abraçou os irmãos, mantendo entre eles uma distância segura para todos. – Antes que vocês comecem o bate boca de sempre!
Enquanto todos andavam rapidamente até o portão de embarque, Mari se pegava torcendo para que pudesse, um dia, se sentir mais à vontade com aquele estranho grupo de amigos.
Quem os visse jamais imaginaria que todos, inclusive ela agora, eram heróis.
No fim Mari descobriu que seus ídolos eram tão humanos quando as modelos, que ela também tinha como “deusas” inalcançáveis, descobrindo logo e da maneira mais desconfortável, como eram humanas e cheias de falhas.
- Tudo bem Mari? – Rick tirou a garota de seus devaneios, assim que estavam para entrar no checking. – Parece que você tá looonge... Nervosa?
- Estou sim Rick... Não é todo dia eu se volta prá casa, após dois anos dada como morta, para contar para os pais que ainda está viva, ganhou poderes e só depois de tanto tempo criou coragem para ir vê-los...
- Tem certeza de que quer que a gente vá? Quero dizer...
- Claro que quero seu bobo... – Um beijo amoroso e mais longo do casal fez uma senhora ali perto suspirar em reprovação. – Afinal vou precisar de heróis de verdade quando contar tudo o que aconteceu para o meu pai...
James se despediu e deixou os amigos irem para o embarque, uma parte dele sentindo uma saudável inveja, que logo foi substituída pela costumeira concentração que ele tinha ao se deparar com um novo caso.
Assim que desceu do táxi, próximo da igreja de Santa Maria, James procurou um local onde poderia vestir seu uniforme e assim foi o Capitão América quem bateu levemente da porta dos fundos, sendo logo atendido pelo padre responsável pelo lugar.
- Seja bem vindo meu filho... Que bom que você pôde vir...
- Olá padre Kirby... Como eu lhe disse anos atrás, depois da ajuda que o senhor me deu naquele caso com o Hellboy, eu sempre estarei pronto para quando o senhor me chamar. [1]
- Não fiz mais que a minha obrigação como servo de Deus meu jovem... Mas por favor, entre...
Por ter entrado na pequena sacristia, o herói não viu quando uma estrela cadente pareceu riscar os céus, estranhamente mudando seu curso, parando apenas quando mergulhou rapidamente nas águas do rio Hudson.
- Mas que diabos... - O estranho acontecimento foi visto apenas por Simon, um morador de rua, que estava morrendo de vontade de comer peixe e por isso vasculhava as latas de lixo daquela região.
Poucos instantes depois ele teve a certeza de que estava ficando louco, pois algo invisível parecia sair do rio, sendo que era possível ver apenas fios de água, que escorriam como se fosse de uma pessoa muito alta que acabara de nadar.
- Que merda é essa?!! – sem pensar na própria segurança ele deu alguns passos na direção do estranho fenômeno. - É um fantasma?
<<=>/Que merda é essa?!!\<=>> A voz do próprio Simon ressoava em resposta, mas de forma distorcida <<=>/É um fantasma?\<=>>
Três pequenos fachos laser surgiram em pleno ar focalizando bem no meio da testa do mendigo, percorrendo todo o corpo desse e sumindo em seguida.
Simon ouviu o som de pesados passos se afastando e em seguida caiu sentado, algo dentro dele sentia que havia escapado com vida por sorte.
Ele se afastou jurando para si mesmo que jamais voltaria àquela região e que nunca mais colocaria um pedaço de peixe na boca.
Ele morreria alguns dias depois, sufocado por causa de uma espinha de peixe.
Num lugar longe dali duas pessoas se encontravam dentro de um galpão, cuja fachada dava a impressão de estar abandonado a tempos.
- Você trouxe? – Uma mulher, cujos passos deixavam marcas de gelo no chão, logo retirou o pesado casaco que ela usara para tentar esconder sua identidade, revelando roupas mínimas que mal escondiam sua nudez. – Espero que seja bastante dessa vez.
O que mais chamava a atenção, além de sua beleza estonteante, era a pele, aparentemente toda feita de gelo.
- Eu não trago sempre Nevasca? – O homem trajando um sobretudo e chapéu, sobre um uniforme que lhe escondia totalmente o corpo, estendeu a mão na direção da mulher, abrindo a mesma e mostrando vários cristais azulados sobre sua palma. – Isso deve cobrir a demanda de umas duas semanas... No mínimo.
- Perfeito Mr. Element... – Ao dizer isso a bela mulher de gelo se aproximou da mão do outro e soprou delicadamente sobre os cristais, o que imediatamente fez uma camada de gelo se formar até quase o meio do braço do outro. – Continuo sem entender como você faz para não se machucar... Qualquer outro estaria aleijado...
- É o que nos torna uma dupla tão perfeita minha cara... – Enquanto falava, o homem parecia se concentrar um pouco, fazendo o gelo evaporar e os cristais se tornarem nada mais que um punhado de poeira, que ele teve o cuidado de guardar até a última partícula num frasco. – Que tal irmos juntos até a linha de produção? Sabe como sua presença... Eleva a moral dos nossos empregados...
- Sei, sei... Espero que tenham aprendido com o último que tentou uma gracinha...
- Aquele pobre coitado, eu tenho certeza, vai pensar suas vezes antes de tentar beliscar uma bunda por aí... Com a mão que lhe restou, é claro... – Eles se encaminharam até uma sala do galpão, que se mostrou na verdade como um elevador secreto, para o qual o homem deu passagem para sua companheira. – Primeiro as damas...
- Sei... Eu não preciso nem de telepatia para saber aonde seus olhos vão, mesmo atrás dessas lentes...
- Um homem pode sonhar não é minha querida?
Os dois permaneceram em silêncio, enquanto o elevador descia por alguns minutos e logo as portas voltaram a se abrir, revelando o que parecia uma imensa fábrica, lotada de trabalhadores, todos atarefados com a produção de um líquido, distribuído em diversos frascos.
- Uma droga que dá temporariamente poderes sobre o frio divino... Quem não pagaria tudo o que tem para experimentar isso só uma vez?
- Espero realmente que não encontremos pessoas assim... Eles têm que querer mais e mais... Quero mais grana para poder um dia sair dessa vida...
O Mr. Element permaneceu em silêncio, pois sabia em seu íntimo que eram poucos os que entravam para aquele tipo de vida e conseguiam realmente se satisfazer com ganhos pessoais o suficiente para deixar tudo para trás.
“Não...” ele pensava “Gente como nós nunca vai parar...”
Ele entregou a matéria prima para a droga a um de seus “funcionários” e esse levou o pó até as máquinas que iriam processá-lo, diluí-lo e fazer mais da droga que se tornava cada vez mais e mais popular entre os jovens nova-iorquinos.
XXX
- Ragnarock?
- É como eu ouvi o garoto chamar...
De volta para a sacristia da igreja de Santa Maria, o Capitão terminava uma caneca de café, enquanto ouvia o relato do padre Kirby.
“Quando eu achei o jovem Dennis, ele estava totalmente gelado, me deu a impressão de estar morto a dias e ter sido guardado em um frigorífico desde então, mas quando eu comecei a me afastar, pretendendo chamar a polícia, ele voltou a si, pedindo por socorro.
Eu e uma das boas senhoras que me ajudam, levamos ele no carro dela até o hospital mais próximo e o médico que o atendeu disse que não era o primeiro que chegava assim até eles...”
- Resolvi então começar uma investigação particular, sondando os jovens da vizinhança e acabei reunindo essas informações que lhe passei... – O padre apontava para um amontoado de folhas amassadas que o Capitão mantinha nas mãos, lendo com a devida atenção. – Quando percebi que o número de usuários estava crescendo de forma preocupante, resolvi te chamar... Não sabia a quem recorrer...
- Fez bem padre e... Espera aí! – Algo chamava a atenção do herói na pequena televisão da sacristia. - Por favor, aumenta o som...
“A poucos minutos um grupo de aproximadamente quinze monstros, todos parecendo feitos de gelo, invadiram a Times Square, causando caos e destruição. A polícia não está conseguindo impedir os monstros e evacuar os inocentes a tempo e... Nãããããoooo!!!!!!!!”
A imagem de um carro sendo jogado sobre a equipe de reportagem, forçando-os a escolher um lugar seguro para continuar a reportagem, agora podendo apenas filme os monstros que continuavam atacando tudo e todos ao seu redor.
- Desculpe padre... – O Capitão se levantava rapidamente, indo na direção da porta. – Acho que vou precisar daquela moto que deixei aqui outro dia...
O padre já se adiantara ao pedido pegando as chaves que ele deixava numa gaveta próxima e jogando para o herói.
- O que vai fazer meu filho? Lembre-se que são todos jovens... Não inocentes, mas...
- Não se preocupe Padre... – Agora o Capitão já corria até um lugar no pátio da igreja, puxando uma lona e sentando numa harley, cujo motor rugiu após ser ligada. – Irei apenas ajudar esses jovens a sobreviver ao que parece ser uma overdose do tal Ragnarock...
A moto já rumava para a rua, quando o Capitão completou sua frase.
- Nem que eu tenha que encher cada um de porrada até eles desmaiarem!!!
Assim que o herói sumiu na noite, o padre voltou para a igreja, indo direto para o altar.
Ele iria passar boa parte daquela noite orando.
O Capitão América não sabia, mas iria precisar de cada oração.
Conclui a seguir.
[1] Em breve esse encontro com o Hellboy será revelado.
+ comentários + 5 comentários
Valeu Léo! Que bom que você gostou!!!
Me esforcei prá deixar a Valquíria bem legal pro pessoal que provavelmente não conheça a personagem, bem como para os que já a viram...
Nas próximas edições muita ação e também o encontro da Mari com seus pais e muito mais!!
Aguarde e confie...hehehehe
Espero que as capas continuem legais!
Valeu mesmo o comentário (desculpe a cobrança na caruda) um abração e até mais!!!
Cara, excelente!!
A Valquíria ficou realmente massa, e me lembrou bastante daquelas guerreiras taradas que sempre querem mais lutas e mais sangue xD
Outra coisa bem legal, foram os ganchos pros próximos arcos do Capitas, principalmente o do Preddas.
Parabéns, João!
Valeu Cara! Tô me esforçando prá deixar a Valquíria bem legal... Uma mulher bem forte e independente!
Os ganchos logo, logo, resultarão em novas histórias... Aguarde e confie!
Valeu mesmo o comentário cara!
Um abração e até mais!!!
Muito bom!!! Cara, demais as deixas que você deu sobre o Hellboy e aquele nosso amigo rastafári de outro planeta...rsrssr... tô ansioso por vê-los... Valquíria dispensa comentários...com certeza gostei muito dela... agora o que me chamou atenção mesmo foi Nevasca e Mr. Element...os dois formam uma dupla fanta´stica...
Logo lerei a continuação... abraço!!!
Valeu Raven!!
Eu adorei fazer essas citações... O Hellboy ainda demorará a aparecer, mas o Predador estrelará a edição 11 do Capitão, numa luta que eu já escrevi a anos e agora ganhará uma nova versão.
E eu me surpreendi com o lance dessa dupla de vilões... Procurei dois bem pouco conhecidos e foi muito bacana de usá-los... Espero grandes cenas pro futuro com eles.
Valeu demais pelo comentário! No aguardo pelos próximos!
Um abração e até mais!!!
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