Profany contra Renato, o maldito pedófilo que abusa da própria filha. Para derrotar esse monstro, Profany precisa afastar os pensamentos negativos e aumentar sua fé.
Profany
O Anjo da Morte
Por: Anderson Oliveira
Escrito originalmente em 2005
Episódio 3: “Inocência – parte final”
Enquanto houver uma única criança inocente, este mundo estará salvo. Todas as crianças são inocentes? Antes de responder, pense... O que é a inocência? A inocência está na beleza de uma flor, no voo de um pássaro, no pôr do sol e no sorriso de uma criança. É a presença de Deus.
Mas a inocência de uma garotinha estava sendo-lhe roubada por um pai doente, tomado pela imundícia do demônio. Renato feriu sua filha Camila, feriu seu corpo que ainda não foi preparado para ser violado, e feriu sua alma. Um mau que jamais lhe será reparado durante toda sua vida.
As trevas, os espíritos diabólicos estavam junto de Renato, se alimentavam de seu ser. Parasitavam sobre sua vida vazia e sua mente defecada de pensamentos vis. Com isso, um anjo chorava nas Alturas por não poder se aproximar daquele que deveria guardar, e outro anjo também se entristecia ao ver sua pequena protegida tendo sua inocência mutilada.
Mas há um anjo, que já se arrastou sobre a Terra, sentiu o que os mortais sentem, inclusive o amor, e por isso foi banido aos Infernos, de onde se levantou e novamente anda sobre o mundo. Esse anjo veio para enxugar as lágrimas dos anjos do Céu, e lavar o sangue inocente que está sendo maculado... violado... conspurcado... profanado.
— Ah.. Ai.. pai... dói...
— Cala a boca Camila... sua mãe não pode nos ouvir...
— Pára papai... Pára!!
— Fica quieta, porra!! — Renato bateu em Camila com tamanha força que a menina caiu longe sobre o chão. Renato vestiu suas calças enquanto Camila se contraia e tentava não chorar. Renato pegou uma bebida, Camila engatinhou até suas roupas e se vestou ali mesmo no chão. Seu corpo sangrava...
Trovões anunciavam a chuva que se iniciava. Um vento. Um forte vento fez a janela abrir. Renato olhou e temendo o barulho que a cortina poderia fazer ao esbarrar em alguma coisa, correu até a janela para fechá-la. Ao olhar pra fora, uma mão lhe agarrou pelo pescoço e o puxou. Renato rolou pelas telhas junto ao homem que lhe puxou e ambos caíram sobre o chão de cimento. Mas Renato caiu de costas, e Profany caiu sobre ele:
— Você de novo!! Agora eu vou te matar!! — disse Renato que tentava acertar Profany, mas este segurou seus braços com sua força sobre humana. Profany lembrou que deve manter o mal longe... e para isso não devia odiar seu inimigo. Sua reação imediata foi não agredi-lo.
— Devo te matar... — disse... então pensou que sem agredi-lo, não poderia fazer tal coisa. Logo Profany acertou um soco em Renato. Um forte soco que lhe estourou algo na boca e o sangue foi lançado para fora. A esse soco se sucedeu outros, e mais outros... E logo Profany se viu tomado novamente pelas trevas: — Não...!! Devo me concentrar!! Argh!! — Profany levou as mãos à cabeça, ao fechar os olhos teve a nítida impressão de ver os espíritos imundos lhe arranhando e mordendo-o. Renato aproveitou a hora para escapar.
— Você é doente cara... Me deixe em paz!! — disse Renato ao se levantar jogando Profany para trás. O anjo da morte pensou:
— Não é ele que traz os demônios... sou eu com meus sentimentos negativos!! — pensava enquanto olhava para Renato, mesmo com seus longos cabelos sobre seus olhos, graças a chuva que caia cada vez mais forte. — Não posso odiá-lo. Isso me enfraquece... Mas também não posso nutrir nenhum sentimento bom por esse homem...
— Eu... Eu... vou acabar com você!! — disse Renato que se afastou em direção a porta. Mas ao olhar para cima, viu Camila na janela de onde ele foi tirado. A criança o olhava com assombro...
— P-pai...? — murmura.
— Entra pra dentro Camila!! Vá pro seu quarto! — gritou Renato. Então Profany notou a menina:
— Essa é a resposta... Não irei matar esse homem porque o odeio... Mas porque amo essa criança e devo defendê-la. — ao se levantar. Renato o olhou e viu um trovão atrás de Profany. Este seguiu dizendo: — Não permitirei que ninguém machuque essa inocente criança! Não vou te odiar... mas vou amar aqueles que sofrem por suas mãos!! — Profany correu e caiu por cima de Renato. Os dois rolaram pelo chão molhado até que Profany conseguiu dominá-lo e sacar sua arma, no entanto ele hesitou em atirar: — Não... você não é digno de uma morte rápida... deve sofrer por fazer sua filha sofrer! — Profany jogou a arma longe e começou a espancar Renato.
— N-não...! Pare!! Por... favor!!! — clamava Renato.
— Por todo o mal que você causou... não só a sua filha, mas Deus sabe quantas outras crianças!! — Profany parou um instante... sentiu o mal se aproximar novamente, então fixou seus pensamentos nas crianças de que se lembra: Catherine, Letícia e seu irmão Thiago, Camila e seu filho que morreu... Pensou em todas elas e fez um voto de protegê-las... Então continuou a atacar Renato.
A pequena Camila não conseguiu ver a cena, pois o telhado a impedia, mas ela ouvia os gritos do pai. Seu sentimento era de preocupação, pois ela amava seu pai, mas ao mesmo tempo parecia sentir algum alívio. Nessa hora sua mãe, acordada pelos gritos de Renato, foi ao quarto, que pra ela não passava de um escritório do marido e encontrou sua filha na janela. Ao entrar notou o material pornográfico espalhado pelos cantos e, num olhar rápido e singelo de Camila, percebeu toda a abominação que acontecia debaixo de seu teto. Com um forte e emocionado abraço a mãe acalentou Camila.
O sangue de Renato foi levado pela água da chuva. Seus dentes também são levados pela correnteza. Seus olhos mal se abriam de tão inchados... e Profany continuava a golpeá-lo. Cada soco era um desabafo por toda a sujidade que ele representava. Mesmo assim o anjo caído não demonstrava ódio por Renato. Ele canalizava essa força e a transformava em amor pelas crianças a serem salvas com sua morte. Uma morte lenta, indigna, dolorosa como ele merece.
Um trovão ensurdecedor anunciou o fim. Renato morreu no chão de seu quintal, com Profany sobre seu corpo, ofegante de cansaço. Seu rosto era irreconhecível graças aos hematomas e cortes. Talvez um traumatismo craniano seja a causa do óbito, mas isso não importava para Profany. Logo, a luz serena de Melod, o anjo guardião da morte surgiu em esplendor. Com uma aparência diferente... a aparência de uma criança. Era a segunda vez que Profany a via, e novamente Melod se dirigiu a ele:
— Salve Profaniel, os Céus o saúdam! Levanta-te e siga seu caminho... esta missão acabou. — ao falar Melod desapareceu da mesma forma magnífica que surgiu, deixando Profany só com o cadáver de um condenado. Mas Profany sentiu que esse não era exatamente o fim da missão. Uma força nova o fez se levantar e calmamente caminhar até a porta... e entrar.
Ele entrou pela casa ainda com respingos de chuva e do sangue de Renato a escorrer por seu corpo. No escuro da noite subiu as escadas, seguindo um som, um delicado som, que a cada passo se tornava mais forte, até encontrar a pequena Camila nos braços da mãe. As duas choravam e não percebem a presença de Profany. Ele as olhou e se sentiu bem, queria ter a certeza de que Camila estava a salvo. Ao retornar, uma coisa chamou sua atenção: ele via a outra menina dormir em seu quarto. Profany entrou e olhou para a pequena, nesse instante sentiu uma força colossal e divina, que só podia ser explicada pela presença de um anjo.
Profany notou sobre uma cômoda um livro aberto. Em suas lembranças sabia que conhece esse livro. Ele se aproximou e leu uma parte que dizia assim: “Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.” – (Salmos 91:11). Profany procurou a capa do livro e leu “Bíblia Sagrada”. Sem mais demoras saiu da casa, pois lá os anjos agora não mais chorarão.
Pela manhã a polícia cercou a casa de Renato. Os vizinhos denunciaram uma movimentação estranha na última noite. Os policiais encontraram o corpo no quintal:
— Muitas escoriações por todo o rosto, traumas na nuca e nos membros, hematomas pelas costas e abdome... é... esse cara apanhou até morrer! — disse o legista. Um policial se aproximou do cadáver que estava sendo coberto por um saco. Era Luke Junqueira:
— Alguma espécie de louco psicótico deve ter feito isso! Invadiu a casa do homem, um pai de família decente e o agrediu até a morte... Veja se algo da casa foi levado... — minutos depois outro policial chamava Luke da janela, este entrou e foi até o quarto secreto de Renato: — O que é isso? Pornografia infantil?
— É... e tem mais... veja esse computador... — disse o policial: — A rede de pedofilia que o Danilo estava investigando! O cara fazia parte... Acho que me enganei... ele não era nem um pouco descente. — Luke ainda saberia do pior, ao tomar o depoimento da mulher. Ela lhe revelou o que Renato fazia com Camila: — Jesus Cristo! — exclamou Luke.
— Que a mulher não nos ouça... — comentou outro policial: — Mas o cara que espancou o marido fez muito bem feito! Ah se eu mesmo botasse minhas mãos nele... Acho que faria pior!
— Então foi trabalho de um justiceiro... — pensava Luke: — Será o mesmo que acabou com o traficante Nelsinho? Aquele cara estranho que estava na minha rua?! Pois eu ainda botarei minhas mãos nele!
Seguiam os policiais fazendo o trabalho de praxe. Depois uma equipe da Policia Federal foi chamada para investigar a rede de pedofilia. Graças à morte de Renato, outros pedófilos poderão ser encontrados e punidos. E quantas outras crianças poderão ser salvas e ter sua infância devolvida. Graças a Profany, que se encontrava a olhar o céu sentado no chão em uma praça. Ele observava os pássaros que voavam e ao fechar os olhos ouviu seu canto e as risadas de crianças que brincavam perto dele. Ele se sentiu bem.
— Salve Profany... o Senhor é convosco! — saudou Noriel que se manifestou ao seu lado, de forma que só ele pudesse vê-lo e ouvi-lo.
— Olá Noriel... Cumpri mais uma etapa da missão...
— E isso é louvável. De certo que para isso, tenha rencontrado sua fé?
— Não sei ao certo se encontrei toda a fé que um dia tive, mas foi o suficiente.
— E assim deve ser. Encontrar a fé, para alguns, é um trabalho que leva a vida inteira... para outros, acontece num instante... Não é uma tarefa fácil.
— Percebi isso... e fiquei confuso... Por que existem tantas igrejas? Por que cada grupo de pessoas busca sua fé de modos diferentes?
— Eu poderia responder, mas sei que você sabe a resposta... — Profany abaixou os olhos, pegou uma pedrinha e atirou ao vento...
— É... Mas eu encontrei minha fé ali. — ele apontou para as crianças que brincam. — Na inocente sabedoria desses pequeninos. Senti em sua força a paz e a presença de Deus.
— Julgaste bem, amigo. Com o cumprimento dessa segunda missão, sua mente se abriu mais um pouco... agora começará a compreender mais os desígnios do Senhor.
— Noriel...
— Sim.
— Você me disse que eu não preciso comer, nem beber... somente dormir...
— Verdade...
— Mas esqueceu de dizer que tomar banho também seria necessário! Estou imundo! — disse Profany tocando em suas roupas, ainda manchadas de sangue e lama.
— É bom ver que está tão espirituoso! Sim, lave-se, se isso o fará se sentir melhor... Mas não se esqueça: ainda restam cento e vinte e três pessoas que deve matar... não perca tempo! Até mais! — Noriel some aos seus olhos.
— Ok... vamos procurar uma tina de água para me banhar... — disse Profany enquanto se levantava da grama. — Naquele lugar que Letícia me mostrou deve ter uma.
Enquanto Profany rumava até a vizinhança da família Junqueira, Luke voltava pra casa após o seu plantão noturno, trazendo pensamentos sobre a morte de Renato e Nelsinho, tendo a certeza de terem sido provocadas pela mesma pessoa. Correu algum tempo até Luke chegar em casa, era pouco antes do meio-dia, e Letícia voltava da escola:
— Oi... cheguei!! — disse a garota ao entrar largando seu material no sofá da sala. — Mãe? O almoço tá pronto? Tenho que fazer um trabalho na casa da Patrícia hoje!!
— Outro trabalho, minha filha? Outro dia você não passou a tarde inteira na casa da sua amiga? — perguntou Luke que estava revirando a geladeira.
— Hã...? Oi pai! É que é outro trabalho... Pro senhor ver... estudantes dedicados assim como eu sofrem! — disse ela de um jeito irônico.
— Sei... Bem, pelo menos você avisou dessa vez... Sua mãe está trocando seu irmão e logo volta...
— Tá bom... — Letícia foi até a pia, que tem uma janela que dava vista para a rua. Pra sua surpresa ela viu Profany indo em direção ao salão abandonado. — Hi caramba! Hmm... Pai, eu volto logo! — Letícia deixou seu copo de água na pia, saiu correndo da cozinha e saiu pra rua.
— Letícia! Espera... o almoço vai sair em... — Luke chegou a Janela e viu Letícia indo até o salão.
— Estranho... muito estranho... — Letícia correu até o salão, entrou pela fresta nas tábuas e encontrou Profany de costas, em pé, procurando algo:
— Oi Profany... olha, acho melhor você sair daqui... meu tá em casa hoje!
— Não tenho medo do seu pai. — disse ele sem olhar pra ela, ainda procurando algo... — Você sabe se aqui eu posso tomar um banho?
— Banho?! — Letícia se aproximou e farejou... — Credo!! Você tá precisando mesmo!! Acho que deve ter um chuveiro por aqui... — Letícia foi até um amontoado de objetos... — Atrás desse entulho tem um banheiro... Se você for gentil pra tirar essas coisas do caminho pra mim... Sabe, eu sou uma dama e sou muito delicada! — disse em tom de brincadeira. Profany foi e removeu as tábuas e ferros com facilidade. — Uau! Você é mais forte do que parece!
— É o que dizem... Então é nessa sala que eu poderei me banhar?
— “Me banhar?” Cara, você diz cada coisa! É sim... Sei que não cortaram a água ainda porque tem um “gato” com a casa de trás. Mas a luz foi cortada... vai ter que tomar banho frio.
— Não me importo... — Profany entrou, olhou ao redor e não viu uma tina, uma espécie de banheira de madeira com a qual se tomava banho no século dezoito. Só viu um chuveiro no alto, tomado por teias de aranha. — Onde está a tina? E a bica de água?
— Tina? Bica? Não! Tá vendo essa coisa aí em cima? Chama-se chuveiro... você tira a roupa, entra debaixo e abre esse registro ao seu lado... aí a água vai cair em você como se fosse uma chuva... Vai me dizer que nunca viu um chuveiro?!
— Não...
— Que caipira!! Heheh!! Bem... vou te deixar sozinho... Cuidado pra não escorregar no chão molhado... — Letícia saiu enquanto Profany examinava o chuveiro.
A menina deixou o salão. Profany abriu um pouco o registro e viu que começa a sair água dos furos do chuveiro... uma água suja que depois ficou limpa. Ao constatar a eficácia do aparato, ele tirou seu traje. Então notou o retalho que cobre sua boca, também o removeu... No banheiro havia um espelho quebrado, nele Profany pôde ver pela primeira vez como estava seu rosto... Não conseguiu ver por muito tempo, então entrou debaixo d’água e começou a se lavar. Letícia saiu na rua e sentou no meio-fio. Mas então ela lembrou de seu pai e logo se levantou e correu até sua casa:
— Onde você foi, Letícia? — perguntou seu pai com o pequeno Thiago no colo.
— É que... A gente encontrou um cachorrinho e tá cuidando dele naquele salão velho... Eu fiquei de levar comida pra ele hoje...
— Cachorro? Hmm... — disse Luke. — Lave-se e vamos almoçar. — Luke acompanhou Letícia com os olhos até ela ir ao banheiro, depois pensou: — Essa menina está metida em alguma coisa... E eu vou descobrir o que é...
Passou à tarde. Letícia foi à casa da amiga fazer seu trabalho. Profany se encontrou parcialmente limpo e descansado. Luke foi até o salão, mas Profany já havia saído, Luke não encontra cachorro algum, só água no velho banheiro, o que o deixa mais desconfiado. Profany voltou ao alto do edifício em construção... de lá olhava o pôr-do-sol. Nos últimos dias ele aprendeu valiosas lições...
Descobriu que a fé não se faz com blocos de pedra e nem palavras fervorosas, mas com bons sentimentos e praticar aquilo que se acredita. Que a fé está em cada um de nós, basta ser lapidada. Encontrar sua fé ainda será uma árdua missão, mas ironicamente ele tem “fé” que encontrará. E se nessa ocasião teve fé para vencer o mal que queria dominá-lo, foi por causa da inocência de uma criança que estava sendo machucada.
E a inocência dessa e de todas as crianças o salvou, e ele as salvou. E mais uma vez elas poderão sorrir e brincar no seio do Criador. Pois, aquele que tem a inocência de uma criança... este verá a Deus. Mas todas as crianças são inocentes? Certamente. Mesmo que elas próprias não se dão conta, mesmo que não sejam mais tão crianças assim. Como Letícia, por trás de sua atitude extrovertida e vida de garota suburbana, ainda há nela uma inocência pura e divina.
Às vezes, mesmo que essa criança cresça, constitua família, venha a cometer um ou outro pecado... sua inocência continua lá... no fundo da sua alma, porque ela tem fé. Fé e inocência caminham juntas, são o que enobrecem cada ser humano... Pois o inocente tem o privilégio de sonhar...
E homens são feitos de sonhos e fé. E Profany percebeu isso. Percebeu também que aqueles que devem tombar sob suas mãos, não têm nem uma coisa nem outra... então não são dignos de qualquer sentimento... nem do ódio. E isso o motiva a seguir seu caminho. E a procura de almas vermelhas ele encontrou algo... numa casca frágil e bela, se esconde um monstro terrível e sanguinário... E a caçada continua.
A Seguir: O Quarto Mandamento
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