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Lendas de Aupaba #4. Turiaçu.



A Batalha contra o Boitatá fica mais e mais violenta.

Será que os heróis serão capazes de vencê-lo?




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Lendas de Aupaba #4. Turiaçu.

Por João Norberto da Silva.

- Temos que continuar desviando!!!

- Mas guardião!! Desse jeito nunca vamos vencer esse maldito!!!

- Um ataque direto dificilmente daria certo filha de Iaé! E ainda temos que proteger o Uauiará!!

Rajadas de fogo passam cada vez mais perto do grupo, mostrando a verdade nas palavras de Yakecan e forçando-os a permanecer em constante movimento, pois sabem que se ficarem parados um instante sequer, serão atingidos com certeza.

- N-não... Se importem... Comigo... - Uauiará mal consegue se manter consciente por causa de seus ferimentos, mas ainda assim se preocupa com as “crianças” que vieram ajudá-lo. - Me largue Jaguar-Upiara... Salvem-se... Você já tem a Itapitanga...

- Fica quieto e não se mexe demais... - O guardião dos Auati sente a pedra do casamento de sua tribo pesando no pequeno bornal que ele traz na cintura. - Meu pai não me perdoaria se eu deixasse um antigo amigo dele morrer dessa forma... Cuidado Iaciara!

- Obrigada guardião... – A bela índia desvia por pouco de outra rajada de fogo. - Não podemos continuar assim por muito tempo! O maldito está destruindo muito da margem do Grande Rio!

- Ela tem razão Jaguar-Upiara... Precisamos fazer algo!!

- Hahahahahahahahahahaha!!! – Uma criatura horrível, com uma pele avermelhada e escamosa, mãos e pés que terminam com poucos dedos, dois chifres no alto da cabeça e uma longa causa, o Boitatá permanece sempre rodeado por pequenas chamas que parecem dançar ao seu redor. Sua aparência só é superada pelo sorriso demente que ele mantém no rosto e o brilho maligno dos seus olhos. - O que vocês podem fazer seus imprestáveis?!!! Mal estão conseguindo escapar das minhas Ataendy...

- Certo... Agora chega!

Jaguar-Upiara se detém de repente em pleno ar, ainda com o guerreiro das águas em seu ombro, mal percebendo que as palavras de Yakecan estavam certas, seu poder se amplia a cada momento, mas agora ele não pode se preocupar com a evolução de seu Moronguetá. Não se quiser sair de lá com vida.

- Heim? Finalmente percebeu que não pode me vencer curumim? - O Boitatá baixa os braços, concentrando duas bolas de fogo em suas mãos. - Ou cansou e resolveu se matar para poupar mais Caci?

- Na verdade... - O guerreiro ergue seu companheiro dos ombros e, surpreendo não apenas o inimigo, mas também Iaciara e Yakecan, joga Uauiará dentro do Grande Rio. - Agora sim... Vamos começar a verdadeira luta...

- Ora seu... - O Boitatá ergue um dos braços e lança uma nova rajada de fogo. - Morra!!!!!!

- Desculpe te desapontar... - Com um movimento de seu Punho de Tupã, o guerreiro desfaz as chamas assim que as mesmas se aproximam. - Mas vai precisar mais do que isso para me derrubar.

- Então parece que terei um desafio... Isso é ótimo!!! - Dito isso o vilão ergue os dois braços e dispara chamas de ambos que, conforme ganham os céus, se unem em duas espirais, aumentando assim de tamanho e poder destrutivo, atingindo seu alvo em cheio. - É isso!!!

- Muito lento... - Para surpresa do Boitatá, a voz de seu oponente parece vir detrás de si e quando o vilão se volta, precisa erguer os dois braços para se defender do ataque que recebe e que o lança a alguns metros de distância.

O vilão se levanta passando uma das mãos onde fora atingido e não percebe nenhum corte, apenas um machucado como se tivesse sido atingido por algo não cortante.

- Mas o quê... - Ao olhar na direção de seu inimigo, o Boitatá percebe que fora atingido pela empunhadura da arma do outro, apenas por isso ele não se cortara. - Eu te subestimei mesmo... Curumim...

- Eu... Não... Sou... Um... Curumim!!!!

Com um movimento semicircular de sua arma Jaguar-Upiara lança uma rajada de energia dourada contra o Boitatá, que não consegue se defender, sendo atingido e logo coberto por uma nuvem de fumaça, resultante do impacto.

- Agora eu acho que podemos ir embora... - O guardião se volta para Yakecan e Iaciara, que acabam de chegar perto dele. - Pelo visto ele não levanta mais...

- Não acredito no que você fez com o Uauiará... Eu...

A frase da bela índia é interrompida pela risada do Boitatá, fazendo os três se voltarem para onde a fumaça começa a se dispersar.

- Hahahahahaahhahahaha!!!! De fato, será um belo desafio... - Ao redor dele colunas de fogo surgem assumindo forma de serpentes de vários tamanhos. - Curumim...

- Se afastem... - Novamente o ar ao redor do guardião começa a oscilar, mostrando que sua energia continua a crescer. - Se possível tirem tudo o que estiver vivo ao redor...

Sob os protestos de Iaciara ela e Yakecan começam a fazer o que Jaguar-Upiara pede.

XXX

- Aaaahhh... Nanbiquara seu velho doido... - Jibaoçú caminha lentamente pela Ocara, aspirando o ar da noite com sofreguidão, tentando se recuperar da bebedeira causada pelo cauim feito pelo pajé da tribo. – Me fez beber praticamente o dia inteiro... Ai minha cabeça... Como dói...

- Pai?! Finalmente eu te achei!

- Hã... - Antes mesmo de se virar o antigo guardião já sabe que se trata de seu filho Guaraní, aquele que todos acreditavam que seria seu sucessor. - Olá filho... Eu... Sinto muito por não ter ido para nossa oca direto, mas... Hã... Nanbiquara precisou de mim e...

- Eu só quero saber pai... Porquê?

- Olha Guaraní... Eu...

- Só preciso de uma explicação que aquiete essa chama de raiva que está ardendo no meu peito pai... Por que Abaetê e não eu? Por acaso não fui um bom filho? Não sou um grande guerreiro? O que eu fiz para que você o preferisse a mim? Justo ele que apenas se dedica à música? Certo que nisso ele era horrível, mas ainda assim...

- Não é tão simples assim Guaraní...

- Só não me venha com a desculpa do sonho... Isso é absurdo demais para que eu aceite.

A mente de Jibaoçú retorna para algumas semanas atrás, quando ele voltava de uma difícil luta contra alguns monstros criados por Anhangüera e, permanecendo escondido por entre algumas árvores, viu Guaraní e outros índios, aparentemente treinando numa clareira próxima da tribo.

O antigo guardião não consegue esquecer o modo como seu filho tratou os amigos, depois de derrotá-los. Ofensas e humilhações foram proferidas por Guaraní que, em seu orgulho pela vitória, parecia não notar ou mesmo se importar com o impacto de suas palavras e quando se viu sozinho, os amigos não agüentariam mesmo aquela situação por muito tempo, ele gritava para si mesmo que era o melhor e que não precisaria nunca da ajuda de nenhum deles. Que ele seria o, segundo suas palavras, “Grandioso Guardião”, que não precisava de nenhum deles.

Desse dia em diante Jibaoçú começou a prestar atenção nas atitudes de seu filho, notando repetidamente a arrogância do mesmo, isso para ficar em apenas uma das péssimas qualidades dele. O velho índio percebeu que o filho não possuía amigos verdadeiros, apenas aqueles que ele mantinha sob ameaças. Se alguém assim acabasse por receber os poderes do Jaguar-Upiara os resultados poderiam ser desastrosos.

Ainda assim ele não possuía outras opções, o filho mais velho tinha idade demais e o do meio parecia ter escolhido a música como meio de viver, mesmo não tendo reais aptidões para tal, mas depois do sonho, onde ele vira Abaetê lutando como um grande guerreiro e com as palavras que a estranha criatura lhe dissera “Abaetê será um protetor, não apenas de Aupaba, mas de toda Neijyn-Zalla”, Jibaoçú acabou por tomar sua decisão.

Mesmo sem saber o que seria uma Neijyn-Zalla, ele sentiu a verdade nessas palavras, o que, obviamente, não foi bem aceito por Guaraní, que desde o dia em que o velho índio indicou Abaetê como o escolhido para ser o próximo guardião dos Auati, não deixou de tentar de tudo para mudar a decisão de seu pai.

- E deu certo? Ele é o novo Jaguar-Upiara? E por que ele não veio até a aldeia se apresentar como eu teria feito?! Ele já está se achando tão importante? Eu sabia que isso subiria à cabeça dele e...

- Pensar antes de falar nunca foi seu forte Guaraní... Portanto fique quieto e ouça um pouco para variar... Pouco depois de seu irmão receber o manto, Nanbiquara foi até nós para contar sobre o roubo da Itapitanga... Seu irmão, sem nem pensar duas vezes foi à procura dela... Aliás, o seu casamento terá de ser um pouco adiado e...

- Que ótimo!!! Claro que ninguém pensou em me avisar antes não é?! Era só o que me faltava!! Por causa de Abaetê meu casamento também está ameaçado... Eu deveria...

- Deveria ir para casa pensar em tudo o que está falando!!! - Mesmo sem ser o guardião, a voz de Jibaoçú continua forte o suficiente para fazer seu filho se calar. - Ele prometeu trazer a pedra amanhã e amanhã ele trará... Seu casamento será adiado apenas por um dia... Isso é, se você quiser mesmo...

- E eu não deveria querer? Era só o que me faltava... Além de perder o posto de guardião, acabar perdendo também minha esposa... Quem sabe devo oferecê-la para Abaetê e...

- Guaraní!!

Sem mais uma palavra o jovem índio se afasta, deixando para trás um pai extremamente preocupado que, ao olhar para o lado, percebe a bela Uaná na janela de uma oca próxima. Ao perceber que está sendo observada, ela se afasta rapidamente, mas não antes de Jibaoçú perceber lágrimas em seus olhos.

- Ah... Tupã... Por que tudo não pode ser mais simples?

XXX

Um pequeno filhote de anta se mantém encolhido, seu corpinho tomado pelos tremores decorrentes do medo de ter se perdido de sua família. Pouco tempo atrás um som alto como o de um trovão o acordou e então um grande grupo de animais, todos aterrorizados com algo, passou por onde o animalzinho estava com sua mãe e irmãos separando-os e agora ele permanece parado, aguardando por um socorro que ele não faz idéia se virá ou não.

Um brilho chama a atenção do pequenino e ele ergue a cabeça apenas a tempo de ver que algo está vindo rapidamente em sua direção. Sem conseguir identificar a coisa como algum outro animal, ele apenas continua petrificado pelo medo, pelo menos até sentir algo agarrando sua cintura e tirando-o do chão, poucos instantes antes da coisa brilhante passar destruindo todo o local onde ele estava.

- Pronto pequenino... - Ainda que as palavras sejam incompreensíveis, o tom das mesmas não é e ele percebe sendo tomado por uma sensação de proteção, que havia sentido apenas junto de sua mãe. - Aqui você está seguro...

- - Ao ouvir sons que fazem sentido o filhote se depara com um enorme jaguar que, do contrário dos ensinamentos de sua mãe, não parece interessado em comê-lo. -

Assim que observam o filhote sumir por entre algumas árvores, Iacirá e Yakecan se voltam para o local onde a batalha se desenrola.

- Então pode se comunicar com outros animais? É realmente um poderoso espírito de Tupã...

- Não é tão difícil... Encontrei homens e mulheres que poderiam fazer o mesmo... Basta um pouco de vontade...

- E quanto ao Guardião? - O jaguar percebe um tom mais acentuado de preocupação na voz da guerreira e não consegue evitar seu pensamento seguinte; “humanos... Tsc, tsc... Sempre entregues às emoções...” - Será que não podemos ajudar...

- Acredite... Por mais impossível que possa parecer, Jaguar-Upiara tem tudo sob controle... Demorei um pouco para perceber o que ele pretende, mas agora eu vejo que ele planejou tudo e não podia se dar ao luxo de ficar preocupado com nossa presença, ao menos por enquanto... Confie nele guerreira...

Pouco acima do local, sem que mais ninguém possa vê-lo, está Anhangüera. O demônio está feliz por ter voltado de sua viagem a outros continentes a tempo de ver o novo Jaguar-Upiara em ação. E ainda enfrentando o perigoso Boitatá. “Não podia ser melhor... Um ótimo primeiro teste...”

- Por que você não mooorrreeee???!!!!! – Apesar da opinião de Anhangüera, o Boitatá aparentemente enfrenta um desafio maior do que ele esperava.

Várias cobras flamejantes são lançadas contra Jaguar-Upiara, mas ele permanece parado, o enorme Punho de Tupã apoiado no ombro, até que ele está a poucos segundos de ser atingido. É quando, com um movimento absurdamente rápido, ele ergue a arma e, descrevendo um arco com a mesma, destrói as cobras com a energia dourada que sai de sua arma.

Os dois oponentes param os ataques e defesas e ficam alguns minutos olhando fixamente um para o outro, percebendo finalmente que nenhum deles escapou incólume. Os dois têm vários pequenos ferimentos espalhados por seus corpos.

- Humpf... Realmente você é forte... Guardião... Acaba de ganhar meu respeito...

- O respeito de uma criatura como você... Que mata crianças e inocentes sem nem ao menos lhes dar chance de defesa como fez em Serranua? Obrigado, mas dispenso seu respeito... Quero apenas o seu fim...

- E pretende fazer isso ficando apenas na defensiva e... – De repente Jaguar-Upiara parece desaparecer do campo de visão do Boitatá, interrompendo a ameaça do vilão. - O quê? Onde ele...

Mais uma vez a frase é interrompida, pois o Boitatá é forçado a se desviar do ataque que vem de seu lado direito, lançando por instinto uma nova serpente de fogo na direção de seu oponente.

- AAAARRRGGGHHH!!!!

- AAAARRRRRRGGGGHHHH!!!!!!

Os dois voltam a ficar parados diante um do outro, mas agora eles se encontram arqueados, segurando os ferimentos decorrentes desse último ataque, o que não os impede de manter os olhos fixos, somente esperando uma brecha para que um novo ataque seja desferido.

Inesperadamente, no entanto, o Boitatá ergue o corpo, ignorando as dores do último corte que recebeu e sorri um sorriso demoníaco.

- Maldito seja guardião... Pelo visto vou ter que dar tudo de mim para acabar logo com essa luta... Isso já deixou de ser divertido...

- Claro... Já que é você que está sendo ferido não é? Assim não tem a menor graça eu imagino...

Sem resposta. Sem ofensas. Sem auto-proclamações de poder. O Boitatá apenas se concentra, sem tirar os olhos de seu inimigo.

“Espero que ele tenha entendido meu plano...” é o pensamento de Jaguar-Upiara, enquanto ele aperta a empunhadura de sua arma, se preparando para o novo e, provavelmente, último golpe que vai receber. Apesar de sentir suas forças crescendo a cada momento, ele sabe que não vai resistir a outro ataque direto.

Pouco a pouco o Boitatá é envolvido por chamas até que fica difícil de discernir sua imagem em meio ao verdadeiro inferno que surge ao seu redor. As chamas crescem até parecer estarem lambendo as estrelas do céu. Ao redor do fenômeno tudo é consumido, até mesmo o chão começa a ser calcinado, como o ocorrido em Serranua.

“Então...” Anhangüera permanece assistindo impassível a tudo o que ocorre debaixo de seus pés “Já resolveu usar seu último recurso Boitatá? Eu esperava mais de você”.

Jaguar-Upiara sente o suor que escorre pelo seu corpo, não por causa da ansiedade, mas sim por conta do calor causticante que chega até ele, dificultando até mesmo que permaneça com os olhos totalmente abertos.

Uma explosão ocorre de repente, forçando o guardião a usar sua arma para se defender das centenas de cobras de fogo que são lançadas para todos os lados, fazendo com que Iaciara e Yakecan tenham que se deslocar do local de onde estavam assistindo à batalha.

Diante dos olhos surpresos de todos os presentes, uma imensa serpente de fogo eleva a cabeça aos céus, como que tentando engolir Iaé do firmamento, com um urro de glória, que deixaria pessoas menos fortes totalmente loucas de terror, sua pele parece semitransparente, permitindo que as chamas de seu interior fiquem à mostra e quando ele abre sua boca é como se houvessem centenas de presas extremamente afiadas, o que dificulta suas próximas palavras:

- E então pequenino? Já está petrificado de medo com a visão de toda a minha glória?

Jaguar-Upiara desvia rapidamente o olhar na direção do Grande Rio e, ao notar uma leve agitação nas águas, volta o rosto para seu inimigo com um largo sorriso.

- Na verdade... Não... Não estou nem um pouco com medo... Afinal, ficando desse tamanho você apenas aumentou o alvo para ser atingido!

Dizendo isso Jaguar-Upiara se lança ao ataque, indo direto para a imensa bocarra do Boitatá, levando seu Punho de Tupã para trás e fazendo com que o mesmo comece a brilhar com uma energia dourada.

A batalha final vai começar.

Conclui no próximo número

Explicando Aupaba.

Yo! Olá queridos leitores! Puxa! Uma edição desse tamanho e eu não apareci nenhuma vez... Eu sei, eu sei... Faço uma grande falta... Tudo bem... Tudo bem... Limpem as lágrimas por que agora eu estou aqui... Sem choro, por favor...

Vamos lá para os significados das palavras que aparecem (Mais do que eu... Chuif) na história de hoje:

Turiaçú: A grande fogueira.
Ataendy: Chama.
Caci: Dor.
Cauim: É uma bebida alcoólica tradicional de povos indígenas do Brasil, desde tempos pré-colombianos. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cauim) e cá entre nós é uma delícia!!

Na próxima edição teremos a grande conclusão do tomo 1 das lendas de Aupaba! E eu terei mais participação... Não percam queridos leitores!!!

Thiangôn!!!!
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