Jaguar-Upiara enfrenta a guerreira Iaciara, mas existe muito mais por trás da primeira missão do guerreiro.
Quem será o verdadeiro vilão?
Lendas de Aupaba #3. Moronguetá.
Por João Norberto da Silva.
- Ah! Fala sério!!! – Jaguar-Upiara mal consegue ver a guerreira Iaciara se movendo quando essa parte para o ataque. – É muito rápida!!!
Mesmo ferida a Filha de Iaé consegue desferir um ataque direto extremamente arriscado, que ela não tentaria em outras condições, mas sente que precisa encerrar logo essa luta para poder ir atrás do outro monstro, aquele que acabara de matar suas companheiras. O resultado, no entanto, não surpreende apenas a garota.
“Ele desviou?!!!”
“Eu desviei?!!!!!”
“Ele desviou...” Yakecan, mesmo surpreendido, fica muito satisfeito “Ele parece estar finalmente alcançando o moronguetá com o poder que tem dentro de si... Isso é muito bom...”.
Iaciara pára um pouco depois de passar por Jaguar-Upiara e tenta acertá-lo com um giro de sua arma, novamente errando e ficando parada diante dele, arfando devido ao esforço.
- Isso... Isso... Não... Fi-fica assim... Assassinos... AAAAHHHHH!!!!
- Pára com isso! – O guerreiro coloca o corpo para o lado mais uma vez, percebendo que a velocidade dos ataques continua a diminuir. – Você mal pode se manter em pé... E nós não somos...
- Cale-se!!!! Nós fomos pegas de surpresa pelo outro e... E... Desgraçado!!!!!!!!!!!!!
Uma nova investida e agora Jaguar-Upiara não apenas se defende, como também segura o punho da guerreira, imobilizando-a e, com um leve aperto no pulso da mesma, faz com que a arma caia no chão. Em seguida, já sem forças, Iaciara desmaia, não sem antes dar uma mordida no braço de seu oponente.
- Ai... Mas que mulher mais louca!!
- Calma, guardião... – Yakecan caminha lentamente até onde o índio acaba de colocar a garota desmaiada, debaixo da sombra de uma das poucas árvores que restaram no local. - Não sabemos pelo que ela pode ter passado... Agora, por favor... Vimos uma lagoa lá atrás... Traga um pouco de água... ela está com os lábios feridos de tão secos...
- Certo... – Sem nem pensar direito, o guerreiro salta e some pela copa das árvores próximas, deixando Yakecan com cada vez mais certeza de que a escolha de Jibaoçú foi a mais acertada afinal.
Minutos depois Jaguar-Upiara deixa cair um pouco de água nos lábios de Iaciara, do bornal que ele acabara de encher no lago. Para surpresa de Yakecan, o guerreiro voltara mais rápido do que o esperado.
- Melhor... Agora se afaste um pouco... Tenho que começar o processo de cura...
- E você pode fazer isso?
- Claro... Como você acha que os guardiões, que vieram antes de você, puderam passar o manto de pai para filho? Agora se afaste e me deixe trabalhar... Não posso garantir recuperação total, mas, pelo menos ela não correrá perigo de morte... Preciso ficar imóvel e em silêncio... Portanto, enquanto isso, nos proteja...
- Certo... Ah! Antes disso... Pode me responder uma pergunta?
- Diga... – Yakecan deixa escapar um longo e impaciente suspiro.
- Como os demais guardiões faziam para criar seus Punhos de Tupã?
- Eles apenas encostavam o punho sagrado em um das paredes da mina, de preferência por onde passava um veio de Osso de Tupã e concentravam sua energia... Desse modo nascia um novo Punho... Agora quer saber mais alguma coisa ou posso restabelecer nossa guerreira? – O outro começa a se afastar em silêncio. – Obrigado.
XXX
- Então você armou mesmo esse “roubo” Nanbiquara? Não acredito!
- Como eu ia saber do ocorrido entre o guardião e a noiva? Aliás, ele contou isso para você? Puxa! Eu não teria coragem de contar isso para meu falecido pai... Não mesmo...
- Por Tupã homem!! Quando eu passei os dons para ele nossas mentes se ligaram... Por isso eu fiquei sabendo... Você devia ter me avisado antes desse teste fajuto que você insiste em fazer sempre que um novo guardião recebe seus poderes...
- Não avisei seu pai, nem a você... Além do que, se suas mentes se ligam mesmo, não seria um teste surpresa seria? Eu particularmente fico feliz por Abaetê, ao menos, ter que desistir da música...
- Hum... Isso é verdade... Nem me fale... Mas sobre esse teste... – Percebendo que suas palavras ou preocupação não adiantarão o velho índio dá de ombros - O que está feito... Quem levou a Itapitanga, afinal?
- Ah! Foi nosso velho amigo...
- E ele concordou? É sempre tão sério...
- Você sabe como ele mesmo diz... Sobre a vida difícil de dentro do Rio...
- Bem... Pelo menos sabemos que não está acontecendo nada demais né?
- Claro!! Esse será um dos testes mais simples que eu já pensei... Só precisamos pensar no que fazer quando ele voltar não é? Sobre a situação com a noiva e seu outro filho...
- Estou penando sobre isso desde que voltamos para a aldeia... O que você acha que eu devo fazer?
- Conte tudo sobre as ações dessa vadia e livre seu filho desse que será um péssimo casamento.
- Como é?!!! – Jibaoçú se espanta, imaginando como o outro poderia brincar numa situação daquelas, mas logo percebe, no rosto sem sorrisos de Nanbiquara, que ele falou seriamente. – Você acha mesmo que devo fazer isso?
- Ou então o jeito é esperar e ver como isso se desenrola... De qualquer modo algum coração sairá machucado... Bem... Vamos beber!!!
- Heim?
- Uma as minhas filosofias preferidas!! Se não se pode resolver um problema, não pense demais nele, ou o mesmo vai te afogar!!! O jeito então é afogar o problema!!! Quando se percebe ele já estará resolvido!!! Vamos lá!!!
Sem outra escolha aparente, Jibaoçú se deixa levar pelo velho amigo.
XXX
De volta a Serranua, Iaciara permanece sentada, tendo a cabeça do exausto Yakecan em seu colo.
- Muito, muito grata mesmo, grande espírito... Se não fosse por você eu já estaria com Iaé, apesar de que, diante do que aconteceu, isso não parece ser um destino não ruim...
- Viu como ela me chamou? Você poderia me chamar assim também... – Yakecan, ao sentir uma lágrima atingir sua cabeça, se ergue e assume um tom de voz mais sério. – Nos conte o que aconteceu filha guerreira...
Iaciara dá um longo suspiro, depois ergue a cabeça para o céu, que vai pouco a pouco se tornando crepuscular, então ela começa a narrar suas desventuras, na voz todo o peso da dor de ter falhado:
- Sou uma mestra da arte de lutar e havia trazido minhas mais graduadas alunas para que elas finalmente pudessem fazer nascer suas armas... Imagino que foi o mesmo que vocês vieram fazer... Nós chegamos e logo fomos levadas até um dos novos túneis, esse havia sido feito há poucos dias e os veios de Osso de Tupã estavam quase virgens... As meninas criaram belíssimas armas e estavam todas conversando como pequenas cunhãtais quando ouvimos um som igual a uma trovoada... Lembrando do dia limpo que estava fazendo quando entramos na mina, logo nos pusemos a correr em direção do lado de fora, todas prontas para uma luta e...
Ela faz uma pausa e então a guerreira desvia o olhar dos dois companheiros, ela jamais poderia admitir que estranhos vissem as lágrimas que insiste em cair de seus olhos. Assim que recupera o auto-controle, ela volta a falar:
- Mal saímos da mina e uma enorme onda de fogo veio para o nosso lado, junto com os restos da aldeia dos mineradores... Mal consegui erguer minha arma, tentando me proteger e logo estava soterrada... Usei de toda minha energia, mas só consegui impedir que aquele peso me esmagasse, enquanto eu ouvia os gritos das minhas pequenas irmãs e dos demais... Quando consegui me libertar eu vi vocês dois e ataquei sem pensar... Nem consegui sentir seus espíritos, senão eu jamais teria feito isso...
- Eu percebi logo que realmente você não estava plena de suas habilidades, mas como ele é o novo guardião eu esperei para ver o que vocês fariam... Claro que, se algum dos dois corresse algum risco eu iria intervir...
- Muita bondade sua... – Abaetê caminha devagar sobre os restos da aldeia mineradora, olhando atentamente para o solo, como se procurasse algo oculto por debaixo do chão calcinado. – Uma resposta direta, ou um ensinamento claro parece que está além de suas capacidades...
- Ele sabe que está falando com um enviado de Tupã?
- Ele passou por muitas coisas querida... Dê tempo ao tempo...
- Eu sempre imaginei o guardião dos Auati diferente... Um verdadeiro herói e...
- E que tem ótimos ouvidos! – Mesmo a certa distância, Abaetê consegue ouvir o que a índia e o jaguar sussurram um para o outro. – Desculpe se estou longe da perfeição esperada, mas vai ter que se contentar comigo mesmo!
- E o que o grande guardião está fazendo andando por esse solo morto? Segundo o relato de Iaciara, nosso inimigo está com uma grande vantagem... Venha cá descansar um pouco para podermos partir!
- Se ele é tão poderoso... – O índio pára de repente e começa a se abaixar lentamente até ficar com um dos joelhos encostados no solo.
- O quê?! Fale mais alto guardião!! Você está muito longe!
- Eu vou precisar de uma arma... – Aos poucos o ar ao redor de Jaguar-Upiara começa a distorcer, mostrando que o mesmo está despertando seus poderes, o que deixa Yakecan de olhos arregalados.
Ele apenas toca de leve o solo com a empunhadura dada por seu pai e então uma imensa cortina de poeira se ergue do chão, cobrindo-o totalmente.
- Jaguar-Upiara!!! – Yakecan começa a correr na direção de onde o índio desaparecera e é seguido de perto por Iaciara, que não acredita que seu companheiro tenha sido atacado sem que ela percebesse a aproximação de inimigos. – Guardião!!! Jaguar-Upiara!!!
- Yo!!! Finalmente... – A poeira começa a ser espalhada pela energia que cerca o jovem índio e logo ele pode ser visto, tendo sobre seu ombro um enorme Punho de Tupã, cuja ponta possui um tipo de elevação que, dependendo do modo como se olha, pode lembrar o canino de um jaguar, no rosto de Abaetê, um sorriso cheio de orgulho. – Agora sim... Se tudo estiver pronto e vocês de acordo... Podemos ir atrás do monstro?
Yakecan sorri feliz pelo fato do novo guardião ter aparentemente entrado em sintonia com seus poderes e Iaciara se pega pensando que há mais naquele homem do que ela admitiria.
- Pois bem guardião... – Sem querer que o outro se sinta superior, a bela índia dá um incrível salto, chegando facilmente ao topo de uma árvore. – Você deve ter sentido a trilha deixada pelo monstro... Vamos? – Dito isso ela começa a avançar.
- Bela vista daqui de baixo... – Jaguar-Upiara permanece parado durante alguns minutos, mas assim que Yakecan passa por ele e começa a seguir Iaciara, o guerreiro acorda. – Ei!! Esperem por mim!!
E assim começa a caça ao responsável pela destruição de Serranua.
XXX
Longe dali uma bela cachoeira esconde Maturati a moradia de Anhangüera, o maior inimigo de Tupã.
- AAAAHHHHH!!!!! Como é bom sem o diabo velho por aqui!!!! Ele devia viajar mais!!! – Em um imenso trono de pedras, adornado com crânios e ossadas humanas, está sentado Anhato, ele parece falar com alguém, mas este prefere se manter nas sombras.
- Não deveria fazer isso outra vez... Quando o mestre voltar...
- Ah! Cala essa bocarra Abaçaí!!!! – O demônio arranca um pedaço do trono e lança contra seu irmão que imediatamente de defende com garras negras que parecem ser feitas das mesmas sombras que o cercam. Desse modo Anhato se ergue, abre as asas e mostra sua garras. - Maldito!!! Venha para cá e lute!!! HHHHIIIISSSSSSSSSS!!!!!!
- Não precisarei... – Abaçaí recolhe as garras e volta para as sombras, recebendo zombarias de seu irmão.
- É isso mesmo!!! Eu sou o maior de todos!!! Aquele que derrubará o poderoso Anhangüera e começará uma nova era de trevas em Aupaba!!! Eu e apenas eu... Gasp!!!
O Demônio engasga ao sentir uma mão envolver seu pescoço e virá-lo para encarar aquele que acaba de chegar.
- Me-mestre... Argh... Che-chegou há muito te-tempo... Gasp...
- O suficiente... – Anhangüera é um enorme demônio de pele avermelhada aparentemente em chamas, longos cabelos negros como uma noite sem lua ou estrelas e quando sua boca se abre, o cheiro de um campo de batalha, repleto de corpos decompostos pode ser sentido. – Então... Pequeno lixo... Me diga como você irá me derrubar e tomar essas terras...
- E-eu... Glup... Nu-nunca faria isso!! Gasp... Fo-foi tudo uma idéia do Aba...Arrrghhhh... Abaçaí...
Ouve-se o som das garras do outro demônio saltarem, mas com apenas um movimento de cabeça de Anhangüera, ele volta a se acalmar e então o demônio mestre lança seu servo contra o trono que acaba todo destruído.
- Assim que retomar o fôlego... Reconstrua o trono ainda hoje... E já o aviso que eu o quero ainda mais majestoso do que antes entendeu? – Diante da afirmativa de seu servo, que permanece caído, Anhangüera começa a sair da caverna e é então que seus servos reparam na estranha roupa que ele está usando: Um tipo de armadura cinzenta aparentemente muito pesada, com uma longa capa negra em suas costas e na mão uma incomum arma, lembrando um pouco os Punhos de Tupã dos Guardiões dos Auati, mas com o diferencial de uma lâmina escura. – Quando eu voltar falarei de tudo o que foi visto em minhas viagens por esse mundo...
Um vento fortíssimo se faz presente e então Anhangüera parte, deixando para trás dois servos extremamente curiosos.
XXX
- Temos que ir mais rápido!!!! Não sabemos o que o desgraçado ainda vai fazer!!!
- Mandona ela não?
- As Filhas de Iaé são criadas desde a mais tenra infância para serem líderes e grandes guerreiras... Iaciara deve estar cheia de culpa pelo que aconteceu a suas pequenas irmãs...
- Hum... Isso é verdade... Ei! Agora que percebi... Esses saltos estão ficando mais fáceis mesmo! Sinto uma energia dentro de mim que cresce cada vez mais!!
- E será assim... Seu moronguetá está cada vez mais evoluído... Como eu disse, logo você não precisará mais saltar e...
- Ali!!! – O aviso de Iaciara é acompanhando pela descida brusca da mesma, sendo rapidamente seguida pelos seus companheiros.
Assim que chegam ao solo, mesmo com o dia já sendo trocado pelo manto da noite, é possível perceber Amazon, o Grande Rio, onde não se pode ver a outra margem, apenas as copas de árvores que são verdadeiros colossos, pois só assim para serem vistas, dada a distância de uma margem a outra. Abaetê se lembra imediatamente das histórias que seu pai contava, de tolos que tentaram atravessar o Grande Rio e morreram por não ter pedido permissão aos Amazonas, o povo que vive abaixo das águas.
As lembranças da infância ficam de lado quando ele reconhece o guerreiro que Iaciara segura em seus braços.
- Uauiará!!!!
Ao se aproximar do amigo de seu pai, Abaetê percebe várias marcas de queimadura pelo corpo do mesmo e ainda assim o guerreiro de pele rosada abre uma de suas mãos, com os característicos dois dedos, sendo que um deles serve como nadadeira, revelando a Itapitanga.
- Cui... – A voz do guerreiro das águas sai com muita dificuldade devido aos seus ferimentos. – Cui-Cuidado...
- Mas o que... – Antes de poder sequer fazer a pergunta que surge em sua mente, Jaguar-Upiara sente uma energia extremamente maligna surgir por detrás deles e ele mal tem tempo de segurar a todos ao seu redor e saltar, usando de sua recém-descoberta velocidade. – Mas quem?!!!
- Ora... Vamos... Quem mais poderia ser?
- Boitatá...
Continua.
Explicando Aupaba.
Yo! Olá queridos leitores! Muita emoção no capítulo de hoje não é? Gostaram da minha participação? Aposto que foi uma das melhores cenas!!!
Bom, bom, bom... Vamos logo ao trabalho! Como de costume, primeiro as palavras já existentes que o autor usou:
moronguetá: sentimentos verdadeiros, puros, instintivos.
cunhãtais: Meninas. Depois de uma breve pesquisa, o autor usou uma variação do termo que encontrou “Kunhãtais” para algo mais próximo do Curumim, que quer dizer menino.
Maturati: de o morro branco, alusão a uma cascata.
Abaçaí: a pessoa que espreita, persegue, gênio perseguidor de índios espírito maligno que perseguia os índios , enlouquecendo-os.
Uauiará: depois de alguma pesquisa, o autor escolheu esse nome para o guerreiro do rio, cujo significado é: o deus dos rios, protetor dos peixes, que se apresenta sob a forma de um boto.
Boitatá: Coisa de fogo. È comumente retratado como uma enorme cobra de fogo, claro que em Aupaba ele tem outro visual.
E agora uma breve explicação sobre a escolha do Grande Rio:
Amazon: O autor escolheu mudar um pouco o nome do rio famoso para se adequar ao mundo de Neijyn-Zalla, mas sem deixar de lembrar aos leitores que se trata do grande rio Amazonas.
Por hoje é só meus queridos leitores! Já me disseram que não adianta querer cantar, uma vez que este é apenas um texto escrito e, desse modo, a bela melodia de minha voz não chegaria até seus ouvidos... Uma pena...
Mas sem temor meus queridos!!! A partir do próximo número começarei a dar os grandes conselhos de Nanbiquara!!! Quem sabe o autor se toca e lança eles em forma de livro! Um bom nome seria... O Segredo!!
Como? Já tem? Droga... Agora desanimei... O jeito é ir beber...
Fui!!! Thiangôn!!!!
Por João Norberto da Silva.
- Ah! Fala sério!!! – Jaguar-Upiara mal consegue ver a guerreira Iaciara se movendo quando essa parte para o ataque. – É muito rápida!!!
Mesmo ferida a Filha de Iaé consegue desferir um ataque direto extremamente arriscado, que ela não tentaria em outras condições, mas sente que precisa encerrar logo essa luta para poder ir atrás do outro monstro, aquele que acabara de matar suas companheiras. O resultado, no entanto, não surpreende apenas a garota.
“Ele desviou?!!!”
“Eu desviei?!!!!!”
“Ele desviou...” Yakecan, mesmo surpreendido, fica muito satisfeito “Ele parece estar finalmente alcançando o moronguetá com o poder que tem dentro de si... Isso é muito bom...”.
Iaciara pára um pouco depois de passar por Jaguar-Upiara e tenta acertá-lo com um giro de sua arma, novamente errando e ficando parada diante dele, arfando devido ao esforço.
- Isso... Isso... Não... Fi-fica assim... Assassinos... AAAAHHHHH!!!!
- Pára com isso! – O guerreiro coloca o corpo para o lado mais uma vez, percebendo que a velocidade dos ataques continua a diminuir. – Você mal pode se manter em pé... E nós não somos...
- Cale-se!!!! Nós fomos pegas de surpresa pelo outro e... E... Desgraçado!!!!!!!!!!!!!
Uma nova investida e agora Jaguar-Upiara não apenas se defende, como também segura o punho da guerreira, imobilizando-a e, com um leve aperto no pulso da mesma, faz com que a arma caia no chão. Em seguida, já sem forças, Iaciara desmaia, não sem antes dar uma mordida no braço de seu oponente.
- Ai... Mas que mulher mais louca!!
- Calma, guardião... – Yakecan caminha lentamente até onde o índio acaba de colocar a garota desmaiada, debaixo da sombra de uma das poucas árvores que restaram no local. - Não sabemos pelo que ela pode ter passado... Agora, por favor... Vimos uma lagoa lá atrás... Traga um pouco de água... ela está com os lábios feridos de tão secos...
- Certo... – Sem nem pensar direito, o guerreiro salta e some pela copa das árvores próximas, deixando Yakecan com cada vez mais certeza de que a escolha de Jibaoçú foi a mais acertada afinal.
Minutos depois Jaguar-Upiara deixa cair um pouco de água nos lábios de Iaciara, do bornal que ele acabara de encher no lago. Para surpresa de Yakecan, o guerreiro voltara mais rápido do que o esperado.
- Melhor... Agora se afaste um pouco... Tenho que começar o processo de cura...
- E você pode fazer isso?
- Claro... Como você acha que os guardiões, que vieram antes de você, puderam passar o manto de pai para filho? Agora se afaste e me deixe trabalhar... Não posso garantir recuperação total, mas, pelo menos ela não correrá perigo de morte... Preciso ficar imóvel e em silêncio... Portanto, enquanto isso, nos proteja...
- Certo... Ah! Antes disso... Pode me responder uma pergunta?
- Diga... – Yakecan deixa escapar um longo e impaciente suspiro.
- Como os demais guardiões faziam para criar seus Punhos de Tupã?
- Eles apenas encostavam o punho sagrado em um das paredes da mina, de preferência por onde passava um veio de Osso de Tupã e concentravam sua energia... Desse modo nascia um novo Punho... Agora quer saber mais alguma coisa ou posso restabelecer nossa guerreira? – O outro começa a se afastar em silêncio. – Obrigado.
XXX
- Então você armou mesmo esse “roubo” Nanbiquara? Não acredito!
- Como eu ia saber do ocorrido entre o guardião e a noiva? Aliás, ele contou isso para você? Puxa! Eu não teria coragem de contar isso para meu falecido pai... Não mesmo...
- Por Tupã homem!! Quando eu passei os dons para ele nossas mentes se ligaram... Por isso eu fiquei sabendo... Você devia ter me avisado antes desse teste fajuto que você insiste em fazer sempre que um novo guardião recebe seus poderes...
- Não avisei seu pai, nem a você... Além do que, se suas mentes se ligam mesmo, não seria um teste surpresa seria? Eu particularmente fico feliz por Abaetê, ao menos, ter que desistir da música...
- Hum... Isso é verdade... Nem me fale... Mas sobre esse teste... – Percebendo que suas palavras ou preocupação não adiantarão o velho índio dá de ombros - O que está feito... Quem levou a Itapitanga, afinal?
- Ah! Foi nosso velho amigo...
- E ele concordou? É sempre tão sério...
- Você sabe como ele mesmo diz... Sobre a vida difícil de dentro do Rio...
- Bem... Pelo menos sabemos que não está acontecendo nada demais né?
- Claro!! Esse será um dos testes mais simples que eu já pensei... Só precisamos pensar no que fazer quando ele voltar não é? Sobre a situação com a noiva e seu outro filho...
- Estou penando sobre isso desde que voltamos para a aldeia... O que você acha que eu devo fazer?
- Conte tudo sobre as ações dessa vadia e livre seu filho desse que será um péssimo casamento.
- Como é?!!! – Jibaoçú se espanta, imaginando como o outro poderia brincar numa situação daquelas, mas logo percebe, no rosto sem sorrisos de Nanbiquara, que ele falou seriamente. – Você acha mesmo que devo fazer isso?
- Ou então o jeito é esperar e ver como isso se desenrola... De qualquer modo algum coração sairá machucado... Bem... Vamos beber!!!
- Heim?
- Uma as minhas filosofias preferidas!! Se não se pode resolver um problema, não pense demais nele, ou o mesmo vai te afogar!!! O jeito então é afogar o problema!!! Quando se percebe ele já estará resolvido!!! Vamos lá!!!
Sem outra escolha aparente, Jibaoçú se deixa levar pelo velho amigo.
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De volta a Serranua, Iaciara permanece sentada, tendo a cabeça do exausto Yakecan em seu colo.
- Muito, muito grata mesmo, grande espírito... Se não fosse por você eu já estaria com Iaé, apesar de que, diante do que aconteceu, isso não parece ser um destino não ruim...
- Viu como ela me chamou? Você poderia me chamar assim também... – Yakecan, ao sentir uma lágrima atingir sua cabeça, se ergue e assume um tom de voz mais sério. – Nos conte o que aconteceu filha guerreira...
Iaciara dá um longo suspiro, depois ergue a cabeça para o céu, que vai pouco a pouco se tornando crepuscular, então ela começa a narrar suas desventuras, na voz todo o peso da dor de ter falhado:
- Sou uma mestra da arte de lutar e havia trazido minhas mais graduadas alunas para que elas finalmente pudessem fazer nascer suas armas... Imagino que foi o mesmo que vocês vieram fazer... Nós chegamos e logo fomos levadas até um dos novos túneis, esse havia sido feito há poucos dias e os veios de Osso de Tupã estavam quase virgens... As meninas criaram belíssimas armas e estavam todas conversando como pequenas cunhãtais quando ouvimos um som igual a uma trovoada... Lembrando do dia limpo que estava fazendo quando entramos na mina, logo nos pusemos a correr em direção do lado de fora, todas prontas para uma luta e...
Ela faz uma pausa e então a guerreira desvia o olhar dos dois companheiros, ela jamais poderia admitir que estranhos vissem as lágrimas que insiste em cair de seus olhos. Assim que recupera o auto-controle, ela volta a falar:
- Mal saímos da mina e uma enorme onda de fogo veio para o nosso lado, junto com os restos da aldeia dos mineradores... Mal consegui erguer minha arma, tentando me proteger e logo estava soterrada... Usei de toda minha energia, mas só consegui impedir que aquele peso me esmagasse, enquanto eu ouvia os gritos das minhas pequenas irmãs e dos demais... Quando consegui me libertar eu vi vocês dois e ataquei sem pensar... Nem consegui sentir seus espíritos, senão eu jamais teria feito isso...
- Eu percebi logo que realmente você não estava plena de suas habilidades, mas como ele é o novo guardião eu esperei para ver o que vocês fariam... Claro que, se algum dos dois corresse algum risco eu iria intervir...
- Muita bondade sua... – Abaetê caminha devagar sobre os restos da aldeia mineradora, olhando atentamente para o solo, como se procurasse algo oculto por debaixo do chão calcinado. – Uma resposta direta, ou um ensinamento claro parece que está além de suas capacidades...
- Ele sabe que está falando com um enviado de Tupã?
- Ele passou por muitas coisas querida... Dê tempo ao tempo...
- Eu sempre imaginei o guardião dos Auati diferente... Um verdadeiro herói e...
- E que tem ótimos ouvidos! – Mesmo a certa distância, Abaetê consegue ouvir o que a índia e o jaguar sussurram um para o outro. – Desculpe se estou longe da perfeição esperada, mas vai ter que se contentar comigo mesmo!
- E o que o grande guardião está fazendo andando por esse solo morto? Segundo o relato de Iaciara, nosso inimigo está com uma grande vantagem... Venha cá descansar um pouco para podermos partir!
- Se ele é tão poderoso... – O índio pára de repente e começa a se abaixar lentamente até ficar com um dos joelhos encostados no solo.
- O quê?! Fale mais alto guardião!! Você está muito longe!
- Eu vou precisar de uma arma... – Aos poucos o ar ao redor de Jaguar-Upiara começa a distorcer, mostrando que o mesmo está despertando seus poderes, o que deixa Yakecan de olhos arregalados.
Ele apenas toca de leve o solo com a empunhadura dada por seu pai e então uma imensa cortina de poeira se ergue do chão, cobrindo-o totalmente.
- Jaguar-Upiara!!! – Yakecan começa a correr na direção de onde o índio desaparecera e é seguido de perto por Iaciara, que não acredita que seu companheiro tenha sido atacado sem que ela percebesse a aproximação de inimigos. – Guardião!!! Jaguar-Upiara!!!
- Yo!!! Finalmente... – A poeira começa a ser espalhada pela energia que cerca o jovem índio e logo ele pode ser visto, tendo sobre seu ombro um enorme Punho de Tupã, cuja ponta possui um tipo de elevação que, dependendo do modo como se olha, pode lembrar o canino de um jaguar, no rosto de Abaetê, um sorriso cheio de orgulho. – Agora sim... Se tudo estiver pronto e vocês de acordo... Podemos ir atrás do monstro?
Yakecan sorri feliz pelo fato do novo guardião ter aparentemente entrado em sintonia com seus poderes e Iaciara se pega pensando que há mais naquele homem do que ela admitiria.
- Pois bem guardião... – Sem querer que o outro se sinta superior, a bela índia dá um incrível salto, chegando facilmente ao topo de uma árvore. – Você deve ter sentido a trilha deixada pelo monstro... Vamos? – Dito isso ela começa a avançar.
- Bela vista daqui de baixo... – Jaguar-Upiara permanece parado durante alguns minutos, mas assim que Yakecan passa por ele e começa a seguir Iaciara, o guerreiro acorda. – Ei!! Esperem por mim!!
E assim começa a caça ao responsável pela destruição de Serranua.
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Longe dali uma bela cachoeira esconde Maturati a moradia de Anhangüera, o maior inimigo de Tupã.
- AAAAHHHHH!!!!! Como é bom sem o diabo velho por aqui!!!! Ele devia viajar mais!!! – Em um imenso trono de pedras, adornado com crânios e ossadas humanas, está sentado Anhato, ele parece falar com alguém, mas este prefere se manter nas sombras.
- Não deveria fazer isso outra vez... Quando o mestre voltar...
- Ah! Cala essa bocarra Abaçaí!!!! – O demônio arranca um pedaço do trono e lança contra seu irmão que imediatamente de defende com garras negras que parecem ser feitas das mesmas sombras que o cercam. Desse modo Anhato se ergue, abre as asas e mostra sua garras. - Maldito!!! Venha para cá e lute!!! HHHHIIIISSSSSSSSSS!!!!!!
- Não precisarei... – Abaçaí recolhe as garras e volta para as sombras, recebendo zombarias de seu irmão.
- É isso mesmo!!! Eu sou o maior de todos!!! Aquele que derrubará o poderoso Anhangüera e começará uma nova era de trevas em Aupaba!!! Eu e apenas eu... Gasp!!!
O Demônio engasga ao sentir uma mão envolver seu pescoço e virá-lo para encarar aquele que acaba de chegar.
- Me-mestre... Argh... Che-chegou há muito te-tempo... Gasp...
- O suficiente... – Anhangüera é um enorme demônio de pele avermelhada aparentemente em chamas, longos cabelos negros como uma noite sem lua ou estrelas e quando sua boca se abre, o cheiro de um campo de batalha, repleto de corpos decompostos pode ser sentido. – Então... Pequeno lixo... Me diga como você irá me derrubar e tomar essas terras...
- E-eu... Glup... Nu-nunca faria isso!! Gasp... Fo-foi tudo uma idéia do Aba...Arrrghhhh... Abaçaí...
Ouve-se o som das garras do outro demônio saltarem, mas com apenas um movimento de cabeça de Anhangüera, ele volta a se acalmar e então o demônio mestre lança seu servo contra o trono que acaba todo destruído.
- Assim que retomar o fôlego... Reconstrua o trono ainda hoje... E já o aviso que eu o quero ainda mais majestoso do que antes entendeu? – Diante da afirmativa de seu servo, que permanece caído, Anhangüera começa a sair da caverna e é então que seus servos reparam na estranha roupa que ele está usando: Um tipo de armadura cinzenta aparentemente muito pesada, com uma longa capa negra em suas costas e na mão uma incomum arma, lembrando um pouco os Punhos de Tupã dos Guardiões dos Auati, mas com o diferencial de uma lâmina escura. – Quando eu voltar falarei de tudo o que foi visto em minhas viagens por esse mundo...
Um vento fortíssimo se faz presente e então Anhangüera parte, deixando para trás dois servos extremamente curiosos.
XXX
- Temos que ir mais rápido!!!! Não sabemos o que o desgraçado ainda vai fazer!!!
- Mandona ela não?
- As Filhas de Iaé são criadas desde a mais tenra infância para serem líderes e grandes guerreiras... Iaciara deve estar cheia de culpa pelo que aconteceu a suas pequenas irmãs...
- Hum... Isso é verdade... Ei! Agora que percebi... Esses saltos estão ficando mais fáceis mesmo! Sinto uma energia dentro de mim que cresce cada vez mais!!
- E será assim... Seu moronguetá está cada vez mais evoluído... Como eu disse, logo você não precisará mais saltar e...
- Ali!!! – O aviso de Iaciara é acompanhando pela descida brusca da mesma, sendo rapidamente seguida pelos seus companheiros.
Assim que chegam ao solo, mesmo com o dia já sendo trocado pelo manto da noite, é possível perceber Amazon, o Grande Rio, onde não se pode ver a outra margem, apenas as copas de árvores que são verdadeiros colossos, pois só assim para serem vistas, dada a distância de uma margem a outra. Abaetê se lembra imediatamente das histórias que seu pai contava, de tolos que tentaram atravessar o Grande Rio e morreram por não ter pedido permissão aos Amazonas, o povo que vive abaixo das águas.
As lembranças da infância ficam de lado quando ele reconhece o guerreiro que Iaciara segura em seus braços.
- Uauiará!!!!
Ao se aproximar do amigo de seu pai, Abaetê percebe várias marcas de queimadura pelo corpo do mesmo e ainda assim o guerreiro de pele rosada abre uma de suas mãos, com os característicos dois dedos, sendo que um deles serve como nadadeira, revelando a Itapitanga.
- Cui... – A voz do guerreiro das águas sai com muita dificuldade devido aos seus ferimentos. – Cui-Cuidado...
- Mas o que... – Antes de poder sequer fazer a pergunta que surge em sua mente, Jaguar-Upiara sente uma energia extremamente maligna surgir por detrás deles e ele mal tem tempo de segurar a todos ao seu redor e saltar, usando de sua recém-descoberta velocidade. – Mas quem?!!!
- Ora... Vamos... Quem mais poderia ser?
- Boitatá...
Continua.
Explicando Aupaba.
Yo! Olá queridos leitores! Muita emoção no capítulo de hoje não é? Gostaram da minha participação? Aposto que foi uma das melhores cenas!!!
Bom, bom, bom... Vamos logo ao trabalho! Como de costume, primeiro as palavras já existentes que o autor usou:
moronguetá: sentimentos verdadeiros, puros, instintivos.
cunhãtais: Meninas. Depois de uma breve pesquisa, o autor usou uma variação do termo que encontrou “Kunhãtais” para algo mais próximo do Curumim, que quer dizer menino.
Maturati: de o morro branco, alusão a uma cascata.
Abaçaí: a pessoa que espreita, persegue, gênio perseguidor de índios espírito maligno que perseguia os índios , enlouquecendo-os.
Uauiará: depois de alguma pesquisa, o autor escolheu esse nome para o guerreiro do rio, cujo significado é: o deus dos rios, protetor dos peixes, que se apresenta sob a forma de um boto.
Boitatá: Coisa de fogo. È comumente retratado como uma enorme cobra de fogo, claro que em Aupaba ele tem outro visual.
E agora uma breve explicação sobre a escolha do Grande Rio:
Amazon: O autor escolheu mudar um pouco o nome do rio famoso para se adequar ao mundo de Neijyn-Zalla, mas sem deixar de lembrar aos leitores que se trata do grande rio Amazonas.
Por hoje é só meus queridos leitores! Já me disseram que não adianta querer cantar, uma vez que este é apenas um texto escrito e, desse modo, a bela melodia de minha voz não chegaria até seus ouvidos... Uma pena...
Mas sem temor meus queridos!!! A partir do próximo número começarei a dar os grandes conselhos de Nanbiquara!!! Quem sabe o autor se toca e lança eles em forma de livro! Um bom nome seria... O Segredo!!
Como? Já tem? Droga... Agora desanimei... O jeito é ir beber...
Fui!!! Thiangôn!!!!
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