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Lendas de Aupaba #2. Xá Apecatu.



Jaguar-Upiara parte na missão de recuperar a Itapitanga, mas, é claro, não será nada fácil.




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Lendas de Aupaba #2. Xá Apecatu.
Por João Norberto da Silva.

- Eu não acredito... Todo esse desespero apenas pela Itapitanga? Ah! Por favor...

- Ele é o Jaguar-Upiara não faz nem cinco minutos e já está desdenhando de nossas crenças Jibaoçú?

- Calma Nanbiquara... Não o culpe por não se importar com a pedra do casamento...

Os três Auatis permanecem na área de floresta onde Jibaoçú acabara de passar o mando de guardião da tribo para seu filho, Abaetê. O pajé Nanbiquara, que chegara desesperado e pedindo por ajuda, continua a tentar apressar os demais.

- Você já é o novo guardião?!!! AH!!!! Desgraça, desgraça!!!! Fazer o quê? Tempos desesperados... Você precisa nos ajudar e logo!!! Faz parte de suas obrigações e...

- Não precisa gritar!! Tudo bem... Tudo bem... Vamos voltar para a aldeia... Assim podemos descobrir melhor quem levou a pedra, já que você não disse até agora e... Ai!!!

O pajé acaba de acertar a cabeça do novo guardião com seu cajado, levando Abaetê a desejar que a máscara que usa fosse mais resistente e, enquanto ele avança acariciando o local atingido, o pajé retoma a palavra:

- Eu ia contar, mas você ficou fazendo pouco do ocorrido... - Quando o novo guardião começa a abrir a boca, o velho índio já se volta para ele com um olhar ameaçador nos olhos. - E nem pense em me retrucar seu curumim...

- Humpf... - Sem outra opção Abaetê cruza os braços, ainda resmungando. - Mais um me chamando de curumim...

- O que você está sussurrando?!!! - O velho índio ergue novamente o cajado.

- Nada! Nada!! - Erguendo os braços para se proteger de um novo golpe o guardião faz com que Yakecan balance negativamente sua cabeça. - Mas afinal, quem você acha que levou a pedra?

- Meus cumprimentos grande espírito... – Ignorando Abaetê, o pajé se curva exageradamente diante de Yakecan. – Espero que sua missão de transformar esse jovem em um guardião seja agraciada por Tupã... Só assim para conseguir...

- Tenho fé nele ancião... Um pouco pelo menos...

- O que você perguntou mesmo?

- Eu... – Abaetê respira fundo antes de repetir a pergunta. - Quem você acha que levou a pedra?

- Certo... Foi o que eu tinha entendido... Hoje de manhã fiquei sabendo que vocês dois tinham vindo fazer a passagem... Assim como o restante da aldeia, eu não achei que você realmente conseguiria Abaetê, por isso corri o máximo que pude para conseguir a ajuda de seu pai, mas infelizmente cheguei tarde... - O novo guardião revira os olhos imperceptivelmente por debaixo da máscara. - Por falar nisso perdi uma aposta com o velho Cuera... Droga... Hum... AH! Sim! Logo que acordei fui conferir os detalhes para o casamento de logo mais e, assim que cheguei ao local onde a Itapitanga fica guardada, percebi uma grande confusão e a falta da pedra sagrada...

- Alguma idéia de quem pode ter sido?

- Hã... Bem... - Pego de surpresa pela pergunta mais séria do novo Jaguar-Upiara, o velho Nanbiquara se pega pensando um pouco antes de continuar. - Eu... Acredito que possa ter sido o povo Amazona...

- Os habitantes do Grande Rio? Mas por que eles fariam isso e... Espera... Por que você acha que foram eles afinal?

- O salão sagrado estava com o chão todo molhado, havia cheiro de peixe por todo o lado e o ladrão esqueceu uma de suas armas caída no chão... Ele deve ter feito tudo pouco antes de eu chegar lá...

Abaetê fica em silêncio, pensando no que deve fazer, enquanto seu pai e o pajé trocam alguns olhares, “conversando” em silêncio sem que o outro perceba.

Alguns minutos depois eles já estavam de volta à aldeia e indo na direção do local onde ficava a Itapitanga.

Conforme avançam pelos Apé da aldeia, os três se tornam rapidamente o centro das atenções, fazendo todos pararem suas atividades para ver o novo e inesperado Jaguar-Upiara, que vê muitas pessoas trocando objetos umas com as outras, o que faz ele se lembrar do lamento de Nanbiquara sobre a aposta perdida.

“A cada momento eu me pergunto se foi a decisão mais correta a se tomar...” Seus pensamentos são interrompidos quando ele avista uma índia que o observa intensamente, entrando correndo em seguida em sua oca.

Ficando mais nervoso ainda, Abaetê começa a se apressar, fazendo os demais seguirem seu ritmo e logo eles estão diante de uma grande oca, com certeza uma das maiores construções da aldeia.

Os artesões Auatis, aqueles que possuem a capacidade única de modelar os Ossos de Tupã conforme a sua vontade, haviam se superado ao erguer aquela oca magnífica. Por fora as paredes lisas de Osso de Tupã se misturam a imagens dos animais sagrados, com destaque para os jaguares, o que deixa Yakecan visivelmente orgulhoso. Ao entrarem eles não conseguem deixar de olhar ao redor do imenso salão, que normalmente é lotado quando um casamento acontece, percebendo como boa parte da tribo caberia ali.

Assim que se aproximam no pequeno altar onde a pedra deveria estar, iluminando o local com sua luz avermelhada, percebem realmente o que Nanbiquara havia dito: Muita confusão, com vários dos objetos sagrados jogados pelo chão, água espalhada por todo canto e, ali perto, o que realmente parece com uma arma do povo Amazona permanece caída.

Jaguar-Upiara se abaixa e toma a peça nas mãos, percebendo imediatamente o modo como ela foi feita, usando um tipo de coral que cresce no fundo do Grande Rio. O índio sempre teve esse dom, quando toca em algo e se concentra ele fica sabendo de tudo sobre o que está em suas mãos, mas sentindo a urgência da situação ele logo se volta para seu pai e o pajé.

- Certo... Realmente parece coisa dos Amazonas... Se eu partir agora devo voltar até amanhã à tarde... Será que o casamento pode ser adiado até lá?

- Sei pai poderia trazer em poucas horas...

- Eu não sou meu pai!! Como você mesmo fez questão de falar, sou o guardião há poucos minutos e...

- Deixe o rapaz em paz Nanbiquara... – Jibaoçú novamente se apressa em evitar novas discussões. - Ele fez por merecer... E vai ter que demorar um pouco mesmo, já que não poderá ir direto para o Grande Rio...

- Hã? - Agora são os outros dois que falam em uníssono. - E por que não?

- Aqui meu filho... - Jibaoçú pega de suas costas sua enorme arma, estendendo-a para Abaetê. - Um Jaguar-Upiara não está completo sem seu Punho de Tupã...

- Mas o que...!! - Assim que o jovem índio pega a arma do pai, no entanto, toda parte feita de Osso de Tupã começa a derreter, deixando-o apenas com a empunhadura da mesma na mão. - O que é isso?!!!

- Todo novo Jaguar-Upiara precisa fazer sua própria arma... Você deve ir até a Serranua e tocar em um veio de Osso de Tupã para que sua arma seja forjada.

- Ah! Fala sério... - Diante dos semblantes de seu pai e do pajé, Abaetê se resigna e começa a se encaminhar para a saída. - Certo... Certo... Eu já vou então...

O jovem se retira, junto com Yakecan e assim que têm certeza de terem ficado a sós, Jibaoçú se volta para Nanbiquara:

- Você demorou mais quando foi minha vez...

- Eu senti que você tinha nascido para ser o guardião... Já seu filho terá de ser mais... Hum... Moldado... Afinal de contas, nunca imaginamos que justo ele seria o escolhido não é?

- Eu sei... Mas tinha que ser logo nesse casamento? Não vai ser muito fácil para ele...

- Se fosse fácil se tornar um Jaguar-Upiara... Agora vamos, velho amigo... Precisamos ver os noivos... Vamos avisar que o casamento terá de ser adiado... No caminho você poderá me contar qual o grande problema...

Assim que chegam à floresta Yakecan se volta para o novo Jaguar-Upiara:

- Não parece nem um pouco contente com a sua primeira responsabilidade...

- Não... Não mesmo... Preferiria um tempo antes, pelo menos para descobrir os poderes que ouvi meu pai comentar... Segundo ele, poderíamos chegar mais rápido à Serranua desse modo...

- E por que você acha que eu estou aqui? Me acompanhe!!! - Dizendo isso, o jaguar se lança num salto espetacular, indo parar num dos galhos mais altos de uma das árvores próximas. - Deixe de lado todo e qualquer medo e venha!!

- Hum... - “Isso é loucura, mas o que não foi até agora...” Mesmo sem ter certeza, Abaetê acaba por se lançar para o alto, imaginando que mal conseguiria se afastar do chão. - AAAAHHHHHHHH!!!!!!!!

Ele teria saltado além da copa das árvores, se não tivesse acertado o tronco de uma delas, que pareceu surgir do nada diante dele.

- Bela Espocada... - Yakecan abaixa uma de suas patas, deixando claro que fora ele quem fez o tronco da árvore crescer até barrar o caminho do guardião. - Agora se concentre no galho que quer alcançar e pule... - Abaetê assim o faz e consegue dessa vez, tendo apenas um pouco de trabalho para se equilibrar. - Muito melhor... Logo, logo você se acostuma e então não precisará apenas saltar... Vamos!

Alguns minutos depois, o índio já consegue avançar sem novas dificuldades, chegando a surpreender um pouco Yakecan, que não esperava uma evolução tão rápida, desse modo, ele resolve matar sua curiosidade:

- Então... Qual o motivo de seu desconforto com a sua primeira missão?

- Eu preferiria mesmo manter isso para mim...

- Hum... Posso tentar ver por mim mesmo em sua mente...

- Vo-você pode mesmo fazer isso?

- Assim como você acabou de se tornar, eu sou, há muito tempo, um avatar de Tupã... São poucas as coisas que não posso fazer...

- Hum... - Mesmo contra a vontade, Abaetê percebe não ter outra escolha. - Se é assim... O noivo é meu irmão mais jovem, aquele que todos acreditavam que seria o novo Jaguar-Upiara...

Agora foi a vez de Yakecan quase acertar o tronco de uma árvore, se desviando graciosamente e percebendo aliviado que seu companheiro não percebera seu engodo, tão entretido que estava com os próprios saltos e as lembranças.

“Ela era linda... Uaná, que recebeu esse nome por conta de sua alegria... Ela parecia brilhar em meio a todas as demais moças da tribo nas festas que se realizam à noite.

Fiz muitas músicas louvando a ela... Não faça essa cara... Eu sempre achei que meu destino fosse a música e não os combates... Esse foi um dos principais motivos de meu pai sempre preferir meu irmão para a função de guardião...

Mas voltando ao assunto principal...

Tamanha era a beleza de Uaná que logo eu me senti preso a um sentimento que realmente não havia conhecido antes... Me entreguei de corpo e alma a esse Perudá... Certa noite, pouco depois de eu ter finalmente conseguido minha própria oca, conquistando assim a independência de meus pais, ela veio até mim e passamos a noite toda juntos... De manhã, quando acordei, percebi que estava sozinho.

Eu a procurei por toda a aldeia e quando meus pés estavam quase se desprendendo das pernas, por conta do cansaço, eis que vi meu irmão Guaraní, correndo ao meu encontro, extremamente feliz com a notícia da escolha de sua esposa e praticamente me obrigando a ir até a oca de nossos pais, para participar do banquete que estavam dando.

Quase não consegui esconder a surpresa ao ver que, no local da noiva na mesa estava Uaná... Ela decidira se divertir comigo na noite anterior antes de se entregar ao seu principal objetivo: se tornar a esposa do guardião dos Auati.

Tive que disfarçar o ódio que senti, mas logo minha mãe veio até mim, colocou a mão em meu ombro e tentou tranqüilizar meu coração:

- Não fique assim Abaetê... Os planos de Tupã são misteriosos e nem sempre claro, mas com certeza são sempre acertados...

Logo depois me despedi de todos e voltei para minha oca, onde permaneci quieto, querendo que aquela ferida fechasse logo e teria permanecido assim por mais alguns dias se meu pai não tivesse vindo me chamar, dizendo que ele havia me escolhido para ser no novo Jaguar-Upiara...

O resto é fácil de você imaginar... Logo depois que eu recebi os poderes de meu pai, o Nanbiquara veio até nós falando do roubo da Itapitanga...”.

- Hum... - Enquanto salta para mais um galho, Yakecan tenta permanecer sério. - De fato é um grande teste para seu controle emocional... Obrigado por partilhar seus sentimentos guardião...

- Como se eu tivesse outra opção...

- O quê? Por que diz isso?

- Ora... - Agora a irritação de Abaetê fica evidente. - Você falou que ia ver meus motivos na minha mente! Que outra escolha eu tinha e... Espera... Não acredito... Ora seu...

- Hahahahahahahahahaha... Você tem que aprender a não confiar tanto nos outros!!!!

Rindo muito Yakecan aumenta sua velocidade, fazendo com que o novo guardião se apresse, procurando alcançar aquele que o enganou.

Momentos depois o jaguar sagrado desce de repente do topo das árvores, ficando parado no nível do chão.

- Agora eu te pego seu... - Percebendo que sua ameaça não causa nenhum efeito no outro, Abaetê se cala por um momento e acompanha o olhar dele, percebendo logo o motivo de tamanho silêncio. - Que Tupã nos proteja...

Diante deles se desdobra uma cena dantesca, com vários corpos carbonizados e espalhados sobre um chão calcinado, restos de árvores ainda ardem em chamas, todas negras e retorcidas. Até o ar parece mais pesado arranhando a garganta e ferindo as narinas de quem respira ali.

- I-isso... Isso é...

- Sim Jaguar-Upiara... Aqui é Serranua...

Passado o susto inicial eles se colocam a caminhar em meio à destruição, e Yakecan não consegue deixar de notar a seriedade que o silêncio de seu companheiro deixa transparecer “Finalmente parece que a responsabilidade de ser um guardião o está afetando... Mas isso tudo está além do que eu percebi que planejaram para ele...”.

- Não sobrou ninguém para falar sobre o que aconteceu aqui?

- Se o responsável for quem eu penso, acredito de fato que ninguém deve ter sobrado...

- Você não está pensando em...

- É só ver o modo como o fogo se alastrou, como se tivesse vida própria, para se tirar as conclusões...

- Droga... Ainda assim... Se for mesmo ele... O casamento irá atrasar ainda mais... - Para crescente surpresa de Yakecan, Abaetê assume a postura que se espera de um guardião. - Não posso deixar o desgraçado escapar bem dessa e... O que foi isso?!

Jaguar-Upiara se coloca em posição de combate, sentindo uma energia crescente ao seu redor, sem nem mesmo dar conta de que, antes de se tornar o guardião, ele havia se metido em poucas brigas e, tanto ele quanto Yakecan, se surpreendem ao ver uma pilha chamuscada de destroços começando a se mover.

Provavelmente algum dos mineradores de Ossos de Tupã havia sobrevivido e lutava pela sua liberdade, mas para total surpresa de ambos os recém-chegados, antes que eles possam se mover, quem surge é uma linda índia, vestida com minúsculos trajes de guerra e trazendo em uma das mãos uma estranha arma com formas que lembram Iaé.

- Se... Vo-vocês estiverem... Com o mo-monstro... - Os longos cabelos totalmente brancos e o sotaque indicam que ela pertence à tribo das mulheres guerreiras, conhecidas como Filhas de Iaé. - Terão que se ver com... Com... Iaciara!!

Ela consegue erguer a arma e se lança ao ataque.

- Ah! Fala sério!!!

Continua.

Explicando Aupaba.

Yo! Olá queridos leitores! Gostaram da minha participação nesse empolgante segundo capítulo? Gostaram? Gostaram?

Bom aguardem, pois eu ainda terei mais importância pelos próximos capítulos! Já até acertei com o autor para que eu tenha outras cenas, mesmo com o Abaetê fora da aldeia!!!

Bem, deixa eu realizar logo minha tarefa principal, quem sabe dessa vez eu não tenho tempo para lhes mostrar meus dotes musicais?

Comecemos então pelos termos que o autor usou do mesmo dicionário que eu falei no capítulo passado:

Xá Apecatu: Xá que dizer meu e Apecatu significa o bom caminho, numa tradução livre seria Meu bom caminho.
Apé: caminho, trilha.
Cuera: de velho, antigo, o passado.
Espocada: vem de Espôcar que significa saltar, arrebentar.
Uaná: Vagalume.
Perudá: Amor.
Iaciara: O dia de luar.

Pouquinhos né?

E agora os termos criados pelo autor (acho que ele anda meio preguiçoso nesse ponto):

Serranua: Referência à Serra Pelada que, como todos sabem, é a região devastada pela extração, sem nenhum cuidado, de ouro.
Filhas de Iaé: Uma tribo matriarcal onde as guerreiras têm cabelos brancos e armas diversas, com formatos que lembram a Lua.

Bem! Hoje foi curtinho não foi? Conforme o prometido, agora irei cantar uma bela música que...

O quê? Quem está aí? O velho Cuera?!!!

Desculpem queridos leitores, mas a música terá de ficar para outro dia!!!

Fui!!! Thiangôn!!!!
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