
Conan nasceu no campo de batalha, filho do ferreiro Corin e Greshan, contra uma horda de saqueadores Vanires. Conan, um cimério de cabelos negros e olhos azuis, aos sete anos de idade, já teve sua primeira caça em bando.
Agradecimentos especiais a Fernando Neeser de Aragão, do site Crônicas da Ciméria, http://cronicasdacimeria.blogspot.com, pela ajuda inestimável que está me dando.
Saiba, ó Príncipe, que entre os anos quando os oceanos tragaram a Atlântida e as reluzentes cidades, e os anos quando se levantaram os Filhos de Aryas, houve uma era inimaginável, repleta de reinos esplendorosos que se espalharam pelo mundo como miríades de estrelas sob o firmamento. Nemédia; Ophir; Brithúnia; Hiperbórea; Zamora, com suas lindas mulheres de negras cabeleiras e torres de mistérios e aranhas; Zíngara, com sua cavalaria; Koth, que fazia fronteira com as terras pastoris de Shem; Stygia, com suas tumbas protegidas pelas sombras; Hirkânia, cujos cavaleiros ostentavam aço, seda e ouro. Não obstante, o mais orgulhoso de todos era Aquilônia, que dominava supremo no delirante oeste. Para lá se dirigiu Conan, o cimério, de cabelos negros, olhos ferozes, espada na mão, um ladrão, um saqueador, um matador, com gigantescas crises de melancolia e não menores fases de alegria, que humilhou sob seus pés os frágeis tronos da terra. Nas veias de Conan corria o sangue da antiga Atlântida, engolida dezenas de milhares de anos [1] antes de sua época pelos mares. Ele nasceu num clã que reivindicava uma região a noroeste da Ciméria. Seu avô foi membro de uma tribo do sul que havia fugido de seu próprio povo por causa de um feudo de sangue e, depois de uma longa migração, refugiou-se entre os povos do norte. O próprio Conan nasceu num campo de batalha, durante uma luta entre sua tribo e uma horda de vanires. Não há registros de quando o jovem cimério teve o primeiro contato com a civilização, mas já era um lutador conhecido ao redor das fogueiras do Conselho antes de ter visto quinze invernos. Naquele ano, os cimérios esqueceram seus feudos e se uniram para repelir os gunderlandeses, que haviam forçado sua passagem pela fronteira da Aquilônia, construindo o posto fronteiriço de Venarium e colonizando os pântanos do sul da Ciméria. Conan era um membro da horda uivante, sedenta de sangue, que surgiu das colinas do norte, arremeteu-se com espada e tocha contra a fortaleza e empurrou os aquilônios para além de suas próprias fronteiras. Por ocasião do saque de Venarium, sem ter atingido ainda sua estatura de adulto, Conan já tinha 1,83 metro de altura e pesava 81 quilos [2]. Ele tinha a astúcia e a prontidão do homem da floresta, a resistência férrea do homem das montanhas, o físico hercúleo de seu pai ferreiro e conhecia bem o uso da faca, do machado e da espada.
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Conan, o bárbaro #05
O Início da Lenda - Parte 1
Ciméria
O céu negro
Estrelado
Frio
A noite escura na Ciméria é especial para Corin e sua esposa Greshan. Apesar do frio intenso, que fazia com que o orvalho no telhado solidificasse em pequenas gotículas de água formando pequenas estalactites de gelo, com a neve alta do lado de fora, que obriga todos a saírem com peles de animais sobre o corpo, é uma noite de festa.
A neve lá fora chega à cintura. O que nesse caso, devido à altura do povo Cimério, pode chegar tranqüilamente a mais de um metro. É o frio mais intenso na Ciméria desde que se têm notícias. A caça está péssima, não se planta mais nada, até por que os Cimérios não plantam nada, pois preferem a caça e a pesca. Mas ainda existem os saques.
Saques.
Os Cimérios, diferente dos Vanires, não eram conhecidos como sendo os grandes saqueadores. Isso era prerrogativa dos seus vizinhos Vanires. Até os gunderlandeses eram mais propensos a saques. Mas os Cimérios tinham sua cota. Quando eles se encontravam, a neve ficava vermelha, no inverno, e as estepes também o ficavam, nos períodos mais quentes. Era difícil diferenciar ganhadores de perdedores, pois a carnificina era enorme. Muitos morriam, devido à ferocidade dos seus povos. Povos ferozes por sua própria natureza, e região que habitavam, mas também e principalmente, ferozes pelo ódio que nutriam pelos seus vizinhos, reciprocamente.
Corin era ferreiro.
Filho de Drogin, que viveu em mundos civilizados e tinha o conhecimento do aço temperado. Greshan era dona de casa, além de guerreira, como todas as mulheres da Ciméria, e nessa noite fria de céu estrelado, onde a neve não parava de cair, estava no final de uma etapa. No final da etapa de gerar uma vida. Era o primeiro filho do casal, e precisava ser um varão. O primeiro filho de um casal cimério sempre deveria ser um varão.
Na pequena cabana, além de Corin e Greshan, estava também a parteira da vila. Na lareira, o fogo aquecia o ambiente, rústico. Na cama do casal, de madeira, forrada de palha, estava Greshan, usando uma pele de carneiro, para aquecer seu peito e costas, por cima do vestido, e nua da cintura para baixo, em trabalho de parto. Essa pele de carneiro fora trazida por seu marido, numa das incursões ao norte da Aquilônia. Ele vira um grande carneiro montanhês, e além de aproveitar sua carne para saciar a fome, tirou sua pele para levar para casa. Segurando suas mãos, atrás da cabeceira da cama estava Corin, seu marido. Olhando para sua face, não condizia com o frio que permeava o ambiente, mesmo com a lareira. Na sua face escorria o suor, tal era sua preocupação, que nascesse um varão naquela noite.
- Força, menina – fala a parteira.
- Aaaaaaaaaaahhhhh! – grita Greshan.
Ela está visualmente esgotada. Na sua face escorre o suor das horas de parto. O cansaço está tomando conta, visto a força que ela é obrigada a fazer para expelir a criança de seu ventre. Parece que a criança em seu ventre não quer sair. Ou então ela é do tamanho de um bezerro, pensa Greshan.
- Força, mulher! – fala Corin.
Corin está totalmente perdido nesse momento. Ele entende de fazer armas e guerrear, mas dar apoio à sua mulher é algo totalmente novo, e incoerente para os padrões cimérios. Ele deveria estar lá fora, bebendo com os amigos, na espera do nascimento da criança, mas algo dizia que ele deveria estar ali, esperando seu primogênito. E se fosse uma menina? Esse pensamento o fazia suar duas vezes mais.
A parteira está ao pé da cama. Com uma tina de barro com água, e alguns panos, rasgados. Abaixo do ventre da grávida, a poça de sangue mostra que a criança não demora a nascer, poça essa que encharca a palha da cama.
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Stygia
Khemi
Numa casa a oeste da Stygia, em frente ao mar, um homem está sentado. Ele não aparenta a idade que tem, por ser muito velho e viver há muito tempo. Através de sua feitiçaria, ele vem atravessando as eras, se mantendo com uma aparência muito mais jovem do que sua idade real. Ele fita o horizonte, absorto em pensamentos, com um livro nas mãos. Ele lê algumas páginas, e se concentra. O livro está aberto bem ao meio em páginas manchadas de sangue, revelando que era um livro maldito, quando o homem entra em transe.
Ele tem uma visão.
Ele enxerga um homem mais velho.
Muito mais velho, arqueado pelo tempo.
Que ele sabe ser ele próprio.
Usando uma grande túnica, com um capacete que ostenta grandes chifres.
É um feiticeiro poderoso.
Temido.
Forte.
Seguido por muitos.
Temidos por todos.
Menos por um.
Um Cimério.
Mercenário.
Pirata.
Pirata baracho.
Guerreiro.
Líder.
Rei.
Seu destruidor.
Seu assassino.
Esse Cimério, um gigante de cabelos escuros e olhos claros.
Muito claros.
Esse Cimério é a única pessoa que se interpõe entre o hoje, e a conquista absoluta do mundo no futuro.
Tão breve quando veio a visão, ela se vai. O homem cai ao chão, devido ao esforço desprendido. Cansado e esgotado, ele tem certeza do seu futuro. Será um grande feiticeiro, ainda maior do que é agora, temido e odiado por todos, menos por um Cimério, que será seu algoz. Alguém predestinado a ser o maior Rei de todos os tempos antigos.
A questão agora é:
- O que fazer para destruir esse cimério antes que ele me destrua
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Ciméria
No frio da noite, ele está vindo ao mundo. Greshan sente as dores do parto. Desde que o dia amanheceu, ela sabia que nesse dia nasceria seu primogênito. Cedo, ela já sentia a indisposição e a dor em seu ventre, anunciando que sua cria estava pronta para a vida.
Pronta para nascer.
O dia transcorreu normalmente, com as dores indo e vindo, em intervalos maiores, e diminuindo constantemente. O dia foi passando, com amenidades. Corin estava em seu ofício, na ferraria, forjando espadas e facas. Ainda não era nesse tempo onde o marido se preocupava com o bem estar da esposa no dia de parto.
Ainda que normalmente, uma ameaça pairava no ar. As sentinelas da vila viram ao longe uma legião de Vanires. Então, toda a vila estava de prontidão. Se eles passassem ao largo, iam atrás deles para pegarem pelas costas. Se viesse à vila, os pegariam no caminho.
Só havia uma certeza:
Os vanires não sairiam vivos da Ciméria.
Não podiam sair vivos.
Ao anoitecer começaram as dores fortes, curtas. Greshan mandou Corin buscar a parteira, pois seu filho ia nascer. Essas dores iam diminuindo de tempo e aumentando de intensidade. Logo que a parteira chegou, ela deitou na sua cama.
A parteira mandou Corin segurar suas mãos, e se preparou no outro extremo da cama. O bebê estava chegando.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh – Greshan continuar a gritar.
- Força, menina! – fala a parteira – teu filho está querendo nascer.
A cabana onde Greshan e Corin moravam era muito pequena. Aos pés da cama tinha a lareira, acesa, que esquentava o ambiente. Uma lareira pequena, de barro, que fazia a fumaça ficar mais tempo dentro de casa, do que saindo pela chaminé, mas a fumaça, apesar de sufocar, ainda ajudava a esquentar mais o ambiente. Ao seu lado, uma arca, de madeira maciça, pesada, grande como o tamanho da cama, onde eram guardadas as roupas, e do outro lado uma mesa, para as refeições. A mesa, na verdade era uma grande árvore, da qual fora cortada uma fatia do meio, o que deixava a mesa redonda, com um diâmetro de um metro e meio, devido à idade da mesma.
Lá fora, o frio está tomando conta de todos. Os vigias não estão mais em seus postos. Uma dupla vanir separou-se dos outros e veio infiltrada, de um modo que ninguém viu. Os vigias morreram sem saber o que, ou como foram atingidos.
A única coisa que identificava a passagem dos vanires, eram os corpos das sentinelas, na neve.
Trucidados.
Os pedaços dos mesmos se encontravam por toda a extremidade do local. Pernas e braços para um canto, corpo para outro.
E as cabeças? As cabeças estavam fincadas em estacas, para avisar quem passasse a autoria do ato.
Um ato bárbaro, até para aquele tempo.
Só perdiam mesmo para os pictos, que trucidavam, torturavam, sacrificavam, e muitas aldeias ainda comiam seus oponentes, assim acreditando que incorporavam a força do adversário.
Com isso, a aldeia ciméria não fora avisada da aproximação dos vanires. Com calma, eles foram chegando e se postando em lugares estratégicos, até o último chegar e dar o sinal de ataque.
Aos poucos, uma cabeleira negra vai surgindo dentre as pernas da mulher. Ele está vindo ao mundo. Greshan se esforça ao máximo, mas o parto é difícil, a criança ciméria é grande. Quando finalmente sai a cabeça, ela sente um alívio, pois o pior já passou, e o nascimento do restante da criança ocorre facilmente. Após a parteira cortar o cordão umbilical do pequenino, ela o enrola num pano e entrega ao pai.
- Toma. É um varão – diz ela.
Corin toma o filho nos braços, e o leva para fora. Abrindo a porta, alguns aldeões estão à espera da notícia. Ele ergue o menino nos braços, acima da cabeça.
Ele não olha para trás, para ver como está Greshan. Se ela está bem ou não, se está viva ou não. Sua alegria era justamente para levar seu filho para que todos vissem.
Um varão tinha acabado de nascer.
Começa a nevar.
Uma neve leve.
Pequeninhos flocos de neve, que se avolumam nos cabelos.
Em algum lugar da Stygia, alguém sente uma fisgada no peito e se dobra de dor.
De joelhos no chão, ele olha para o céu.
- Nããããããããããããããããããããããããooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A dor se espalha por todo o seu corpo. Ele sabe. Nesse exato momento seu algoz nasceu. Sua nêmesis. A pessoa predestinada a ser o Grande Inimigo.
Está frio.
Escuro.
Mas a criança não chora.
É forte, mesmo sendo recém nascido.
Mesmo com os flocos de neve caindo sobre seu corpo, desnudo e enrolado apenas em poucos panos, rasgados.
Ele não sente frio.
Ele tem um futuro.
Ele está predestinado.
- Esse é meu filho. – grita Corin – Esse é Conan!
- CONAN DA CIMÉRIA.
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[1]: A Atlântida afundou DEZENAS DE MILHARES DE ANOS antes da Era de Conan. Não foram "oitocentos", como na tradução equivocada da Conan - Espada e Magia #1, nem oito mil como L. Sprague DeCamp afirmava. Pra você ter uma idéia, o rei Kull viveu, segundo Howard, em 100.000 a.C. (e não em 18.000, como DeCamp dizia);
[2]: Conan NÃO PESAVA 90 KG DURANTE O CERCO DE VENARIUM (Capitulo. 04). Na versão em Inglês da carta de Howard ao Sr. Miller, o Cimério tinha 180 libras aos 15 anos de idade. E 180 libras correspondem a 81 kg.
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