Últimas Publicações:

Revolt #1



O cheiro é de pólvora e gasolina. O som é de tiros e do ronco do motor. Na Favela do Tijuco Preto uma figura misteriosa resolve fazer frente ao crime organizado chefiado pelo poderoso Criminal D. Movido por indignação, fúria e revolta. Seu nome é Revolt. E ele tem uma missão a cumprir.

Por Anderson “Aracnos” Oliveira.




Imagem


Capítulo 1: “Conhecendo os atores principais”.

Por: Anderson Oliveira

“Periferia, um lugar que muitos torcem o nariz ao ouvir falar. Um lugar onde pessoas de bem vivem à margem da sociedade e a mercê de criminosos e do descaso das autoridades. Periferia... bairro de gente pobre... sim, gente pobre, mas em sua maioria honesta e trabalhadora. Essa gente, minha gente, merece alguém que olhe por eles. Deus não conta. Às vezes, parece que só Ele mesmo olha por nós.
Mas minha gente precisa de algo mais... ‘prático’. Alguém disposto a por sua vida em risco para proteger as famílias do terror das drogas e do crime organizado. Alguém que lute contra a sombra do medo e faça calar o urro da besta selvagem que macula a pureza de nossas crianças. Minha gente precisa de um herói.
Dizem que existem heróis por aí. Mas nenhum deles conhece a realidade da periferia. Nenhum deles cresceu aqui. São como uma certa fatia da população que se julga culta e aponta os nossos defeitos, mas nada fazem para nos ajudar. Esses heróis nunca sujariam suas roupas coloridas para vir aqui (a menos que fosse pra salvar a pele de algum rico...).
Não. Não há esse tipo de herói na periferia. Meu pai foi um verdadeiro herói. Ensinou a mim e aos meus irmãos o valor do trabalho, da honestidade e da justiça. Justiça! Grande justiça que culminou no seu assassinato. Meu pai foi morto por um policial... Eu tinha apenas treze anos... Meu herói estava morto.
Hoje, tenho meios para fazer alguma coisa pelo meu povo. Cresci e nutri esse desejo, essa necessidade. Mas não nego que trago em meu peito um sentimento de vingança, não apenas por meu pai, mas também pela minha irmã. Marisa sempre foi boba, ingênua... E há dois dias fiquei sabendo que ela foi aliciada em uma rede de prostituição...
Por isso hoje eu preciso bancar o herói.”

Na calada da noite, entre os becos apertados e escuros da favela do Tijuco Preto, em São Paulo, uma moto corta o silêncio enquanto os cães assustados ladram em uma sinfonia caótica e assustadora. O ronco do motor revela ser uma moto especial, de rali ou motocross. Seu piloto desempenha grande habilidade ao desviar a cada esquina.
Ele veste um macacão de piloto, nas cores cinza e preto com um estranho capacete. Ou seria uma máscara? Uma máscara expressiva, lembrando algo como um robô com suas partes metálicas e orifícios que supostamente funcionam como respiradores. Sob a negra lente de seu visor não se pode distinguir qual face se oculta, ainda mais sobre a total escuridão da noite.
A moto segue rumo a um lugar muito visitado, seja no dia, seja na noite. Onde jovens de todas as classes sociais vão negociar a corrupção de suas almas. É uma boca de tráfico, uma das muitas que se espalham pela cidade. Lá se encontram apenas cinco homens, todos traficantes, armados e esperando seus “fregueses”. E ao ouvirem o som de uma moto se aproximar, se alegram na esperança de que seja mais algum filhinho de papai.
— Oba... pelo som da máquina, esse boy tem cascalho! — exclama um dos bandidos sorrindo. Mas em segundos seu sorriso se converte em medo: — Putaqueparil...!
Ele para com a moto bruscamente. Sem presa desmonta do veículo, o deixando ligado, apenas apoiado por seu tripé. Os bandidos trêmulos e incrédulos sacam suas armas e esperam por algo. O motoqueiro então anda até eles, sem nada dizer ou fazer, apenas anda...

“Bandidos têm armas. Boas armas... Mas não sabem atirar, ainda mais drogados do jeito que estão. Cada tiro acerta ou um poste, ou uma parede, menos a mim. E se eventualmente acertarem, tanto faz, por baixo desse macacão há um revestimento à prova de balas. Cortesia do meu irmãozinho Eugênio, um verdadeiro gênio!
Bandidos não sabem atirar, mas eu sei. E sei lutar. Rapidamente desarmo um deles com chutes e cotoveladas. Uso sua arma e atiro nos demais. Não para matar, não sou assassino. Acerto suas mãos e pernas... dói muito, mas não mata, pelo menos não imediatamente.
Onde aprendi a atirar? No mesmo lugar que aprendi a lutar. No exército. Ocasionalmente fui convocado para agir no Haiti... Missão Minustah. Uma força de paz para ajudar um povo pobre, sem um governo e sem lei. Me mandaram pra longe pra achar o que sempre vi bem aqui. Pelo menos isso me valeu de treino. Agora posso ajudar outro povo pobre... meu povo!”

O motoqueiro, após derrubar os cinco bandidos, os olha um a um enquanto eles agonizam. Solta a arma que usou e anda até as portas da casa usada como boca de fumo. De lá ele puxa pelos cabelos um jovem que estava escondido. Um jovem magro e assustado. Apenas uma vítima do tráfico.
— Quer continuar inteiro? — o motoqueiro pergunta.
— S-sim... sim... sim!! — responde o rapaz com medo na face.
— Então responda minhas perguntas. Quem é o dono da boca?
— E-eu... n-não... s-sei!!
— Resposta errada! — o motoqueiro ameaça bater no jovem, este, após um grito, diz:
— T-tá... bom! É o... D.
— D!
Criminal D. Um dos maiores líderes do tráfico paulista. Ele nasceu aqui. Lembro dele da infância, sempre foi um moleque metido a ladrão. Hoje está onde sempre quis estar. Sempre o vejo no pedaço. Um careca, parecido com o Damon Wayans, só que branco... pálido, eu diria. Cheio de ouro e cercado por mulheres. A comunidade, por sua vez, o julga como um defensor, pois ele oferece ‘presentinhos’ as famílias de seus ‘empregados’. Ele é amado e odiado nas mesmas proporções...”
— D é o chefe de tudo por aqui... — continua o rapaz. — Ele manda nas drogas, na pirataria, nas putas, nas armas... em tudo! E tu vai se fuder quando ele souber...!
— Fala só o que eu te perguntar! — pressiona o motoqueiro. O rapaz engole seco. — Bom. Então quem administra tudo ao comando de D?
— Cada ramo tem um chefe. É como um polvo com muitos braços! Nas drogas quem manda é o Jeremias.
“Jeremias... Já o vi por aí também. Um magrelo alto... Parecido com o Mike Jager... mas sempre acompanhado de um segurança. Acho que o nome é Pé-de-Boi. O cara é forte, luta capoeira... Tem boatos de que o Jeremias e o Pé-de-Boi são namorados, mas isso não me interessa.”
— No contrabando é o Su Long, um chinês bom de briga que traz mercadoria direto da China.
“Esse eu nunca vi. Deve ficar lá mais pra região da 25 de Março. Não sabia que o D tinha negócios lá também. Dificilmente vou topar com esse tal de Su Long por aqui... Eu acho.”
— O braço armado de D é o Metralha-7... você não vai querer conhecer esse cara!
“É... mas já conheço. O cara é casca-grossa, do tipo que mete medo em marmanjo. Um cara alto, careca, com uma cicatriz enorme no pescoço e todo tatuado.”
— E quem cuida das putas é uma vaca velha chamada Jezebel. E ainda tem o Sexta-Feira 13, um negão que confere o “material” antes de por nas ruas!
“Marisa...!”
Ao ouvir isso, e ao se lembrar da sua irmã nas mãos desses bandidos, o motoqueiro se enche de fúria e adrenalina. Sem mais nada dizer, joga o rapaz contra a parede oposta. Ainda cerrando as mãos vai até sua moto e monta, mas antes de sair, se vira para os bandidos, ainda agonizantes, e diz:
— Diga ao D que é melhor ele se preparar, pois o REVOLT veio pra tirar ele do trono. — e após isso ganha as ruas e vielas se perdendo na noite.

“Revolt... É um bom nome. Revolta... é isso que sinto. Eu, Marcelo Bastos, filho de Joel Bastos, amado pai que merece ser vingado; de Sílvia Bastos, amada mãe, muito cansada e doente após criar três filhos, viúva e muito pobre. Com a ajuda de meu irmão, Eugênio, garoto de ouro que merece mais do que tem. Sem ele não haveria a moto nem o traje... E por Marisa, minha irmã vítima desses desgraçados... Agora sou Revolt!
Fora que ainda tem meu anjo precioso... Daniella. A garota mais linda que existe. Espero que ela jamais me veja assim... Que descubra de algo. Preciso protegê-la... Se bem que ela sabe se defender muito bem. A garota tem atitude...
Durante o dia preciso ganhar a vida como motoboy no Centro da Cidade, o que não é de todo mal, pois adoro motos e no trampo pratico as manobras que de agora em diante o Revolt precisará usar. Sustentando a casa com um salário mínimo e o soldo de sargento reformado, como consegui o dinheiro para essa moto Derbi Supermotard DRD e para o traje? Digamos que, uma semana atrás, brinquei de Robin Wood.
D não sentirá falta dos milhares de reais que interceptei. E com o dinheiro sujo dele, o destruirei. Agora voltarei para casa. Eugênio pensou em tudo. Entro por uma tubulação aberta que serve de túnel e saio do outro lado da vila, daí entro pelo beco, cruzo a ponte e chego na velha casa abandonada, há duas quadras da minha casa, onde ficará minha base de operações.”

— Como foi a noite, irmão? — Eugênio, um rapaz de dezesseis anos, de óculos e boné para trás espera Marcelo, o Revolt, na velha casa.
— Para uma missão de treinamento, foi bem satisfatória! — Marcelo tira a máscara revelando ser um rapaz, de uns vinte e cinco anos, negro, com cabelo estilo militar.
— Descobriu onde tá a Marisa?
— Não, mas já sei quem procurar para encontrá-la. Só espero chegar a tempo.
— Certo, mas hoje não. Agora que voltou pra cá, sair outra vez pode atrair a atenção de alguém.
— Verdade. Espero que Marisa ainda esteja bem.

Em outro ponto da favela, numa casa discreta, porém movimentada, fica a residência de Criminal D. E lá o vemos, em uma cama cercado por seis garotas, em meio a fumaça e muita bebida. Um telefone toca:
— Chefe... Problemas... — um de seus capangas entra e entrega o aparelho na mão de D com uma cara de preocupação.
— Justo agora que eu tava me divertindo? Meninas... Saiam. — as garotas rapidamente recolhem suas roupas e deixam o quarto, logo D atende: — Fala.
— U-um cara... um cara de moto... Veio na boca e esculachou os manos!
— Quê?
— Ele pegou uma AR-15 e...
— Quem é esse cuzão?
— E-ele usava um capacete esquisito... tipo power ranger... falou um nome...
— Que nome?!
— Re... Revolt... É... Revolt!
— E o que ele queria?
— Só mandou você se cuidar, pois ele veio pra te pegar...
— Caralho... — D desliga o telefone. Para um instante e logo atira o aparelho contra a parede. Depois passa a mão sobre a cabeça e deita na cama. Após um novo momento de silêncio, Criminal D sorri. — Otário!

Pela manhã. Entre os carros numa avenida congestionada, Marcelo Bastos inicia seu trabalho como motoboy. Deixou sua moto de rali para usar uma Titan de aspecto velho e sujo. Deixou seu traje cinza e preto por uma jaqueta de couro preto e calças jeans surradas e tênis velhos. Deixou uma luta por outra.
— Entrega esses documentos na Paulista até as 9:30! Depois no banco pague todas essas contas até as onze. E na volta me trás o almoço e o resultado da Mega Sena!
— Sim, seu Batista! — Marcelo responde ao senhor Batista, seu chefe, um despachante da Barão de Itapetininga. Geralmente um homem de bom humor.
— Ah, Marcelo! E não se esqueça que hoje tem jogo do Corinthians!!
— Tá certo, seu Batista! Tá certo! — ao sair da sala, Marcelo cruza com um amigo motoboy:
— E aí, Téo? Firmeza?! — cumprimenta Marcelo.
— Fala, mano! Muito trampo?
— O de sempre!
— Tá com sorte. Eu tenho que entregar tudo isso, metade na Zona Norte, metade na Zona Oeste até o meio-dia! É foda!
— Vai na fé, Téo! Falou! — Marcelo sobe em sua moto e volta ao trabalho.
Pelas ruas, sua mente, enquanto decifra o labirinto que é a cidade, também pensa no destino de sua irmã, que espera por sua ajuda. Marcelo ainda espera encontrá-la. Seja onde for. O caminho para isso é encontrar a tal Jezebel, a cafetina que aliciou Marisa. Ainda pensa nos outros nomes envolvidos com Criminal D. Pensa na gente que precisa ser salva.
Após outro dia de trabalho cansativo, Marcelo volta para a periferia. Ele tem sua moto, mas muitos trabalhadores fazem esse caminho em ônibus e trens lotados todos os dias. Assim era seu pai, que retornava para casa durante uma operação policial no bairro. Uma operação só para dar matéria para a mídia e calar a voz da opinião pública, pois de nada adiantou.
Adiantou apenas para tirar a vida de Joel Bastos, estupidamente confundido com um criminoso foi atingido por um tiro na cabeça, bem em frente à porta de casa. Marcelo, ao fazer o mesmo caminho que seu pai fizera, relembra a cena... todas as vezes. Desde então nunca mais confiou na polícia.
Todavia, ao chegar ao portão de casa, lembranças alegres também vem à tona. Marcelo relembra o dia que conheceu Daniella:

Meses atrás, perdido em pensamentos, Marcelo não viu quando uma garota de skate cruzava a rua. Ele tentou desviar ao máximo, mas acabou atingindo a moça com sua moto:
— Ai meu Deus! — exclamou Marcelo que saltou da moto a deixando tombar para socorrer a garota. — Se machucou?!
— Ai... Não... só um pouco! — ela era linda. Um rosto de anjo quase oculto por um boné velho, por roupas largas e um jeito rebelde. Marcelo se perdia fitando seus lindos olhos verdes.
— Hã... Vem, vou te levar pro hospital!
— Deixa... não precisa! Foi só um arranhão! Tô acostumada!
— Mas... a culpa foi minha!
— Nada! Eu que atravessei sem olhar... esquece!
— Não posso esquecer... Pelo menos, deixa eu te acompanhar até em casa.
— Hmm... Tá... Tá bom... — a moça se levantou e, mancando um pouco, deu cinco passos. — Bem, chegamos!
— Você mora aqui?!
— Sim. Me mudei hoje de manhã!
— Que... coincidência...! Eu moro bem ao lado!
— Legal! Que belo jeito de receber sua nova vizinha...!
— Desculpa!
— Tá... Tô brincando! — ela sorriu e estendeu a mão. — Me chamo Daniella.
— Eu sou Marcelo. — ele a cumprimentou. Daniella lhe sorriu mais uma vez e foi até seu portão. Envergonhado, Marcelo disse: — O que você vai fazer, sei lá, no fim de semana... a gente podia...
— Sim, claro!
— Como?
— Não tá me convidando pra sair?!
— É... Tô... mas se não quiser, tudo bem...
— Eu já disse... Claro que sim! Até logo então! — Daniella entrou em casa.
— Até...! — Marcelo pegou sua moto e entrou na sua casa.

De volta a realidade, Marcelo repete a rotina. Deixa a moto nos fundos do quintal, entra pela cozinha e lá encontra sua mãe:
— Olá, querido! — diz a velha senhora enquanto prepara o jantar.
— Oi, mãe. Tudo bem por aqui? — diz Marcelo abraçando sua mãe.
— Sim, meu filho. Como foi no serviço?
— Bem... — Marcelo vai até a geladeira e pega uma garrafa de água. Ao fechar a porta vê pregada a foto de sua irmã.
— Todos os dias eu rezo para que sua irmã esteja bem. — diz sua mãe. — Essa menina, tanto fez que conseguiu ser modelo... — Dona Silvia não sabe da verdade. Pensa que sua filha está viajando com uma agencia de modelos. Marisa também pensava que seria assim. Marcelo cerra as sobrancelhas ao se lembrar do mais importante agora.
— Cadê o Eugênio?

“Minha irmã... Fomos cegos para não ver o perigo em que se meteu. Preciso te encontrar, te tirar desse mundo sujo antes a nossa mãe descubra, antes que você se machuque. Para isso, obstáculos precisam ser derrubados.”
A moto ruge na madrugada. Em busca de um caminho para seguir, em busca de pistas e da verdade. Espreito nas sombras, sob o ladrar dos cães assustados com o ronco do motor... ele prossegue com uma missão. Ele não desistirá até conseguir o que quer. Nem que para isso muito sangue seja derramado...
— Tá ouvindo? É a moto do canalha... — Criminal D, numa mesa de bar, ao lado de seus capangas. — Eu quero a cabeça do safado. Pago bem.



Continua...




E em breve…

Compartilhe este artigo: :

+ comentários + 2 comentários

24 de junho de 2010 às 16:25

Caramba, Anderson...

Admito que subestimei esse autoral. Sempre achei as capas legais e talz mas nunca tinha parado pra ler. Ontem eu decidi ler. E achei muito bom!! Completamente diferente do que eu pensava... O modo como você apresentou os futuros "alvos" do Revolt foi super!! Ficou parecendo uma lista de mortes!! Parabéns, companheiro! Já vou ler a edição 2 pra companhar no ritmo!!

24 de junho de 2010 às 21:22

Fala Matrix!
Nunca subestime o Revolt, ou ele te incluirá na lista! Bwahahahah!!!

Valeu pela presença, rapaz! Te aguardo na continuação!

Postar um comentário

 
Support : Creating Website | Johny Template | Mas Template
Copyright © 2013. UNF - Todos os direitos reservados.
Template Created by Creating Website Published by Mas Template
Proudly powered by Blogger