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Palco das Ideias: Sebastião Praxedes contra os Vendedores #1



O destaque do Palco das Ideias desta vez vai para Sebastião Praxedes contra os Vendedores #1, texto de Renan “Ocelot” Duarte.

Esta é uma história que não é comovente. Não há romances. Nem nada muito heróico. Heróico, aqui, também pode ser interpretado como “um grande ato altruísta”. Esqueça. Nesta história existe apenas Sebastião Praxedes, morando em um alto de monte, com sua velha carabina.(…)





Nota: Pessoal, este texto é só uma brincadeira de escrever que fiz e já tinha guardado aqui há algum tempo e só agora o finalizei. Vou postar aqui no Palco das Idéias, já que não sabia o que fazer com isso. É uma mini fic com três partes. Devo dizer que é uma história simples, mas vou postar aqui no Palco.
Abraços! =}

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Sebastião Praxedes contra os Vendedores

Esta é uma história que não é comovente. Não há romances. Nem nada muito heróico. Heróico, aqui, também pode ser interpretado como “um grande ato altruísta”. Esqueça. Nesta história existe apenas Sebastião Praxedes, morando em um alto de monte, com sua velha carabina.

Sebastião Praxedes não sorri, não é convidativo. Não há jogos que você possa fazer com Praxedes. Se tentar, ele irá te virar do avesso, arrancar suas tripas e descobrir o seu segredo. Talvez eu tenha exagerado na parte de “arrancar as tripas”. Mas Sebastião Praxedes não é brincadeira. É sério. Ninguém pode com ele.

O velho mora em uma fazenda montanhosa no interior de Minas. Solitário. Come o que planta e o que dá para trocar com os vizinhos. Vizinhos que estão a alguns quilômetros de distância. Sua velha casa fica bem no meio das montanhas. No vale. Como dentro de uma muralha circular.

Alguns dizem que ele ainda é jovem, mas ficou velho pela aspereza e coração duro. Outros já chutam que ele passou dos 70, beirando os 80 e que não morre porque o outro lado não o quer. E os mais supersticiosos alegam piamente que ele já morreu, e quem vive ali é o fantasma cruel do velho Bastião. Os mais chegados, dos poucos que existiram, já disseram que ele é só um cara de mal com o mundo, porque o mundo não merece que estejamos de bem com ele.

Este é o pouco que posso dizer do muito que é Sebastião Praxedes, o velho na última terra do Morro Seco, depois das terras do Achado, e depois de uma estrada tortuosa que só se passa a cavalo. O velho e sua velha cadela moram lá. Bem longe. Sem tempo para qualquer besteira.

Essa é a história de...

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...Sebastião Praxedes contra os Vendedores

#1 – Tem um Velho no Alto do Monte e Dois Bobos na Estrada
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Antes de conhecermos Sebastião em pessoa, quero lhes apresentar dois aventureiros vendedores de sementes que ousaram chegar até as terras de Praxedes: Jambo e Chinês. Obviamente, estes não eram seus nomes. Mas os nomes de batismo não importam a história. Só é necessário saber que o gordo de cabelo engordurado e barbicha era Jambo, e o jovem novato de olhos puxados e cabelos arrepiados era o Chinês.

A dupla estava passando por aquelas terras vendendo sementes, arrendando terras, fechando negócios. Conquistaram um grande avanço por ali. Até que já não havia mais fazendas para visitar. Então alguém disse:

- Ainda tem o Bastião.

- Quem? – Perguntou Jambo.

- O Bastião. Segue a estrada que vem, e na última curva, cê vorta a esquerda da mata. Lá tem o Paulinho que tem uns cavalos. Carro não passa lá não.

E então seguiram Jambo e Chinês para a estrada rumo à fazenda do velho. Ao chegarem à terra do Paulinho, conseguiram uma carroça e cavalos. Mas nenhum deles sabia montar. Eram homens da cidade. Pior era o Chinês que fora criado em apartamento.

Pediram ajuda ao Paulinho para que os conduzissem na carroça, que por sua vez disse que carroça lá não passa. “Tem que ser de cavalo. E o velho é enjoado. Lá eu não vou não.”

Com muita dificuldade, Jambo e Chinês montaram com a ajuda dos meninos de Paulinho, e com algumas poucas instruções de montaria, seguiram estrada adiante. Em galopes e picos desenfreados, foram se ajustando aos cavalos.

- O que acha disso? – Perguntou Chinês.

- É tudo uma aventura. Pelo menos a gente economiza na gasosa. Aí a empresa paga por aquilo que a gente não consumiu. É bom negócio, né? – Disse Jambo colocando o cabelo ensebado para trás.

- É... Mas isso não é errado?

- Ih Chinês... Errado é a gente trabalhar tanto e ganhar pouco. Esses donos de empresa tão tudo é rico e a gente só se lasca. Até de cavalo a gente tem que andar.

- Sei não...

- Tá gostando do emprego?

- É bom. Mas ainda não vi a cor do dinheiro...

- Vai ver... Vai ver.

- Voltando ao assunto... Eu tinha perguntado era sobre o que você achava do velho.

- O que?

- O Seu Léo lá traz disse que o velho costuma atirar sem avisar. Sem perguntar por quem.

- Conversa fiada. Hoje tem televisão na roça. Todo mundo ficou civilizado.

- É que muita gente diz muita coisa.

- Muita gente diz o que não devia.

- Muita gente morre sem dever ninguém.

Jambo ficou confuso com a fala de Chinês. Mas logo retomou o raciocínio.

- Bobeira Chinês. Esse povo é da roça, não tem educação. Deve ser só mais um velho amargurado.

- Não o conhece?

- Já vi.

- Onde?

- Por aí...

- Como ele é?

- É velho.

Chinês encarou Jambo com ar de “Ei cara! Eu estou falando sério aqui!” Mas em vez de reprovar a resposta, apenas encerrou o assunto.

- Tá certo.

Andaram alguns bocados em silêncio, até que Jambo perguntou desconfiado:

- O que foi?

- Nada. Você é meio controverso.

- Quê isso?

- Sabe. Diz uma coisa e depois contradiz... Sei lá... – Chinês disse meio que envergonhado.

- Tanto faz, rapaz. Olha lá... Parece a porteira.

- Tem uma placa.

- Eu não enxergo muito bem de longe. – Jambo tenta apertar os olhos para ver, mas tudo era embaçado.

- Por que não usa óculos?

- Me faz parecer idiota.

- Iria te fazer parecer com alguém que enxerga.

- Não pensei nisso.

- Tem algo escrito lá. Melhor... Tá cravado com faca...

- O que é? Lê logo rapaz.

- Vamos chegar mais perto.

- Ê, saco.

Os dois cavalgaram em um galope involuntário e se aproximaram da porteira. Era uma grande e velha, muito velha, porteira. Na frente dela, a esquerda da estrada estava um poste de madeira velha com uma placa pregada. “Não entra sem chamar.” Estava escrito.

- Ta enxergando agora? - Perguntou Chinês.

- Claro. Tá achando que eu sou besta?

- To achando que você é cego. – Caçoou.

Jambo riu.

- Vou chamar.

Os dois gritaram na porteira feito doidos. A casa parecia muito longe dali, era pouco provável que o velho escutaria os dois daquele lugar.

- Tem jeito não. A gente vai ter que entrar. – Concluiu Jambo.

- Mas e a placa?

- Aí ta dizendo que não é pra entrar sem chamar. A gente chamou, e agora a gente entra. Resolvido.

- Tá certo.

E lá se foram os dois adentrando as terras de Praxedes. Bom negócio? Veremos...

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No coração daquelas terras estranhas do velho, estava uma velha casa. Velha, mas não mal arrumada. Tinha flores em frente à varanda. Um gramado bem cuidado, cheiro de folha verde, e alguns patos com seus filhotes de um lado para o outro. A casa, nem grande, nem pequena, estava de janelas abertas.

De dentro, podia-se ouvir um grunhir de uma cadeira de balanço. “Nhec-nhec” ela fazia. Era o velho Praxedes, tirando uma soneca, com um livro nas mãos. Pelo jeito, ele tinha apagado enquanto lia. E como roncava alto!

A cadela dormia no chão, esticada feito morta.

Estava um clima totalmente sonolento. O que já era de costume do lugar. Praxedes e a cadela dormindo a vida como sempre.

Até que um longínquo som de cascos quebrou o silêncio maravilhoso. A cadela percebeu, Praxedes continuou roncado. Rapidamente ela se levantou, rosnou um bocado, e silenciosamente, como quem sabe agir na surdina, abocanhou a barra da calça do velho e deu uns solavanques.

Assustado, engasgando com o próprio ronco, Sebastião acordou. Antes que se desse conta do que estava acontecendo, já sabia o que fazer. Tratou de se colocar de pé, encheu uma caneca de café, fechou portas e janelas, correu até o armário para pegar uma velha carabina e se prontificou na cozinha. E que velha cozinha ele tinha!

- Quantos chumbos terei que enfiar na bunda desses bostas pra aprenderem a não incomodarem minha leitura, eim Tigreza? – Disse para a cadela, após dar um gole no café frio.

Tigreza rosnou baixinho.

Dois sujeitos montados a cavalo apareceram na esquina da estrada, era Jambo e Chinês conversando tranquilamente.

- Cabeças de repolho... Desrespeitam meu aviso, e entram sem chamar. Eu vou enfiar chumbo quente naquelas bundas de repolho. Ôh, se vou! – Dito isto, armou a espingarda e ficou espiando por uma fresta na janela.

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Após alguns minutos de cavalgada, Jambo e Chinês avistaram a casa. Tranquilos, continuaram conversando.

- Flores! Tá vendo Chinês, o velho não deve ser tão mal assim. Tem flores na frente da casa.

Chinês não se viu muito convencido pelo argumento de Jambo, mas também não tinha nenhum outro bom argumento para rebatê-lo.

- Então... Parece que não tem ninguém. Vamos embora Jambo. Não tem ninguém! Está tudo fechado. Estou com um maaaaaal pressentimento a respeito disso. - Chinês riu pra si mesmo pela piada interna. Jambo, obviamente, não entendeu.

- Tá rindo de quê?

- Nada, deixa.

- Quer ir embora? Que embora o quê, rapaz! Já chegamos!

- Não tá vendo que não tem ninguém? - Chinês disse apontando.

- Está vendo?! Percebe a diferença?! É por isso que os chineses não ganham dinheiro, e ficam naquele paízinho de merda a vida toda. Essa é a diferença entre eu e você.

Chinês ficou confuso. Ainda não estava acostumado com os argumentos desconexos de Jambo.

- Bem, se você não sabe, a China tem crescido muito economicamente.

- O que? Vai a merda! Crescendo nada... Ninguém nunca ouviu falar na China. A gente escuta falar é dos esteites, da Europa. De zóio puxado, só o Japão e olhe lá.

Chinês ficou em silêncio. Argumentar com Jambo era um exercício hercúleo.

- Jambo, há uma grande diferença entre japoneses e chineses.

- Pra mim não há nenhuma.

- Olha, eu não vou falar mais nada viu.

- Tudo bem.

- E quanto a China, todo mundo escuta falar na China. É só ligar os jornais.

- Você disse que não ia falar mais nada. Se já admitiu a derrota, por que está tentando voltar? Te peguei né não? Haha!

Chinês meneou a cabeça.

- Olha, tanto faz! Eu nem sou chinês.

- Ah não? E de onde vem esse zóio?

Chinês ficou impaciente.

- Eu sou decendente de coreano, beleza? Vamos encerrar o assunto.

- Ué, mas por que ficou bravo?

- Não fiquei!

- Povo esquisito esses chinas, viu.

Terminada a conversa, Jambo tratou de descer do cavalo, e pegar sua pasta que estava amarrada na sela. Logo em seguida, sem jeito e desconjuntado, Chinês tentou descer, e acabou caindo de vez.

- Vamos Chinês! Temos trabalho a fa...

Antes que Jambo terminasse a frase, um tiro acertou sua pasta de couro, dando um golpe em sua mão, lançando a pasta longe. Assustados, os cavalos correram.

- MERDA! O que foi isso?!? – Gritou Jambo. – Minha mão!

Aproveitando a deixa dos cavalos, Chinês correu junto.

- Droga Chinês! Onde você tá?

- Aqui! – Gritou Chinês de uma moita perto. – Eu disse que era pra gente ir embora!

- Droga... O que foi isso? – Jambo disse para si mesmo.

- Vão embora, seus bostas!

Ao escutar a voz seca e rouca, Jambo se virou para a casa, e lá na janela estava o velho, com sua carabina na mão. Era Sebastião Praxedes contra os Vendedores.

CONTINUA...



E em Breve…

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