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Palco das Ideias: Chuva de Tânatos

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Da mesma autora de O Rebento de Maria, Naninhachan, este outro conto é o destaque do Palco das Ideias em sua segunda edição.

Suspense e Emoção na Chuva de Tânatos.




Chuva de Tânatos

Por naninhachan


Era um dia desses de chuva. Um dia qualquer daqueles em que a vida simplesmente se esvazia de sentindo assim, que o primeiro segundo após a abertura dos olhos nos lembra de nada ter explicação na vida sem um propósito para acordar. Paciência, só dá pra decidir que o próximo minuto não será vivido depois que acordamos.


Quando os olhos negros caíram na paisagem da janela, o corpo sentiu um calafrio despertar os últimos dormentes membros. Um sorriso não poderia ser aberto naquele rosto já entristecido desde o primeiro minuto daquela maldita manhã chuvosa de um dia qualquer.


Enrolada numa coberta grossa e grande demais para o próprio corpo, ela caminhou da cama de casal, que dividia com a solidão, ao corredor, atingindo a sala e se jogando no sofá. O peso pendeu para o lado e ela se deixou ficar. Olhos cravados na televisão desligada. Olhos fitos desligados numa mente televisiva. Sentiu um formigamento no pé e o recolheu pensando ser frio. Era só tristeza mesmo.


No apartamento em que vivia, num prédio mais velho que seus pais, ela não poderia se sentir melhor do que em qualquer outro lugar. O problema estava consigo, dentro de si e com mais ninguém. Os olhos encheram de lágrimas calmas, acostumadas a lhe fazer companhia quando o vazio do mundo parecia sugá-la eternamente. Sentiu os ossos diminuírem em sua constituição, sentiu o sangue avolumar no peito e uma dor intensa crescer no âmago. Algum lugar entre o ventre e o pescoço longo que ostentava. Estava quase 10 quilos mais magra. O rosto ossudo, os olhos cavados na face e as olheiras pesadas que denegriam sua imagem outrora tão inteligente. Nunca foi a mais bonita, não era sempre a mais feia e podia se dizer que em algum momento dos anos que vivera, a vida pode lhe ter sido boa. Antes pode ter sido feliz. Tudo poderia ter sido melhor. Agora, o que lhe resta são as manhãs geladas num apartamento, sozinha, senhora do próprio fracasso, fruto de sua indelével incompetência. Só...


Apenas para saber o que a vida poderia trazer para além dos sonhos ruins que tem à noite, ela se levanta todos os dias. É certo que não tem um horário estabelecido para acordar, porém desperta todos os dias no mesmo horário. Não sente fome, não sente dores surreais, só se sente sozinha, sem vida e morta.


Ela podia se comparar a uma árvore sem vigor. Ocupa espaço, mas perdeu a vivacidade. Serve para muita coisa, mas já perdera sua principal utilidade, isto é, ser árvore, abrigo, mãe, lugar, ser apenas aquilo para que nasceu. Os olhos ergueram-se pela sala. A escuridão já começava a tomar o cômodo e ela percebeu que estivera deitada por tantas horas que não se lembrava quando tinha, enfim, acordado, ou se ainda estivera dormindo do dia anterior.


Não sentia sono, mas dormia, escapava assim da vigília nefasta da noite que toldava o mundo e esquecia dela.


Olhou mais uma vez pro lado e sentiu qualquer coisa se acomodar no sofá. Era o próprio corpo. Era negro. Era Tânatos, era sua morte. Era o fim de si mesma. Olhou mais uma vez a televisão como quem se despede de algo sem importância alguma. A indiferença fez nascer nos lábios afastados e ressequidos um sorriso de mau agouro, de princípio de inferno. Não olhou para mais nada depois. Encarou as mãos, apertou os dedos e sentiu uma picada funda atrás da orelha, numa parte que cedeu. Fechou os olhos, ergueu o corpo, segurou com cuidado a coberta e levantou. Passou diante do espelho, mas se viu, não olhou. Tânatos a seguia com cuidado, o sorriso dela tinha morrido. Atrás de si uma negra sombra se arrastava e parecia lamentar pouco aquele teatro funesto. Os cabelos ruivos e longos já tão maltratados pareciam remoçar a cada passo dado na direção do quarto.


Já eram quase três horas da manhã. Ninguém saberia. Ninguém iria saber nunca. Ladeou a cama e não encarou os lençóis. Não viu que o próprio corpo já estava deitado ali. Abriu a janela e Tânatos esperou sentado na cama, mãos dadas à presença física abandonada na cama. Encheu o peito de uma lamúria constante e insistente. Abriu os olhos negros e profundos, encarou-a. Viu os pés magros estancarem diante da janela que se abriu de chofre e um vento cantarolou uma música de despedida. Ela prendeu dedos na janela, não olhou para os lados e ouviu dentro da mente o grito de almas desesperadas. Ouviu a si mesma, ouviu a todos os que não podiam mais caminhar entre os vivos. Deu dois passos adiante e mergulhou para sempre na escuridão.


Declarou ao que não é visível a sua morte. Num lugar escuro e profundo, sua dor revolveu pela última vez e se foi. O corpo livrou o último suspiro e agora ela caminhava sozinha num lugar escuro, retorcido, de névoa pesada e poeirenta. Não respirava. O coração não batia. Estava em paz consigo mesma e deixava sua revolta ao mundo.


*
*
*


Um odor de morte enchia o apartamento 806. O síndico ouviu reclamações e chamou a policia, além da ambulância. Quando a porta foi derrubada, uma lufada de ar fétido se lançou aos rostos dos presentes. O corpo jazia putrefato na cama, uma sombra mais densa se projetava do canto esquerdo até os pés manchados pela morte do corpo. Uma forma negra de pés voltados para trás e dedo em riste diante do buraco onde deveria estar o rosto. Algo ruim habitava o quarto e não queria deixar tal facilmente. Ela tinha morrido, mas suas dores foram tragadas pela presença nefasta que a atormentava há dias sem cessar. Era o fim que todos os infelizes recebem. Atraem para si o mal que não sabem. Perdem a batalha por si mesmos e morrem repetidamente, sem saber estarem mortos, sem saber estarem vivos, sem saber o que fazem e onde vão. Naquele mesmo dia, quando todos estavam em seu quarto, ela jazia deitada no sofá. A televisão continuava desligada, bem como seus olhos. Seria só mais um maldito dia de chuva.

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Escrita em 26 de junho de 2009.
Publicada em 22 de janeiro de 2010.
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