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Lendas de Aupaba #1. Enbirari- Kuimbahy



Começa aqui a saga sobre um novo mundo, cujo primeiro vislumbre é da Terra de Aupaba. Conheça seus habitantes, seus perigos, seus heróis! Acompanhe as aventuras de Jaguar-Upiara, um guerreiro que não tem certeza de suas habilidades.




Pai e filho caminham lentamente pela floresta, ambos usam poucas roupas, até por que o calor dessa época do ano não os permitiria usar nada mais pesado que os poucos panos, usados em sua maioria para cobrir suas genitálias.

A floresta tem um ar úmido e abafado, as copas das árvores permitem que pouquíssimos raios de sol toquem o solo, mas são o suficiente para que os dois saibam que ainda é dia, mesmo que a longa caminhada pudesse ter-lhes tirado o senso de tempo.

Eles avançam com certa dificuldade, aquele trecho da mata não é muito utilizado pela tribo, sendo que são apenas aqueles destinados ao rito de passagem a caminhar por ali.

Abaetê segue o pai com reverência silenciosa, mesmo que em seu íntimo muitas perguntas simplesmente gritam para serem feitas.

Jibaoçú caminha com a altivez que o guardião dos Auati necessita para cumprir sua missão sagrada, em seu interior um misto de alegria e tristeza.

Alegria por ter sido o melhor de seus seis filhos a ser escolhido por Tupã para ser o novo guardião e tristeza pelo fato de que seu momento finalmente chegara. Ele sempre esperou que iria em meio a uma grande batalha contra Anhangüera ou algum outro perigoso inimigo da tribo, mas ele dá graças a seu deus pelo fato de poder envelhecer ao lado de Amandy, sua mulher que, mesmo nascendo em um dia de chuva, a todos enche de alegria com suas histórias.

Ele tivera uma vida feliz e longa e hoje quando completa sessenta luas, é o momento de passar o manto de guardião para um de seus filhos e foi justamente Abaetê o escolhido por Tupã.

O ancião ainda se lembra do sonho da noite anterior, quando viu a tribo sendo atacada por terríveis forças das trevas, todos com um estranho símbolo em suas vestes, vestes essas que, muitas vezes, lhes cobriam todo o corpo, impedindo que qualquer vestígio de pele pudesse ser visto.

Em meio ao caos e destruição ele, que fazia tudo ao seu alcance para proteger a tribo e a terra que eles chamam de lar, se surpreendeu quando alguém mais entrara na luta.

Portando um impressionante e imenso Punho de Tupã, a arma característica dos guardiões, um outro índio entrou no confronto onírico, vencendo hordas inteiras do inimigo e ferindo suas forças com tal fúria que era como se o próprio Tupã descesse dos céus, distribuindo sua cólera contra os invasores.

No meio do sonho uma estranha criatura surgiu, como que uma aparição etérea e sua voz inumana ecoou pelo campo de batalha dos sonhos:

- Abaetê será um protetor, não apenas de Aupaba mas de toda Neijyn-Zalla...

E então o sonho terminou.

Quando acordou, com seu corpo encharcado de suor, Jibaoçú se desculpou com sua companheira, pedindo para que a mesma continuasse a dormir enquanto ele iria caminhar, pois estava com o sono agitado.

- Não vá longe demais... Logo mais vai chover...

Não dando atenção às previsões da mulher ele desceu do andar superior de sua oca, passando pelos quartos dos filhos menores e também pelo de Guaraní, seu filho do meio, que ele acreditava anteriormente ser o escolhido, antes de seu sonho. Sem se deter por muito tempo dentro da oca ele logo estava andando pela ocara da aldeia dos Auati.

Iaé brilhava forte no céu, apesar de algumas nuvens, iluminando as ocas, todas feitas com Osso de Tupã que, refletindo a luz que vem do céu noturno, acabam por iluminar toda a aldeia. Mais um dos vários benefícios de usar esse material nas construções, evitando assim o uso de fogo ou mesmo de tochas à noite.

Ele chegou até o poço, feito para levar a água do riacho próximo até a aldeia e, depois de molhar generosamente não apenas o rosto, mas também boa parte do torso nu, ele pegou uma cuia, a encheu e, começando a sorver o líquido gelado, sentiu-se menos agitado, mas a sensação de alívio foi passageira.

- Yo! Aproveitando o ar noturno velho amigo?

O velho índio reagiu com uma velocidade surpreendente para seus mais de sessenta anos, dando um giro completo ao seu redor, pretendendo ver de onde a voz viera.

- Apareça desgraçado... Se é uma última luta que você quer Anhangüera...

- Sinto desapontá-lo... - Ele surgiu entre as sombras de uma das várias árvores existentes pelo meio das ocas, uma horrenda criatura de pele negra e vermelha, ostentando chifres no alto da cabeça e com suas asas de morcego ondulando com a leve brisa noturna. - O mestre está em viagem, mas me deixou incumbido de lhe estender seus cumprimentos por toda uma vida de batalhas memoráveis e...

- O recado está dado Anhato... Nada mais tem a fazer aqui, portanto...

- Calma, calma grande guerreiro... Eu já me vou... Torço para que sua passagem seja longa e dolorosa...

Dito isso, sumindo em uma malcheirosa e silenciosa explosão, o demônio deixou o velho índio às voltas com suas diversas dúvidas “Seria Abaetê realmente a melhor escolha?” Justo ele que jamais demonstrou nenhum interesse em ser o guardião da tribo?

Então começou a chover.

- Pai... Ainda falta muito?

Tirado de seu devaneio, Jibaoçú olha em volta, depois para seu filho e finalmente fala:

- Não... Já chegamos... Puxa... Faz tanto tempo que quase passei do local...

- Hã... Pai... Me desculpe, mas o que esse local tem de tão especial? Quer dizer... Para mim parece apenas mais um pedaço de mato e... Ai! - o velho índio acerta um pequeno soco no alto da cabeça de seu filho. - Doeu...

- Se tem uma coisa que você não deve fazer é discutir com seu velho e sábio pai... - Ele então começa a se sentar, preparando uma desnecessária fogueira e jogando alguns galhos estranhos na mesma, o que preenche o ar com uma fumaça de odor adocicado. - Foi aqui que meu pai me trouxe anos atrás, assim como o pai dele fez e o pai do pai do meu pai e...

- Tudo bem, tudo bem... - O índio mais jovem continua a acariciar o local atingido pelo outro. - Bem... E agora?

- Nos sentamos e aguardamos pelo momento...

- Hã... E esse momento seria...

O velho índio se concentra por um momento e então o ar ao seu redor começa a apresentar uma oscilação, logo se intensificando, mostrando que Jibaoçú está liberando a energia habitual ao se transformar e em pouco instantes ele está totalmente diferente e sua voz ressoa vigorosa:

- Quando você finalmente se tornará o novo guardião dos Auati... O novo Jaguar-Upiara...

Imagem
Tomo um.
Enbirari Kuimbahy.
Por João Norberto da Silva.

Quando o calor e a umidade da floresta começam a se abater sobre pai e filho, fazendo ambos suarem em profusão, fica difícil manter a concentração e então Abaetê abre um pouco seu olho direito, mantendo o esquerdo cerrado, tentando ver se o pai também está sofrendo com o calor.

Percebendo que Jibaoçú não se move, o jovem índio acaba por abrir totalmente seus dois olhos e então ele nota, com crescente assombro, que nem as gotas de suor de seu pai estão se movendo.

- Pai? Pai!

Ele se ergue e, colocando as mãos nos ombros do outro, começa a chacoalhá-lo, mas também sem sucesso, pois o velho índio agora parede uma estátua, não cedendo nenhum centímetro.

Ficando cada vez mais apavorado ao notar que tudo ao seu redor também não está se movendo, além do pesado e sobrenatural silêncio que paira no ar, ele começa a andar de um lado para o outro, sem saber o que fazer, pretendendo voltar para a aldeia atrás de ajuda.

- Por Tupã... A cada vez eles ficam mais e mais desesperados... - Abaetê dá a volta e seus olhos se arregalam quando ele vê quem está falando com ele. - Isso mesmo curumim... Sou um jaguar... Estou falando, por mais impossível que isso possa parecer... Meu nome é Yakecan e sou o espírito que irá transformá-lo no novo Jaguar-Upiara.

Silêncio.

- Ceeeerto... - O animal revira os olhos, mostrando sua impaciência e em seguida se volta para a floresta, continuando a falar sem nem olhar para o índio. - Você vem ou não curumim?

Assim que se vê sozinho na floresta, percebendo que não lhe resta outra alternativa, Abaetê se coloca a seguir o estranho animal.

Alguns minutos de caminhada e logo eles chegam a um trecho onde a floresta começa a ficar menos fechada. As enormes árvores dão lugar a outras menores e as demais plantas vão sendo substituídas por grama e até mesmo essa vai rareando, até que eles se encontram em um lugar semi-árido, com pouquíssima vegetação e cujo calor de Aram ameaça assar quem se aventurar demais por ali.

- Caatinga... - Yakecan diz o nome com óbvia tristeza. - Temos que sempre cuidar de nossas terras curumim, senão isso pode se alastrar para além desse lugar de morte...

- É terrível... O calor... Aqui Aram não traz vida, mas morte com certeza...

- E então curumim? Está pronto? Para, entre outras responsabilidades, evitar ao máximo que isso ocorra com o povo de toda Aupaba?

- Se eu não me sentisse pronto, não estaria aqui... E por que você insiste em me chamar de curumim? Eu já sou um homem crescido e...

- Não para mim curumim... Só será um homem quando voltar para seu pai vivo e pleno de sua decisão...

- Que decisão?

- Por que você quer se tornar o guardião? O que você defenderá?

- Hã... Eu...

- Resposta errada!

O Jaguar se transforma, aumentando absurdamente de tamanho, ao mesmo tempo em que usa suas enormes garras para atacar Abaetê, causando alguns fundos cortes no peito deste, que só não é morto por ter escapado por pouco.

- Mas o quê... AAAARRRGGGHHH!!!!!!!!!

Mais um ataque, dessa vez o animal atinge Abaetê com as costas de sua pata, jogando-o longe.

- Por que você quer se tornar o guardião? O que você defenderá?

- E-eu... Me deixe pensar e... AAAUUUCH!!!!

- Tsc tsc... É melhor me responder corretamente... Curumim...

Yakecan começa a desferir novos golpes e a cada um que acerta o índio, faz com que o mesmo se machuque cada vez mais, sendo lançado contra a áspera areia do local, isso quando ele não acerta o solo rachado e duro, aumentando ainda mais sua dor.

- Por que você quer se tornar o guardião? O que você defenderá?

Mais golpes e mais sangue é lançado ao solo.

- Por que você quer se tornar o guardião? O que você defenderá?

Agora um golpe na cabeça faz um dos olhos de Abaetê se fechar, inchando em seguida, enquanto o gosto de sangue inunda sua boca.

- POR QUE VOCÊ QUER SE TORNAR O GUARDIÃO?!!!! O QUE VOCÊ DEFENDER...

- Chega!!!! - Abaetê segura a pata de Yakecan pouco antes de o animal golpeá-lo novamente e então o ar ao seu redor começa a ondular. - Não deixarei que você me atinja outra vez!!! Meu pai viu em mim o guardião e apesar de eu não concordar, ou sequer ter imaginado tal destino, por respeito a ele eu aceitei! E agora, principalmente depois de ver esse local de morte, eu juro que me tornarei o guardião para proteger não só meu povo, mas toda Aupaba para que nossa terra permaneça viva!!! Juro com todas as forças que me restam!!!

Silêncio.

Aos poucos Yakecan vai baixando sua enorme pata e fica sentado, olhando fixamente nos olhos de Abaetê, ao mesmo tempo em que vai diminuindo até ficar do tamanho normal de um jaguar.

- Boa resposta... Jaguar-Upiara.

Jibaoçú abre seus olhos, se espantando por não estar mais trajado com as roupas do guardião e, com um sorriso nos lábios, ergue o rosto na direção de seu filho.

Abaetê está vestindo uma roupa que lembra os pêlos dos jaguares, além de uma faixa ao redor da cintura com parte caída ao lado de seu corpo, longas luvas negras vão até o meio de seu braço terminando em mais detalhes de pele de jaguar, as botas apresentam um aspecto “peludo”, lembrando a pele do animal e tendo o topo preto, parte do rosto do índio está coberto por uma máscara, que lembra a face de um felino, deixando aparecer apenas a boca dele e seus cabelos alaranjados.

- Até que não ficou ruim filho...

- Na verdade pai... - Abaetê sorri orgulhoso de si mesmo. - Essa roupa ficou bem melhor em mim e... Ai!!!

Mais um soco no alto da cabeça e, mesmo com ela protegida, o jovem índio leva a mão até o local atingido, procurando amenizar a dor.

- Isso é para que você nunca se esqueça de respeitar seu pai...

- Aiii... Certo... E agora, voltamos para casa? Ou ainda teremos mais algum ritual?

- Na verdade. - Yakecan surge ao lado do novo guardião. - O destino vem até nós... Olá Jibaoçú...

- Poderoso Jaguar... - O velho índio faz um cumprimento respeitoso, mas não consegue terminar de falar, pois logo uma algazarra no meio da floresta chama a atenção de todos.

O som lembra o de um animal de tamanho médio correndo como louco, o que deixa pai e filho se preparando para um ataque, enquanto Yakecan permanece calmo e o que surge por entre o mato é algo que pega os índios de surpresa.

- Por Tupã!!!! Jibaoçú!!!!! Me ajuda!!!!!!!!!!!!!!! Jibaoçú!!!!!!!!!! - Um outro índio, aparentando mais idade que o pai de Abaetê, vestido com roupas exageradamente coloridas, acaba tropeçando e caindo de cara aos pés daquele cujo nome não pára de gritar. - AAAAIII!!!!!!!!! Jibaoçú!!!! Você precisa me ajudar!!!!!

- Calma velho Nanbiquara!!! Retoma o fôlego e nos conte o que o está afligindo!!!

- E-eu... Arf... Arf... Certo... - O recém-chegado se ergue, usando um tipo de cajado para se apoiar, agora sendo mais facilmente reconhecido por Abaetê como o pajé da tribo. - Eles a levaram Jibaoçú... Ó, que desgraça... Que desgraça...

- Pela paciência de Tupã... Quem levou o quê Nambiquara?!!!

- F-foi... Não sei bem, mas acho que foi o povo Amazona... Mas o importante é que a levaram!!!!!!!

- O que eles levaram?!!! - Agora pai e filho perguntam em uníssono.

- A Itapitanga!!!!

Continua.

Explicando Aupaba.

Yo! Olá queridos leitores!

Aqui quem fala é o velho Nanbiquara! Gostaram da minha chegada? O tropeção foi um infeliz acidente, mas mesmo assim acho que o brilho da minha participação se manteve grandioso não? Afinal eu trouxe o elemento de ligação para a desculpa de um novo capítulo não é?

Bem, bem, bem... Agora vou explicar o que estou fazendo aqui, logo depois do “Continua.”...

Como todos vocês sabiamente já perceberam, o nosso querido escritor se baseou em termos indígenas brasileiros para compor os personagens desse seu novo título... Então, para evitar muitas frases auto-explicativas, ou que os leitores sejam obrigados a procurar os significados de várias palavras, cá estou eu!

Ao final de cada história eu irei fazer uma lista completa das palavras e nomes usados no texto com seus significados... Primeiro os que o escritor achou no seguinte site: http://www.ufsc.br/~esilva/Dcindio.html e em outros sites (seja lá o que for um site) e em seguira irei explicar os termos criados pelo autor...

Então... Vamos lá? Certo, certo! Sem mais demoras então:

Vou começar, é claro pelo meu belo nome Nanbiquara que significa “fala inteligente, de gente esperta” ou seja tudo a ver comigo!!! Bom... Agora passemos às outras palavras:

Enbirari Kuimbahy: A primeira palavra significa nascer/nascimento e a segunda Guerreiro, numa tradução livre ficaria como Nascimento do guerreiro.
Abaetê: Nome do personagem principal, significa pessoa boa, pessoa de palavra, pessoa honrada.
Jibaoçú: grande braço.
Auati: gente loura, milho, que tem cabelos louros (como o milho). O autor escolheu essa palavra pois os habitantes dessa aldeia têm os cabelos com tons mais puxados pro dourado.
Anhangüera: diabo velho.
Amandy: dia de chuva.
Aupaba: Terra de origem. Por isso o autor escolheu esse nome para o novo continente.
oca: Essa é fácil... É a casa dos índios, que nesse mundo são feitas de Ossos de Tupã.
Guaraní: guerreiro, lutador.
Ocara: praça ou centro de taba, terreiro da aldeia.
Iaé: Lua.
Anhato: Vem de Anhato-mirim, e significa ilha do diabo.
Jaguar-Upiara: Aqui o nome foi composto por um dos modos como a onça é conhecida e o nome Upiara que, numa pesquisa, revelou o seguinte significado: O que luta contra o mal.
curumim: Esse todo mundo já sabe né? É menino.
Yakecan: Esse também foi encontrado numa pesquisa (http://www.significado.origem.nom.br/nomes_indigenas/) e significa: O Som Do Céu.
Aram: Sol.
pajé: feiticeiro, sacerdote, líder espiritual. (Sou eu!!! Sou e!!)
Itapitanga: De pedra vermelha. Claro que não posso dar mais detalhes, senão estraga as surpresas da próxima edição...

Agora algumas palavras criadas pelo autor:

Punho de Tupã: Criação do autor para denominar as armas dos guardiões. Pode variar de tamanho e forma, seguindo o espírito dos escolhidos a se tornarem Jaguar-Upiara.
Neijyn-Zalla: Nome criado pelo autor para o planeta. Mais revelações no futuro.
Osso de Tupã: Um material que lembra um metal, mas com propriedades especiais, que também serão melhor exploradas no futuro.

Bom... Ufa... Terminei meu trabalho hoje... Agora vou cantar umas músicas típicas de meu povo e... Ei! Espera!!! Já?!!! Tá bom... Tá bom... Até a próxima semana pessoal!! Thiangôn!! (isso é tchau na língua dos Pataxós)




E em Breve...

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