Existe uma Shayna dentro de Shayna. Uma Shayna que assusta e amedronta. Quem é ela? O que ela deseja? As verdades começam a ser reveladas a partir do momento em que a jovem abre os seus olhos para sua verdadeira natureza. Quando os olhos de Shayna se abrirem totalmente sua vida nunca mais será a mesma!
As pessoas olhavam para Shayna assustadas. Ela, vendo o olhar de medo e desaprovação de todos, ficou ainda mais apreensiva. Aquele dia estava sendo particularmente terrível para a jovem que não sabia o que fazer.
_ Com licença, com licença! – era uma voz que fez Shayna gelar.
_ Ah não! Ele não! – arregalou os olhos a jovem quando viu o jovem Matim se aproximando. – Socorro! Por favor, chamem a polícia!
_ Olhem pra ela, surtou de vez! – começaram a cochichar os alunos. – Ela está mesmo maluquinha, coitada!
_ Nessa situação é até perigoso. – afirmou outro estudante. – Todos nós corremos risco, gente doida pode até machucar alguém!
_ É o diabo, eu vi! – falou a estudante evangélica. – A voz do diabo fala pela boca dessa mulher e a deixa assim, se alguém se aproximar o diabo vai entrar no corpo dele. Tem que deixar ela só com seus pecados até chamar o pastor!
_ Eu sou o pastor! – gritou um gaiato no fundo. – Deixa essa gostosa comigo no quarto que ela sai de lá sã.
Shayna ficou atônita no meio da confusão pensando: “Em que diabos eu me meti afinal?”
A DUPLA VIDA DE SHAYNA-SHAYNA - Segunda Parte
Não tendo remédio, Shayna acabou novamente se deixando conduzir por Matim. Ele seguia na frente puxando-a pelo braço e cantando: “As garotas do Leblom Não olham mais pra mim (Eu uso óculos). E volta e meia. Eu entro com meu carro pela contramão (Eu tô sem óculos)...” enquanto ela, com cara de poucos amigos, ia chutando folhas e se arrastando.
_ E aí linda, não vai cantar não? Cantar é bom, deixa a gente feliz e espanta os males! – sorriu Matim. – Eu deixo você escolher o que quer cantar!
_ Vá pro inferno!
_ Essa eu não conheço. Fala outra aí.
A garota nada disse, apenas continuou seguindo o rapaz calada.
_ Bom, vou continuar então, lá vai: “Porque você não olha pra mim? Ô ô; Me diz o que é que eu tenho de mal ô ô; Porque você não olha pra mim Por trás dessa lente tem um cara legal”.
A dupla chega ao prédio XV, onde funcionava a faculdade de educação física e logo no corredor encontraram alguns professores.
_ Sahariel-chan! – gritou o garoto correndo até a professora e a abraçando.
_ Veio mesmo me visitar, nanico? E aí, como estão os trabalhos.
_ Maus.
_ Você consegue, tenho fé em você!
_ Como estão meus primos, tem notícia deles?
_ Honorato tem trabalhado muito, o Iure você sabe... Aquele ali para sair de casa só se o mundo estiver acabando!
_ Tenho inveja do Honorato, porque você fica mais colada nele do que eu?
Ela respondeu com um beijinho no rosto do jovem. Shayna não entendeu nada, só achava estranha a relação de amizade entre professora e aluno daquela forma, aliás, ela era professora do quê? Ela não se lembrava de ver Sahariel em lugar algum, pelo menos não naquele campus.
_ Quem é ela? – perguntou Shayna ao professor Carvalho, conhecido dela das aulas de língua portuguesa na faculdade de Educação física.
_ Sahariel é doutora em história, filosofia e psicologia. Ela viaja muito, mas sempre que aparece ajuda demais. É um verdadeiro anjo essa mulher.
_ Obrigada, fico lisonjeada. – sorriu a doutora estendendo a mão para a jovem. – É um prazer em conhecê-la.
Assim que Shayna tocou a mão de Sahariel sentiu dentro dela um grande tremor como um choque elétrico. Foi como se seus olhos tivessem totalmente abertos por alguns instantes e ela tivesse tido acesso a imagens e sentimentos que não possuía antes. Shayna olhou para Sahariel assustada como se perguntasse: “Quem é essa mulher?” e, Sahariel, olhando para ela, tivesse projetado dentro da mente da garota a resposta: “O meu nome significa Mandamento ou Comando de Deus, o anjo que vigia os espíritos pecadores. Não tenha medo Shayna, eu sei quem você é.” Por impulso natural, Shayna abraçou Sahariel e assim permaneceram por um tempo. O professor Carvalho ficou admirado, pois não entendeu nada. Já Matim abriu um largo sorriso.
_ Desculpe. – disse Shayna chorando. – Eu nem sei por que estou fazendo isso...
_ Mas eu sei. – respondeu Sahariel a abraçando com mais força ainda. – Você não está sozinha.
Sahariel tomou a mão de Shayna e as duas começaram a caminhar pelo corredor e a conversar.
_ O que está acontecendo comigo?
_ Você sabe, puxe pela sua mente. Sei que vai se lembrar de tudo.
_ Eu não posso!
_ Não é que não pode, é que você não quer. Não quer porque tem medo e criou um bloqueio. Existe uma Shayna dentro de outra Shayna para que você mantenha o controle sobre daquilo que você tem dentro de você.
_ Controle?...
Shayna parou e colocou a mão na testa, sentiu o corpo suar, e, de repente foi como se tudo a volta desaparecesse e ela se visse no meio de uma floresta totalmente escura. Ela olhou para a mata e uma sombra totalmente negra a observava. Um rugido se ouviu e um par de olhos felinos olhou de forma penetrante para Shayna. A fera abriu a bocarra e os caninos brancos saltaram de forma ameaçadora: Kianumaka-Manã.
_ Viu só. – disse Sahariel olhando para Shayna que se recobrava da visão tão assustada que respirava com dificuldade de forma ofegante. – Esta que viu é a outra Shayna.
_ Como eu me livro deste demônio?
_ Por que quer se livrar de si mesma? – retrucou Sahariel. – Todos os seres humanos possuem um lado sombrio do qual têm medo, mas isso não é uma coisa que pode simplesmente ser extirpado já que faz parte de cada um. Mas você não deve temer o lado sombrio, ele está sob suas ordens e por isso pode ser revertido em algo bom.
_ Não sei o que fazer...
_ Quando as duas Shaynas que existem dentro de você trabalharem juntas não precisará mais ter dúvidas de nada. Só não se esqueça que não serei apenas eu quem lhe oferecerá algo. Cabe a você decidir que oferta acha mais tentadora. Se precisar de mim, não hesite em me procurar.
E Sahariel se foi deixando Shayna, pensativa, parada no corredor.
* * * * *
Como minutos, as horas passaram e Shayna deixou a faculdade, ela caminhava novamente sozinha pela rua, mas desta vez começou a se lembrar de tudo da noite passada. Exatamente no cruzamento que ela passava naquele instante ela perdeu a consciência e só acordou em casa, mas agora ela pôde ver, aliás, depois da conversa que teve com Sahariel ela realmente queria entender o que houve.
Na noite passada, ali, ela sentiu o seu corpo queimar. Seus olhos se abriram para o escuro e a noite se tornou clara como o dia. Seus olhos já não eram mais humanos, eram felinos. Ela disparou pela avenida e saltou sem dificuldades o muro da área militar, caminhou sobre o parapeito como um gato e de lá saltou para um prédio próximo. Ela corria com tanta velocidade que subiu até o topo de um prédio de oito andares percorrendo sem problemas o ângulo de 90 graus da parede. Era como um sonho.
No alto do prédio várias figuras sinistras a aguardavam. No chão havia um prato com um coração humano que ainda batia. Naquela forma ela sentia o cheiro de sangue com muito mais intensidade, foi isso que a atraiu até ali.
_ Estávamos esperando por você, Kianumaka-Manã.
Naquele instante, Shayna acordou novamente. Desta vez estava no mesmo lugar onde começou a visão, bem no cruzamento da rua. Ela lambeu os lábios e sentiu o gosto de sangue como naquela noite e esfregou a mão sentindo a textura das víceras de sua última aventura.
_ Eu... Eu não sou uma boa menina. – disse com pesar.
_ É claro que é, e como é boa!
Shayna deu um tremendo berro saltando para frente bem no meio da avenida, se esta não estivesse vazia por causa do horário na certa teria havido um acidente. Ela olhou para trás assustada e viu Matim sorrindo abanando a mão frenéticamente.
_ Oi mina!
_ Mas o que está fazendo afinal? Por acaso está me seguindo?
_ É quase meia noite, é perigoso para uma mulher sair por aí sozinha neste horário em uma cidade grande! Aliás, é perigoso para qualquer um! – em seguida abriu bem os braços como se fosse abraçar a moça e disparou. – Pensando na sua segurança eu vim aqui para te acompanhar até em casa e não precisa me agradecer! Faço isso porque sou alguém que te ama!
O tênis da moça voou pelos ares e atingiu em cheio o olho esquerdo do garoto que caiu estirado no chão.
_ Se manda daqui! – gritou ela. – Você é muito chato! Vai pra casa e me deixa em paz, garoto irritante! Vá embora tomar o seu chazinho com a mamãe e não me aborreça!
_ Mas eu nunca tive mãe!
Shayna estacou. Por alguns minutos o silêncio foi constrangedor.
_ Desculpe. – disse ela por fim. – Juro que não queria ofender.
_ Não me ofende não. – riu ele. – Também não tenho casa e nem família, então fica tudo mais fácil, portanto se você se sentir melhor me chamando de indigente também não me importa porque de certa maneira sou mesmo! Pode xingar a vontade!
_ Não vou xingar você, hoje tive um dia ruim, só isso. – falou Shayna de forma firme. Ela virou-se e começou a caminhar. – Venha, você falou que ia me levar em casa, não foi?
_ Claro! – respondeu sorrindo o garoto que logo se pôs ao lado dela a caminhar. – Sou o melhor companheiro do mundo! Eu posso até cantar uma música tipo aquela dos Titãs: “O pulso ainda pulsa”.
_ Pelo amor de Deus, sem cantar, tá bom?
_ Posso assobiar?
_ Não.
_ E fazer assim: “hum, huuuuuumm, hum, hum, hum”...?
* * * * *
Shayna acordou às nove horas com o barulho do celular tocando. Ela levantou-se assustada, mas depois se acalmou... Não estava mais empregada. Ela olhou para o painel do celular e identificou o nome de Violeta.
_ Violeta, tudo bem?
_ Sim! Amiga, você me falou que está desempregada, não é? Olha, me encontra na Praça Carlos Pires que vou te levar a um lugar legal, acho que vai gostar.
Com a possibilidade de emprego, Shayna foi logo se arrumando e indo para o local combinado. Uma hora depois ela e a amiga já estavam juntas e caminharam para um prédio com fachada bem cuidada. No elevador Violeta começou a explicar a situação:
_ Quero que conheça alguns amigos meus, eles são ricos. Eles sempre me apoiaram na época de vacas magras de patrocínio. Quando falei deles sobre você ficaram entusiasmados e quiseram te conhecer. Acho que você pode fazer parte dos planos deles.
Elas saíram do elevador e entraram no apartamento 1408. Era uma sala comercial preparada apenas para reuniões, quando Shayna se sentou estava assustada, era como se todos ali esperassem por ela.
_ Olá, meu nome é Renet, Violeta falou muito sobre você.
_ Devem prezar muito pela Violeta, não esperava uma entrevista de emprego tão rápido assim e...
_ Na verdade não é uma entrevista de emprego, é algo maior e melhor. Primeiramente quero que conheça todos aqui. – Renet se levantou e os membros da mesa começaram a saudar Shayna. – A esquerda temos o senhor Victor, o senhor Quaresma, o senhor Andrey, a senhorita Constance, e o senhor Benjamim. À direita a senhorita Euvira, a senhorita Bella, o senhor Brandey, senhor Cabot, senhorita Tatiana e, é claro, sua amiga Violeta.
_ Pelo que vejo muitos aqui tem nomes estrangeiros. – sorriu Shayna. – Sei que o meu não é brasileiro, mas não posso deixar de perguntar sobre a família de vocês.
Neste momento Shayna reparou que Cabot fechou a cara como se estivesse incomodado com ela e com o clima, Renet, porém continuou.
_ Você tem razão, se pensar bem o Brasil é fruto de várias misturas de diversos países em diversas épocas. Digamos que somos na verdade um grupo fechado multicultural com pais de várias partes do mundo. Somos um clube reservado e temos um número limitado de membros.
Quando Renet falou aquilo, Shayna franziu a testa ao ver uma das poltronas da mesa vazio, por conveniência achou melhor não perguntar o motivo.
_ Estou curiosa para saber o motivo de estarem comigo aqui.
_ Queremos que você seja uma de nós. – respondeu em um sorriso, Renet. – Nós podemos lhe oferecer uma eternidade de conforto e luxúria, algo muito melhor do que sofrer em uma universidade ou carregar caixas de sapatos em lojas de conveniência.
_ E por que eu?
_ Porque você tem o dom.
Neste instante, Euvira pegou um grande e pesado livro com uma capa feita de couro negro e colocou sobre a mesa. O livro antigo cheirava a coisa podre e velha, na capa estava escrito Onairpic em sangue com as letras desenhadas aparentemente com o dedo. Shayna, ao ver o livro, franziu a testa e sentiu repulsa. Renet, sentindo o desconforto da hóspede, continuou:
_ Para você nos entender, é necessário conhecer um pouco de história. No começo do século IV, em Antioquia da Síria, havia uma jovem chamada Justa afirmou que conversou com o próprio Cristo. A garota pagã foi batizada e passou a ser uma cristã assídua. Um jovem de nome Aglaidas se apaixonou por ela e pediu-a em casamento, entretanto Justa recusou o convite preferindo a virgindade monástica. Aglaidas, contrariado, foi atrás de um poderoso mago chamado Cipriano prometendo grande quantia de dinheiro. Cipriano então evocou um demônio que prometeu entregar a moça dentro de seis dias. O maligno apresentou-se a jovem sob a aparência de uma moça e a tentou a romper seus votos, mas Justa permaneceu firme e o esconjurou.”
“Cipriano então pediu ao Maligno que lhe dissesse por que foi derrotado. Após um pacto de fidelidade, o diabo respondeu que o poder de Cristo ultrapassava o poder das trevas. Cipriano, furioso, ordenou que o demônio desaparecesse, mas o Maligno tentou matá-lo. Usando o sinal da cruz Cipriano repeliu o ser do mal e depois do ocorrido converteu-se ao cristianismo e destruiu todos os seus ídolos. A única exceção foi um livro que já não estava de posse dele.”
_ Este livro que aqui está. – emendou Quaresma. – Esta é a temida Bíblia do Diabo, exemplar que ele possuía antes de se converter ao Cristianismo. É um livro poderoso quando usado de maneira adequada.
_ Nosso grupo completou recentemente duzentos e cinqüenta anos, ganhamos a imortalidade e deixamos de envelhecer desde o nosso pacto. – falou Andrey. – Nós somos os mesmos desde aquela época e sempre com os mesmos treze membros. Enriquecemos e prosperamos estudando as artes mágicas deste livro, você entende?
_ O único problema é que quando ganhamos a imortalidade passamos a precisar de tempos em tempos de fazer rituais com sacrifícios humanos para o nosso bem-feitor. – era Euvira quem entrava na conversa. – Quando éramos humanos a polícia nos incomodava, mas conseguíamos nos livrar com facilidade, mas agora...
_ ...Agora não somos mais considerados humanos, se me entende. – tomou a palavra Renet. – E com isso chamamos a atenção de um tipo de polícia que realmente tem nos causado grandes prejuízos desde então e cada vez mais tem nos encurralado e nos ameaçado.
_ Que tipo de polícia? – perguntou Shayna, atenta a tudo.
_ Exorcistas. – suspirou Bella. – Existem basicamente na ordem celestial dois tipos, um é formado por sacerdotes de Deus, que esconjuram demônios a nível humano. Estes são encontrados em igrejas e templos de diversas religiões, mas quando o demônio se manifesta fisicamente e tira a vida de pessoas inocentes existe uma categoria avançada que cuida destes problemas. Exorcistas Encantados são heróis lendários com poder capaz de esconjurar demônios considerados de risco ao direito da vida humana. Eles atuam em diversos planos e até mundos, na mitologia brasileira heróis como Beb-Kororoti, Cobra-Honorato, Jaguar-Upiara e Kaluaná são exemplos deles.
_ E Violeta... Ela faz parte do grupo de vocês?
_ Ela é uma novata de grande talento. – sorriu Renet. – Afinal, ela trouxe você para nós. Precisamos de um guarda-costas de qualidade para trabalhar em paz. Sabemos quem você é realmente e o que é capaz de fazer, Kianumaka-Manã.
Shayna baixou a cabeça e ficou em silêncio. Não sabia o que fazer, estava confusa e ao mesmo tempo estava sentindo repulsa por tudo aquilo. Naquele tempo Cabot levantou-se irritado.
_ Ela não vai nos ajudar, isso tudo é perda de tempo! Podemos muito bem continuar nos defendendo evocando demônios. Veja o que aconteceu da última vez, meu irmão acabou morto!
_ Contenha-se Cabot! – gritou Renet. – Aquilo que aconteceu só foi possível por causa da intervenção daquele exorcista.
Como um raio, Cabot saltou da cadeira e foi parar atrás de Shayna e antes que alguém ali pudesse fazer algo ele a golpeou violentamente na nuca.
Shayna caiu sobre a mesa e os seus olhos se fecharam lentamente.
{Último episódio da saga daqui 15 dias...}
E com vocês, mais uma aventura da "Estranha Vida de Shayna-Shayna"

_ Com licença, com licença! – era uma voz que fez Shayna gelar.
_ Ah não! Ele não! – arregalou os olhos a jovem quando viu o jovem Matim se aproximando. – Socorro! Por favor, chamem a polícia!
_ Olhem pra ela, surtou de vez! – começaram a cochichar os alunos. – Ela está mesmo maluquinha, coitada!
_ Nessa situação é até perigoso. – afirmou outro estudante. – Todos nós corremos risco, gente doida pode até machucar alguém!
_ É o diabo, eu vi! – falou a estudante evangélica. – A voz do diabo fala pela boca dessa mulher e a deixa assim, se alguém se aproximar o diabo vai entrar no corpo dele. Tem que deixar ela só com seus pecados até chamar o pastor!
_ Eu sou o pastor! – gritou um gaiato no fundo. – Deixa essa gostosa comigo no quarto que ela sai de lá sã.
Shayna ficou atônita no meio da confusão pensando: “Em que diabos eu me meti afinal?”
A DUPLA VIDA DE SHAYNA-SHAYNA - Segunda Parte
Não tendo remédio, Shayna acabou novamente se deixando conduzir por Matim. Ele seguia na frente puxando-a pelo braço e cantando: “As garotas do Leblom Não olham mais pra mim (Eu uso óculos). E volta e meia. Eu entro com meu carro pela contramão (Eu tô sem óculos)...” enquanto ela, com cara de poucos amigos, ia chutando folhas e se arrastando.
_ E aí linda, não vai cantar não? Cantar é bom, deixa a gente feliz e espanta os males! – sorriu Matim. – Eu deixo você escolher o que quer cantar!
_ Vá pro inferno!
_ Essa eu não conheço. Fala outra aí.
A garota nada disse, apenas continuou seguindo o rapaz calada.
_ Bom, vou continuar então, lá vai: “Porque você não olha pra mim? Ô ô; Me diz o que é que eu tenho de mal ô ô; Porque você não olha pra mim Por trás dessa lente tem um cara legal”.
A dupla chega ao prédio XV, onde funcionava a faculdade de educação física e logo no corredor encontraram alguns professores.
_ Sahariel-chan! – gritou o garoto correndo até a professora e a abraçando.
_ Veio mesmo me visitar, nanico? E aí, como estão os trabalhos.
_ Maus.
_ Você consegue, tenho fé em você!
_ Como estão meus primos, tem notícia deles?
_ Honorato tem trabalhado muito, o Iure você sabe... Aquele ali para sair de casa só se o mundo estiver acabando!
_ Tenho inveja do Honorato, porque você fica mais colada nele do que eu?
Ela respondeu com um beijinho no rosto do jovem. Shayna não entendeu nada, só achava estranha a relação de amizade entre professora e aluno daquela forma, aliás, ela era professora do quê? Ela não se lembrava de ver Sahariel em lugar algum, pelo menos não naquele campus.
_ Quem é ela? – perguntou Shayna ao professor Carvalho, conhecido dela das aulas de língua portuguesa na faculdade de Educação física.
_ Sahariel é doutora em história, filosofia e psicologia. Ela viaja muito, mas sempre que aparece ajuda demais. É um verdadeiro anjo essa mulher.
_ Obrigada, fico lisonjeada. – sorriu a doutora estendendo a mão para a jovem. – É um prazer em conhecê-la.
Assim que Shayna tocou a mão de Sahariel sentiu dentro dela um grande tremor como um choque elétrico. Foi como se seus olhos tivessem totalmente abertos por alguns instantes e ela tivesse tido acesso a imagens e sentimentos que não possuía antes. Shayna olhou para Sahariel assustada como se perguntasse: “Quem é essa mulher?” e, Sahariel, olhando para ela, tivesse projetado dentro da mente da garota a resposta: “O meu nome significa Mandamento ou Comando de Deus, o anjo que vigia os espíritos pecadores. Não tenha medo Shayna, eu sei quem você é.” Por impulso natural, Shayna abraçou Sahariel e assim permaneceram por um tempo. O professor Carvalho ficou admirado, pois não entendeu nada. Já Matim abriu um largo sorriso.
_ Desculpe. – disse Shayna chorando. – Eu nem sei por que estou fazendo isso...
_ Mas eu sei. – respondeu Sahariel a abraçando com mais força ainda. – Você não está sozinha.
Sahariel tomou a mão de Shayna e as duas começaram a caminhar pelo corredor e a conversar.
_ O que está acontecendo comigo?
_ Você sabe, puxe pela sua mente. Sei que vai se lembrar de tudo.
_ Eu não posso!
_ Não é que não pode, é que você não quer. Não quer porque tem medo e criou um bloqueio. Existe uma Shayna dentro de outra Shayna para que você mantenha o controle sobre daquilo que você tem dentro de você.
_ Controle?...
Shayna parou e colocou a mão na testa, sentiu o corpo suar, e, de repente foi como se tudo a volta desaparecesse e ela se visse no meio de uma floresta totalmente escura. Ela olhou para a mata e uma sombra totalmente negra a observava. Um rugido se ouviu e um par de olhos felinos olhou de forma penetrante para Shayna. A fera abriu a bocarra e os caninos brancos saltaram de forma ameaçadora: Kianumaka-Manã.
_ Viu só. – disse Sahariel olhando para Shayna que se recobrava da visão tão assustada que respirava com dificuldade de forma ofegante. – Esta que viu é a outra Shayna.
_ Como eu me livro deste demônio?
_ Por que quer se livrar de si mesma? – retrucou Sahariel. – Todos os seres humanos possuem um lado sombrio do qual têm medo, mas isso não é uma coisa que pode simplesmente ser extirpado já que faz parte de cada um. Mas você não deve temer o lado sombrio, ele está sob suas ordens e por isso pode ser revertido em algo bom.
_ Não sei o que fazer...
_ Quando as duas Shaynas que existem dentro de você trabalharem juntas não precisará mais ter dúvidas de nada. Só não se esqueça que não serei apenas eu quem lhe oferecerá algo. Cabe a você decidir que oferta acha mais tentadora. Se precisar de mim, não hesite em me procurar.
E Sahariel se foi deixando Shayna, pensativa, parada no corredor.
* * * * *
Como minutos, as horas passaram e Shayna deixou a faculdade, ela caminhava novamente sozinha pela rua, mas desta vez começou a se lembrar de tudo da noite passada. Exatamente no cruzamento que ela passava naquele instante ela perdeu a consciência e só acordou em casa, mas agora ela pôde ver, aliás, depois da conversa que teve com Sahariel ela realmente queria entender o que houve.
Na noite passada, ali, ela sentiu o seu corpo queimar. Seus olhos se abriram para o escuro e a noite se tornou clara como o dia. Seus olhos já não eram mais humanos, eram felinos. Ela disparou pela avenida e saltou sem dificuldades o muro da área militar, caminhou sobre o parapeito como um gato e de lá saltou para um prédio próximo. Ela corria com tanta velocidade que subiu até o topo de um prédio de oito andares percorrendo sem problemas o ângulo de 90 graus da parede. Era como um sonho.
No alto do prédio várias figuras sinistras a aguardavam. No chão havia um prato com um coração humano que ainda batia. Naquela forma ela sentia o cheiro de sangue com muito mais intensidade, foi isso que a atraiu até ali.
_ Estávamos esperando por você, Kianumaka-Manã.
Naquele instante, Shayna acordou novamente. Desta vez estava no mesmo lugar onde começou a visão, bem no cruzamento da rua. Ela lambeu os lábios e sentiu o gosto de sangue como naquela noite e esfregou a mão sentindo a textura das víceras de sua última aventura.
_ Eu... Eu não sou uma boa menina. – disse com pesar.
_ É claro que é, e como é boa!
Shayna deu um tremendo berro saltando para frente bem no meio da avenida, se esta não estivesse vazia por causa do horário na certa teria havido um acidente. Ela olhou para trás assustada e viu Matim sorrindo abanando a mão frenéticamente.
_ Oi mina!
_ Mas o que está fazendo afinal? Por acaso está me seguindo?
_ É quase meia noite, é perigoso para uma mulher sair por aí sozinha neste horário em uma cidade grande! Aliás, é perigoso para qualquer um! – em seguida abriu bem os braços como se fosse abraçar a moça e disparou. – Pensando na sua segurança eu vim aqui para te acompanhar até em casa e não precisa me agradecer! Faço isso porque sou alguém que te ama!
O tênis da moça voou pelos ares e atingiu em cheio o olho esquerdo do garoto que caiu estirado no chão.
_ Se manda daqui! – gritou ela. – Você é muito chato! Vai pra casa e me deixa em paz, garoto irritante! Vá embora tomar o seu chazinho com a mamãe e não me aborreça!
_ Mas eu nunca tive mãe!
Shayna estacou. Por alguns minutos o silêncio foi constrangedor.
_ Desculpe. – disse ela por fim. – Juro que não queria ofender.
_ Não me ofende não. – riu ele. – Também não tenho casa e nem família, então fica tudo mais fácil, portanto se você se sentir melhor me chamando de indigente também não me importa porque de certa maneira sou mesmo! Pode xingar a vontade!
_ Não vou xingar você, hoje tive um dia ruim, só isso. – falou Shayna de forma firme. Ela virou-se e começou a caminhar. – Venha, você falou que ia me levar em casa, não foi?
_ Claro! – respondeu sorrindo o garoto que logo se pôs ao lado dela a caminhar. – Sou o melhor companheiro do mundo! Eu posso até cantar uma música tipo aquela dos Titãs: “O pulso ainda pulsa”.
_ Pelo amor de Deus, sem cantar, tá bom?
_ Posso assobiar?
_ Não.
_ E fazer assim: “hum, huuuuuumm, hum, hum, hum”...?
* * * * *
Shayna acordou às nove horas com o barulho do celular tocando. Ela levantou-se assustada, mas depois se acalmou... Não estava mais empregada. Ela olhou para o painel do celular e identificou o nome de Violeta.
_ Violeta, tudo bem?
_ Sim! Amiga, você me falou que está desempregada, não é? Olha, me encontra na Praça Carlos Pires que vou te levar a um lugar legal, acho que vai gostar.
Com a possibilidade de emprego, Shayna foi logo se arrumando e indo para o local combinado. Uma hora depois ela e a amiga já estavam juntas e caminharam para um prédio com fachada bem cuidada. No elevador Violeta começou a explicar a situação:
_ Quero que conheça alguns amigos meus, eles são ricos. Eles sempre me apoiaram na época de vacas magras de patrocínio. Quando falei deles sobre você ficaram entusiasmados e quiseram te conhecer. Acho que você pode fazer parte dos planos deles.
Elas saíram do elevador e entraram no apartamento 1408. Era uma sala comercial preparada apenas para reuniões, quando Shayna se sentou estava assustada, era como se todos ali esperassem por ela.
_ Olá, meu nome é Renet, Violeta falou muito sobre você.
_ Devem prezar muito pela Violeta, não esperava uma entrevista de emprego tão rápido assim e...
_ Na verdade não é uma entrevista de emprego, é algo maior e melhor. Primeiramente quero que conheça todos aqui. – Renet se levantou e os membros da mesa começaram a saudar Shayna. – A esquerda temos o senhor Victor, o senhor Quaresma, o senhor Andrey, a senhorita Constance, e o senhor Benjamim. À direita a senhorita Euvira, a senhorita Bella, o senhor Brandey, senhor Cabot, senhorita Tatiana e, é claro, sua amiga Violeta.
_ Pelo que vejo muitos aqui tem nomes estrangeiros. – sorriu Shayna. – Sei que o meu não é brasileiro, mas não posso deixar de perguntar sobre a família de vocês.
Neste momento Shayna reparou que Cabot fechou a cara como se estivesse incomodado com ela e com o clima, Renet, porém continuou.
_ Você tem razão, se pensar bem o Brasil é fruto de várias misturas de diversos países em diversas épocas. Digamos que somos na verdade um grupo fechado multicultural com pais de várias partes do mundo. Somos um clube reservado e temos um número limitado de membros.
Quando Renet falou aquilo, Shayna franziu a testa ao ver uma das poltronas da mesa vazio, por conveniência achou melhor não perguntar o motivo.
_ Estou curiosa para saber o motivo de estarem comigo aqui.
_ Queremos que você seja uma de nós. – respondeu em um sorriso, Renet. – Nós podemos lhe oferecer uma eternidade de conforto e luxúria, algo muito melhor do que sofrer em uma universidade ou carregar caixas de sapatos em lojas de conveniência.
_ E por que eu?
_ Porque você tem o dom.
Neste instante, Euvira pegou um grande e pesado livro com uma capa feita de couro negro e colocou sobre a mesa. O livro antigo cheirava a coisa podre e velha, na capa estava escrito Onairpic em sangue com as letras desenhadas aparentemente com o dedo. Shayna, ao ver o livro, franziu a testa e sentiu repulsa. Renet, sentindo o desconforto da hóspede, continuou:
_ Para você nos entender, é necessário conhecer um pouco de história. No começo do século IV, em Antioquia da Síria, havia uma jovem chamada Justa afirmou que conversou com o próprio Cristo. A garota pagã foi batizada e passou a ser uma cristã assídua. Um jovem de nome Aglaidas se apaixonou por ela e pediu-a em casamento, entretanto Justa recusou o convite preferindo a virgindade monástica. Aglaidas, contrariado, foi atrás de um poderoso mago chamado Cipriano prometendo grande quantia de dinheiro. Cipriano então evocou um demônio que prometeu entregar a moça dentro de seis dias. O maligno apresentou-se a jovem sob a aparência de uma moça e a tentou a romper seus votos, mas Justa permaneceu firme e o esconjurou.”
“Cipriano então pediu ao Maligno que lhe dissesse por que foi derrotado. Após um pacto de fidelidade, o diabo respondeu que o poder de Cristo ultrapassava o poder das trevas. Cipriano, furioso, ordenou que o demônio desaparecesse, mas o Maligno tentou matá-lo. Usando o sinal da cruz Cipriano repeliu o ser do mal e depois do ocorrido converteu-se ao cristianismo e destruiu todos os seus ídolos. A única exceção foi um livro que já não estava de posse dele.”
_ Este livro que aqui está. – emendou Quaresma. – Esta é a temida Bíblia do Diabo, exemplar que ele possuía antes de se converter ao Cristianismo. É um livro poderoso quando usado de maneira adequada.
_ Nosso grupo completou recentemente duzentos e cinqüenta anos, ganhamos a imortalidade e deixamos de envelhecer desde o nosso pacto. – falou Andrey. – Nós somos os mesmos desde aquela época e sempre com os mesmos treze membros. Enriquecemos e prosperamos estudando as artes mágicas deste livro, você entende?
_ O único problema é que quando ganhamos a imortalidade passamos a precisar de tempos em tempos de fazer rituais com sacrifícios humanos para o nosso bem-feitor. – era Euvira quem entrava na conversa. – Quando éramos humanos a polícia nos incomodava, mas conseguíamos nos livrar com facilidade, mas agora...
_ ...Agora não somos mais considerados humanos, se me entende. – tomou a palavra Renet. – E com isso chamamos a atenção de um tipo de polícia que realmente tem nos causado grandes prejuízos desde então e cada vez mais tem nos encurralado e nos ameaçado.
_ Que tipo de polícia? – perguntou Shayna, atenta a tudo.
_ Exorcistas. – suspirou Bella. – Existem basicamente na ordem celestial dois tipos, um é formado por sacerdotes de Deus, que esconjuram demônios a nível humano. Estes são encontrados em igrejas e templos de diversas religiões, mas quando o demônio se manifesta fisicamente e tira a vida de pessoas inocentes existe uma categoria avançada que cuida destes problemas. Exorcistas Encantados são heróis lendários com poder capaz de esconjurar demônios considerados de risco ao direito da vida humana. Eles atuam em diversos planos e até mundos, na mitologia brasileira heróis como Beb-Kororoti, Cobra-Honorato, Jaguar-Upiara e Kaluaná são exemplos deles.
_ E Violeta... Ela faz parte do grupo de vocês?
_ Ela é uma novata de grande talento. – sorriu Renet. – Afinal, ela trouxe você para nós. Precisamos de um guarda-costas de qualidade para trabalhar em paz. Sabemos quem você é realmente e o que é capaz de fazer, Kianumaka-Manã.
Shayna baixou a cabeça e ficou em silêncio. Não sabia o que fazer, estava confusa e ao mesmo tempo estava sentindo repulsa por tudo aquilo. Naquele tempo Cabot levantou-se irritado.
_ Ela não vai nos ajudar, isso tudo é perda de tempo! Podemos muito bem continuar nos defendendo evocando demônios. Veja o que aconteceu da última vez, meu irmão acabou morto!
_ Contenha-se Cabot! – gritou Renet. – Aquilo que aconteceu só foi possível por causa da intervenção daquele exorcista.
Como um raio, Cabot saltou da cadeira e foi parar atrás de Shayna e antes que alguém ali pudesse fazer algo ele a golpeou violentamente na nuca.
Shayna caiu sobre a mesa e os seus olhos se fecharam lentamente.
{Último episódio da saga daqui 15 dias...}
E com vocês, mais uma aventura da "Estranha Vida de Shayna-Shayna"
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