Novo arco de Contos Apócrifos. Profany disse não a Lúcifer, e também a Gabriel. Ainda confuso e perdido nesse novo mundo, ele conta com a amizade inquebrantável de Noriel e ainda conhecerá uma nova aliada. Como será seu caminho daqui pra frente?
Por: Anderson Oliveira
06. O Rei-Druida— parte 1.
Repouso.
Imundo. Profaniel se sente imundo. O sangue daqueles vermes que acabou de matar fede. Não. Agora ele se chama Profany, como mesmo disse. Mas isso não muda o fato de ele se sentir imundo. Daria tudo por um riacho onde mergulhar e lavar suas roupas. Será que ainda existem riachos nesse novo mundo? Tudo é tão estranho. Ele tenta ver por baixo da deterioração, das pichações e da fuligem e imagina casas de tijolos bem feitas e coladas uma na outra. Construções planejadas. Árvores a cada passo, hoje apenas tocos carbonizados. Bem diferentes das que conheceu.
Vê carcaças de objetos por ele desconhecidos. Algo como carruagens de metal e vidro, com rodas de algo preto, como piche endurecido, porém sem arreios ou estribos, como se não precisasse de cavalos para puxar-lhes. Um mundo que seria até admirável, se não fosse a guerra que Lúcifer trouxe. Veja só o chão onde pisa, algo parece lhe dizer, e ele nota que o chão é forrado de algo preto, como um tapete que cobre as ruas. É algo como o piche endurecido das rodas dos veículos estranhos. Nada do barro de antes. Nem mesmo o avançado cascalho em algumas regiões que antes havia. Ao redor do tapete preto, elevações são feitas de pedra, talvez o mesmo material das casas. Ele não sabe dizer.
Talvez em alguma dessas casas abandonadas ele consiga água. Já havia água encanada em seu tempo. Com esse pensamento ele dobra e entra na primeira casa a sua esquerda. Não há dificuldade em vencer o porão destruído. E mesmo que houvesse, o muro não tem mais do que um metro de altura para ser pulado. Sem dificuldade também ele abre a porta de madeira. Talvez sua força tenha ajudado nesse quesito. O interior da casa é escuro, deteriorado e com um forte bafo fétido, mas que Profany logo se acostuma. Teias de aranha pendem por todos os lados e a poeira (ou seriam cinzas?) cobre tudo que ainda resta de pé.
Profany entra mais e acha o que deveria ser a cozinha. Uma pia suja e gasta bem à sua direita. Ele abre a velha torneira e primeiro sai um lodo preto e mal cheiroso. Mas depois vem água, no começo amarela, mas que vai clareando aos poucos. A primeira coisa que Profany faz e jogar essa água no rosto, empapando seus cabelos e também o capuz do sobretudo. É então que percebe a “máscara” que cobre sua boca e nariz. Grudada em sua carne como a casca de uma ferida. A marca que Lúcifer lhe deixou, para que ele não se esqueça...
— Profaniel! — uma voz sussurra e Profany se assusta. Mas logo vê que Noriel se escora no batente na porta da cozinha, com o cajado já a escapar da mão trêmula. Seu rosto branco e olhos vermelhos. Profany tinha se esquecido dele, tamanho era seu ódio. Seu amigo, que o buscou nas profundezas do Abismo. E mais uma vez Profany tem vergonha de si.
Mas antes que pudesse ao menos pedir desculpas, vê Noriel cair sem sentidos, em cima de seu cajado, levantando a poeira do piso velho. Rapidamente vai ao seu encontro, não se importando em deixar a torneira aberta, na verdade nem mesmo percebendo isso. Apenas pega seu amigo nos braços e o deixa no outro cômodo, no que parece ser um sofá. Profany mede seu pulso e constata que Noriel está vivo. Seu corpo treme, ele tem febre. O barulho doído de sua barriga faz Profany perceber. Noriel tem fome. Depois de algum ritual pagão que o levou e o trouxe do inferno e sabe-se lá quanto tempo o acompanhando pelas ruas de Londres. Noriel está fraco. Profany não deixa de ver a ironia, vendo aquele que fora um anjo de Deus padecer pela fome.
Então ele se levanta e volta para a cozinha, usando uma tigela deixada ao lado da pia para aparar alguma água. Não sem antes lavá-la bem, claro. Depois vasculha os armários a procura de comida. E a encontra, mais em situações deploráveis que nem atreveria a entregar a Noriel. É quando ouve um barulho vindo da sala. Noriel acordou? Ele pega a tigela com água e se dirige para lá quando pensa, parando de súbito antes da porta: não é Noriel. Com o máximo de silêncio ele deixa a tigela sobre a pia e puxa de um faqueiro grudento de sujeira uma grande faca, de bom aço inoxidável que reluz à parca iluminação que vem da janela. Se esgueira pela parede adjacente e joga o olhar para ver quem invadiu a casa. E ele vê.
Junto ao sofá onde Noriel está deitado, a figura esguia e frágil de uma garota se ajoelha e parece examinar o nefilim. A garota tem cabelo curto e escuro, cortado de forma irregular. Suas costas são finas e brancas, com alguns hematomas e cortes. Veste uma pequena blusa de couro e calça jeans – ainda que Profany não saiba o que seja isso – e deixou ao seu lado uma grande bolsa. Profany entra na sala, fazendo um silêncio quase místico, fantasmagórico, com a faca firme na mão, mas abaixada. De repente a garota lhe dirige o olhar, e ele nota a cicatriz na diagonal que cruza seu belo rosto. No seu olhar, determinação e frieza, como um soldado que viu os horrores da guerra. Talvez ela seja isso mesmo.
— Seu amigo está entrando em choque. — ela diz, e de relance Profany vê Noriel sofrendo convulsões. Mas o nofilim continua de pé, inerte e imóvel, como alienado deste mundo. A garota esconde um ríspido olhar de decepção e vai até sua bolsa, revirando as coisas lá dentro. — Acho que tenho aqui o que pode ajudar... — ela diz buscando algo. Profany a olha com olhos rápidos. Será que vai sacar alguma arma? Não, pois ele vê que ela tira é um saco de papel parto, amassado e velho. A garota se levanta e vai em sua direção. — Preciso de água.
— Aqui tem água. — Profany finalmente diz, apontando para a tigela que deixou na pia. A garota vai até lá, e Profany nota que ela é bem baixa, não passado da altura de seu peito. Mais baixa que Kate fora.
A garota desembrulha o saco de papel e dele tira um outro saco, este de plástico, e dele tira cubos de açúcar. Ainda do saco de papel tira outros saquinhos de plástico, com substâncias de variadas cores, que Profany julga serem especiarias. E em um desses sacos a garota encontra o que procura. Sal. Despeja junto com o açúcar na água e mistura tudo com a mão. Depois volta com a tigela para a sala e vai até Noriel dizendo a Profany:
— Me ajude aqui. Levante-o. — e assim ele o faz, deixando a faca cair de sua mão e fincar no assoalho do chão. Profany levanta a cabeça de Noriel, este muito frio e suando muito, enquanto a garota o faz beber lentamente sua mistura. — Isso é soro caseiro. Ele está desidratado e com fome. Mas se comesse algo sólido ou mesmo bebesse água, iria vomitar. Primeiro deve beber isso, e quando ficar mais forte, poderá comer. — Profany ouve tudo com atenção, ainda que ela não o olhe nos olhos enquanto fala. Está concentrada na sua atividade. Noriel engole o soro com dificuldade, deixando grandes porções do líquido escorrerem no seu peito. Mas depois de um tempo parece recuperar o ânimo. Profany pode jurar que o sente mais quente e é com clareza que vê que a tremedeira passou. Com um pouco do soro na tigela, a garota a deixa de lado e diz: — agora ele precisa descansar.
A garota deixa a água no chão e limpa sua testa com o antebraço, olhando ao redor, como se procurasse algo até parar e perceber que não está onde pensar estar. Nisso, seu olhar reflete uma tristeza que Profany conhece bem: a dor da perda. Ele, por sua vez, deixa Noriel confortavelmente deitado e se levanta, ainda com o corpo sujo de sangue e agravado pela sujeira daquela casa que elegeu como abrigo. A garota ajeita as coisas na bolsa e Profany pode ver ali facas e punhais, além de armas que parecem sofisticados mosquetes de sua época. Só então, após fitar novamente o rosto da garota, ele a reconhece.
— Você estava lá... Eu... Te soltei.
— Sim. — ela diz, e por um momento seu olhar encontra o dele. Olhos castanhos acinzentados que transmitem dor e abandono. Será assim os olhos de toda a humanidade agora? — Meu nome é Liza. Não tinha para onde ir e.... Bem, achei que poderia te... Acompanhar.
Profany já formava em sua garganta a frase “Não preciso de companhia”, mas visto que graças a ela Noriel estava se recuperando, ele resolveu guardar tal frase para outro momento. Por ora ficou calado, e viu que Liza não fazia questão de resposta, nem mesmo um obrigado ou qualquer outra coisa. E ele achou por bem assim. Não que quisesse sua companhia ou de qualquer outro mortal. Mas não iria dizer isso nesse momento.
— Vocês são nefilins? — ela perguntou, pegando o outro de surpresa em seu devaneio. Ainda arrumando sua bolsa, ela continuou. — São bem altos para a maioria dos homens, este aí deitado se veste como se estivesse num filme bíblico, e você tem um jeito abobalhado que todos eles têm. Apesar que, pelo que você fez com aqueles caras, de bobo não tenha nada, creio. É mais sinistro que todos eles, com certeza. Parece mais um demônio. — Apesar da colocação, Profany não deixou de lado seu olhar sério e em até certo ponto confuso.
— Não sou nefilim — diz —, nem demônio. Mas também não sou humano.
— Então o que é?
— É uma longa história.
— Ok... Então vou reformular a pergunta. Preciso saber onde me meti. De que lado você está? — Liza se levanta, ainda que tenha que erguer bem a cabeça para olhar o rosto do outro. Ele parece buscar a resposta, até que então diz:
— Do lado certo.
— Sei. Bom, pelo que fez com aqueles desgraçados e por andar com o nefilim, creio que não esteja do lado dos demônios. — Profany não responde mas seus olhos refletem um claro “sim”. Ainda parado, ele vê Liza colocar sua grande bolsa sobre uma mesa próxima a janela com vidros quebrados. — Está ficando frio. — ela diz esfregando seus braços nus. Mas Profany não sente. Porém ele lembra de quando vivia com Kate, realmente Londres era bastante fria ao anoitecer.
Liza apalpa a parede atrás de si e na atenuante penumbra encontra uma lareira, comum nas casas londrinas. Em seu interior, nada de madeira ou carvão, apenas cinzas. Sem esperar, ela ouve atras de si o som de algo se quebrando. Ao se virar vê Profany com destroços do que fora um móvel da sala, suficientemente seco para servir de lenha. Liza vai até sua bolsa e em um dos bolsos adjacentes desta ela tira um isqueiro, com o qual acende um pedaço pequeno de pau e com ele acende a lareira. O fogo que começa a queimar dá ao ambiente uma sinistra aura. Tão sinistra quanto seus dias têm sido.
Ela dobra os joelhos até tocarem o chão, e se abraçando fica de fronte para o fogo. Seu olhar se perde nas chamas enquanto ouve o som da madeira estalar. O tempo passa, Profany ainda continua de pé, como que percebendo a tristeza emanar daquela pequena criatura. O que teria este novo mundo lhe feito? Quantas outras crianças sofrem como ela por aí? Inocentes, sofrendo numa guerra que não é sua, por culpa dos poderosos, sejam homens ou anjos (entendendo aqui por anjos tanto os celestiais como os demônios, que não passam de anjos-caídos). Não há tempo a perder, ele precisa buscar a Espada de Miguel para derrotar Lúcifer.
— Algo está fedendo aqui. — Liza diz, mais uma vez interrompendo seu devaneio. E o que ela diz é verdade.
— Preciso... me lavar. — Profany diz, com certa vergonha na voz. Liza o olha levantando o cenho. Ela concorda.
— O chuveiro dessa casa ainda deve funcionar. Só a energia elétrica que não. Se encontrar alguma panela, podemos esquentar água aqui...
— Não precisa. — Profany não diz, mas não faz ideia do que é um chuveiro ou mesmo energia elétrica. Devem ser coisas desse mundo moderno, ele conclui. — Onde fica esse... chuveiro?
Liza se levanta, cautelosamente pega a bolsa e a tira de perto da janela, a colocando atrás do sofá onde Noriel dorme. Depois adentra pela casa, com Profany por segui-la, passando pela cozinha onde uma fraca iluminação entra pela janela dos fundos. Talvez o luar. Nos fundos da cozinha encontra um corredor e o fim deste, o banheiro. Ela abre a porta e quase vomita com o fedor de coisa morta que sobe do ralo e do vaso sanitário que não deve ser limpo a muito tempo. Profany também sente certo asco, mas o fedor do inferno era muito maior que isso.
Liza tapa a boca e entra no pequeno banheiro, achando o registro no escuro e o girando. Quando a água cai do chuveiro acontece da mesma forma que aconteceu com a torneira da pia. Primeiro uma lama suja e só depois água boa. A água espira em Liza e ela solta um pequeno grito. Profany a vê passar por si, com o lado esquerdo do corpo molhado.
— Divirta-se. — ela diz. Profany ainda fica alguns instantes admirando aquele pequeno engenho que cria uma pequena chuva dentro de casa. Depois ele tira o sobretudo e as botas, entrando de calças debaixo do chuveiro. A água fria o refresca. É como se ainda sentisse a lava ardente do inferno. Liza, ainda no corredor, olha para trás e o vê imóvel debaixo da água, com sua cabeça quase tocando o chuveiro. Que criatura estranha ele é?
Deixando isso pra lá, ela nota que no corredor existem armários. Abrindo um por um, encontra toalhas dobradas, preservadas da sujeira. Usa uma para se secar e depois decide explorar a casa. De volta a cozinha percebe que os armários de lá já foram vasculhados quando vê a comida vencida pelo chão. A esquerda de quem vem do banheiro, uma escada que leve ao andar superior. Ela a sobe, e lá em cima a escurão se atenua. Apenas uma pequena janela traz o brilho do luar. Também traz um vendo frio, e Liza usa a toalha para se cobrir. Está num estreito corredor, e de cada lado há uma porta. Escolhendo a da sua direita ela a abre e encontra um quarto de casal.
O estado é tão deteriorado quanto o resto da casa. A diferença é aqui parece ter sido usado recentemente. Manchas de pés descalços no chão e no lençol da cama. Outras manchas no pano que a fazem crer que aqui servira de abrigo para amantes mais recatados. Nota o que parece ser um candelabro sobre o criado mudo. E nele tocos de velas ainda aproveitáveis. Com o isqueiro deixado no bolso da calça ela acende as velas, tendo uma visão mais clara do ambiente. Revira o guarda roupas, mas não acha nada além de cabides vazios. Os amantes já saquearam o que lhe aprouveram.
Ela sai desse quarto e se dirige ao outro. Tem mais dificuldade em abrir a porta deste, e quando finalmente consegue, um odor fraco e ácido chega ao seu nariz. A porta range ao ser aberta e as teias de aranha grudam nas velas. Quando a luz cobre o quarto Liza quase cai para trás. Uma cama e uma beliche. E sobre elas corpos putrefatos. Não mais que esqueletos. Devem estar mortos há muitos anos. Toda a família. O casal adulto se abraça, deitados na cama, seus maxilares caídos no peito. Ao lado, uma criança, uma menina, tem o braço quebrado, a bacia também. Foi estuprada antes de morrer. Ou talvez depois. No beliche outras crianças, mais velhas que a primeira. A do beliche de cima estava dormindo. Um tiro na cabeça. A do de baixo tentou fugir. Dois tiros. Brinquedos pelo chão são tomados de cinzas. Insetos terminar de corroer o interior dos esqueletos.
Liza deixa o quarto correndo, descendo as escadas com passos vacilantes, um olhar aterrorizado. Não que ela nunca tenha visto a morte antes. Já a vira muitas vezes nos últimos anos. Dias atrás, viu a de seus pais e de seu irmão mais novo. E ver essa família agora a fez lembrar deles. Ela chega na cozinha sem perceber, com o chão fugindo de seus pés. A luz sibilante das velas criando fantasmas de sombras nas paredes. E nesse ar assombroso ela chega na sala, onde encontra Profany de pé, com o casaco deixado junto ao fogo,de frente ao seu amigo nefilim que agora está sentado no sofá, tomando o solo caseiro da tigela com as próprias mãos. Os dois a encaram surpresos. Ela se vê ofegante e apavorada como uma criança, com um velho candelabro na mão. A cera derretida pinga no seu braço. Ela não importa.
— Foi ela que preparou este soro? — Noriel pergunta, a voz ainda fraca, assim como as mãos. Profany lhe assente com um gesto de cabeça. Noriel olha para Liza, esboça um sorriso e diz: — Obrigado. Creio que se não fosse isso, teria morrido de vez.
— Se... Se recuperou rápido. — ela diz, ainda que o tenha feito apenas para ter assunto.
— Algo em nosso metabolismo... Lorde Raphael, o médico entre os nefilins, disse que somos mais fortes... Mas o que eu queria mesmo é comida de verdade.
— Tenho algo aqui. — Liza deixa o candelabro sobre a pia da cozinha e depois puxa sua bolsa de trás do sofá. Dela ela tira um embrulho. — Peguei tudo isso do acampamento daqueles malditos satanistas. Aí tem pão e carne seca, também batatas, mas estão cruas. Podemos cozinhá-las no fogo.
— É muito generosidade sua dividir sua comida conosco. — diz Noriel, com um sorriso amistoso.
— Ele salvou minha vida. — Liza olha para Profany, agora não tão sinistro sem o casaco e mais limpo. Ou talvez seja sua mente fantasiando um herói. — É o mínimo que posso fazer. Também não gosto de comer sozinha.
Algum tempo depois, com uma panela na lareira, Liza preparou um cozido de batatas e carne enquanto Noriel já tinha acabado com parte do pão. Profany achou uma poltrona para se sentar, já vestindo novamente o sobretudo. Liza conseguiu na cozinha uns potes para usar como prato, já que os pratos mesmo estavam quebrados. Serviu uma porção a Noriel e lhe deu também uma colher. Serviu outra porção, esta para Profany, mas ele recusou.
— Não tenho fome. — diz.
— É melhor comer. Não se sabe se teremos outra refeição. — Liza argumenta, e Profany não pode deixar de notar como ela já está incluindo um “Nós”, como se aquilo fosse um grupo de amigos.
— Profaniel não sente fome. — diz Noriel entre uma generosa colherada e outra. — Não sente fome nem sede, mas sentirá cansaço e precisará dormir. — Profany o olha com confusão.
— Como sabe disso? — ele pergunta, pois nem ele mesmo sabia dessas coisas.
— Não sei como. — Noriel olha o fogo da lareira, como se olhasse um outro mundo. — Apenas sei isso. E que também não pode ser ferido por nenhuma arma mortal. Sua carne se regenera e seus ossos são inquebráveis. — Noriel fala como um profeta, que ouve a palavra de Deus e fala, como uma marionete. E então percebe que talvez seja isso mesmo. Quando cruzava os dois mundos com Profaniel ele ouviu a voz de Deus. Talvez, subconscientemente, tenha aprendido sobre tais mistérios. Mas Liza não entende a profundidade do tema, e pega o pote de cozido para si. — Então decidiu ir atrás da espada, Profaniel? — Noriel pergunta.
— Sim. — Profany se limita a dizer, não estando muito a fim de revelar seus planos com Liza por perto. Mas parece que Noriel não percebe isso e continua dizendo:
— E a espada caiu dos céus e ficou cravada no chão, sem poder ser tocada por homens ou demônios. Dizem que a terra ao redor foi cavada e um cubo de terra e asfalto, com a espada encravada, foi levado até uma câmara fortemente protegida dentro das muralhas do império de Israel.
— Então é para lá que iremos. — diz Profany cortando o assunto. Nisso, Noriel limpa do pote os últimos restos de cozido, olhando para a panela com mais comida ao lado de Liza.
— Pode comer tudo. — diz Liza, passando a panela para ele.
— Serei eternamente grato, minha cara. — ele responde, comendo na panela mesmo. — E amanhã cuidarei de conseguir mais comida e o que precisar para te recompensar. Daí poderá voltar o mais rápido para sua família.
— Não tenho mais família para a qual voltar. — ela diz, com nova tristeza no olhar. Noriel pisca duas vezes, com a boca cheia de batatas, vendo que acabara de falar o que não devia. Sentimento novo para quem já fora um anjo e sabia muito bem o que dizia.
— Desculpe. Penso então que poderá ficar conosco, se assim quiser. — ele diz, e é Profany agora quem lhe dirige o olhar. Não existe “Nós”, ele diz com os olhos. Poderia explanar todos os perigos que os esperaram nessa jornada, mas a verdade é que não quer a companhia de ninguém. No máximo de seu velho amigo Noriel, mas ele acha que isso é apenas gratidão. Talvez seja isso que Noriel sinta por Liza agora. Se bem que pode ser impressão de Profany, mas o nefilim olha a garota com algo além de gratidão. E não estamos falando de amor ou qualquer coisa parecida.
Antes que pudesse dar sua opinião sobre o assunto – do grupo de viagem e não dos sentimentos de Noriel – Profany e os outros na sala são interrompidos com um barulho alto e assustador. Se pondo de pé, Profany vê através da janela um vulto cruzando o portão. Toma aquela faca que deixara no assoalho e vai para fora, seguido por Liza, que tira uma pistola da bolsa. De pé na porta, Profany olha ao redor, aquele pequeno jardim (ou o que restara dele) iluminado pelo fosco luar, porém não vê nada de anormal.
— Para trás. — ele diz a Liza, que chega junto dele.
— Não vejo nada. Deve ter sido algum animal. — ela diz, atenta a qualquer movimento e com a arma em punho. Profany aperta os olhos, tentando ver no escuro, não vendo mais do que destroços daquele objeto com rodas, entulho e matagal. De dentro da casa, como em outra profecia, com o olhar perdido no nada, Noriel lhe diz:
— Use os orifícios em seus pulsos. Junte-os e olhe através deles. Verá a alma de qualquer ser vivo.
Profany o olha sem sair do lugar, e mesmo intrigado, resolve fazer o que ele diz. Primeiro fita com atenção seus pulsos, atravessados de forma misteriosa. Junta os pulsos formando uma cruz, com a faca ainda numa mão, e aproxima os orifícios do rosto e olha com um olho só através deles. Olha para sua frente, o portão, e não vê nada de anormal. Depois se vira, olhando para Liza, e vê ao redor dela e a envolvendo uma aura de luz amarelada, como uma chama viva. Fita também Noriel, e dele emana uma chama esverdeada a princípio, mas depois Profany nota que é a mistura de tons azuis com amarelos. Depois, olha ao redor de todo o jardim e, a sua direita, próximo do muro, vê uma chama amarela já se esvaindo, escondida atrás do matagal.
Ele então abaixa os braços e corre até lá, com a faca de prontidão, com Liza logo atrás, mas o que vê o faz soltar a faca. No chão está um homem, de uns cinquenta anos, ferido e vertendo muito sangue. Profany o ampara nos braços. Não vê que Liza recua e ouve o homem murmurar:
— Hurr... Hurpf... Me... Me ajude... — Porém antes que ele pudesse completar a frase sua vida se esvai. Na sua mente, Profany tem a impressão de ver aquela chama se apagar.
— Veja isso. — diz Liza, metendo o braço entre o homem e Profany e tirando do peito do morto um broche. Ela limpa o sangue do objeto e nele se vê um brasão de armas. Com espanto e preocupação no olhar ela diz: — Este homem é um cavaleiro do rei.
* * *
Continua...
06. O Rei-Druida— parte 1.
Repouso.
Imundo. Profaniel se sente imundo. O sangue daqueles vermes que acabou de matar fede. Não. Agora ele se chama Profany, como mesmo disse. Mas isso não muda o fato de ele se sentir imundo. Daria tudo por um riacho onde mergulhar e lavar suas roupas. Será que ainda existem riachos nesse novo mundo? Tudo é tão estranho. Ele tenta ver por baixo da deterioração, das pichações e da fuligem e imagina casas de tijolos bem feitas e coladas uma na outra. Construções planejadas. Árvores a cada passo, hoje apenas tocos carbonizados. Bem diferentes das que conheceu.
Vê carcaças de objetos por ele desconhecidos. Algo como carruagens de metal e vidro, com rodas de algo preto, como piche endurecido, porém sem arreios ou estribos, como se não precisasse de cavalos para puxar-lhes. Um mundo que seria até admirável, se não fosse a guerra que Lúcifer trouxe. Veja só o chão onde pisa, algo parece lhe dizer, e ele nota que o chão é forrado de algo preto, como um tapete que cobre as ruas. É algo como o piche endurecido das rodas dos veículos estranhos. Nada do barro de antes. Nem mesmo o avançado cascalho em algumas regiões que antes havia. Ao redor do tapete preto, elevações são feitas de pedra, talvez o mesmo material das casas. Ele não sabe dizer.
Talvez em alguma dessas casas abandonadas ele consiga água. Já havia água encanada em seu tempo. Com esse pensamento ele dobra e entra na primeira casa a sua esquerda. Não há dificuldade em vencer o porão destruído. E mesmo que houvesse, o muro não tem mais do que um metro de altura para ser pulado. Sem dificuldade também ele abre a porta de madeira. Talvez sua força tenha ajudado nesse quesito. O interior da casa é escuro, deteriorado e com um forte bafo fétido, mas que Profany logo se acostuma. Teias de aranha pendem por todos os lados e a poeira (ou seriam cinzas?) cobre tudo que ainda resta de pé.
Profany entra mais e acha o que deveria ser a cozinha. Uma pia suja e gasta bem à sua direita. Ele abre a velha torneira e primeiro sai um lodo preto e mal cheiroso. Mas depois vem água, no começo amarela, mas que vai clareando aos poucos. A primeira coisa que Profany faz e jogar essa água no rosto, empapando seus cabelos e também o capuz do sobretudo. É então que percebe a “máscara” que cobre sua boca e nariz. Grudada em sua carne como a casca de uma ferida. A marca que Lúcifer lhe deixou, para que ele não se esqueça...
— Profaniel! — uma voz sussurra e Profany se assusta. Mas logo vê que Noriel se escora no batente na porta da cozinha, com o cajado já a escapar da mão trêmula. Seu rosto branco e olhos vermelhos. Profany tinha se esquecido dele, tamanho era seu ódio. Seu amigo, que o buscou nas profundezas do Abismo. E mais uma vez Profany tem vergonha de si.
Mas antes que pudesse ao menos pedir desculpas, vê Noriel cair sem sentidos, em cima de seu cajado, levantando a poeira do piso velho. Rapidamente vai ao seu encontro, não se importando em deixar a torneira aberta, na verdade nem mesmo percebendo isso. Apenas pega seu amigo nos braços e o deixa no outro cômodo, no que parece ser um sofá. Profany mede seu pulso e constata que Noriel está vivo. Seu corpo treme, ele tem febre. O barulho doído de sua barriga faz Profany perceber. Noriel tem fome. Depois de algum ritual pagão que o levou e o trouxe do inferno e sabe-se lá quanto tempo o acompanhando pelas ruas de Londres. Noriel está fraco. Profany não deixa de ver a ironia, vendo aquele que fora um anjo de Deus padecer pela fome.
Então ele se levanta e volta para a cozinha, usando uma tigela deixada ao lado da pia para aparar alguma água. Não sem antes lavá-la bem, claro. Depois vasculha os armários a procura de comida. E a encontra, mais em situações deploráveis que nem atreveria a entregar a Noriel. É quando ouve um barulho vindo da sala. Noriel acordou? Ele pega a tigela com água e se dirige para lá quando pensa, parando de súbito antes da porta: não é Noriel. Com o máximo de silêncio ele deixa a tigela sobre a pia e puxa de um faqueiro grudento de sujeira uma grande faca, de bom aço inoxidável que reluz à parca iluminação que vem da janela. Se esgueira pela parede adjacente e joga o olhar para ver quem invadiu a casa. E ele vê.
Junto ao sofá onde Noriel está deitado, a figura esguia e frágil de uma garota se ajoelha e parece examinar o nefilim. A garota tem cabelo curto e escuro, cortado de forma irregular. Suas costas são finas e brancas, com alguns hematomas e cortes. Veste uma pequena blusa de couro e calça jeans – ainda que Profany não saiba o que seja isso – e deixou ao seu lado uma grande bolsa. Profany entra na sala, fazendo um silêncio quase místico, fantasmagórico, com a faca firme na mão, mas abaixada. De repente a garota lhe dirige o olhar, e ele nota a cicatriz na diagonal que cruza seu belo rosto. No seu olhar, determinação e frieza, como um soldado que viu os horrores da guerra. Talvez ela seja isso mesmo.
— Seu amigo está entrando em choque. — ela diz, e de relance Profany vê Noriel sofrendo convulsões. Mas o nofilim continua de pé, inerte e imóvel, como alienado deste mundo. A garota esconde um ríspido olhar de decepção e vai até sua bolsa, revirando as coisas lá dentro. — Acho que tenho aqui o que pode ajudar... — ela diz buscando algo. Profany a olha com olhos rápidos. Será que vai sacar alguma arma? Não, pois ele vê que ela tira é um saco de papel parto, amassado e velho. A garota se levanta e vai em sua direção. — Preciso de água.
— Aqui tem água. — Profany finalmente diz, apontando para a tigela que deixou na pia. A garota vai até lá, e Profany nota que ela é bem baixa, não passado da altura de seu peito. Mais baixa que Kate fora.
A garota desembrulha o saco de papel e dele tira um outro saco, este de plástico, e dele tira cubos de açúcar. Ainda do saco de papel tira outros saquinhos de plástico, com substâncias de variadas cores, que Profany julga serem especiarias. E em um desses sacos a garota encontra o que procura. Sal. Despeja junto com o açúcar na água e mistura tudo com a mão. Depois volta com a tigela para a sala e vai até Noriel dizendo a Profany:
— Me ajude aqui. Levante-o. — e assim ele o faz, deixando a faca cair de sua mão e fincar no assoalho do chão. Profany levanta a cabeça de Noriel, este muito frio e suando muito, enquanto a garota o faz beber lentamente sua mistura. — Isso é soro caseiro. Ele está desidratado e com fome. Mas se comesse algo sólido ou mesmo bebesse água, iria vomitar. Primeiro deve beber isso, e quando ficar mais forte, poderá comer. — Profany ouve tudo com atenção, ainda que ela não o olhe nos olhos enquanto fala. Está concentrada na sua atividade. Noriel engole o soro com dificuldade, deixando grandes porções do líquido escorrerem no seu peito. Mas depois de um tempo parece recuperar o ânimo. Profany pode jurar que o sente mais quente e é com clareza que vê que a tremedeira passou. Com um pouco do soro na tigela, a garota a deixa de lado e diz: — agora ele precisa descansar.
A garota deixa a água no chão e limpa sua testa com o antebraço, olhando ao redor, como se procurasse algo até parar e perceber que não está onde pensar estar. Nisso, seu olhar reflete uma tristeza que Profany conhece bem: a dor da perda. Ele, por sua vez, deixa Noriel confortavelmente deitado e se levanta, ainda com o corpo sujo de sangue e agravado pela sujeira daquela casa que elegeu como abrigo. A garota ajeita as coisas na bolsa e Profany pode ver ali facas e punhais, além de armas que parecem sofisticados mosquetes de sua época. Só então, após fitar novamente o rosto da garota, ele a reconhece.
— Você estava lá... Eu... Te soltei.
— Sim. — ela diz, e por um momento seu olhar encontra o dele. Olhos castanhos acinzentados que transmitem dor e abandono. Será assim os olhos de toda a humanidade agora? — Meu nome é Liza. Não tinha para onde ir e.... Bem, achei que poderia te... Acompanhar.
Profany já formava em sua garganta a frase “Não preciso de companhia”, mas visto que graças a ela Noriel estava se recuperando, ele resolveu guardar tal frase para outro momento. Por ora ficou calado, e viu que Liza não fazia questão de resposta, nem mesmo um obrigado ou qualquer outra coisa. E ele achou por bem assim. Não que quisesse sua companhia ou de qualquer outro mortal. Mas não iria dizer isso nesse momento.
— Vocês são nefilins? — ela perguntou, pegando o outro de surpresa em seu devaneio. Ainda arrumando sua bolsa, ela continuou. — São bem altos para a maioria dos homens, este aí deitado se veste como se estivesse num filme bíblico, e você tem um jeito abobalhado que todos eles têm. Apesar que, pelo que você fez com aqueles caras, de bobo não tenha nada, creio. É mais sinistro que todos eles, com certeza. Parece mais um demônio. — Apesar da colocação, Profany não deixou de lado seu olhar sério e em até certo ponto confuso.
— Não sou nefilim — diz —, nem demônio. Mas também não sou humano.
— Então o que é?
— É uma longa história.
— Ok... Então vou reformular a pergunta. Preciso saber onde me meti. De que lado você está? — Liza se levanta, ainda que tenha que erguer bem a cabeça para olhar o rosto do outro. Ele parece buscar a resposta, até que então diz:
— Do lado certo.
— Sei. Bom, pelo que fez com aqueles desgraçados e por andar com o nefilim, creio que não esteja do lado dos demônios. — Profany não responde mas seus olhos refletem um claro “sim”. Ainda parado, ele vê Liza colocar sua grande bolsa sobre uma mesa próxima a janela com vidros quebrados. — Está ficando frio. — ela diz esfregando seus braços nus. Mas Profany não sente. Porém ele lembra de quando vivia com Kate, realmente Londres era bastante fria ao anoitecer.
Liza apalpa a parede atrás de si e na atenuante penumbra encontra uma lareira, comum nas casas londrinas. Em seu interior, nada de madeira ou carvão, apenas cinzas. Sem esperar, ela ouve atras de si o som de algo se quebrando. Ao se virar vê Profany com destroços do que fora um móvel da sala, suficientemente seco para servir de lenha. Liza vai até sua bolsa e em um dos bolsos adjacentes desta ela tira um isqueiro, com o qual acende um pedaço pequeno de pau e com ele acende a lareira. O fogo que começa a queimar dá ao ambiente uma sinistra aura. Tão sinistra quanto seus dias têm sido.
Ela dobra os joelhos até tocarem o chão, e se abraçando fica de fronte para o fogo. Seu olhar se perde nas chamas enquanto ouve o som da madeira estalar. O tempo passa, Profany ainda continua de pé, como que percebendo a tristeza emanar daquela pequena criatura. O que teria este novo mundo lhe feito? Quantas outras crianças sofrem como ela por aí? Inocentes, sofrendo numa guerra que não é sua, por culpa dos poderosos, sejam homens ou anjos (entendendo aqui por anjos tanto os celestiais como os demônios, que não passam de anjos-caídos). Não há tempo a perder, ele precisa buscar a Espada de Miguel para derrotar Lúcifer.
— Algo está fedendo aqui. — Liza diz, mais uma vez interrompendo seu devaneio. E o que ela diz é verdade.
— Preciso... me lavar. — Profany diz, com certa vergonha na voz. Liza o olha levantando o cenho. Ela concorda.
— O chuveiro dessa casa ainda deve funcionar. Só a energia elétrica que não. Se encontrar alguma panela, podemos esquentar água aqui...
— Não precisa. — Profany não diz, mas não faz ideia do que é um chuveiro ou mesmo energia elétrica. Devem ser coisas desse mundo moderno, ele conclui. — Onde fica esse... chuveiro?
Liza se levanta, cautelosamente pega a bolsa e a tira de perto da janela, a colocando atrás do sofá onde Noriel dorme. Depois adentra pela casa, com Profany por segui-la, passando pela cozinha onde uma fraca iluminação entra pela janela dos fundos. Talvez o luar. Nos fundos da cozinha encontra um corredor e o fim deste, o banheiro. Ela abre a porta e quase vomita com o fedor de coisa morta que sobe do ralo e do vaso sanitário que não deve ser limpo a muito tempo. Profany também sente certo asco, mas o fedor do inferno era muito maior que isso.
Liza tapa a boca e entra no pequeno banheiro, achando o registro no escuro e o girando. Quando a água cai do chuveiro acontece da mesma forma que aconteceu com a torneira da pia. Primeiro uma lama suja e só depois água boa. A água espira em Liza e ela solta um pequeno grito. Profany a vê passar por si, com o lado esquerdo do corpo molhado.
— Divirta-se. — ela diz. Profany ainda fica alguns instantes admirando aquele pequeno engenho que cria uma pequena chuva dentro de casa. Depois ele tira o sobretudo e as botas, entrando de calças debaixo do chuveiro. A água fria o refresca. É como se ainda sentisse a lava ardente do inferno. Liza, ainda no corredor, olha para trás e o vê imóvel debaixo da água, com sua cabeça quase tocando o chuveiro. Que criatura estranha ele é?
Deixando isso pra lá, ela nota que no corredor existem armários. Abrindo um por um, encontra toalhas dobradas, preservadas da sujeira. Usa uma para se secar e depois decide explorar a casa. De volta a cozinha percebe que os armários de lá já foram vasculhados quando vê a comida vencida pelo chão. A esquerda de quem vem do banheiro, uma escada que leve ao andar superior. Ela a sobe, e lá em cima a escurão se atenua. Apenas uma pequena janela traz o brilho do luar. Também traz um vendo frio, e Liza usa a toalha para se cobrir. Está num estreito corredor, e de cada lado há uma porta. Escolhendo a da sua direita ela a abre e encontra um quarto de casal.
O estado é tão deteriorado quanto o resto da casa. A diferença é aqui parece ter sido usado recentemente. Manchas de pés descalços no chão e no lençol da cama. Outras manchas no pano que a fazem crer que aqui servira de abrigo para amantes mais recatados. Nota o que parece ser um candelabro sobre o criado mudo. E nele tocos de velas ainda aproveitáveis. Com o isqueiro deixado no bolso da calça ela acende as velas, tendo uma visão mais clara do ambiente. Revira o guarda roupas, mas não acha nada além de cabides vazios. Os amantes já saquearam o que lhe aprouveram.
Ela sai desse quarto e se dirige ao outro. Tem mais dificuldade em abrir a porta deste, e quando finalmente consegue, um odor fraco e ácido chega ao seu nariz. A porta range ao ser aberta e as teias de aranha grudam nas velas. Quando a luz cobre o quarto Liza quase cai para trás. Uma cama e uma beliche. E sobre elas corpos putrefatos. Não mais que esqueletos. Devem estar mortos há muitos anos. Toda a família. O casal adulto se abraça, deitados na cama, seus maxilares caídos no peito. Ao lado, uma criança, uma menina, tem o braço quebrado, a bacia também. Foi estuprada antes de morrer. Ou talvez depois. No beliche outras crianças, mais velhas que a primeira. A do beliche de cima estava dormindo. Um tiro na cabeça. A do de baixo tentou fugir. Dois tiros. Brinquedos pelo chão são tomados de cinzas. Insetos terminar de corroer o interior dos esqueletos.
Liza deixa o quarto correndo, descendo as escadas com passos vacilantes, um olhar aterrorizado. Não que ela nunca tenha visto a morte antes. Já a vira muitas vezes nos últimos anos. Dias atrás, viu a de seus pais e de seu irmão mais novo. E ver essa família agora a fez lembrar deles. Ela chega na cozinha sem perceber, com o chão fugindo de seus pés. A luz sibilante das velas criando fantasmas de sombras nas paredes. E nesse ar assombroso ela chega na sala, onde encontra Profany de pé, com o casaco deixado junto ao fogo,de frente ao seu amigo nefilim que agora está sentado no sofá, tomando o solo caseiro da tigela com as próprias mãos. Os dois a encaram surpresos. Ela se vê ofegante e apavorada como uma criança, com um velho candelabro na mão. A cera derretida pinga no seu braço. Ela não importa.
— Foi ela que preparou este soro? — Noriel pergunta, a voz ainda fraca, assim como as mãos. Profany lhe assente com um gesto de cabeça. Noriel olha para Liza, esboça um sorriso e diz: — Obrigado. Creio que se não fosse isso, teria morrido de vez.
— Se... Se recuperou rápido. — ela diz, ainda que o tenha feito apenas para ter assunto.
— Algo em nosso metabolismo... Lorde Raphael, o médico entre os nefilins, disse que somos mais fortes... Mas o que eu queria mesmo é comida de verdade.
— Tenho algo aqui. — Liza deixa o candelabro sobre a pia da cozinha e depois puxa sua bolsa de trás do sofá. Dela ela tira um embrulho. — Peguei tudo isso do acampamento daqueles malditos satanistas. Aí tem pão e carne seca, também batatas, mas estão cruas. Podemos cozinhá-las no fogo.
— É muito generosidade sua dividir sua comida conosco. — diz Noriel, com um sorriso amistoso.
— Ele salvou minha vida. — Liza olha para Profany, agora não tão sinistro sem o casaco e mais limpo. Ou talvez seja sua mente fantasiando um herói. — É o mínimo que posso fazer. Também não gosto de comer sozinha.
Algum tempo depois, com uma panela na lareira, Liza preparou um cozido de batatas e carne enquanto Noriel já tinha acabado com parte do pão. Profany achou uma poltrona para se sentar, já vestindo novamente o sobretudo. Liza conseguiu na cozinha uns potes para usar como prato, já que os pratos mesmo estavam quebrados. Serviu uma porção a Noriel e lhe deu também uma colher. Serviu outra porção, esta para Profany, mas ele recusou.
— Não tenho fome. — diz.
— É melhor comer. Não se sabe se teremos outra refeição. — Liza argumenta, e Profany não pode deixar de notar como ela já está incluindo um “Nós”, como se aquilo fosse um grupo de amigos.
— Profaniel não sente fome. — diz Noriel entre uma generosa colherada e outra. — Não sente fome nem sede, mas sentirá cansaço e precisará dormir. — Profany o olha com confusão.
— Como sabe disso? — ele pergunta, pois nem ele mesmo sabia dessas coisas.
— Não sei como. — Noriel olha o fogo da lareira, como se olhasse um outro mundo. — Apenas sei isso. E que também não pode ser ferido por nenhuma arma mortal. Sua carne se regenera e seus ossos são inquebráveis. — Noriel fala como um profeta, que ouve a palavra de Deus e fala, como uma marionete. E então percebe que talvez seja isso mesmo. Quando cruzava os dois mundos com Profaniel ele ouviu a voz de Deus. Talvez, subconscientemente, tenha aprendido sobre tais mistérios. Mas Liza não entende a profundidade do tema, e pega o pote de cozido para si. — Então decidiu ir atrás da espada, Profaniel? — Noriel pergunta.
— Sim. — Profany se limita a dizer, não estando muito a fim de revelar seus planos com Liza por perto. Mas parece que Noriel não percebe isso e continua dizendo:
— E a espada caiu dos céus e ficou cravada no chão, sem poder ser tocada por homens ou demônios. Dizem que a terra ao redor foi cavada e um cubo de terra e asfalto, com a espada encravada, foi levado até uma câmara fortemente protegida dentro das muralhas do império de Israel.
— Então é para lá que iremos. — diz Profany cortando o assunto. Nisso, Noriel limpa do pote os últimos restos de cozido, olhando para a panela com mais comida ao lado de Liza.
— Pode comer tudo. — diz Liza, passando a panela para ele.
— Serei eternamente grato, minha cara. — ele responde, comendo na panela mesmo. — E amanhã cuidarei de conseguir mais comida e o que precisar para te recompensar. Daí poderá voltar o mais rápido para sua família.
— Não tenho mais família para a qual voltar. — ela diz, com nova tristeza no olhar. Noriel pisca duas vezes, com a boca cheia de batatas, vendo que acabara de falar o que não devia. Sentimento novo para quem já fora um anjo e sabia muito bem o que dizia.
— Desculpe. Penso então que poderá ficar conosco, se assim quiser. — ele diz, e é Profany agora quem lhe dirige o olhar. Não existe “Nós”, ele diz com os olhos. Poderia explanar todos os perigos que os esperaram nessa jornada, mas a verdade é que não quer a companhia de ninguém. No máximo de seu velho amigo Noriel, mas ele acha que isso é apenas gratidão. Talvez seja isso que Noriel sinta por Liza agora. Se bem que pode ser impressão de Profany, mas o nefilim olha a garota com algo além de gratidão. E não estamos falando de amor ou qualquer coisa parecida.
Antes que pudesse dar sua opinião sobre o assunto – do grupo de viagem e não dos sentimentos de Noriel – Profany e os outros na sala são interrompidos com um barulho alto e assustador. Se pondo de pé, Profany vê através da janela um vulto cruzando o portão. Toma aquela faca que deixara no assoalho e vai para fora, seguido por Liza, que tira uma pistola da bolsa. De pé na porta, Profany olha ao redor, aquele pequeno jardim (ou o que restara dele) iluminado pelo fosco luar, porém não vê nada de anormal.
— Para trás. — ele diz a Liza, que chega junto dele.
— Não vejo nada. Deve ter sido algum animal. — ela diz, atenta a qualquer movimento e com a arma em punho. Profany aperta os olhos, tentando ver no escuro, não vendo mais do que destroços daquele objeto com rodas, entulho e matagal. De dentro da casa, como em outra profecia, com o olhar perdido no nada, Noriel lhe diz:
— Use os orifícios em seus pulsos. Junte-os e olhe através deles. Verá a alma de qualquer ser vivo.
Profany o olha sem sair do lugar, e mesmo intrigado, resolve fazer o que ele diz. Primeiro fita com atenção seus pulsos, atravessados de forma misteriosa. Junta os pulsos formando uma cruz, com a faca ainda numa mão, e aproxima os orifícios do rosto e olha com um olho só através deles. Olha para sua frente, o portão, e não vê nada de anormal. Depois se vira, olhando para Liza, e vê ao redor dela e a envolvendo uma aura de luz amarelada, como uma chama viva. Fita também Noriel, e dele emana uma chama esverdeada a princípio, mas depois Profany nota que é a mistura de tons azuis com amarelos. Depois, olha ao redor de todo o jardim e, a sua direita, próximo do muro, vê uma chama amarela já se esvaindo, escondida atrás do matagal.
Ele então abaixa os braços e corre até lá, com a faca de prontidão, com Liza logo atrás, mas o que vê o faz soltar a faca. No chão está um homem, de uns cinquenta anos, ferido e vertendo muito sangue. Profany o ampara nos braços. Não vê que Liza recua e ouve o homem murmurar:
— Hurr... Hurpf... Me... Me ajude... — Porém antes que ele pudesse completar a frase sua vida se esvai. Na sua mente, Profany tem a impressão de ver aquela chama se apagar.
— Veja isso. — diz Liza, metendo o braço entre o homem e Profany e tirando do peito do morto um broche. Ela limpa o sangue do objeto e nele se vê um brasão de armas. Com espanto e preocupação no olhar ela diz: — Este homem é um cavaleiro do rei.
* * *
Continua...
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