Shayna é uma garota comum que vive uma vida comum entre pessoas comuns. De dia ela trabalha no setor de calçados em uma loja de departamentos, a noite estuda na faculdade de educação física e de madrugada... Ei, espere aí? O que aconteceu no intervalo de tempo entre a saída da faculdade e o retorno para casa? Ela não faz a menor idéia...
Estreia de conto autoral por Frederic “Mr. Black” Spekman.
E o pássaro marrom de canto triste riscou o céu poluído da grande cidade fazendo com que todos os passantes olhassem para cima assustados. Uns olharam para os outros rindo enquanto alguns, admirados, cochichavam entre si dizendo o quanto era difícil ver alguma ave da fauna brasileira voar pelos céus de uma grande cidade hoje em dia. O pássaro pousou no mastro de um edifício e começou a pular num pé só. Com as asas abertas cantava o seu estranho “perê-perê” enquanto olhava para a janela de um apartamento onde uma jovem ainda dormia.
No pequeno quarto a moça de cabelos curtos e negros abre os olhos verdes preguiçosamente e olha para o relógio, já passava das dez e meia de uma quarta-feira que não era feriado.
_ Droga, acho que exagerei ontem. – resmungou Shayna com voz de ressaca. – Como eu consegui voltar para casa? Eu não me lembro...
Neste instante ela percebe que sua mão direita estava pegajosa, imediatamente a olhou e não pôde conter o nojo e o espanto. Era sangue.
A DUPLA VIDA DE SHAYNA-SHAYNA - Primeira Parte
Faltavam cinco minutos para o meio-dia quando Shayna desceu do ônibus em frente ao shopping onde trabalhava usando o tradicional uniforme: sapatilha preta, mini-saia pregueada, blusa de botões cor-de-rosa e um lenço com a marca da loja em torno do pescoço. Ela nem se dignou a correr, sabia que estava muito atrasada e Soraia, a gerente, sempre vivia de péssimo humor.
Shayna sempre era a vítima da vez naquela loja de departamentos, tudo o que acontecia de errado no setor de calçados era culpa dela e isso já na época áurea em que sempre batia o ponto na hora certa e cumpria todos os horários a risca. Entretanto, esta era a terceira falta com mesmas características nos últimos dez dias e Shayna nunca conseguia identificar o que acontecia. Ela simplesmente apagava em um determinado horário durante o retorno da faculdade e acordava em casa, horas depois, sem saber de nada.
Shayna chegou à loja e foi direto para a coordenação, de fora ela já ouvia os berros da gerente ao telefone. Pela briga ela já sabia que era por causa do filho, sua gerente era mãe solteira. Assim que largou o telefone Soraia fuzilou Shayna com o olhar e disparou:
_ Que diabos de horário para chegar são essas? Puta que pariu, Shayna! Outra vez? Está querendo o quê? Quer que eu te demita é? Para mim seria um favor, mas e para você? O que você faria com esse seu QI do tamanho de um grão de feijão? Você só traz desgraça! Só me arruma desgraça! Olha só que derrota é você! E não me olhe com essa cara de idiota! Vai ganhar outra advertência! Quero ter o prazer de te demitir por justa causa, sua incompetente! Agora vá para o seu setor e suma da minha vista, eu só vou ser feliz na vida quando não puder te ver nunca mais!
Shayna saiu da sala com mais cara de sono do que havia chegado e foi para o setor de calçados onde trabalhava, já estava tão acostumada com aquilo que nem mais ia para o banheiro chorar como acontecia quando chegou naquela loja há oito meses. “Meu primeiro emprego.” Pensava ela. “Realmente é uma experiência maravilhosa a do trabalho.” Ironizou.
* * * * *
Em uma das ruas mais movimentadas do centro da cidade a polícia fazia um cordão de isolamento. No chão o corpo de um mendigo sem o coração. Um carro do IML estacionou a poucos metros e dele saíram um homem gordo usando um jaleco médico ajeitando os óculos e uma mulher de cerca de vinte e cinco anos de cabelos ruivos amarrados como rabo-de-cavalo levando livros.
O casal chega perto do finado e o doutor começa a examinar a vítima.
_ Sexo masculino, aparentemente trinta e três anos, dentes ruins, grande consumo de álcool e... – ele passa uma espátula na boca do morto e retira um muco branco e mal-cheiroso. - ...hum... Problemas estomacais, provavelmente úlcera. – o médico olha para o relógio. – hora provável da morte, entre 23h30min as 00h30min. – ele chega bem perto do nariz da vítima e em seguida se afasta. – Pelo cheiro a vítima foi apagada com éter antes da operação de extração do coração.
_ Seja quem for não fez isso sozinho, normalmente os mendigos ajudam uns aos outros, mas este estava sozinho. – sentenciou a ruiva que observava o trabalho do médico.
Naquele instante um detetive da polícia civil se aproximou.
_ Você é a Sahariel, não é? Eu já ouvi falar de você, alguns dizem que você costuma dar boas dicas para quem a escuta. Você é detetive?
_ Não. – sorriu ela. – Digamos que sou apenas uma consultora. Concorda com o que eu acabei de dizer aqui, inspetor?
_ Sim. Acho que este aí não fazia parte do grupo dos mendigos desta área. Os meus homens andaram perguntando nas redondezas e estão levando alguns dos vagabundos para interrogatório, vamos ver se descobrimos algo.
_ Estão perdendo o tempo de vocês, se me permite dizer. – afirmou Sahariel. – Eles não sabem de nada, não era do grupo deles e apareceu aí morto. A única coisa que vão dizer é que o viram morto e saíram de perto.
_ Qual sua teoria então? – disse o inspetor admirado.
_ Procure informações com os mendigos da central ou de algum outro ponto da cidade, veja se algum companheiro deles desapareceu do grupo. A vítima foi apagada com éter e levada e não tem marcas de luta ou arranhões. Quem fez isso não estava sozinho e a vítima não pode sequer se defender. Ela foi levada de um ponto, morta, e depois devolvida pelos assassinos aqui que é um ponto diferente.
O inspetor sorriu e balançou várias vezes a cabeça de forma positiva e foi logo chamar outros policiais. O legista levantou-se, tocou o ombro da consultora e sorriu.
_ Obrigado por ter vindo, acho que vamos ver agora a polícia se movimentando de uma forma um pouco mais efetiva com suas dicas. Você tem um talento natural para inspirar as pessoas a trabalharem, Sahariel.
_ Obrigada. – sorriu ela. – Mas neste caso específico sei que a polícia tem pouco o que fazer já que o caso é delicado.
_ Como assim?
_ Esta morte foi encomendada, o que aconteceu não é coisa humana. Isso é ritual de magia-negra.
Naquele instante um pássaro marrom voa rasante passando a poucos metros da cabeça dos policiais civis que olham assustados para o céu e vêem o estranho bicho gritando: “Perê-perê”
_ Que coisa é essa? – disse o doutor ressabiado.
_ Não se preocupe é só um matintaperera. – ri Sahariel com o susto dos guardas e em seguida olha para o céu. – Não acha que é um pouco fora de hora para se fazer travessuras, seu moleque?
E ao longe o pássaro responde: “taperê-taperê”.
* * * * *
O fim da tarde chega e Shayna continua com cara de sono subindo e descendo as escadas levando e trazendo sapados dos fregueses, sempre escutando um comentário irônico da gerente como: “Essa aí vai longe, vai ser alguém importante na vida!” No momento em que foi subir as escadas pela enésima vez encontrou sentado nos degraus um moleque moreno, quase negro de olhos cinzentos e cabelos escorridos caindo sobre os olhos. Ele se levantou e ela reparou que ele era um nanico de pouco mais de um e cinqüenta de altura.
_ Com licença menino.
_ Menino? Pô, eu sou maior de idade e tá aqui minha RG! – disse estendendo o documento.
_ Desculpe senhor! – disse entre os dentes dando bastante ênfase no “senhor” – Só que eu preciso passar, já é hora de largar o expediente e...
_ Como assim? Não vai me atender? Que negócio é esse, vou chamar o gerente!
Shayna ficou branca, tudo o que não precisava era ter que ficar mais tempo enrolada na loja sendo a hora de ir para a faculdade.
_ Tudo bem, eu já te atendo! Só vou organizar as coisas e...
_ Eu te ajudo! Eu te ajudo! – e o moleque foi logo pegando todas as caixas de sapatos e desaparecendo escada acima.
_ Ei, meu senhor, não é permitida a entrada de quem não é autorizado!
_ Você me autoriza e fica tudo certo!
_ As coisas não funcionam assim, vou ser demitida!
Shayna sobe desesperadamente as escadas, mas, para sua surpresa, o garoto já havia colocado todas as caixas nos locais certos e naquele instante depositava a última.
_ Vem, vem! – disse o moleque tomando a jovem pela mão. – Agora você tem que me atender, não tem desculpa!
A moça, sem saber ao certo o que fazer, deixou ser conduzida pela mão pela escadaria. Lá embaixo a gerente a aguardava com os braços cruzados e olhar insano.
_ Não sabe mesmo cumprir ordens, não é? Que parte da placa onde está escrito: “Proibida entrada de pessoal não autorizado” você não conseguiu ler, Shayna?
Shayna baixou os olhos e respirou fundo já aguardando outro esporro, mas neste instante o garoto tomou a frente.
_ Calma aí, olha o respeito com ela! Não vou deixar você falar assim com a minha namorada, que negócio é este?
_ Namorando, aqui? – arregalou os olhos a gerente.
_ Não! Não! – engoliu seco Shayna, gesticulando freneticamente. – Eu nem conheço ele! É só um maluco que veio pedir sapatos.
_ Puxa vida, amor, assim você me magoa! – choramingou. – Justo eu que sempre te tratei com tanto amor e carinho...
_ Mas eu nem sei o seu nome, moleque! – esbravejou a funcionária.
_ Meu nome é Matinta Perera, mas pode me chamar de Matim e tá aqui o meu RG. – sorriu o garoto mostrando os dentes brancos e estendendo o documento de identidade.
_ Guarda isso, droga! – gritou Shayna.
_ Shayna! – ralhou a gerente. – Se o senhor Matim não é o seu namorado, ele é o quê afinal para ficar escondido com você no almoxarifado do setor de sapataria?
_ É! Eu sou o quê então? – empinou o nariz o garoto cruzando os braços.
Shayna ficou branca, estava tão atrapalhada com tudo aquilo que não conseguiu pensar em nada a não ser mentir para sair logo daquela situação.
_ Ele é... Ele é meu irmão.
_ Sério, e o que vocês estavam fazendo? – retrucou a gerente.
_ Incesto. – bradou Matim.
_ Calaboca! – Gritou apavorada a jovem que não pensou duas vezes em dar um tremendo cascudo no engraçadinho.
_ Ah! Essa é boa. – grasnou a gerente. – Você está mesma afim de uma suspensão, heim, senhorita Shayna! Acaba de conseguir, acaba mesmo de conseguir!
Shayna começou a tremer, os seus olhos encheram-se de lágrimas e a língua deu um nó. Não conseguia falar e nem movimentar-se, estava paralisada.
_ Escuta dona. – disse Matim olhando para a gerente. – Quanto custa esse sapato aqui?
A gerente abriu um sorriso de vendedor e foi logo tentando ser amável para tentar mascarar para todos em volta o fato ocorrido, já que alguns clientes esticavam o pescoço para ver a cena.
_ Este sapato é de excelente qualidade, posso fazer para você em três vezes sem juros no cartão se desejar!
_ Sério? E aquela ali, vale quanto? – disse apontando para Shayna que, de costas, se retirava lentamente.
_ Aquela ali não vale absolutamente nada! – riu a gerente com ironia.
_ Vou levar ela então já que está em promoção, adeus!
A gerente ficou atônita quando viu o garoto correr em direção a Shayna e se meter entre as pernas da moça a carregando nos ombros no meio da loja. Desesperada começou a gritar.
_ Você não pode fazer isso, se tirar essa menina daqui ela está despedida!
_ Não foi você quem disse que ela não valia nada? – riu o garoto. – Espere o advogado dela dar notícias, isso que fez é demissão sem justa causa!
A gerente começou a ouvir som de palmas vindas de várias direções, eram alguns clientes que viram a cena e até alguns dos vendedores que, escondidos atrás das prateleiras, torciam para que a gerente se desse mal. E a moça saiu assim, carregada da loja em que trabalhava sendo vista por todos e ela, corada como um tomate, não sabia se ria ou se chorava com a situação, apesar de por dentro estar se sentindo tremendamente aliviada.
_ Você é um maluco! – disse ela por fim. – Eu deveria lhe dar um tremendo tapa na cara! Não te conheço para que tenha este tipo de intimidade. O que vou fazer agora? Eu perdi o meu emprego!
_ A vida é muito curta para você ficar sofrendo em um lugar que não gosta. – respondeu Matim de forma simples. – E não precisa me agradecer por tornar a sua vida mais feliz!
Shayna, irritada, agarrou Matim pelo cabelo e deu-lhe com as pernas uma violenta esporada no estômago capotando em cima dele no meio do corredor do shopping. Ela se levanta rapidamente e aos berros grita:
_ Você arruinou a minha vida, o meu trabalho, a minha faculdade... E ainda diz que me tornou mais feliz? Cretino! O que tem a dizer em sua defesa?
_ Hum... Azul? – diz o moleque caído espiando embaixo da mini-saia da moça.
O resultado da piada foi um tremendo pisão na cara do moleque no meio do shopping.
_ Idiota! – gritou ela passando por cima da cabeça do engraçadinho e indo embora.
Saindo do shopping, Shayna desabou a chorar. Sentou-se no meio-fio e ali ficou por cerca de quinze minutos até que Violeta apareceu. Violeta era amiga de Shayna do segundo grau e que ela não via há anos. Mulata e de boa estatura ela foi logo selecionada para o time profissional de handebol do estado, era uma das selecionáveis do projeto olímpico brasileiro. Na verdade, quando ainda meninas, Shayna e ela começaram juntas a praticar o esporte, entretanto tomaram caminhos diferentes. Enquanto Violeta procurou a carreira como atleta, Shayna foi para a universidade cursar Educação Física.
_ Shayna, é você?
_ Violeta... Eu nem acredito!
As duas se abraçaram longamente e, sentadas no meio-fio, começaram a conversar animadamente. Violeta contou da rotina de treinos, dos problemas pela busca de patrocínio, de sua luta para conseguir uma vaga na faculdade e dos resultados nos últimos torneios sul-americanos que nunca recebiam destaque algum nas colunas de esporte dos jornais especializados.
Shayna rebateu com os problemas que estava tendo de saúde, dos apagões que estava passando não se lembrando de nada e da recente perda de emprego por causa de um maluco. Violeta riu muito com a história inusitada que a amiga lhe contou, mas logo se voltou para o seu próprio drama.
_ Shayna, é triste admitir isso, mas a minha carreira como atleta está no fim. Surgiram atletas melhores na seleção estadual, além disso, o dinheiro que ganho é tão pouco que não compensa. Queria fazer um curso superior como você. Será que não há como ver uma maneira para que eu possa freqüentar a mesma faculdade sua?
_ Claro que sim, você é minha amiga, vou sempre te dar uma força!
_ Legal! – sorriu Violeta. – Estou aguardando a sua ligação então, vou torcer para que consiga, vai ser bom se pudermos ficar juntas como antigamente, né?
As duas trocaram celulares e se despediram. Uma hora depois, Shayna já estava no Campus da Universidade caminhando pelos distantes anexos formado por grandes prédios. No céu com raras estrelas o breu se contrastava com nuvens avermelhadas e espaças. O calor da cidade à noite era sufocante assim como a ausência de vento favorecia o clima ficar ainda mais carregado. Cansada pela caminhada Shayna sentou-se no refeitório e começou a conferir o material da aula do dia quando uma voz sibilou em seus ouvidos.
“Você teve sorte na noite passada, mas o nosso assunto ainda não acabou Kianumaka-Manã.”
Imediatamente os olhos de Shayna tornaram-se brancos como leite e ela começou a falar como se ninguém estivesse por perto.
_ A resposta é não.
“Você não tem escolha, Kianumaka-Manã. Acha que é um deles? Você não tem nada haver com as pessoas, você vive saltando de uma vida para outra fugindo da sua essência. Junte-se a nós, você não é um ser humano.”
_ A resposta é não.
Alguns alunos começaram a se aproximar e a olhar para a jovem com os olhos brancos como leite e parada como uma estátua.
_ O que está acontecendo com ela?
_ Sei lá, olhe os olhos dela, parece que está com o capeta no corpo!
Neste instante um pássaro passa dando um rasante fazendo um barulho tão grande que as pessoas logo se afastaram. O barulho fez Shayna acordar num salto.
_ O que foi que houve? Apaguei outra vez...
Não obstante o pássaro pousa nas mãos de um já conhecido jovem moreno de olhos cinzentos. O jovem olhava fixamente para a garota enquanto a agourenta ave repetia sem parar: “Perê! Matintaperê! Taperê! Taperê!”. E, como em um passe de mágica, o jovem juntou as duas mãos e a ave que estava sobre elas desapareceu.
[Continua daqui 15 dias...]
E com vocês, mais um episódio de: O Estranho Mundo de Shayna-Shayna

No pequeno quarto a moça de cabelos curtos e negros abre os olhos verdes preguiçosamente e olha para o relógio, já passava das dez e meia de uma quarta-feira que não era feriado.
_ Droga, acho que exagerei ontem. – resmungou Shayna com voz de ressaca. – Como eu consegui voltar para casa? Eu não me lembro...
Neste instante ela percebe que sua mão direita estava pegajosa, imediatamente a olhou e não pôde conter o nojo e o espanto. Era sangue.
A DUPLA VIDA DE SHAYNA-SHAYNA - Primeira Parte
Faltavam cinco minutos para o meio-dia quando Shayna desceu do ônibus em frente ao shopping onde trabalhava usando o tradicional uniforme: sapatilha preta, mini-saia pregueada, blusa de botões cor-de-rosa e um lenço com a marca da loja em torno do pescoço. Ela nem se dignou a correr, sabia que estava muito atrasada e Soraia, a gerente, sempre vivia de péssimo humor.
Shayna sempre era a vítima da vez naquela loja de departamentos, tudo o que acontecia de errado no setor de calçados era culpa dela e isso já na época áurea em que sempre batia o ponto na hora certa e cumpria todos os horários a risca. Entretanto, esta era a terceira falta com mesmas características nos últimos dez dias e Shayna nunca conseguia identificar o que acontecia. Ela simplesmente apagava em um determinado horário durante o retorno da faculdade e acordava em casa, horas depois, sem saber de nada.
Shayna chegou à loja e foi direto para a coordenação, de fora ela já ouvia os berros da gerente ao telefone. Pela briga ela já sabia que era por causa do filho, sua gerente era mãe solteira. Assim que largou o telefone Soraia fuzilou Shayna com o olhar e disparou:
_ Que diabos de horário para chegar são essas? Puta que pariu, Shayna! Outra vez? Está querendo o quê? Quer que eu te demita é? Para mim seria um favor, mas e para você? O que você faria com esse seu QI do tamanho de um grão de feijão? Você só traz desgraça! Só me arruma desgraça! Olha só que derrota é você! E não me olhe com essa cara de idiota! Vai ganhar outra advertência! Quero ter o prazer de te demitir por justa causa, sua incompetente! Agora vá para o seu setor e suma da minha vista, eu só vou ser feliz na vida quando não puder te ver nunca mais!
Shayna saiu da sala com mais cara de sono do que havia chegado e foi para o setor de calçados onde trabalhava, já estava tão acostumada com aquilo que nem mais ia para o banheiro chorar como acontecia quando chegou naquela loja há oito meses. “Meu primeiro emprego.” Pensava ela. “Realmente é uma experiência maravilhosa a do trabalho.” Ironizou.
* * * * *
Em uma das ruas mais movimentadas do centro da cidade a polícia fazia um cordão de isolamento. No chão o corpo de um mendigo sem o coração. Um carro do IML estacionou a poucos metros e dele saíram um homem gordo usando um jaleco médico ajeitando os óculos e uma mulher de cerca de vinte e cinco anos de cabelos ruivos amarrados como rabo-de-cavalo levando livros.
O casal chega perto do finado e o doutor começa a examinar a vítima.
_ Sexo masculino, aparentemente trinta e três anos, dentes ruins, grande consumo de álcool e... – ele passa uma espátula na boca do morto e retira um muco branco e mal-cheiroso. - ...hum... Problemas estomacais, provavelmente úlcera. – o médico olha para o relógio. – hora provável da morte, entre 23h30min as 00h30min. – ele chega bem perto do nariz da vítima e em seguida se afasta. – Pelo cheiro a vítima foi apagada com éter antes da operação de extração do coração.
_ Seja quem for não fez isso sozinho, normalmente os mendigos ajudam uns aos outros, mas este estava sozinho. – sentenciou a ruiva que observava o trabalho do médico.
Naquele instante um detetive da polícia civil se aproximou.
_ Você é a Sahariel, não é? Eu já ouvi falar de você, alguns dizem que você costuma dar boas dicas para quem a escuta. Você é detetive?
_ Não. – sorriu ela. – Digamos que sou apenas uma consultora. Concorda com o que eu acabei de dizer aqui, inspetor?
_ Sim. Acho que este aí não fazia parte do grupo dos mendigos desta área. Os meus homens andaram perguntando nas redondezas e estão levando alguns dos vagabundos para interrogatório, vamos ver se descobrimos algo.
_ Estão perdendo o tempo de vocês, se me permite dizer. – afirmou Sahariel. – Eles não sabem de nada, não era do grupo deles e apareceu aí morto. A única coisa que vão dizer é que o viram morto e saíram de perto.
_ Qual sua teoria então? – disse o inspetor admirado.
_ Procure informações com os mendigos da central ou de algum outro ponto da cidade, veja se algum companheiro deles desapareceu do grupo. A vítima foi apagada com éter e levada e não tem marcas de luta ou arranhões. Quem fez isso não estava sozinho e a vítima não pode sequer se defender. Ela foi levada de um ponto, morta, e depois devolvida pelos assassinos aqui que é um ponto diferente.
O inspetor sorriu e balançou várias vezes a cabeça de forma positiva e foi logo chamar outros policiais. O legista levantou-se, tocou o ombro da consultora e sorriu.
_ Obrigado por ter vindo, acho que vamos ver agora a polícia se movimentando de uma forma um pouco mais efetiva com suas dicas. Você tem um talento natural para inspirar as pessoas a trabalharem, Sahariel.
_ Obrigada. – sorriu ela. – Mas neste caso específico sei que a polícia tem pouco o que fazer já que o caso é delicado.
_ Como assim?
_ Esta morte foi encomendada, o que aconteceu não é coisa humana. Isso é ritual de magia-negra.
Naquele instante um pássaro marrom voa rasante passando a poucos metros da cabeça dos policiais civis que olham assustados para o céu e vêem o estranho bicho gritando: “Perê-perê”
_ Que coisa é essa? – disse o doutor ressabiado.
_ Não se preocupe é só um matintaperera. – ri Sahariel com o susto dos guardas e em seguida olha para o céu. – Não acha que é um pouco fora de hora para se fazer travessuras, seu moleque?
E ao longe o pássaro responde: “taperê-taperê”.
* * * * *
O fim da tarde chega e Shayna continua com cara de sono subindo e descendo as escadas levando e trazendo sapados dos fregueses, sempre escutando um comentário irônico da gerente como: “Essa aí vai longe, vai ser alguém importante na vida!” No momento em que foi subir as escadas pela enésima vez encontrou sentado nos degraus um moleque moreno, quase negro de olhos cinzentos e cabelos escorridos caindo sobre os olhos. Ele se levantou e ela reparou que ele era um nanico de pouco mais de um e cinqüenta de altura.
_ Com licença menino.
_ Menino? Pô, eu sou maior de idade e tá aqui minha RG! – disse estendendo o documento.
_ Desculpe senhor! – disse entre os dentes dando bastante ênfase no “senhor” – Só que eu preciso passar, já é hora de largar o expediente e...
_ Como assim? Não vai me atender? Que negócio é esse, vou chamar o gerente!
Shayna ficou branca, tudo o que não precisava era ter que ficar mais tempo enrolada na loja sendo a hora de ir para a faculdade.
_ Tudo bem, eu já te atendo! Só vou organizar as coisas e...
_ Eu te ajudo! Eu te ajudo! – e o moleque foi logo pegando todas as caixas de sapatos e desaparecendo escada acima.
_ Ei, meu senhor, não é permitida a entrada de quem não é autorizado!
_ Você me autoriza e fica tudo certo!
_ As coisas não funcionam assim, vou ser demitida!
Shayna sobe desesperadamente as escadas, mas, para sua surpresa, o garoto já havia colocado todas as caixas nos locais certos e naquele instante depositava a última.
_ Vem, vem! – disse o moleque tomando a jovem pela mão. – Agora você tem que me atender, não tem desculpa!
A moça, sem saber ao certo o que fazer, deixou ser conduzida pela mão pela escadaria. Lá embaixo a gerente a aguardava com os braços cruzados e olhar insano.
_ Não sabe mesmo cumprir ordens, não é? Que parte da placa onde está escrito: “Proibida entrada de pessoal não autorizado” você não conseguiu ler, Shayna?
Shayna baixou os olhos e respirou fundo já aguardando outro esporro, mas neste instante o garoto tomou a frente.
_ Calma aí, olha o respeito com ela! Não vou deixar você falar assim com a minha namorada, que negócio é este?
_ Namorando, aqui? – arregalou os olhos a gerente.
_ Não! Não! – engoliu seco Shayna, gesticulando freneticamente. – Eu nem conheço ele! É só um maluco que veio pedir sapatos.
_ Puxa vida, amor, assim você me magoa! – choramingou. – Justo eu que sempre te tratei com tanto amor e carinho...
_ Mas eu nem sei o seu nome, moleque! – esbravejou a funcionária.
_ Meu nome é Matinta Perera, mas pode me chamar de Matim e tá aqui o meu RG. – sorriu o garoto mostrando os dentes brancos e estendendo o documento de identidade.
_ Guarda isso, droga! – gritou Shayna.
_ Shayna! – ralhou a gerente. – Se o senhor Matim não é o seu namorado, ele é o quê afinal para ficar escondido com você no almoxarifado do setor de sapataria?
_ É! Eu sou o quê então? – empinou o nariz o garoto cruzando os braços.
Shayna ficou branca, estava tão atrapalhada com tudo aquilo que não conseguiu pensar em nada a não ser mentir para sair logo daquela situação.
_ Ele é... Ele é meu irmão.
_ Sério, e o que vocês estavam fazendo? – retrucou a gerente.
_ Incesto. – bradou Matim.
_ Calaboca! – Gritou apavorada a jovem que não pensou duas vezes em dar um tremendo cascudo no engraçadinho.
_ Ah! Essa é boa. – grasnou a gerente. – Você está mesma afim de uma suspensão, heim, senhorita Shayna! Acaba de conseguir, acaba mesmo de conseguir!
Shayna começou a tremer, os seus olhos encheram-se de lágrimas e a língua deu um nó. Não conseguia falar e nem movimentar-se, estava paralisada.
_ Escuta dona. – disse Matim olhando para a gerente. – Quanto custa esse sapato aqui?
A gerente abriu um sorriso de vendedor e foi logo tentando ser amável para tentar mascarar para todos em volta o fato ocorrido, já que alguns clientes esticavam o pescoço para ver a cena.
_ Este sapato é de excelente qualidade, posso fazer para você em três vezes sem juros no cartão se desejar!
_ Sério? E aquela ali, vale quanto? – disse apontando para Shayna que, de costas, se retirava lentamente.
_ Aquela ali não vale absolutamente nada! – riu a gerente com ironia.
_ Vou levar ela então já que está em promoção, adeus!
A gerente ficou atônita quando viu o garoto correr em direção a Shayna e se meter entre as pernas da moça a carregando nos ombros no meio da loja. Desesperada começou a gritar.
_ Você não pode fazer isso, se tirar essa menina daqui ela está despedida!
_ Não foi você quem disse que ela não valia nada? – riu o garoto. – Espere o advogado dela dar notícias, isso que fez é demissão sem justa causa!
A gerente começou a ouvir som de palmas vindas de várias direções, eram alguns clientes que viram a cena e até alguns dos vendedores que, escondidos atrás das prateleiras, torciam para que a gerente se desse mal. E a moça saiu assim, carregada da loja em que trabalhava sendo vista por todos e ela, corada como um tomate, não sabia se ria ou se chorava com a situação, apesar de por dentro estar se sentindo tremendamente aliviada.
_ Você é um maluco! – disse ela por fim. – Eu deveria lhe dar um tremendo tapa na cara! Não te conheço para que tenha este tipo de intimidade. O que vou fazer agora? Eu perdi o meu emprego!
_ A vida é muito curta para você ficar sofrendo em um lugar que não gosta. – respondeu Matim de forma simples. – E não precisa me agradecer por tornar a sua vida mais feliz!
Shayna, irritada, agarrou Matim pelo cabelo e deu-lhe com as pernas uma violenta esporada no estômago capotando em cima dele no meio do corredor do shopping. Ela se levanta rapidamente e aos berros grita:
_ Você arruinou a minha vida, o meu trabalho, a minha faculdade... E ainda diz que me tornou mais feliz? Cretino! O que tem a dizer em sua defesa?
_ Hum... Azul? – diz o moleque caído espiando embaixo da mini-saia da moça.
O resultado da piada foi um tremendo pisão na cara do moleque no meio do shopping.
_ Idiota! – gritou ela passando por cima da cabeça do engraçadinho e indo embora.
Saindo do shopping, Shayna desabou a chorar. Sentou-se no meio-fio e ali ficou por cerca de quinze minutos até que Violeta apareceu. Violeta era amiga de Shayna do segundo grau e que ela não via há anos. Mulata e de boa estatura ela foi logo selecionada para o time profissional de handebol do estado, era uma das selecionáveis do projeto olímpico brasileiro. Na verdade, quando ainda meninas, Shayna e ela começaram juntas a praticar o esporte, entretanto tomaram caminhos diferentes. Enquanto Violeta procurou a carreira como atleta, Shayna foi para a universidade cursar Educação Física.
_ Shayna, é você?
_ Violeta... Eu nem acredito!
As duas se abraçaram longamente e, sentadas no meio-fio, começaram a conversar animadamente. Violeta contou da rotina de treinos, dos problemas pela busca de patrocínio, de sua luta para conseguir uma vaga na faculdade e dos resultados nos últimos torneios sul-americanos que nunca recebiam destaque algum nas colunas de esporte dos jornais especializados.
Shayna rebateu com os problemas que estava tendo de saúde, dos apagões que estava passando não se lembrando de nada e da recente perda de emprego por causa de um maluco. Violeta riu muito com a história inusitada que a amiga lhe contou, mas logo se voltou para o seu próprio drama.
_ Shayna, é triste admitir isso, mas a minha carreira como atleta está no fim. Surgiram atletas melhores na seleção estadual, além disso, o dinheiro que ganho é tão pouco que não compensa. Queria fazer um curso superior como você. Será que não há como ver uma maneira para que eu possa freqüentar a mesma faculdade sua?
_ Claro que sim, você é minha amiga, vou sempre te dar uma força!
_ Legal! – sorriu Violeta. – Estou aguardando a sua ligação então, vou torcer para que consiga, vai ser bom se pudermos ficar juntas como antigamente, né?
As duas trocaram celulares e se despediram. Uma hora depois, Shayna já estava no Campus da Universidade caminhando pelos distantes anexos formado por grandes prédios. No céu com raras estrelas o breu se contrastava com nuvens avermelhadas e espaças. O calor da cidade à noite era sufocante assim como a ausência de vento favorecia o clima ficar ainda mais carregado. Cansada pela caminhada Shayna sentou-se no refeitório e começou a conferir o material da aula do dia quando uma voz sibilou em seus ouvidos.
“Você teve sorte na noite passada, mas o nosso assunto ainda não acabou Kianumaka-Manã.”
Imediatamente os olhos de Shayna tornaram-se brancos como leite e ela começou a falar como se ninguém estivesse por perto.
_ A resposta é não.
“Você não tem escolha, Kianumaka-Manã. Acha que é um deles? Você não tem nada haver com as pessoas, você vive saltando de uma vida para outra fugindo da sua essência. Junte-se a nós, você não é um ser humano.”
_ A resposta é não.
Alguns alunos começaram a se aproximar e a olhar para a jovem com os olhos brancos como leite e parada como uma estátua.
_ O que está acontecendo com ela?
_ Sei lá, olhe os olhos dela, parece que está com o capeta no corpo!
Neste instante um pássaro passa dando um rasante fazendo um barulho tão grande que as pessoas logo se afastaram. O barulho fez Shayna acordar num salto.
_ O que foi que houve? Apaguei outra vez...
Não obstante o pássaro pousa nas mãos de um já conhecido jovem moreno de olhos cinzentos. O jovem olhava fixamente para a garota enquanto a agourenta ave repetia sem parar: “Perê! Matintaperê! Taperê! Taperê!”. E, como em um passe de mágica, o jovem juntou as duas mãos e a ave que estava sobre elas desapareceu.
[Continua daqui 15 dias...]
E com vocês, mais um episódio de: O Estranho Mundo de Shayna-Shayna
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