O Palco das Ideias é onde os usuários do UNF podem postar seus textos e ideias sem prévia autorização dos moderadores, para que seu trabalho seja havaliado. O melhor trabalho ganha destaque aqui no site.O primeiro destaque do Palco é o conto O Rebento de Maria, de autoria de naninhachan.
Nesa perturbadora história acompanhanos um nascimento que remete a um outro, este famoso e sagrado, mas até o final iremos perceber que o sagrado e o maldito seguem caminhos paralelos.
O rebento de Maria
Por naninhachan
Uma segunda-feira escura e fria. A garoa caía insistente e Maria caminhava desconfortável pelas ruas. Tinha a terrível sensação de ser perseguida. Olhou para trás e se apressou. Faltava uma quadra para chegar ao seu apartamento a tempo de preparar o jantar do marido. A bolsa colorida cheia de mantimentos agitava-se a seu lado e, numa curva, ela ouviu passos ligeiros atrás de si. Lembrou-se de um atalho para casa, que passava por uma travessa, e seguiu até o ponto. Antes de entrar, olhou mais uma vez para trás e viu na parede algo escrito: “Você”.
Sentiu ímpetos de correr quando, como num sinal de mau agouro, ouviu o piado de um corvo num rasante: “é”, “é”. Tinha a impressão de que ele repetia esse som. Assustada, Maria começou a correr olhando por sobre o ombro. Os pés ágeis marcavam pegadas efêmeras no chão molhado pela chuva iniciada. Agora a mulher estava a duas ruas de sua casa e, numa voz jocosa e enervante, ouviu: “Maria”, “Mariaaaaa”.
Com o coração aos pulos, os cabelos soltos pendiam encharcados nas costas, novamente o som de passos se fez. Munindo-se de toda a força, Maria largou a bolsa de compras e disparou para casa. Precisava vencer mais 300 metros quando um vulto negro ergueu o braço direito em sua direção esticando-o até agarrar-lhe o pescoço.
Os olhos encheram de lágrimas e Maria caiu no asfalto molhado. Bateu a cabeça no meio fio e luzes giravam diante de seus olhos. O vulto ficou de joelhos. Negro, alto, vestindo um sobretudo. Um cheiro forte se desprendia do que ela pensava ser um homem. Ele postou a mão em seu peito e o pressionou, fazendo o ar passar devagar pelos pulmões. Agarrou seus braços e puxou-a para uma área sem iluminação. Arrancou-lhe as roupas. Maria se debateu quando entendeu o que ocorreria e um soco fora desferido em seu rosto. O sangue brotou violento do lábio rompido.
- Você é Maria. A minha Maria...
A voz invadiu os ouvidos e o mundo sumiu na escuridão. Ela sentiu o corpo solavancar, mas não podia se mexer. Chorou, mas não fazia diferença.
*
*
*
Maria acordou de chofre com o pesadelo. Nos últimos meses, aquela noite não saía de sua cabeça. Olhou para o lado e viu o marido ressonar. Passou a mão com cuidado nos cabelos dele e beijou a testa. Amava-o e, por isso, decidira não mencionar uma palavra sobre o que ocorrera.
Fugiu do calor das cobertas e deixou os pés entrarem em contato com o chão frio. Um arrepio correu o corpo e um movimento estranho se fez em sua barriga. Um bolo subia num crescente e ela correu para o banheiro da suíte, despejando tudo que lhe servira à noite num revolver. O gosto ruim de suco gástrico passeou no palato até ela ter forças para se erguer e escovar os dentes. José chegou à porta aturdido e com cuidado amparou a esposa.
- O que houve, Maria?
- Nada, José, só um enjôo. Acho que a janta não me fez bem.
- Mas você não comeu nada demais. Tem certeza que foi só isso?
- Sim, querido. Não se preocupe. Volte pra cama... – ela bateu delicadamente em seu ombro incitando-o a voltar ao quarto.
Fechou-se no cubículo e lavou o rosto. O som da água corrente trazia algo de familiar e reconfortante. Esfregou as bochechas quentes e se olhou no espelho. Havia certa palidez no rosto bonito. Os olhos brilhavam intensos e aquecidos. Sentiu o estômago girar. Apressou-se para o sanitário e vergou o corpo, expurgando um líquido viscoso, espesso e mal cheiroso. O vômito vinha em golfos pela garganta explodindo em jatos n’água. Limpou os lábios nas costas da mão e deu a descarga. Ficou de pé, mas se sentia fraca, engolida por um gigante monocular.
- Maria! – as batidas soaram altas. – Por favor, abra a porta!
O som do destrancar foi um clique e José entrou a tempo de tomar a esposa que desmaiava nos braços.
- Maria! – deu um tapa leve no rosto, mas ela estava desacordada. – Maria! – a mulher não ouvia sua voz, nem sentia qualquer coisa.
José a deitou na cama e foi à sala ligar para a emergência. Os olhos de Maria piscavam como lâmpadas falhas. Sua visão parecia uma seqüência rápida de quadros dum filme de terror. Um calor intenso se difundiu pelo quarto, porém Maria tremia, não era frio, mas um medo irracional. Uma presença funesta estava à cabeceira de sua cama. Mostrou, nos lábios ressecados e carcomidos, um sorriso de morte.
- Te saudamos, Maria. – ela apagou com um gemido preso na garganta.
*
*
*
- Como ela está, doutor? – indagou José, segurando a mão de sua mulher já consciente.
- Está bem apesar da fraqueza, mas felizmente descobrimos o motivo. Boas novas ao casal. Maria está grávida de três meses.
O coração da mulher se comprimiu em desespero enquanto seu marido abraçava o médico com orgulho. Só podia ser um pesadelo. Maria chorou, mas não fazia diferença.
*
*
*
Aos seis meses de gestação, Maria sentia os incômodos da gravidez. Com passos calmos, caminhava pelo corredor que dava na suíte, na intenção de se arrumar para visitar Isabel, sua prima também grávida.. Pegou o vestido sobre a cama pelas alças e ao mirar-se no espelho, viu o reflexo de um homem perto da janela. Quando ia gritar, a voz fugiu. Com um deslocar sinuoso, o estranho se aproximou e pousou uma mão em seu rosto. Ela estava indefesa, muda e paralisada diante daquela figura. Ele desceu o toque até o ventre proeminente e uma dor lancinante se instalou, fazendo Maria curvar o corpo e abraçar o abdome.
- Vejo que o pequeno cresce bem, contudo, você devia se esforçar menos. – ele sorriu e aquilo lhe causava uma sensação de desespero. – Será uma linda criança, Maria, e o pai a deseja muito. – a frase era ambígua. – Minhas bênçãos ao nosso salvador. – Maria piscou e o homem sumiu. Sentiu a dor aumentar no ventre e gritou.
- José!
*
*
*
Maria chegou ao oitavo mês sem maiores problemas. Depois da crise que tivera fora levada ao médico e obrigada a reduzir suas atividades pelo bem do bebê. José contratara uma mulher para cuidar de sua esposa: Maria Madalena, uma enfermeira recomendada pelo médico. As noites eram insones para a gestante. Pesadelos terríveis acordavam-na e a lançavam num caleidoscópio de emoções vigorosas, tornando-se mais freqüentes a cada dia. Por conta disso, Maria decidiu ir mais vezes à igreja, buscar consolo na religião e fé.
Certa feita, ajoelhada num banco da paróquia, rezava esperando para conversar com o padre. Contudo, ao erguer a cabeça, não viu sinal de vida. Sentou-se com dificuldade e respirou fundo. Ouviu um gotejar próximo. O líquido parecia espesso, pesado. Encarou o chão, à procura do som, e viu uma poça de sangue formada sob os pés. Um grito agudo escapou da garganta, ecoando pelas paredes da igreja, e Maria se curvou num impulso. Tentou controlar a respiração, todavia a dor era intensa e profunda. Contorceu o corpo, agoniada, e posou a mão contra o ventre dilatado na vã tentativa de abrandar a aflição.
- Ajudem-me, o bebê... – ninguém a ouvia. – Ah, Deus! – sentiu como se golpeassem o corpo de dentro para fora. – Ai!
O suor brotava da testa. Tentou buscar ajuda, mas não tinha forças. As contrações eram mais freqüentes e o abdome ondulava como se algo muito grande estivesse em seu interior. Os cabelos úmidos eram afastados com irritação. Lembrou-se do exercício de respiração e o executou. A dor só fazia aumentar e seus gritos davam-lhe a impressão de que o mundo inteiro se achava vazio. Uma escuridão sobrenatural nasceu do centro do teto da paróquia, irradiando para as paredes, escorrendo como lama. As imagens ficaram imundas, a luz era tragada. Uma água negra borbulhava do chão e um cheiro de morte, decomposição e fogo tomava o recinto. Maria viu o piso sumir sob o líquido imundo. Seu sangue se misturou ao negror e à sujeira. Tocou a barriga e o tato confirmava seus temores. Pontas rígidas rasgavam-lhe a carne e seu grito reverberou impiedoso contra as paredes.
- Deus! – lançou a cabeça ao alto. Os clamores seguintes silenciaram quando mãos negras deslizaram das costas aos ombros, descansando sobre os seios.
- Maria... Maria. – o tom era de deboche. – Ele já te abandonou. Aproveite o momento mágico da maternidade e traga essa criança ao mundo.
Os olhos miravam o ventre que se revolvia. Maria se debatia tentando se proteger do toque, porém mais mãos a aprisionaram.
- Quieta. Você é apenas uma porta, querida. – a voz queimou-lhe a pele.
Maria se sentiu tonta. Subitamente, pontas de dedos perfuraram sua carne de dentro para fora, ganhando espaço até duas mãos afastarem os músculos abdominais, rasgando-os. A mulher gritava alucinada, a rouquidão tomava conta da voz poderosa, a dor latejava nas têmporas, no peito, nos olhos lacrimejantes. O choro lavava o rosto. Ela balbuciava “não” e “Oh Deus!” diversas vezes. O sangue jorrava pelo corpo, se perdendo no chão que desaparecia.
As mãos surgiram completamente, rompendo para o mundo. Duas protuberâncias pontiagudas emergiam e, depois, um rosto indescritível se voltou para Maria. Os olhos encovados, vermelhos de sangue. Numa fração de segundos, as mãos agarraram sua face e ela viu um futuro desolador. Tudo escureceu e parou.
- Maria! Maria! – o velho padre sacudia a mulher há quase cinco minutos e ela não despertava.
De chofre, a jovem abriu os olhos e, aos gritos, arranhou o pároco magoando-lhe a pele. Em disparada, Maria fugiu da igreja. À porta, uma silhueta negra espreitava.
*
*
*
Aos nove meses, Maria foi levada à força ao hospital. Gritava que não queria ter a criança. Aplicaram-lhe um calmante. Levada do quarto à mesa de operações, a infeliz gestante agredia médicos, enfermeiras e até mesmo o marido se tentassem convencê-la a dar a luz. Seus braços foram presos à maca por cintas, não podendo mais machucar ninguém, mesmo que se debatesse. Quando viu a seringa contendo mais calmantes, Maria chorou, ainda que não fizesse diferença.
- José, por favor, querido, não me deixe ter essa criança! Ai! Oh, Deus! O que será de nós? – o rosto inchado pelo choro, os olhos focados no marido que ficou atrás das portas.
*
*
*
Maria sentiu-se flutuar. Estava nos braços de alguém. Os olhos se abriram e na sala de operações havia homens e mulheres mortos, sangue, vísceras e pedaços humanos espalhados por todo lugar. Voltou o rosto para quem a trazia nos braços e emudeceu. As lágrimas corriam gordas pela face.
- Sou o Encarnado. Serás eternamente saudada, Maria.
Maldito é o fruto do vosso ventre.
.---.
Publicada em 12/01/2010
Por naninhachan
Uma segunda-feira escura e fria. A garoa caía insistente e Maria caminhava desconfortável pelas ruas. Tinha a terrível sensação de ser perseguida. Olhou para trás e se apressou. Faltava uma quadra para chegar ao seu apartamento a tempo de preparar o jantar do marido. A bolsa colorida cheia de mantimentos agitava-se a seu lado e, numa curva, ela ouviu passos ligeiros atrás de si. Lembrou-se de um atalho para casa, que passava por uma travessa, e seguiu até o ponto. Antes de entrar, olhou mais uma vez para trás e viu na parede algo escrito: “Você”.
Sentiu ímpetos de correr quando, como num sinal de mau agouro, ouviu o piado de um corvo num rasante: “é”, “é”. Tinha a impressão de que ele repetia esse som. Assustada, Maria começou a correr olhando por sobre o ombro. Os pés ágeis marcavam pegadas efêmeras no chão molhado pela chuva iniciada. Agora a mulher estava a duas ruas de sua casa e, numa voz jocosa e enervante, ouviu: “Maria”, “Mariaaaaa”.
Com o coração aos pulos, os cabelos soltos pendiam encharcados nas costas, novamente o som de passos se fez. Munindo-se de toda a força, Maria largou a bolsa de compras e disparou para casa. Precisava vencer mais 300 metros quando um vulto negro ergueu o braço direito em sua direção esticando-o até agarrar-lhe o pescoço.
Os olhos encheram de lágrimas e Maria caiu no asfalto molhado. Bateu a cabeça no meio fio e luzes giravam diante de seus olhos. O vulto ficou de joelhos. Negro, alto, vestindo um sobretudo. Um cheiro forte se desprendia do que ela pensava ser um homem. Ele postou a mão em seu peito e o pressionou, fazendo o ar passar devagar pelos pulmões. Agarrou seus braços e puxou-a para uma área sem iluminação. Arrancou-lhe as roupas. Maria se debateu quando entendeu o que ocorreria e um soco fora desferido em seu rosto. O sangue brotou violento do lábio rompido.
- Você é Maria. A minha Maria...
A voz invadiu os ouvidos e o mundo sumiu na escuridão. Ela sentiu o corpo solavancar, mas não podia se mexer. Chorou, mas não fazia diferença.
*
*
*
Maria acordou de chofre com o pesadelo. Nos últimos meses, aquela noite não saía de sua cabeça. Olhou para o lado e viu o marido ressonar. Passou a mão com cuidado nos cabelos dele e beijou a testa. Amava-o e, por isso, decidira não mencionar uma palavra sobre o que ocorrera.
Fugiu do calor das cobertas e deixou os pés entrarem em contato com o chão frio. Um arrepio correu o corpo e um movimento estranho se fez em sua barriga. Um bolo subia num crescente e ela correu para o banheiro da suíte, despejando tudo que lhe servira à noite num revolver. O gosto ruim de suco gástrico passeou no palato até ela ter forças para se erguer e escovar os dentes. José chegou à porta aturdido e com cuidado amparou a esposa.
- O que houve, Maria?
- Nada, José, só um enjôo. Acho que a janta não me fez bem.
- Mas você não comeu nada demais. Tem certeza que foi só isso?
- Sim, querido. Não se preocupe. Volte pra cama... – ela bateu delicadamente em seu ombro incitando-o a voltar ao quarto.
Fechou-se no cubículo e lavou o rosto. O som da água corrente trazia algo de familiar e reconfortante. Esfregou as bochechas quentes e se olhou no espelho. Havia certa palidez no rosto bonito. Os olhos brilhavam intensos e aquecidos. Sentiu o estômago girar. Apressou-se para o sanitário e vergou o corpo, expurgando um líquido viscoso, espesso e mal cheiroso. O vômito vinha em golfos pela garganta explodindo em jatos n’água. Limpou os lábios nas costas da mão e deu a descarga. Ficou de pé, mas se sentia fraca, engolida por um gigante monocular.
- Maria! – as batidas soaram altas. – Por favor, abra a porta!
O som do destrancar foi um clique e José entrou a tempo de tomar a esposa que desmaiava nos braços.
- Maria! – deu um tapa leve no rosto, mas ela estava desacordada. – Maria! – a mulher não ouvia sua voz, nem sentia qualquer coisa.
José a deitou na cama e foi à sala ligar para a emergência. Os olhos de Maria piscavam como lâmpadas falhas. Sua visão parecia uma seqüência rápida de quadros dum filme de terror. Um calor intenso se difundiu pelo quarto, porém Maria tremia, não era frio, mas um medo irracional. Uma presença funesta estava à cabeceira de sua cama. Mostrou, nos lábios ressecados e carcomidos, um sorriso de morte.
- Te saudamos, Maria. – ela apagou com um gemido preso na garganta.
*
*
*
- Como ela está, doutor? – indagou José, segurando a mão de sua mulher já consciente.
- Está bem apesar da fraqueza, mas felizmente descobrimos o motivo. Boas novas ao casal. Maria está grávida de três meses.
O coração da mulher se comprimiu em desespero enquanto seu marido abraçava o médico com orgulho. Só podia ser um pesadelo. Maria chorou, mas não fazia diferença.
*
*
*
Aos seis meses de gestação, Maria sentia os incômodos da gravidez. Com passos calmos, caminhava pelo corredor que dava na suíte, na intenção de se arrumar para visitar Isabel, sua prima também grávida.. Pegou o vestido sobre a cama pelas alças e ao mirar-se no espelho, viu o reflexo de um homem perto da janela. Quando ia gritar, a voz fugiu. Com um deslocar sinuoso, o estranho se aproximou e pousou uma mão em seu rosto. Ela estava indefesa, muda e paralisada diante daquela figura. Ele desceu o toque até o ventre proeminente e uma dor lancinante se instalou, fazendo Maria curvar o corpo e abraçar o abdome.
- Vejo que o pequeno cresce bem, contudo, você devia se esforçar menos. – ele sorriu e aquilo lhe causava uma sensação de desespero. – Será uma linda criança, Maria, e o pai a deseja muito. – a frase era ambígua. – Minhas bênçãos ao nosso salvador. – Maria piscou e o homem sumiu. Sentiu a dor aumentar no ventre e gritou.
- José!
*
*
*
Maria chegou ao oitavo mês sem maiores problemas. Depois da crise que tivera fora levada ao médico e obrigada a reduzir suas atividades pelo bem do bebê. José contratara uma mulher para cuidar de sua esposa: Maria Madalena, uma enfermeira recomendada pelo médico. As noites eram insones para a gestante. Pesadelos terríveis acordavam-na e a lançavam num caleidoscópio de emoções vigorosas, tornando-se mais freqüentes a cada dia. Por conta disso, Maria decidiu ir mais vezes à igreja, buscar consolo na religião e fé.
Certa feita, ajoelhada num banco da paróquia, rezava esperando para conversar com o padre. Contudo, ao erguer a cabeça, não viu sinal de vida. Sentou-se com dificuldade e respirou fundo. Ouviu um gotejar próximo. O líquido parecia espesso, pesado. Encarou o chão, à procura do som, e viu uma poça de sangue formada sob os pés. Um grito agudo escapou da garganta, ecoando pelas paredes da igreja, e Maria se curvou num impulso. Tentou controlar a respiração, todavia a dor era intensa e profunda. Contorceu o corpo, agoniada, e posou a mão contra o ventre dilatado na vã tentativa de abrandar a aflição.
- Ajudem-me, o bebê... – ninguém a ouvia. – Ah, Deus! – sentiu como se golpeassem o corpo de dentro para fora. – Ai!
O suor brotava da testa. Tentou buscar ajuda, mas não tinha forças. As contrações eram mais freqüentes e o abdome ondulava como se algo muito grande estivesse em seu interior. Os cabelos úmidos eram afastados com irritação. Lembrou-se do exercício de respiração e o executou. A dor só fazia aumentar e seus gritos davam-lhe a impressão de que o mundo inteiro se achava vazio. Uma escuridão sobrenatural nasceu do centro do teto da paróquia, irradiando para as paredes, escorrendo como lama. As imagens ficaram imundas, a luz era tragada. Uma água negra borbulhava do chão e um cheiro de morte, decomposição e fogo tomava o recinto. Maria viu o piso sumir sob o líquido imundo. Seu sangue se misturou ao negror e à sujeira. Tocou a barriga e o tato confirmava seus temores. Pontas rígidas rasgavam-lhe a carne e seu grito reverberou impiedoso contra as paredes.
- Deus! – lançou a cabeça ao alto. Os clamores seguintes silenciaram quando mãos negras deslizaram das costas aos ombros, descansando sobre os seios.
- Maria... Maria. – o tom era de deboche. – Ele já te abandonou. Aproveite o momento mágico da maternidade e traga essa criança ao mundo.
Os olhos miravam o ventre que se revolvia. Maria se debatia tentando se proteger do toque, porém mais mãos a aprisionaram.
- Quieta. Você é apenas uma porta, querida. – a voz queimou-lhe a pele.
Maria se sentiu tonta. Subitamente, pontas de dedos perfuraram sua carne de dentro para fora, ganhando espaço até duas mãos afastarem os músculos abdominais, rasgando-os. A mulher gritava alucinada, a rouquidão tomava conta da voz poderosa, a dor latejava nas têmporas, no peito, nos olhos lacrimejantes. O choro lavava o rosto. Ela balbuciava “não” e “Oh Deus!” diversas vezes. O sangue jorrava pelo corpo, se perdendo no chão que desaparecia.
As mãos surgiram completamente, rompendo para o mundo. Duas protuberâncias pontiagudas emergiam e, depois, um rosto indescritível se voltou para Maria. Os olhos encovados, vermelhos de sangue. Numa fração de segundos, as mãos agarraram sua face e ela viu um futuro desolador. Tudo escureceu e parou.
- Maria! Maria! – o velho padre sacudia a mulher há quase cinco minutos e ela não despertava.
De chofre, a jovem abriu os olhos e, aos gritos, arranhou o pároco magoando-lhe a pele. Em disparada, Maria fugiu da igreja. À porta, uma silhueta negra espreitava.
*
*
*
Aos nove meses, Maria foi levada à força ao hospital. Gritava que não queria ter a criança. Aplicaram-lhe um calmante. Levada do quarto à mesa de operações, a infeliz gestante agredia médicos, enfermeiras e até mesmo o marido se tentassem convencê-la a dar a luz. Seus braços foram presos à maca por cintas, não podendo mais machucar ninguém, mesmo que se debatesse. Quando viu a seringa contendo mais calmantes, Maria chorou, ainda que não fizesse diferença.
- José, por favor, querido, não me deixe ter essa criança! Ai! Oh, Deus! O que será de nós? – o rosto inchado pelo choro, os olhos focados no marido que ficou atrás das portas.
*
*
*
Maria sentiu-se flutuar. Estava nos braços de alguém. Os olhos se abriram e na sala de operações havia homens e mulheres mortos, sangue, vísceras e pedaços humanos espalhados por todo lugar. Voltou o rosto para quem a trazia nos braços e emudeceu. As lágrimas corriam gordas pela face.
- Sou o Encarnado. Serás eternamente saudada, Maria.
Maldito é o fruto do vosso ventre.
.---.
Publicada em 12/01/2010
Postar um comentário