Após dois séculos no Inferno Profany anda novamente sobre a Terra. Do choque cultural a apresentação de novos personagens, Profany fica face a face com seu primeiro alvo dos 125 que terá pela frente.
Profany
O Anjo da Morte
Em
CONTOS DE PROFANY
Por: Anderson Oliveira
Escrito originalmente em 2004
Capítulo IV: Uma Missão
Então, começou meu amigo, que queria ser chamado agora de Profany, a descer aquele morro. Contemplava a cidade que o esperava. Era a seus olhos totalmente estranho, pois o mundo que conhecera se transformou. Já não via mais os palacetes do século dezoito, nem as carruagens e nem as senhoritas com suas damas de companhia. Via prédios de concreto, metal e vidro. Carros de aço sem cavalos a puxar-lhes, e moças com roupas mínimas e trejeitos deselegantes. Vinha a sua mente uma inevitável pergunta:
— O que aconteceu com Londres?! — eu que o acompanhava, respondi:
— Primeiramente, aqui não é Londres, nem a Europa. Estamos na Terra de Santa Cruz, hoje
chamada de Brasil, em sua maior metrópole, chamada São Paulo.
— Certo... Então... O que aconteceu com o mundo?!
— Você caminhou sobre a Terra até o dia cinco de maio de 1792. Estamos em 21 de agosto de
2001... 209 anos depois. O mundo se alterou rapidamente. Vieram tecnologias, modismos sobre
modismos e culturas diferentes eclodiram. É certo que você achará os costumes dessa época... estranhos... como de fato os são... — Minha resposta pareceu não acalentar a dúvida de Profany, que continuou a caminhar calado. Entretanto, há mais coisas para ser-lhe dito: — Profany, ainda precisa saber de alguns detalhes.
— Pode falar.
— Sua condição física é diferente de um ser humano, pois afinal, você não é um ser humano. Eis que é um ser inédito, um misto de dois mundos, o Espiritual e o Material. Esses dois mundos têm
suas leis, no material, por exemplo, há a gravidade, o atrito e o tempo. Você está sujeito a algumas leis, e outras não. Para sua missão, você será imortal, mesmo que seja ferido de morte, se curará rapidamente, seus ossos não podem ser quebrados e sua força é superior a de um homem comum. Também não sentirá fome nem sede, porém sentirá sono e deverá dormir. Quando falar, será entendido em todos os idiomas, assim também entenderá todas as línguas, isso será necessário, pois em breve irá para outras partes do mundo. Tem uma capacidade especial: poderá transitar pelos mundos material e espiritual, mas só se for necessário. Estas são habilidades concedidas para que possa realizar sua missão.
— Hmm... bom. Mas por que recebi força e imortalidade?
— E certo que, a fim de matar algum inimigo, terás de usar violência para reagir, pois poucos
se entregarão sem lutar.
— Imaginava. — nesse instante chegava ao fim do moro. Era uma estrada movimentada com
caminhões e carros. — Vocês bem que poderiam ter me deixado num lugar mais fácil! Como vou
cruzar essas coisas? Posso voar?
— Não. Mas pode continuar andando até um lugar chamado Faixa de Pedestres, onde poderá atravessar.
— Ok. E você, vai ficar me seguindo como um...
— Anjo da guarda? Sim. Mas não se preocupe, só você pode me ver. Para os humanos, serei invisível como os outros anjos.
— E por que não vejo os outros anjos como vejo você?
— Porque eles não querem ser vistos. Alguns nem eu posso ver, se eles não se deixarem ver. —
curioso, mas este comentário me faz pensar em um detalhe que até então, não tinha percebido. Durante todos os anos que Profaniel foi mortal, eu jamais conheci o anjo de Kate...
— Então chega de conversa... quero chegar a esta cidade para começar logo com minha missão.
* * *
Já era tarde quando Profany chegou à cidade. Não é propriamente o centro, é um bairro simples, de
gente simples. Gente tão sofrida com seus próprios problemas que nem estranham aquele homem de
preto, peito aberto, cabelos longos e loiros, uma máscara de retalho tampando a boca e de tão visível magreza. Profany sentia-se cansado. Eu, vendo que ele precisava se acostumar com o lugar, o deixei e fiquei distante, só observando. Ele encontrou uma pequena pracinha onde garotos empinavam pipas e idosos jogavam damas. Sentou-se num banco e permaneceu calado.
Seus olhos começaram a seguir as pessoas que passavam a sua volta. Via senhoras bem vestidas indo para a igreja, não uma igreja como ele conheceu, suntuosa e adornada, mas uma improvisada em um salão que já fora de tudo um pouco. Logo fitou também um grupo de jovens, os rapazes com roupas largas e coloridas, as moças com roupas justas e rosto pintado. Profany só enxergava confusão. Então parou e observou um pequeno menino, de pouco mais de um ano, que brincava com seu brinquedo no chão da praça. Olha as roupas simples daquele garoto, que se divertia com um pedaço de plástico sob a forma de carro.
O garoto, em sua inocência, viu aquele homem sentado no banco e se aproximou. Certamente sentiu
nele algum vestígio da glória angelical. O menino correu, ainda que com dificuldade, em direção a
Profany. Este já não mais se atentava para o pequeno, que lhe estendia a mão e oferecia o brinquedo. Profany não deu atenção. O garoto então esboçou uma palavra qualquer. Profany virou a cabeça e olhou aquele menino ali no chão ao lado de seus pés. Seu coração, endurecido durante a temporada que esteve no Inferno, não teve qualquer emoção a expressar, e rudemente disse:
— O que foi menino?! Perdeu alguma coisa? — disse algo o garoto com toda a inocência. Em
seguida respondeu Profany: — Saia daqui! Não tenho tempo para brincar...
Eis que estava tomando conta do menino sua irmã mais velha, uma garota de uns doze anos. Ela lia uma revista esotérica e se descuidou do pequeno. Após ouvir a voz rude, uma voz que desconhecia,
deu por conta de que seu irmão não estava mais por perto. Se levantou assustada e o viu com o
estranho:
— Thiago!! — chamou o menino. Profany a viu. Logo ela se levantou e correu até o irmão. —
Vem, vem pra cá! — o tomou no colo. — Moleque danado! É só eu me distrair um pouco e você some! E que ideia é essa que ficar conversando com mendigos?!
— Olha aqui menina, eu não sou mendigo...
— Eu não quero saber o que você é! Aliás, você é muito esquisito! É melhor eu ir embora.
Pensou em retrucar, mas não fez nada. Profany sentiu algo em relação àquela garota. Um sentimento fraterno, como se conhecesse a menina de algum lugar. Seria impossível, pois todos aqueles que ele conheceu já morreram a mais de um século. Assim pensando seguiu com os olhos a garota e o seu irmão até não mais vê-los. Percebeu que não havia mais nada de interessante naquela praça, e como já estava descansado, se levantou e se foi.
* * *
Anoiteceu e chegou Profany numa parte mais cosmopolita do bairro. Um lugar onde se concentrava lojas, bancos e muitos, muitos carros barulhentos. Observou grandes edifícios a sua volta e pensou
que de cima de algum deles poderia ter uma ampla visão. Assim, avistou um que ainda estava em construção e escalou-o até o topo, se agarrando em ferros e vigas.
— Perfeito! — disse do alto de uma coluna de ferro, há mais de vinte metros de altura. Outra amostra de sua natureza angélica: não tinha medo de altura. Assim uniu os pulsos e sondou as almas das pessoas embaixo. Viu uma alma avermelhada que seguia dentro de um carro... — Você será o primeiro!
— Saltou em queda livre, de costas, caindo pelos vãos do esqueleto do prédio. Próximo do chão virou o corpo e caiu de joelhos sobre sacos de cimento.
Enquanto Profany se levanta, limpa a poeira da roupa e caminha tranquilamente até a rua, iremos
conhecer o possuidor da alma maligna. Ele cruza o bairro em direção ao centro em seu carro, um
Opala preto, sem o capô da frente, com o motor cromado à vista. No som, música funk em alto
volume. Seu celular toca:
— Alô?! Tom? E aí, mano? Firmeza?! Tô... fica tranquilo que a parada tá comigo! Isso... é quente... de primeira! Então, é lá na boate...? Às dez? Podexá que eu tô indo pra lá. Até parece que você
não conhece seu parceiro! Falou!!
Esse é Nelsinho, um dos maiores traficantes da região. Sua gangue controla boa parte do fornecimento de drogas da cidade, possui contatos com cartéis colombianos e do Rio de Janeiro. Porém, seus maiores crimes não se resumem a traficar entorpecentes. Nelsinho já comandou muitas chacinas, assassinou mulheres e crianças e violentou garotas da sua cidade natal. Possui sangue frio bastante para ter acusado seu pai, que foi preso em seu lugar e morreu na prisão.
Assim o elemento continuava a vagar com seu carro até seu destino. O homem que ligou é um de
seus maiores aliados. Acontece que há tempos a polícia vem grampeando o telefone dele. Isso nos faz ir ao DENARC, Departamento de Narcóticos, onde encontramos os investigadores que ouviram a ligação:
— Pegamos o safado! E eu aposto que o Tom ligou pro Nelsinho! É uma boa oportunidade para pegarmos os dois, não é Luke?
— Sim Luiz. E eu acho que eu sei de que boate eles falaram. Chame os homens e prepare o mandado, vamos estourar esse ponto de drogas! — esse é o policial Lucas Junqueira, Luke para os
amigos. Um agente da Polícia Civil que com seu parceiro Luiz Borges, caça os dois maiores traficantes há meses. Logo eles saem em diligência até a boate onde tentarão prender Nelsinho e seu amigo Tom.
Assim se preparavam os personagens para nosso próximo ato. Enquanto meu amigo Profany caminhava pelas ruas daquela cidade, não sabia ele como alcançar um veículo que se movia com tamanha velocidade. Então, nesse instante, resolvi ajuda-lo lhe apontando uma saída para sua dúvida:
— Amigo Profany, quer chegar a algum destino?
— Ah, você? Bem... Eu fiz como me mandaram e localizei um que devo matar... porém ele partia
numa dessas carroças sem cavalos e o perdi de vista. Mas, parece que algo me guia até ele... eu sei o
caminho que tenho que percorrer... mas algo me diz que não chegarei a tempo se caminhar nesse passo.
— Explico: Agora que teve um primeiro contato com seu adversário, criou-se um elo entre vocês... Você sentirá toda vez onde irá reencontrar seu alvo. É uma habilidade que...
— Sei... isso eu pude deduzir... De certo é essa mesma sensação que me diz que se não me apressar
ele irá escapar?
— Sim. Mas por que vagas pela Terra, onde é sujeito a duras leis, quando pode migrar para o Mundo Espiritual onde o tempo e a distância não existem? Acaso não se lembras que disse que podes fazer isso?
— Lembro, mas você não disse como!
— Verdade. Bom... primeiro relaxe e feche os olhos, respire fundo e expulse da mente todos os pensamentos, concentre-se somente na minha voz (que não lhe será ouvia pelos ouvidos, mas pelo
coração). — assim ele o fez. Abaixou a cabeça, fechou os olhos e mudou a respiração. Ficou assim por algum tempo. — Agora diga em seu pensamento o que deseja, no caso, ir ao Plano Espiritual...
Assim foi feito, e o véu dos séculos se rompeu e Profany, que estava feito carne, se transformou
em espírito e ascendeu ao Plano Espiritual. Como posso descrever algo que não tem matéria, logo,
não tem cor, nem forma, nem tamanho? Façamos do modo mais simples: olharemos esse mundo pelos olhos de Profany. Era para ele uma cópia fiel do Mundo Material, estava ali a mesma avenida, os mesmos prédios e o mesmo chão que pisava... mas num tom esverdeado, como se houvesse uma nevoa sobre seus olhos. Não havia o movimento dos carros e nem de pessoas, mas ouvia vozes e toda a sorte de ruídos provocados pela vida humana. Logo veio na sua ideia de se tocar, percebeu que nada nele se alterou, era como se pudesse sentir sua carne, mesmo não tendo carne. Logo ele me chamou:
— Noriel! O que houve?
— Este é o Mundo Espiritual, não estranhe que para ti não tenha mudado muito... é só a auto projeção da sua mente.
— Agora me leve àquele que terei que matar.
— Vá até ele por si mesmo. Ainda pode senti-lo?
— Claramente...
— Pois bem, lembre-se que aqui, não há distâncias, nem tempo. Siga o caminho, e perceberá que não será nem um pouco tortuoso.
— Ok. — então seguiu por aquilo que julgava ser uma avenida, seguindo a presença de Nelsinho. Sem perceber, estava se deslocando em milagrosa velocidade, tanto que logo achou o lugar. — Ele
está aqui. Agora, como volto para o outro lado?
— Do mesmo modo que veio. — eu disse. Assim Profany repetiu o mesmo ritual e, em seguida,
estava novamente sob a Terra. Não notaria tão cedo, mas lá, o tempo não havia passado um segundo
sequer. Para um observador de fora, teria ele se teletransportado, como diriam.
* * *
Era uma boate em um bairro tradicional da cidade. Sob a fachada de casa para festas de jovens, as chamadas baladas, havia um lado onde criminosos se encontravam e faziam negócios, tudo sobre o
consentimento do proprietário, que via ali seus maiores patrocinadores. Nessa ocasião, Nelsinho chegava em seu carro e entrava pelos fundos. Em mesas, bebendo e fumando estavam seus subordinados e os do seu amigo o qual iria se encontrar.
Entrou Nelsinho de modo triunfante, como homem respeitado que era nesse meio. Com duas armas na cintura, colares de ouro, um relógio caro e uma camisa de seda branca. Dizem que é adepto do candomblé, mas isso não interessa. Tomou acento junto aos seus e pediu um drinque. Assim iniciou a negociação:
— É isso aí, rapaziada... Eu tô aqui... agora cadê o meu compadre Tom?
— Nosso chefe deve estar chegando...
— É bom mesmo... pois sem ele, não tem negócio. — enquanto os criminosos conversavam, Profany se manifestou nos fundos da boate, onde Nelsinho deixou o carro.
— Ele está lá dentro. — Disse meu amigo, apoiando a mão sobre o veículo. Então entrou sorrateiramente na boate e ficou a espreita apenas observando. Ainda não vira o rosto de seu alvo, Nelsinho estava de costas para ele e assim permaneceu.
Chegava o traficante Tom, acompanhado de uma jovem muito formosa, com trajes escandalosos. Após os cumprimentos entre os amigos, este se sentou à mesa e os dois começaram sua tão esperada
negociação:
— Meu camarada Nelsinho! Como vão as crianças?
— Vão bem Tom, estão com a vagabunda da mãe. Mas e essa cachorra, quem é?
— Essa é a Lady Sandrinha. Mas vamos logo ao assunto. Trouxe a coca?
— Tá bem aqui. — Nelsinho dá sinal aos seus homens, que botam malas sobre a mesa e as abrem,
revelando o conteúdo. — Direto da Colômbia. Me custaram três mortos...
— Pegos pelos “homi”?
— Não, eu que me irritei com a demora...! — disse sorrindo.
— He, he... boa piada...
— Não foi piada.
— Hmm... bem... então... aqui tá o teu pagamento...
— Peraí... Acho que mudei de ideia... pode guardar seu dinheiro... eu quero essa boneca! —
Nelsinho puxa pelo braço Sandrinha.
— Qualé rapá! Tá de brincadeira! Pra cima de mim não!! — Tom se levantou e sacou sua arma,
assim como seus comandados... Logo os homens de Nelsinho também se armam. Profany que observava a cena percebeu que era hora de agir...
— Você!! Largue a mulher... — ele disse das sombras.
— O quê...?! Quem é você? — disse Nelsinho, apontando uma arma para a cabeça de Sandrinha...
— Quem é ele Nelsinho?! Que truque você tá armando?! — perguntou Tom.
— Não sei quem é essa figura...!
— Eu sou Profany... e você deve morrer... — Profany saiu das sombras.
— Mas hein?! O que esse magrelo acha que é! Ha, ha, ha... — Ria-se Nelsinho enquanto seus
homens desferem tiros contra Profany que caiu atingido pelas balas. Um deles se precipita e atira contra os homens de Tom, logo um confronto está armado. — Idiotas!! Parem com isso!! — disse o traficante que se jogou no chão sobre Sandrinha, essa que gritava e tentava escapar.
Profany caiu inconsciente no chão. Os capangas de Nelsinho foram mortos por Tom e seus dois
homens que lhe restaram. Do lado de fora, os agentes do DENARC chegavam nas suas viaturas e ouviram o tiroteio, logo se aprontaram para invadir a boate. Tom estava ferido, Nelsinho se escondeu e tem a moça como refém.
Longe dali, numa simples casa, encontramos aquela menina da praça com seu irmão. Sentada em sua cama lendo sua revista. As imagens dela com o policial Luke Junqueira se multiplicavam pelas fotos e porta-retratos pelo quarto... Ao mesmo tempo Luke entrava na boate a frente dos agentes... A garota de súbito deixa a revista e olha o retrato na parede:
— Papai! — exclamou — Meu pai está em perigo!
Conclui em 30 dias.
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