Melvin e Florisval finalmente chegam na caverna do tesouro da família Goldin para deter o ambicioso Adler. Enquanro isso, dentro da caverna, Joana e Glin correm grande perigo.
- Acho que ele já foi – falou o gnomo aproximando o ouvido da parede. Ele e Joana estavam presos na segunda parte do recinto na caverna.
- Você pode criar paredes? – perguntou Joana atrás do pequeno Glin.
- Não exatamente. Muitos diriam que é uma magia Elemental, mas não é. Esse lugar é o meu lar, então posso modificar a forma dessa parte da caverna a meu bel-prazer. Como por exemplo, criar uma nova parede. Entretanto, dependendo da mudança, pode me consumir muita energia, como essa agora.
- Entendi.
- Posso ser pequeno, mas também tenho minhas qualidades – elogiou-se olhando para a jovem. Foi então que algo lhe veio em mente seguido de um sentimento de culpa. – Me desculpe, Joana. Eu falhei. – proferiu o gnomo de forma melancólica. – Há três gerações que protejo o tesouro de sua família, e o deixo ser roubado... Que tipo de guardião eu sou? Você já viu algum guardião tão pequeno como eu? Eu... sou um fracasso. – Observando a expressão lamentosa de Glin, Joana notou os olhos dele marejarem. – Havia poucos gnomos no mundo pelo o que meu pai me contava, e eu tinha bons laços com a maioria. Muitos sempre me visitavam aqui na caverna; meu pai e meus amigos. Mas... há seis anos, todas essas visitas terminaram. O tempo foi passando e a pergunta que eu me fazia durante todos os dias foi ficando cada vez mais clara. O motivo pelo qual eu não recebia mais visitas era porque não havia quem me visitar. Eles já não existiam mais. O último a me visitar foi o seu pai naquela mesma época. Depois dele, você e aquele homem foram as primeiras visitas a parar naquele muro de madeira. Proteger o tesouro era o meu trabalho, era a minha obrigação. Pois era o tesouro de pessoas importantes como você e seu pai; os únicos amigos humanos que eu tinha. E eu... falhei. – terminou Glin resvalando lágrimas em sua face.
Joana agachou-se e sorriu para o gnomo.
- Não se preocupe com isso, Glin. A culpa não é sua. Você fez um bom trabalho durante todos esses anos. É quase como da família, apesar dela não existir mais – proferiu a última frase desviando os olhos. Tornou a fitar o gnomo. – Mas é melhor pararmos aquele homem mal. Não posso deixá-lo fazer o que quiser à custa do que meu pai confiou a mim. Tenho que impedi-lo.
- M-Mas é muito perigoso. Você não tem chance contra ele. Aquele homem não é mais humano.
- Eu sei. Mas eu preciso tentar – disse determinada, pondo-se de pé. – Por favor, me diga uma maneira de sair desse lugar. Pode desfazer essa parede?
- Sim, mas... – Glin hesitou um pouco em realizar o pedido de Joana. Mas apenas o olhar que ela lançou-lhe demonstrava que ela implorava por aquilo. Após um suspiro, ele virou-se para a parede que dividia o recinto atrás dele, e fez um movimento com as duas mãos para que ela desaparecesse.
Neste mesmo instante, um ar quente foi soprado em direção aos dois. Seus olhos notaram o panorama infernal adiante. Tudo estava queimando. Glin tentou proferir alguma palavra, mas sua boca aberta apenas dizia o quanto estava surpresa.
- Meu Deus! Ele... – Joana murmurou.
- Meu lar... está queimando – Glin fitou as labaredas de fogo consumindo todos os móveis do local. O corredor que dava acesso a saída, encontrava-se intransponível devido às ardentes chamas que impediam qualquer passagem por ali. Sem notarem, o fogo começou a atingir a outra parte do recinto, o qual Joana e Glin se encontravam. A mulher logo notou o fogo se aproximando pelos lados, enquanto o gnomo, ainda em um estado de trauma, observava o lugar sendo devastado.
- Glin! – chamou a voz de Joana em meio ao som dos estalos causados pelas chamas. – Temos que sair daqui! Esse lugar está queimando. Glin! – gritou mais uma vez o nome do gnomo que só então se pôs a fitá-la. – Glin! Temos que sair daqui! – O gnomo voltou o olhar para o corredor em chamas ao fundo do recinto inserido na lateral da caverna, que dava para o muro de madeira.
- Impossível! Aquela é a única entrada e saída deste lugar. Não há por onde sair. Eu não posso usar a parede novamente. Aquilo consumiu muito energia minha.
Joana olhou para o corredor que era a única passagem para a luz do dia. Toda a esperança sendo consumida pelas altas labaredas que queimavam ali, a madeira das prateleiras naquele corredor. O fogo continuava a se aproximar lentamente pelos móveis encostados uns aos outros. Mas o que mais intrigou Joana foi que as chamas pareciam ter vida própria em alguns momentos. De uma mesa em chamas para a outra, o fogo parecia ter pulado para a seguinte como se estivesse programado para fazer isso. Além disso, parecia se arrastar pelo chão como se queimasse a terra. Aquilo com certeza não eram chamas comuns. Era o fogo assassino de Adler.
Capítulo 08
Colisão
- Pare! – gritou Melvin, depois de terem corrido um bom trecho pela floresta. O olhar do mago era preocupante.
- O que foi? – perguntou o floricultor. Melvin continuava com a mesma face abismada.
- Isso é... – uma onda de energia havia passado por ele há poucos instantes. Podia sentir claramente o significado daquilo. - ...Energia Volaki!?
- Energia... Volaki? – repetiu o camponês desconhecendo o termo.
- A energia responsável por todos os poderes dos magos atualmente – explicou Melvin. – Os portadores desta energia podem sentir uma ressonância quando elas são usadas muito próximas uma da outra. Ao que parece, alguém com essa mesma energia se encontra nesta direção.
- O que isso quer dizer? Que há algum outro mago por perto?
- É uma hipótese pouco provável. Adler e Joana estão naquela direção, então... pode ser que um deles... – Melvin parou tentando refletir o que iria falar. Alguns pontos importantes lhe passaram pela mente, fazendo-o murmurar algumas palavras. – Tesouro... guardião... tesouro... – Melvin esticou o olhar na direção de onde sentira a energia. – Não pode ser! Seria esse o tesouro dos Goldins?
- O que? – Florisval perguntou, recebendo o olhar do mago em seguida.
- Uma Esfera Volaki! – respondeu. – Continue correndo! – ordenou Melvin, pondo-se na frente do camponês.
- O que é essa esfera Volaki? – Florisval perguntou correndo junto ao mago.
- Algo que dá poderes. Fique atento! – Melvin alertou o camponês que o seguia
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Com seu rosto sobre o chão, os olhos de Neal observaram os passos de Adler se aproximarem. Havia feito tudo o que podia para tentar matá-lo, mas no fim, nada valera à pena. Apresentando queimaduras em várias partes do corpo, tentava suportar uma ardente dor. Por esse motivo, mal encontrava forças para se levantar. Os pés de Adler pararam a poucos centímetros de sua face. Foi então que sentiu a gola de sua camisa ser puxada. Adler, com um sorriso maléfico, levantou o seu corpo deixando seus rostos frente a frente.
- Neal, o líder e o mais responsável entre todos os guardas da família Goldin. Deveria ter arrumado um trabalho melhor, pois nesse você falhou vergonhosamente. Me diga! Quem você conseguiu proteger? Boris? Joana? Os seus guardas? Por falar neles, estão todos mortos ao seu lado, com exceção de um. Mas o que realmente quero dizer é que... você é desprezível. – disse com um sorriso cômico no rosto.
- Você... será queimado por seu próprio fogo assassino – rebateu o guarda de cabelos negros. Adler permaneceu com seu sorriso.
- Irei queimar sua vida com o meu fogo assassino – proferiu segurando Neal com apenas uma mão, e com a outra, erguendo-a rente a cabeça do guarda. Dela, saiu a rajada mortal que incinerou a cabeça de Neal. Pouco antes de sua morte, ele apenas gritou de dor, tendo tempo apenas de lamentar mentalmente a sua falha em proteger Joana.
- Huh! – soltou o assassino após ter queimado o guarda, jogando-o no chão, e em seguida lançando seu olhar para o último. Durval continuava imóvel na mesma posição desde que Neal fora pego. Sua adaga era segurada fracamente por sua mão direta, e sem vontade nenhuma de usá-la. Tremia de medo que Adler fizesse o mesmo com ele. – Parece que você foi o único que sobrou. Você é um bom garoto. Com isso percebeu que a honra para uma família nobre de pouco adianta se não pensa em si mesmo. Por isso, muito obrigado pelas informações dadas na noite de ontem. Imagino que ainda esteja com o dinheiro, e veio atrás de mais. Não seguiu os guardas para proteger a Joana, e sim para buscar o dinheiro extra que prometi ontem.
- Se o senhor quiser não precisa me dar. O que tenho já o suficiente, mas por favor, não me mate! – Durval implorou num tom de desespero. – Eu não farei nada de mal ao senhor. Eu juro! Eu não sou tão fiel a família Goldin, já que aceitei seu dinheiro antes. Por isso não sou uma ameaça. – dizia o guarda tentando justificar seu motivo para viver.
- O egoísmo é a salvação das pessoas, não acha? É uma pena que em alguns casos... – Adler ergueu o braço em direção ao jovem guarda. - ...também seja sua destruição! – Soltou uma rajada de chamas seguida de uma risada maléfica.
Instantes depois de acabar com o último guarda, Adler ainda apreciava os corpos queimados ao seu redor em aparências nada agradáveis. Todos mortos por ele em prol de sua nova vida. Restava apenas uma única pessoa a ser finalizada: Joana Goldin. Quase se esquecera do pequeno que o atrapalhara. De qualquer forma, pretendia matar os dois.
Com os olhos centrados na caverna, ele começou a caminhar até ela. Mas um fator incomum o fez voltar-se abruptamente para a floresta atrás dele. A sensação foi de algo que não sabia o que era por nunca tê-la sentida, e guiado por ela, observou um inesperado jato de água vindo em sua direção. A surpresa foi tão grande que lhe deixou sem reação de defesa. O jato o atingiu em cheio, jogando seu corpo no chão alguns metros atrás.
- O que... – murmurou Adler olhando adiante, com seu corpo ainda ao chão. Ele arregalou os olhos ao observar duas figuras à frente da floresta. Uma delas estava com um arco na mão, enquanto a outra erguia um cajado apontado para ele. Ambos lhe encaravam com uma expressão séria. Adler observou atentamente o homem com o cajado. – Você... – Adler levantou-se já reconhecendo uma das pessoas à frente. - ... é o cara de ontem.
- Adler... – Melvin começou a dizer sem abaixar a mão com sua arma. - ...você acabou se tornando um cara mais perigoso do que já aparentava.
- Eu já devia ter suspeitado antes. Um mago, não é? Posso saber o que um mago está fazendo aqui?
- Eu que devia fazer essa pergunta – respondeu Melvin num tom de ironia. – O que um nobre com você faz no meio de seis corpos incendiados? – Florisval que até então só mantinha os olhos em Adler, passou a observar melhor o cenário adiante. A aparência dos corpos no chão era mesmo de que foram queimados. A tonalidade escura impedia o reconhecimento de cada um.
- Onde está Joana? – perguntou o camponês com um leve desespero, pelo fato de imaginar que um dos corpos seja de quem está procurando. – Ela não está...
- Fique tranqüilo! – Melvin o confortou. – Ela não é nenhuma das pessoas à frente. Provavelmente são os seis guardas que a protegiam.
- Então onde ela está? – perguntou Florisval para o mago, ainda meio em desespero. Saber que ela não estava entre os corpos no chão não foi o suficiente para acalmá-lo.
- Está na caverna – respondeu Adler, recebendo o olhar do floricultor. – Eu estava querendo matá-la desde o início, mas acabei falhando. Entretanto... – Adler olhou para a caverna atrás dele. – Há menos que exista outra saída além desta, provavelmente ela estará morta em breve.
- O que disse? – O floricultor ficou irritado com aquela suposição.
- Florisval! – chamou o mago. – Entre na caverna e tire Joana de lá. Eu deterei Adler enquanto isso.
- Está bem – assentiu o camponês. Ele fitou o homem em frente, e iniciou uma corrida rumo à entrada da caverna, mas passando o mais longe possível dele. Adler apenas rolou os olhos para a esquerda, observando o floricultor passando bem além dele.
- Huh! – Adler elevou o braço na direção de Florisval, e soltou uma rajada; mas que não chegou ao seu destino devido a um jato de água que colidiu lateralmente com ela. Uma nuvem branca causada pelo resfriamento se formou perto de Florisval que permaneceu imóvel por causa do ataque surpresa. Adler suspirou insatisfatoriamente, voltando-se para o mago que mantinha seu cajado suspenso.
- Vá, Florisval! – pediu o mago enquanto encarava Adler. O camponês apenas reiniciou sua corrida sem dizer nada.
- Um mago e um camponês. Sorte a minha vocês chegarem atrasados. E pensar que queriam mesmo proteger aquela mulher – disse Adler com uma feição irônica.
- Você... sabia que estávamos chegando? – perguntou o mago.
- Basta um homem ser corrompido e todo o sistema de segurança não servirá para nada. Quem será o culpado? O dinheiro ou o homem que aceitou?
- Não me diga que subornou um dos guardas de Joana? – Melvin perguntou após sua rápida conclusão. Adler olhou para um corpo ao lado e falou novamente.
- Coitado! Ele era tão jovem, e tão ingênuo. Pensou que poderia sair dessa história com uma alta grana escondida. Uma mente egoísta, que eu admiro, mas tão patética que chega a ser engraçada. – disse dando uma rápida risada. – Parece que também terei que matá-lo, mago. Aqueles que atrapalham o caminho de riqueza da família Collens devem morrer. – proferiu Adler sem medo algum da pessoa adiante.
- E aqueles que executam ações como a que você fez agora devem sumir deste mundo – Melvin disse com os olhos estreitados.
- Oh, é mesmo? – zombou o outro. Melvin esboçou um sorriso. – Qual é a graça?
- Sorte sua que o meu “sumir” não significa que você tenha que morrer. Entretanto, por hora não poderei aplicar essa minha filosofia em você. Por isso, irei apenas detê-lo. Mas antes tenho perguntas a lhe fazer.
- Perguntas?
- Você... tocou em uma Esfera Volaki, não é? Série 04 de alguma inicial. Elemento fogo. Onde a conseguiu?
- Ah, está se referindo a esse poder que tenho agora!? – Adler olhou para seus braços sentindo novamente sua sensação de grandeza. – Isso é maravilhoso! É magnífico!
- Onde a conseguiu? – Melvin perguntou num tom mais forte. – Esse... esse era o tesouro da família Goldin? – O mago recebeu um sorriso pela pergunta.
- Vejo que está bem informado. Está certo! O que tenho dentro de mim é o tesouro que eu tanto sonhei. Algo que me fizesse superior a todos. Algo que me desse a sensação de ser “especial”. Como um Deus!
- Huh, não me faça rir. Você é apenas um mero humano experimentando uma força desconhecida e inapropriada. A sensação para os seres mais fracos é a mesma que está sentindo agora.
- Quer testar se sou mesmo um ser fraco? Não fique se gabando só porque é um mago.
No mesmo instante em que terminou a frase, Adler lançou uma rajada de fogo sobre o oponente. Melvin esquivou-se a tempo pulando para a esquerda, enquanto o ataque abrasava os arbustos atrás dele. As folhagens queimavam, sendo que algumas eram levadas pelo vento e se desintegravam no ar. Adler fitou o mago próximo às folhas chamejantes e flutuantes.
- Não fique se gabando com um ataque de fogo tão básico – retrucou Melvin.
. . . . . . . . . . .
O fogo já tomava conta de quase todo o lugar que um dia fora a moradia de Glin. Ele e Joana estavam encolhidos no chão, observando aquelas estranhas chamas consumirem e queimarem cada parte daquele ambiente. Restavam apenas poucos cantos a serem incinerados. Os dois encontravam-se no fundo do recinto, olhando a visão infernal cada vez mais próxima.
- Nós vamos morrer! Nós vamos morrer! – repetia o gnomo, deixando-se levar pelo desespero. Joana, ao seu lado, olhava para baixo pensando nas palavras ditas por Glin.
- Morrer... morrer... Se isso acontecer, talvez eu consiga rever meu pai e minha mãe. Eles apenas existem na morte. Neste mundo, a única presença que poderia sentir deles foi roubada. – refletia com as mãos juntas rente ao busto. Foi quando sentiu algo escondido dentro de seu vestido. De lá, ela tirou uma rosa num tom azul bem forte. Fitou a flor por alguns instantes até que uma frase despertou de sua memória.
“Quando partir com Adler para procurar o tesouro ao amanhecer, eu saberei onde você está. Portanto, não permitirei que se afaste de mim. Quando a flor ficar nessa cor, estarei bem perto de você.”
- Florisval! – exclamou ela.
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Passos ecoavam pela caverna. Um homem corria desesperadamente em meio ao lugar pouco iluminado, gritando com freqüência o nome “Joana”. Queria muito encontrá-la e salvá-la.
- A flor estava azul antes de entrar na caverna. Me espere, Joana! Eu estou perto! Eu estou chegando!
. . . . . . . . . . .
- Quem? – perguntou Glin, desconhecendo o que a jovem acabara de dizer.
- Ele está vindo! – proferiu ela, mantendo os olhos sobre a Rosa do Ligamento completamente azulada.
- Joana! – o grito do gnomo fez a mulher acordar de sua esperança, e notar uma chama crescente à frente. Ela começava do chão erguendo-se do solo como se fosse uma cobra prestes a atacar sua presa. Nela, os dois puderam ver uma sinistra face de alguém que procurava dar fim à vida.
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Florisval percebeu uma luz alaranjada adiante. Após correr mais um pouco, viu que eram enormes chamas que lhe impediam a passagem.
- Joana! – gritou o camponês ao notar o que aquilo poderia significar. Parou em frente ao muro em chamas pondo seus braços na frente do rosto para se proteger das sobras cinzentas queimadas pelo fogo. – Joana! – gritou mais uma vez sem obter resposta. Sua voz era quase inaudível devido ao barulho que as labaredas provocavam. – Que droga! – rezingou.
Mas sem demonstrar desesperança, e ainda confiante e determinado em salvá-la, tirou uma peculiar flor de seu colete. Ela tinha uma haste marrom, e suas pétalas eram fechadas e curvadas num tom azul bem claro. Também pegou uma flecha de sua bolsa nas costas, e nela amarrou a flor usando uma linha. Posicionou a flecha em seu arco e se preparou para atirar. Seus olhos firmes nas chamas em frente. O risco daquela ação poderia significar a morte de Joana, mas era a única maneira de salvá-la. Puxou a flecha para trás, e antes de atirar proferiu algumas palavras.
- Derrame o seu pranto! Choradela!
A fecha foi atirada, e no mesmo instante a flor presa à ela começou a emanar uma grande quantidade de água em todas as direções. A flecha penetrou nas chamas ao lado de uma quantidade surreal de água que tratou de apagar as enormes labaredas do lugar. Nuvens de resfriamento apareceram e as chamas foram sumindo. A seta passou em disparada pelo corredor de entrada ao recinto de Glin, ao mesmo tempo em que um turbilhão de água invadia o local, engolindo qualquer chama nele.
Joana no fundo da sala, apenas ouviu um anormal som vindo da frente. O fogo em forma de cobra estava para dar o bote quando ela sentiu uma onda de água colidir com o seu corpo apagando na mesma hora aquela chama mortal. Apesar do líquido ter batido apenas até o seu peito, quem mais sofreu foi Glin, que apareceu um pouco mais a frente, todo encharcado e tossindo bastante. Joana não entendeu como aquilo aconteceu. O lugar que antes parecia um inferno de chamas, agora pouco se era nítido devido às nuvens brancas. A água desaparecia lentamente do recinto de forma inexplicável.
Foi então que algo chamou a atenção da jovem na visão não nítida em frente. Uma silhueta através da fumaça apareceu adentrando no lugar. Ele caminhou em direção a ela, e a vinte metros de distância, mostrou sua imagem diante de Joana, que o olhou surpresa.
- Florisval... – murmurou a mulher ainda pasma.
- Eu estava perto, não estava? – perguntou ele com um sorriso.
Joana observou a aproximação do homem que salvou sua vida. Ela ainda estava surpresa por vê-lo naquele lugar. Nunca lhe passaria pela cabeça que uma enxurrada apagaria o fogo que estava prestes matá-la. Glin também fitava o camponês com uma feição abismada e boquiaberta.
- Florisval, você... como? – perguntou a mulher. O floricultor a poucos metros dela, ainda agachada no chão, respondeu sorrindo.
- Eu não disse... que estaria perto quando chegasse a hora. Prometi ajudá-la nessa missão, e foi o que eu fiz e ainda preciso fazer. – Ele agachou-se e acariciou o rosto de Joana. O vestido da jovem estava todo encharcado. – Você está bem? – perguntou preocupado, mas ao mesmo tempo feliz por vê-la viva.
Percebendo aquela expressão e aquele afeto, ela desabrochou seu rosto de surpresa, e em seus olhos, lágrimas começaram a descer. No mesmo instante, jogou seu corpo sobre Florisval, o envolvendo num caloroso abraço. O camponês pôde sentir a roupa ensopada em contato com ele, mas algo que não era material tocava ainda mais fundo, lhe trazendo uma sensação maior que qualquer outra: carinho. E dentro desta sensação, ambos sabiam que algo em especial brotava de forma tímida, e que aos poucos tomavam conhecimento do que era: amor.
Joana não sabia se sentia tristeza ou felicidade naquela situação. Seu objetivo havia falhado, mas em contrapartida, havia encontrado algo muito valioso e inesperado. O quente abraço entre eles trazia a sensação de que “estava tudo bem”. Mesmo perdendo, ganhara algo muito especial e do mesmo tipo do tesouro que estava procurando. Um laço sentimental com os seus pais através de um objeto tinha o mesmo valor de seu sentimento por Florisval. Mas no caso do floricultor, havia sim algumas diferenças, e com aquele abraço, elas se tornaram visíveis em sua mente. Não precisava de algo material para se sentir bem, ela tinha algo vivo em seus braços. Não precisava remoer as lembranças boas do passado para sobrepor as ruins, pois construía uma boa lembrança naquele mesmo instante. Feliz por ter notado essas distinções, abriu um sorriso em seu rosto pousado docilmente sobre o ombro de seu amado.
- Fico feliz de tê-lo encontrado – proferiu ela, com base em seus sentimentos. O camponês rolou os olhos para o lado, mirando nos cabelos castanhos da jovem. A frase dita por ela também lhe fez refletir.
Solitário. Essa era a palavra que mais combinava com ele, segundo o próprio. Mesmo sendo um rapaz gentil, cuidando das flores do campo e da loja de forma dedicada, faltava algo. O sorriso que mostrava para os seus clientes escondia uma profunda tristeza que ninguém sabia, nem mesmo Ramon e Dimas, seus ajudantes. O fato era que dia após dia, em suas mesmas tarefas, Florisval não encontrava algo que lhe fizesse mudar. Essa mesma vontade de mudar as coisas havia tomado conta dele há alguns anos, o que levou ele e seu irmão para Seylor, e eventualmente para a guerra.
“O que eu espero na minha vida? O que eu espero?”
Essa mesma pergunta tormentou o floricultor que sonhava em encontrar a resposta.
“A vida que levo não é suficiente? Por quê? Por que eu espero algo? Por que eu tomo isso como algo tão importante?”
Apertando um pouco mais as suas mãos nas costas de Joana, ele também sorriu e pronunciou com base em seus sentimentos.
- Eu também... estou feliz de tê-la encontrada – Florisval, também derramava lágrimas de felicidade.
Glin, muito mais ensopado que Joana, olhava o casal agachado e abraçado. Ele fungou o nariz antes que o muco saísse por ele. Seus olhos marejados não suportavam aquela situação.
- Assim também vou chorar.
. . . . . . . . . . .
Melvin ainda encarava Adler, este que nada fez desde o seu último ataque.
- Obrigado – agradeceu o mago.
- Pelo o que? – Seu oponente incompreendeu aquela palavra.
- Por ter tirado minha maior preocupação até então – respondeu Melvin, sorrindo. – Se não sou o único usando Energia Volaki, quer dizer que não preciso guardar a maior parte em mim. O conselho de uma certa pessoa já não vale a pena.
- O que quer dizer com isso? – perguntou Adler, ainda confuso.
- Que não preciso pegar leve com você – respondeu com um sorriso confiante no rosto.
- Como é? Não precisa pegar leve comigo? – Adler perguntou sobre a declaração convencida de Melvin. – Vocês magos são seres bem estranhos. Mas não pense que só porque é de uma raça superior pode falar o que quiser. Eu agora sou tão superior quanto você. – falou enchendo-se de certeza.
- Deplorável – disse o mago calmamente, arrancando um “hã?” do oponente. – Seu modo de pensar é baixo demais para se intitular um ser superior. Não importa o quanto seu corpo mude, no final das contas ainda será apenas humano.
Conduzido pelas provocantes palavras do mago, Adler sorriu e começou a lançar um ataque sobre ele.
- Você será morto por esse humano! – gritou ele no instante em que uma rajada de fogo saiu de sua mão. Observando o fogo mortal voando em sua direção, Melvin apenas ergueu o cajado proferindo uma magia de defesa tendo como base o elemento água.
- Parede freática! Erga-se!
Movimentando o cajado verticalmente para cima, um jorro de água começou a subir proveniente do solo. O líquido veio furando a terra e se erguendo como uma parede na frente do mago. O fogo colidiu com ela originando uma fumaça branca. Adler cessou o ataque com as chamas ao ver que elas eram completamente detidas. A parede fora desfeita. Adiante, o vapor d’água lhe impedia de ver o oponente. Quando a nuvem se dissipou, Adler ficou surpreso ao notar que não havia ninguém à frente. Melvin não estava mais lá. O nobre rapidamente olhou ao redor numa ação desesperada. Seu medo tornou-se realidade ao ver o mago ao seu lado direito com o cajado na direção dele.
- Rajada de água! – Uma rajada muito forte atingiu Adler o fazendo voar alguns metros para trás junto com a água, parando apenas quando seu corpo colidiu com uma árvore. Após a colisão, caiu sentado no chão. Murmurou por causa da dor, não na região acertada pela rajada de água, e sim pelo seu choque com o tronco o qual estava encostado. – Desgraçado! – xingou o mago que lhe encarava seriamente.
- Infelizmente para você, por mais que tenha um poder desses, não será páreo para mim por dois motivos. – discorria o mago, sendo mirado pelos atentos e furiosos olhos de Adler. – Magia do elemento água leva vantagem contra o elemento fogo. E o mais importante, magos sempre levam vantagens contra humanos comuns. Não importa quanto poder você adquira, nunca saberá usá-los e sincronizá-los da maneira correta. Esse privilégio foi dado aos seres da minha espécie. Não é a nossa diferença de poderes que define esta luta, é a nossa diferença como ser. Humano é um humano. Um mago é um mago. O que você pensou que iria ter ao obter esse poder? Que tipo de superioridade você idealizou? – Melvin proferia com a mesma seriedade, mas olhando cada vez mais nos olhos do homem, este que começou a se levantar sem dizer nada. – Apenas desejos ilusórios. É isso o que você busca.
- Ilusórios? – repetiu o nobre. – Acha que a superioridade no mundo dos humanos é apenas uma ilusão? – perguntou Adler, encarando o mago, e querendo dizer seu ponto de vista. – Você que é um mago não faz idéia, pois como você mesmo disse, não é um de nós. Existem dois tipos de pessoas: os tolos; que são aqueles comparados a um peão num jogo de xadrez. São os primeiros a serem sacrificados por um prol maior. Eles servem para serem controlados. E a segunda parte dos humanos, composta por uma minoria, são aqueles que controlam; que estão acima de todos na hierarquia. Reis, Condes, Barões, Generais, Prefeitos e Nobres... Todos aqueles com o poder de controlar uma quantidade significativa de pessoas são os controladores. Eu sou um controlador. Várias vidas dependem de mim e do meu dinheiro. Se eu quiser, posso mandar todos os moradores da terra em que sou proprietário irem embora. Eu tenho esse poder. Poder! Quando alguém recebe algo valioso pela primeira vez, ela se sente de uma maneira como nunca sentiu antes. Formidável! A sensação de ter mais que o outro é prazerosa. Faz você uma pessoa especial. Então imagine uma pessoa com uma valiosidade dessa. – Adler acendeu uma chama em sua palma apenas para exemplificar. – É para isso que vivemos. Para termos mais e mais poder. É o nosso destino!
- É triste... – disse o mago num tom lamentável. – ...É triste ver pessoas pensando dessa maneira egoísta. Elas não deveriam ser assim. São filosofias como essa que fazem a destruição da humanidade. – Melvin já cerrava os dentes e os punhos soltando um pouco sua raiva com aquele assunto. Suas próximas palavras soaram quase como gritos. – Por que vocês pensam assim? Por que não aproveitam a vida de uma forma decente? Por que vocês não entendem?
- Porque... somos seres diferentes. – respondeu Adler, com olhos sérios. – Eu é que não entendo vocês. – disse soltando um suspiro cômico. – Seres como vocês, dotados de tantos poderes valiosos já deveriam ter nos controlado. Realmente não consigo entendê-los. “Guardiões do bem”, “Protetores da paz”. Nunca vou entender porque vocês escolheram “salvar o mundo” quando poderiam dominá-lo.
- Eu... irei fazer – proferiu o mago cada vez mais determinado. – Prometi que iria salvar o mundo. – Por mais que não quisesse ascendê-las, uma de suas lembranças passadas vieram à tona.
Um jovem garoto com uma aparência entre 12 e 15 anos, movimentava suas pernas para frente e para trás enquanto descansava sentado sobre um tronco caído no meio de uma floresta. Ele sorriu para alguém ao seu lado, também sentado ao tronco.
- Irei fazer uma promessa – disse o menino num tom forte.
- É mesmo? O que é? – perguntou a outra pessoa com uma voz adulta.
- Meu objetivo será salvar o mundo – respondeu o garoto, esboçando um sorriso pretensioso.
- Há muito tempo... eu fiz uma promessa, e irei levá-la até o dia de minha morte – disse o mago levantando a cabeça e encarando o homem.
- Huh! E nesse plano de salvar o mundo, você terá que me destruir? – perguntou Adler, zombando do objetivo do homem à frente.
- Não. Apenas detê-lo.
- ENTÃO TENTE! – Adler gritou lançando uma rajada no mago. Dessa vez, Melvin não usou nenhuma magia para se defender. Ele simplesmente correu ao mesmo tempo em que desviava da rajada. Na primeira vez, pulou para esquerda. Adler ainda não sabia controlar bem o seu poder, e não conseguia mudar de forma significativa a direção de sua rajada. Ele teve que interrompê-la, e iniciar uma nova. Melvin encontrava-se a menos de vinte metros do oponente. – QUEIME!!! – gritou o homem soltando mais um ataque que novamente foi desviada pelo mago com um movimento para a direita. Adler soltou mais duas rajadas que foram perfeitamente desviadas. Inesperadamente, ele viu o mago totalmente a sua frente. Ficou imóvel apenas esperando para receber o ataque. Melvin passou ao lado dele, e no mesmo instante movimentou seu cajado para o lado aplicando um forte golpe na nuca do oponente. O homem caiu desmaiado no chão. Melvin o fitou, analisando se estava mesmo inconsciente. Em seguida, pôs-se a olhar na direção da caverna.
- Será que Florisval e a Joana estão bem?
Entretanto, algo quebrou a sua tensão sobre o casal, fazendo-o olhar para o lugar adiante. Os corpos mortos continuavam decorando o solo. Alguns deles eram irreconhecíveis. Ele fechou os olhos e da mesma maneira de antes, mais uma lembrança veio à sua mente.
- Mas sabe... talvez você consiga salvar o mundo, mas... não acho que conseguirá salvar todos que vivem nele – disse a mesma voz adulta.
Melvin tornou a abrir os olhos. Apertou o cajado e abaixou o rosto formando uma feição frustrante e melancólica.
- Não posso salvar todos? – perguntou o menino, recebendo uma cruel resposta em seguida.
- Não importa o quanto se esforce. O mundo é sombrio demais para que consiga.
Próximo capítulo: Campo Florido
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