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Teatral #2. Black-Out.



As ruas novamente são o palco de mais uma viagem cheia de violência e loucura, cuja peça é encenada pelo complexo Teatral, mas quando policiais entram no roteiro, o que o personagem principal fará?



Imagem

Black-Out.[1]
Por João Norberto da Silva.

Sobem as cortinas

O cenário:

O já conhecido quarto do protagonista, com novos cartazes que mostram as mais atuais peças no circuito nacional.

Nada acontece por um bom tempo e só depois de mais alguns minutos de silêncio no local, a porta do quarto é aberta com violência, mostrando o protagonista, que agora sabemos se chamar Sérgio, entrar afobado e com uma expressão de felicidade que causa estranheza.

Sem deixar de rir seu riso louco ele dança por todo o quarto e, em meio a piruetas, ele põe uma das mãos nos bolso e, com um sorriso ainda maior, retira de lá uma pequena caixa, a abraça e dança mais desvairadamente com a caixa colada em seu peito, com as duas mãos a protegê-la.

Sérgio senta na beira de sua cama, visivelmente se fôlego por conta de sua dança e, de uma gaveta também conhecida, ele retira sua arma e começa a admirá-la como se fosse a primeira vez que a vê.

Ele a acaricia, puxa outra caixa, esta maior que a primeira e retira vários materiais de limpeza, desmonta a arma, a limpa até a mesma brilhar como se fosse nova para, então, ele a remontar e a deixar na cama ao seu lado, pegando novamente a primeira caixa e olhando-a fixamente.

Aos poucos ele abre a caixa e então finalmente revela o que existe em seu interior: Uma bala!

Com as mãos tremendo, Sérgio abre o cão da arma e coloca a segunda bala, deixando dois espaços vazios entre esta e a que já estava lá para, em seguida, engatilhar a arma.

Sem deixar seu sorriso sumir, ele coloca o cano da pistola na têmpora direita, fecha os olhos num semblante sonhador e aperta o gatinho.

Nada. Ele viveria mais um dia.

Claramente decepcionado Sérgio guarda a arma, se levanta e vai até o banheiro fechando a porta atrás de si, o que permite apenas o som da água de uma torneira ser ouvido, até que o silêncio impere outra vez por alguns instantes.

Com o rosto extremamente abatido, contrastando violentamente com a alegria de outrora, Sérgio se dirige para o guarda roupa e de lá retira sua vestimenta de Teatral, ele a olha de vários ângulos, percebendo que a marca do tiro, que ele tomara há um tempo que não podia precisar, já havia sumido, algo ele mesmo não estranha mais, o que deixa claro quando dá de ombros antes de começar lentamente a se vestir.

Quando finalmente coloca a máscara, ergue o corpo e sua voz soa vibrante e cheia de energia:

Teatral: – As luzes da Ribalta mais uma vez brilham sobre meu corpo e é chegada a hora de representar meu papel nesse imenso teatro que é a vida!!!

Teatral se lança com um vigor ainda maior através da janela do banheiro, indo em direção ao desconhecido.

Descem as cortinas

***

Sobem as cortinas


O cenário:

Uma rua próxima a um grande terreno baldio, dois carros param um de frente para o outro, um dos carros é um Siena Blaze prata, o outro carro é uma viatura da polícia. Do Siena descem dois homens e da viatura um policial. Um dos homens se adianta, deixando claro ser o chefe do outro, que permanece logo atrás e extremamente calado, nem parecendo que estava ali.

Homem 1: – Então estamos acertados Juarez?

Juarez, o policial: – Claro Seu Anderson... Pela grana que você tá me pagando eu entregava até o Papa... Mas quem é esse aí? Acho que num conheço...

Anderson: – O nome dele é Santos... Já está comigo há algumas semanas e resolvi trazê-lo para mostrar como a banda toca... Então se está tudo perfeito, me dá aqui a rota do carro que transporta as drogas apreendidas... Eu sei que é hoje e, sendo assim, tenho que passar isso para meus rapazes o quanto antes e...

“Parem malfeitores!!!” Apenas a conhecida voz do Teatral ecoa pela cena, fazendo os três homens sacarem suas armas e procurarem ao redor quem os estava ameaçando, mas mesmo assim eles se surpreenderam quando o herói pousou sobre o teto do Siena e deu um chute certeiro no homem que havia ficado em silêncio até então.

Teatral: – Toda vez que seu veneno se espalha, crianças morrem ou perdem alguém querido!!! (Ele dá um chute desarmando os demais criminosos enquanto não pára de falar.) – Não posso permitir isso!

Ele gira o corpo acertando com força o rosto do policial, fazendo com que este seja lançado contra o capô da viatura para, logo depois, escorregar até cair pesadamente no chão.

Teatral ainda consegue escapar dos poucos tiros que os demais criminosos, depois de recuperarem suas armas, conseguem disparar, desarmando-os novamente e encaixando um chute no estômago de um e socando o queixo do homem que fora chamado de Anderson, deixando-os ajoelhados no chão. O homem silencioso tem uma pontaria terrível, nem conseguindo mirar direito no ágil oponente.

O Teatral realiza uma série de piruetas e logo fica de pé, com os punhos fechados colocados ao lado de sua cintura, numa pose clássica e digna dos grandes heróis do passado.

Teatral: – Que essa lição seja aprendida por todos vocês criaturas abjetas!!! Quando Teatral está no palco da vida, o mal não tem chances e... AAARRRGGGHHHH!!!!

O herói fica com o ombro direito vermelho e cai no chão tentando tocar o ferimento com sua mão esquerda, quando um homem surge em cena, tento estado obviamente escondido por todo esse tempo.

Anderson: – Droga Betão... Não podia ter sido mais rápido? O desgraçado me acertou uma boa porrada...

Betão: Mal aí chefia... Fiquei na moita prá tentar descobrir aquele outro lance...

O homem silencioso se ergueu finalmente, ainda com uma das mãos sobre a barriga, parecia estar sentindo muita dor devido ao golpe que levara, mas ao se aproximar de Anderson o recém chegado puxa sua arma e acerta três tiros certeiros no homem, um da cabeça e dois no peito.

Betão: – O tal de Santos tava mesmo infiltrado chefe! (Ele recoloca a arma na parte de trás de sua calça, se estava quente ele não se importou) Como foi que o senhor desconfiô?

Anderson: – Não se chega na minha posição sem saber de um ou outro truque, que não se deve contar para ninguém... Agora vamos acabar nosso negócio.

Betão: – E essa bicha mascarada?

Anderson: – Já cuidamos dele. (Ele então se aproxima do policial caído e estende uma de suas mãos na direção dele) – Onde está a rota Juarez? (O outro, apesar da dificuldade, enfia a mão num dos bolsos da calça e entrega um papel para o criminoso) – Ah! Perfeito... Betão?

O outro bandido se aproxima de Juarez e, apesar desse estender a mão esperando uma ajuda para se levantar, retira novamente sua arma da parte de trás da calça e dá cinco tiros no policial corrupto.

Betão: – Feito chefe... E agora?

Anderson – Você deixou o Ômega aqui perto? Perfeito... Coloque o mascarado no porta-malas do Siena, apague as suas digitais da arma e deixe-a caída ao lado do corpo do Juarez... Vou fazer uma pequena ligação.

Enquanto Betão faz o que seu chefe pediu, Anderson se afasta, retira seu celular do bolso, fala num tom inaudível e logo depois se volta para seu capanga.

Betão: – Num vai querer ver a cara dele?

Anderson: – E prá que que eu vou querer ver a cara dessa bicha de colante? A polícia logo estará aqui... Quando encontrarem o mascarado no porta-malas, levará muito tempo até ele se explicar... Tempo suficiente para realizarmos nosso outro plano sossegado...
Assim que Betão fecha o porta-malas todas as luzes se apagam.

Descem as cortinas

***

Sobem as cortinas


O cenário:

Numa rua da cidade vários homens estão conversando amenidades, até que um Ômega preto se aproxima, parando a poucos metros de onde o grupo está reunido. Da porta de trás do passageiro surge Anderson, ele caminha com um sorriso no rosto antevendo a possibilidade de grana fácil que se avizinha.

Anderson: – Boa noite cambada... (Todos os presentes tentam ser simpáticos com o chefão, nunca se sabe quando o próprio pode ser uma chance de crescer na organização.) - Certo... Consegui a rota do transporte das drogas. Até onde eu sei a proteção não é exagerada para não chamar muito a atenção de bandidos... Hehehehehe... (Todos riem como se uma das melhores piadas do mundo tivesse sido contada.) - Chega de rir bando de puxa-sacos... Vamos indo... No caminho e passo as informações do que cada um tem de fazer e...

Betão está apoiado na porta aberta do lado do motorista, vendo como seu chefe comanda aquela escória, ele sabe que a maioria dos presentes vai acabar com a grana que ganharem em drogas, prostitutas e outras inutilidades, mas Betão tem outros planos. Planos maiores que incluem o fim de Anderson em breve, para que outro chefão, ele próprio, claro, possa assumir.

Os planos do criminoso, no entanto serão adiados por um tempo indefinido.

Teatral: – Que o terror encha seus corações malfeitores!!!! (Dizendo isso, o herói salta detrás do Ômega, acerta um soco na nuca do Betão e, depois desse cair dentro do carro, ele fecha a porta do veículo com um potente chute, permitindo que o eco de ossos quebrando seja ouvido ao longe) – Teatral está aqui para colocar um ponto final em seus ardilosos planos!!!!

Todos ficam paralisados por causa da bizarra situação, se perguntando o que fazer, uma vez que o cérebro não era o principal ingrediente nos homens que contratava, Anderson tenta tomar o controle da situação.

Anderson: – O que tão esperando bando de retardados? Quem pegar ele e me trouxer aquela máscara ridícula ganha uma grana extra!!!

Era o que faltava de incentivo para que todos os bandidos engatilhassem suas armas, outros puxassem canivetes e os que estavam desarmados preparavam os punhos. Nos dias de hoje uma promessa de dinheiro fácil é mais do que suficiente para transformar homens em nada mais que animais e assim todos se lançaram ao ataque.

Se fosse possível ver o rosto do Teatral, com certeza no sorriso que ele esboçou seria percebido um laivo de felicidade louca por estar diante de uma situação tão mortal.

Quando o primeiro bandido se aproximou, tentando acertar uma facada no herói, este girou o corpo e, segurando o braço de seu oponente, o virou até que se ouviu novamente o som de ossos quebrando. Os bandidos que traziam armas de fogo ficaram para trás, esperando uma brecha para atirarem ou, pelo menos, que os doidos que tentavam um combate corpo a corpo, amaciassem o inimigo o suficiente para que eles ficassem com o serviço fácil.

Claro que, quanto mais “colegas” fossem derrubados, maiores eram as chances de um deles ganhar o dinheiro prometido pelo chefão.

Outro bandido, este com um soco inglês, recebeu um potente golpe no rosto, caindo já sem sentidos e com grande parte de seus dentes dianteiros quebrados, além do sangue que vertia de sua boca. Um destino parecido tiveram ainda mais três outros, até que um deles conseguisse enfiar um canivete no flanco direito do herói, ficando com a esperança de encerrar a luta, mas o que aconteceu o surpreendeu.

Teatral: – Acha que tal ferimento pode deter um herói do meu calibre? (Ele então tira o canivete e, mesmo com o sangue que escorre do machucado, ele joga a arma no chão e fita os demais inimigos) – É o melhor que podem fazer? Pois que seu chefe se acautele e tema, pois essa noite teu mal não afligirá nenhum inocente!!!

Os bandidos armados hesitam, apesar das notícias dos jornais e da televisão sobre super seres que estão se espalhando pelo mundo, nenhum deles havia encontrado um antes e não sabem o que fazer exatamente, mostrando mais uma vez sua deficiência no quesito inteligência.

Anderson: – Tão esperando o que seus idiotas?!!! Matem ele!!!!

Mais uma vez uma ordem era o que os criminosos precisavam para abrir fogo contra o Teatral, mas este demonstra uma agilidade e velocidade fora do comum, enquanto desvia das balas fazendo movimentos que mais lembram um balé, mas assim que ele se aproxima dos inimigos, começa a distribuir golpes tão truculentos quanto os de um lutador de vale tudo.

Em poucos minutos um ferido Teatral está de pé em meio aos inimigos caídos. Ele fita o outro homem que permanece em pé, Anderson e, depois de respirar profundamente fala com uma voz de trovão que ressoa na noite:

Teatral: – Vê como é inútil tentar deter minha justa causa? (Ele salta sobre o chefão, este ainda tenta puxar uma arma, mas é desarmado rapidamente, sendo derrubado em seguida, o herói começa a desferir vários socos no rosto do criminoso) – Como prometi, hoje eu encerro sua carreira de perfídias, cruel vilão! Hoje você receberá a justiça do Teatral!!!!

Mais golpes são desferidos, até que filetes de sangue são lançados pelo ar da noite. A fúria do herói só é interrompida quando o som de sirenes começava a ficar mais e mais alto, indicando que é hora de sair de cena, mas antes ele termina de golpear o chefão com um certeiro chute no queixo deste, largando-o caído.

Descem as cortinas

***

Sobem as cortinas


O cenário:

O quarto do protagonista fica em silêncio por alguns minutos até que o herói entra em cena, saindo do banheiro e trombando com vários móveis derrubando-os barulhentamente pelo chão.

Ele retira seu uniforme em desespero, como se sua vida dependesse disso e logo que todas as peças são retiradas e imediatamente jogadas dentro do guarda roupa, Sérgio solta um urro de dor, mesmo sem ter um ferimento à mostra em seu corpo e ele mal consegue chegar à cama onde já cai desfalecido.

As luzes se apagam e logo depois se acendem, mostrando que já é o dia seguinte, com o protagonista lendo o jornal, querendo saber o que seu alter-ego fez na noite passada. Ele se pega lendo em voz alta, e cheia de raiva, a manchete do dia:

Sérgio: - “As Autoridades estão em um verdadeiro Blecaute sobre a morte de dois policiais na noite passada, mais detalhes na página A-8. (ele começa então a ler a notícia) - O chefão criminoso, Anderson Rodrigues, preso na noite passada com vários outros bandidos, todos com fichas extensas, acusa um “herói”, como ele frisou bem, de envolvê-lo em ações criminosas bem como ser o verdadeiro responsável pela morte dos dois policiais encontrados perto de um terreno baldio. As autoridades ainda não se manifestaram, mas fontes dentro do departamento de polícia garantiram que o Teatral, como o vigilante foi identificado por Anderson, será caçado como um assassino, seja ele inocente ou não”.

Ele anda de um lado para o outro do quarto, extremamente inquieto, levando as mãos à cabeça e só pára por alguns minutos enquanto fita a gaveta onde está sua arma, agora com duas balas, mas logo pega uma blusa numa cadeira e sai batendo a porta e reclamando em alto e bom som.

Sérgio: – O que eu fiz prá merecer isso?!!

As luzes se apagam aos poucos e a cortina se fecha pela última vez.


FIM

[1] Essa é uma adaptação de uma peça americana que aqui no Brasil foi dirigida por Antunes Filho.
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