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Supremacia Marvel: Namor 2099

Durante muitos anos ele foi conhecido como Namor, o Príncipe Submarino, regente de Atlântida. Lutou com os Invasores na Segunda Guerra. Mas quando a coalisão alienígena dominou a terra, ele desapareceu. Saiba porque nesse one-shot.


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Supremacia Marvel: Namor 2099


Por: Anderson Oliveira


O grande salão, mesmo no escuro, apresenta aspectos de deterioração. Algas e recifes que crescem pelas colunas de mármore e nas frestas do piso outrora branco e puro. Hoje esverdeado e corroído. Marcas do abandono e do tempo. Uma fraca luz invade timidamente o salão. Uma luz bruxeante, que ondula na água numa dança macabra como um barco à deriva. Ao fundo do salão, em um trono elevado, igualmente velho e acabado onde dificilmente se nota seu formato de uma concha aberta, um homem medita sobre o passado.

A mão segura seu queixo rígido, num rosto que traz as marcas do impiedoso tempo, mesmo para ele, que viveu como poucos que conheceu. Suas orelhas pontudas parecem alertas a qualquer sinal do mundo exterior, mesmo que sua mente esteja agora em outro plano. Os fios de seu cabelo quase todo branco parecem ondular naquela água onde todo o salão está submerso. Ele pisca, mas seus olhos continuam duros, com o rancor e a altivez que traz no sangue há muitas décadas.

Ele lembra. Quando os da superfície lhe clamaram ajuda e ele lhe virou as costas. Viu os céus sendo rasgados pelos invasores. Viu os poucos que ele chamou de amigos sendo mortos. “Steve”, se ouve dizer, e nesse momento vê a imagem do homem que carregava o escudo, com a estrela no peito, partir para a luta e morrer como um soldado. Ele lembra também daquela que um dia amou... “Susan”, e do algoz e seu nobre rival, “Richards”. De como os dois morreram abraçados. Não esteve lá quando eles pediram ajuda. Quando seus lares foram usurpados. Ele só pensou em seu reino, em seu povo. Seu reino estaria protegido, escondido nas profundezas do mar, como estivera sempre protegido. E agora, que os da superfície eram esmagados, iriam parar de poluir suas águas e matar seus animais.

Ele lembra que assim pensava.

Hoje ele se arrepende. Pois estava errado.

— Meu senhor... — um velho de pele azul e uma longa barba branca entra no salão. O outro apenas levanta os olhos, sobre a fina sobrancelha embranquecida. Não diz palavra alguma, mas o velho sabe que tem sua atenção e permissão para falar. — Majestade, temos notícias da colônia oriental. — ele gagueja antes de continuar. — Todos estão mortos. “Assimilados”, como diz a entidade chamada de Falange.

O soberano aperta os olhos, sentindo um misto de ódio e vergonha. O braço desce até o encosto do trono e ele respira fundo, sugando a água ao seu redor e expelindo bolhas que sobem sem fazer ruído. Ele fala:

— E como está o povo aqui na capital? — o velho corre os olhos pelo chão, como se sua voz tivesse caído por ali, para então finalmente tomar coragem e dizer:

— A última peste trazida pelos de pele verde... Como o senhor os chama? Ah, sim, skrulls... Bom, foram poucos que sobreviveram à moléstia. Além das feras alienígenas soltas no mar que de tanto comer acabaram com os peixes e até mesmo com as algas boas para alimento. O povo tem fome.

Ele sabe. Ele mesmo sente fome. Aquelas feras, como disse o velho, ele as viu há alguns anos. Soube que a raça Kree fez experiências com o DNA de seres aquáticos de outro mundo, criando monstruosidades. Sem saber o que fazer com elas, as jogaram no mar. Ele próprio deu cabo de algumas numa grande batalha, mas as poucas que restaram, ao fugir, foram suficientes para procriarem rapidamente e desestabilizarem o eco-sistema. Se ao menos sua carne fosse boa para o consumo...

— Meu senhor. — chamou o velho, o trazendo de volta para a realidade. — O que... O que o
senhor fará? — o outro se levantou. Sabia que a idade lhe deixara mais curvado, mas ainda tinha a forma robusta e o semblante da realeza. Descendo do trono, ele diz:

— Farei o que deveria ter feito há muitos anos, meu caro... Irei à guerra!

— Alteza...!

— Eu sou Namor Primeiro, o Rei Submarino. O mar, que é meu reino, forma dois terços desse planeta. — Namor andou até retirar da parede à sua esquerda seu tridente, a única peça ali conservada da destruição. Depois caminhou com ele na mão até passar ao lado do velho, em direção ao outro extremo do salão. — Mantive dois terços do planeta livre da dominação alienígena por muito tempo, e achava que isso bastava. Mas agora a morte veio até nós. E percebo que se quero o bem do meu povo, devo lutar para libertar o restante desse mundo do jugo invasor.

Sentiu que essas palavras não fariam o mesmo efeito que teria feito anos trás. Mas isso não importava agora. O velho, o olhando perplexo, lhe respondeu:

— Mas alteza, o senhor é apenas um, e mesmo que reúna o que resta do exército atlante, não poderá fazer frente aqueles que derrotaram os exércitos da superfície e seus heróis.

— Talvez, mas não quero acabar meus dias apodrecendo junto com esse palácio.

— Então o que o senhor fará?

Antes de responder, Namor, que já estava na porta para sair, devolveu um olhar intimidador para o velho, mostrando que ainda tinha a força de guerreiro, e por fim disse:

— Primeiramente darei cabo dos monstros que ameaçam nossos mares. — e começou a nadar, na impressão que voava, usando as asas nos tornozelos para isso, até sair do palácio. Teve a impressão de que o velho ainda dizia “o que fará depois disso?”, consigo mesmo respondeu: — Depois terei uma morte honrosa.


O resplendor de Atlântida de antigamente já não existe. Os recifes tomam conta dos prédios abandonados. Namor se lembra das crianças natimortas do ano passado. Lembra da sua mãe, que se matou depois, na casa que ele sobrevoa agora. Todos culparam o príncipe regente pelas doenças e pela falta de comida. E ele sabe que eles têm razão. Evitando ser visto por quem ainda perambule pelas ruas e o reconheça, lhe dirigindo ofensas, Namor sobe mais rápido até deixar os arredores do seu reino, vendo como há muito não via, que o mar além das muralhas, outrora rico de vida selvagem, agora lembra um deserto como os da superfície.

— Isso tem de acabar! — sussurra, e empunha o tridente para frente, tentando ouvir em sua mente a voz dos peixes e outros animais. Não ouve, e sente o frio arrepio da morte enquanto se aproxima da causa da desolação do mar.

A criatura é quase duas vezes maior do que uma baleia azul, pensa. Mas Namor pode estar enganado, pois faz anos que não vê uma baleia. O monstro tem aspecto de um peixe das profundezas tenebrosas, com pele cor de terra cheia de calombos e marcas; com olhos negros e enormes, apesar de não servirem para muita coisa; uma boca que se abre como as entranhas da terra, porém traz em seu interior grandes dentes tortos e pretos, onde Namor vê restos de tartarugas e barracudas, além de outros detritos impossíveis de distinguir.

Ela ainda não percebeu sua presença. Não daria importância para algo tão minúsculo. Ela nada a poucos metros de uma porção de areia, procurando algo para saciar a sua fome, talvez se lamentando por não ter boa visão e seu olfato não localizar mais nada. Namor vê suas barbatanas, com algo que parece ser ossos a mostra, levantarem porções de areia a cada movimento. Ele não pode ler a mente do monstro. Se é que a criatura tem mente.

— IMPERIUS REX!! — brada, com a voz agora gasta pela idade, pouco se importando se a criatura o ouve, ou mesmo que entende seu grito. Pouco importa. Ele se atira contra ela, tridente em punho, e lhe atinge diretamente o olho direito. A fera se debate e parece gritar, apesar do ruído parecer quase um cântico diabólico.

O monstro tenta chegar até seu agressor, mas este, graças a seu pouco tamanho, é mais ágil, apesar da idade, e se esquiva de uma primeira investida. Nisso o tridente acha o outro olho, e subindo em sua cabeça, Namor crava com toda sua força a arma no monstro, precisando repetir o processo várias vezes, até romper seu crânio a seu gosto. O ruído de dor da fera tem um fim. E Namor para um instante, se perguntando se o monstro não era apenas uma vítima. Fora tirado de seu mundo natal e trazido contra a vontade para essa terra. Só estava tentando sobreviver como qualquer animal irracional.

Tal pensamento o perturba. Não o fato em si de ter matado um inocente. Mas o fato de ter remorso disso. E sabe que não poderia fazer nada além do que fez. A criatura está livre do sofrimento agora.

Algum tempo depois, ele encontra outras criaturas. Porém dessa vez a luta não é necessária, pois todas elas, cerca de dez, estão mortas ou morrendo. Elas sentem a falta de comida, ele pensa. Ele chegou tarde. Certamente em águas mais distantes encontraria situação semelhante. Nem mesmo os humanos poderiam destruir o mundo dessa forma, pensou consigo. Enquanto caminha entre as carcaças das feras, percebe algo que o faz verdadeiramente tremer: Não foi a fome que as matou.

Em uma das criaturas vê a marca do que parece um ferimento causado por alguma arma. Alguma arma da superfície. Arma alienígena. No mesmo instante sente uma ondulação na água. Se escondendo junto ao animal morto, ele vê nadar sobre si a sombra enorme de outra criatura, silenciosa e ferida, deixando pelo caminho uma marca de sangue fétido e ácido. E em seu encalço, dois pequenos seres, vestindo roupas de mergulho. A criatura perseguida enfim tomba por cima de outra já morta. O impacto faz tudo tremer. Namor então vê os dois mergulhadores subirem lentamente até a superfície.

Porque eles estão matando as feras que eles mesmo soltaram aqui? É uma questão pertinente. E Namor quer descobrir a resposta. É necessário ir até lá em cima. Faz tantos anos que não sobe à superfície. A última vez foi há quase cem anos. Ele só queria proteger seu povo. Não entendeu que isso dependeria da simbiose entre os dois mundos. E por sua omissão o mar se tornou um cemitério. E antes de sentir a raiva com a lembrança do dia que negou ajudar seus amigos, ele sobe num impulso e nada até a superfície. O ódio crescente em seu rosto, a ira por ter permitido que tal tragédia acontecesse, a culpa que sente por ver seu povo, que jurou defender, morrendo pouco a pouco. Isso tem de acabar.

A luz do mundo da superfície se torna cada vez mais intensa. Sente que a água ao seu redor está mais leve, mais pura. Nem mesmo em sua juventude sentiu água tão limpa. Contrastando com o que se encontra na profundeza. A poucos metros da superfície, ele percebe então o que ocorre.

Máquinas de aspecto extraterrestre bóiam sobre a água. Elas filtram as impurezas de alguma forma nunca antes vista pelo príncipe. Com cautela, ele se esgueira entre as encostas, sabendo que está abaixo de um penhasco na região que antes era chamada de Baltimore, e que hoje não sabe como diabos os skrulls chamam esse lugar.

Ele eleva a cabeça acima da água. Tem seus olhos feridos pelo Sol por um instante, se lembrando que há muitos anos não deixa seu palácio. Lá, ele avista dois skrulls, vestidos como seus cientistas, como ele pode reconhecer de uma ocasião em que esteve a mercê dos mesmos. Vê também largadas num canto as roupas de mergulho que os dois usaram para matar aquelas feras. Eles conversam entre si, em um dialeto que tenta imitar o inglês, mas ele consegue entender o principal:

— Fomos imprudentes em desprezarmos as abundantes águas desse planeta no começo da colonização. — diz um deles.

— Sim. Mas aquela geração que começou a colonização ainda tinha contato com a capital do império Skrull, e por isso nunca pensou em preservar nada, achando que nunca iria faltar. — respondeu o outro anotando algo numa prancheta eletrônica.

— Odeio admitir, mas aqueles... Argh... Krees, tiveram o bom senso de avisar a todos sobre a poluição das águas. Também, eles que controlam o maior reservatório de água doce desse mundo sentiram na pele quando tanta água lhes faltou, no último ciclo. Suas drenas, instaladas ao redor de toda a costa do continente, já limparam sete por cento desse oceano.

— E cuidar dos monstros Acantes também foi essencial. Se o contato com o Império não for restabelecido, temos que pensar em ter recursos naturais por muitos anos.

Namor ouve essa última informação com mais atenção. Os skrulls estão sem contato com seu lar. Será que isso afeta as outras raças? Apesar de que começaram, ainda que tardiamente, a usar sua tecnologia avançada para trazer de volta a vida aos mares. Mas se ainda existir alguém com pelo menos a metade da inteligência de Richards ou Stark para operá-las, não será preciso nenhum alien. Se eles estão isolados na terra, estão enfraquecidos e podem ser derrubados.

Nesse momento sentiu voltar-lhe o espírito de outrora. Afastou os pensamentos de buscar a morte numa luta suicida. Seus planos podiam se tornar realidade. Mas, driblando seu orgulho, sabia que isso não poderia acontecer se ele agisse sozinho. Certamente haveria ali focos de resistência. Pois conhece a natureza humana, sempre voltada para a guerra, sempre querendo ser o senhor e nunca o escravo. E se não houvesse, ele mesmo ergueria uma. Mas para isso é preciso pisar em terra firme.

— Você viu o último capítulo do Olho Público? — dizia um dos engenheiros skrulls quando Namor os ataca, sem a necessidade de seu tridente. Os dois mal têm tempo de pensar. O soberano de Atlântida se orgulha de ainda ter certa agilidade, apesar do peso dos anos. Foi quando olhou para o outro lado, e seus olhos não puderam crer no que via. Um tanque, enorme como um lago, borbulhando de peixes, moluscos e outras espécies que há anos não via. “Isso pode salvar meu reino”, pensou.

Sim. Criados em cativeiro muitas espécies nativas para restabelecer o eco-sistema marinho. O primeiro impulso do atlante foi em soltar os animais no mar, mas então ele lembrou que ainda restava muita poluição nas águas e que elas não iriam sobreviver muito tempo. O melhor a fazer era deixar essa base skrull sem ser notado, para que eles continuem seu trabalho até que, reunido com a resistência, tome pose e devolva a vida aos mares. Então o melhor a fazer é deixar esse lugar sem ser notado.

— Parado, verme! — ouviu dizer. E se virando vê um guarda skrull, apontando uma arma com as mãos trêmulas. Isso estraga seu plano. Namor segura firme seu tridente na mão, encara o guarda com seu olhar altivo. O guarda estremece. Parece que nesses tempos de dominação nunca teve problemas com segurança. Sem hesitar, Namor o golpeia com o tridente e o lança para longe. Porém com isso o guarda fez um disparo que ecoou por todo aquele lugar.

— Não! — Namor se surpreende ao ver que o disparo ativou uma espécie de alarme. Sirenes começam a piscar e uma porta, que seria sua entrada para o mundo da superfície, é fechada. No mesmo instante, por portas adjacentes, um batalhão de guardas skrulls o cerca.

— O que temos aqui? — diz um dos skrulls que parece ser o capitão. — Que espécie de humano é esse? Com essas orelhas pontudas?! — e depois ri de escárnio.

— Deu sua última risada, skrull. — diz o príncipe submarino, sem olhar para o outro.

— Calado, idiota. Levem-no para a detenção. — com a ordem, os skrulls se aproximam de Namor. Este simplesmente levanta os olhos e com o tridente bem firme na mão os ataca. Suas armas disparam, mas não encontram o alvo. Em poucos segundos a maioria já está no chão. O capitão skrull diz: — Quem diabos é você, humano?

— Em primeiro lugar não sou humano. Eu sou Namor Primeiro, rei de Atlântida e dos sete mares. — Namor caminha até os guardas restantes. — Cansei de ficar inerte enquanto vocês destroem meu reino. Hoje começa minha vingança.

— Então... “majestade”... — diz o skrull em tom de deboche. — Acho que devo me curvar em sua presença! — Namor não responde. Apenas se aproxima do capitão e o olha de cima. Frente ao seu silêncio, o skrull diz: — Pois bem... Mas será você que irá se curvar. Irá se curvar ao império Skrull!!

Antes que Namor pudesse responder com sua ira, sente algo apertar seu ombro e o empurrar com força para o chão. Incrédulo, olhando o riso de satisfação do capitão skrull, Namor tenta se soltar dessa força invisível, mas então sente um forte golpe na cabeça.

— Não...! Não é... Possível... — diz antes de apagar completamente. O capitão skrull se abaixa e leva a mão até seu pescoço.

— Ainda está vivo. Ótimo. O império irá gostar de estudá-lo. — Atrás de Namor, uma figura surge do nada, apresentando um braço de pedra e outro em chamas. — Bom trabalho, SuperSkrull!



Continua em Supremacia Marvel: Invasores 2099 #6.

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