Ramon e José vão até a sede da Grimm's Gang, uma organização criminosa onde seus membros se fantasiam como personagens de contos de fadas. E essa visita transformará a vida do pobre Ramon. Mas isso será para melhor ou para pior?
Um Novo Homem
Universo Nova Frequência
Por: Anderson Oliveira
Publicado originalmente em março de 2007.
10 LIÇÕES PARA SE TORNAR UM VILÃO
Parte 2
LIÇÃO 3: Tenha capangas.
— É aqui?
— Deve ser...
— Não parece um quartel general de super-vilões.
— Talvez seja exatamente essa a ideia! — diz José Gonzáles acompanhando seu irmão que resolveu procurar a Grimm’s Gang. Os dois estão diante de um prédio abandonado no centro da Cidade do México. O endereço estava no bilhete que Ramon recebeu junto com presentes. O prédio está em situações deploráveis, condenado para ser implodido em breve, com fiações soltas, infiltrações e manchas de incêndios. — Vamos lá, vamos entrar. — José vai na frente, Ramon continua parado, devidamente disfarçado com um boné, óculos escuros e uma blusa com touca. José bate na porta de ferro. Após alguns segundos uma portinhola se abre e alguém mete a cara pra fora dizendo:
— O que quer?
— Diga que Ramon Gonzáles está aqui. — responde José.
— Ramon Gonzáles? — o porteiro disse com surpresa. Em seguida fechou a portinhola, deixando José e Ramon confusos. Quando José ia novamente bater na porta o porteiro a destrancou e apareceu agora de corpo inteiro, com um jornal na mão e um sorriso de satisfação: — Vamos, entrem! É um prazer ter o senhor aqui, senhor Ramon! — ele disse para José, este respondeu:
— Ele é o Ramon, eu sou o irmão dele.
— Ah, mil perdões, senhor! — disse o porteiro muito exaltado. — Me perdoe mesmo, por favor. Entrem, o chefe quer vê-lo logo. O senhor e seu irmão serão muito bem tratados aqui.
Com um largo sorriso, o porteiro deu três passos para trás e abriu caminho para os irmãos Gonzáles passarem. Ramon primeiramente estranhou a pouca idade do porteiro, parecia um garoto, no máximo treze anos. Fora suas roupas, alguns farrapos coloridos que fazia parecer um palhaço da idade média. Ramon lembrou-se de certos desaparecimentos de meninos que estavam acontecendo. Seria este um dos Meninos Perdidos? Enquanto assim pensava não percebeu que já estava dentro do prédio. Pelo lado de dentro era tão sujo e abandonado quanto por fora.
— Venham comigo! — disse o menino porteiro, indicando que eles deveriam subir as escadas. Não vendo outra opção os dois o seguiram. Subiram cerca de três andares até entrarem em uma sala ampla, conservada, com boa iluminação e cheia de pessoas. Uns vinte indivíduos, todos membros da Grimm’s Gang. Isso podia se perceber por usarem roupas exóticas que lembram personagens de contos de fadas. Tais pessoas, ao verem dois homens estranhos chegarem ao seu refúgio primeiro ficaram sobressaltados, mas vendo o sorriso do menino porteiro logo deduziram de quem se tratava.
— Será ele? — cochichou uma garota jovem e bonita, de vestido justo com babados verdes e brancos, seus cabelos eram dourados e cheios de cachinhos. Porém o mais inusitado era que ela estava deitada no colo de um filhote de urso pardo verdadeiro, aparentemente manso e sossegado.
— Qual dos dois será? — questionou um rapaz gordo aos dois irmãos, ambos também gordos e rosados que faziam lembrar três leitões.
— Ele deve ser o mais alto! — comentou um rapaz vestido com macacão azul e usando um chapéu típico dos alemães e com manoplas e botas de madeira muito estranhas. Porém sua maior característica era seu enorme nariz.
— Não acreditem no filho do carpinteiro! Sabemos que ele só diz mentiras! Deve ser o de óculos! — tomou a palavra uma garota loirinha e baixinha, salpicada de sardas e com redondos olhos azuis. Ela usa um vestido de lona verde e jaqueta de couro preto e traz às costas asas de borboleta feitas de plástico translúcido. Ela se pôs na frente dos irmãos Gonzáles e do porteiro.
— Diga ao chefe que ele está aqui. — falou o porteiro. Logo a garota fez tocar um sininho que tirou do bolso da jaqueta. Atrás dela, uma grande porta se abriu. — Entrem, dessa porta não sou autorizado a passar. — assim os irmãos cruzaram a porta deixando todos para trás, com olhos curiosos com um misto de medo e satisfação.
Atrás da porta a sala era escura. Isso forçou Ramon a tirar seus óculos, mas mesmo assim sua visão ainda era sombria. Então se acendeu uma luz na frente deles. Parecia uma vela ou lamparina. Mas logo a luz cresceu e revelou se originar nas mãos de uma mulher. A tal ponto em que a luz se espalhou pela sala de uma forma mágica, Ramon e José conseguiram ver como a mulher era linda, mesmo do alto dos seus quarenta e tantos anos, era uma bela morena com olhar firme e traços majestosos. Atrás dela havia um grande espelho, com moldura decorada em puro mogno.
— Você é o Espelho? — perguntou José a mulher.
— Não, sou apenas sua guardiã. — ela respondeu com uma voz sensual e ao mesmo tempo autoritária. — O Espelho os espera do outro lado.
— Outro lado? — perguntou José.
— Sim. Venham. — então a mulher se virou. Os irmãos não puderam resistir e fixaram seus olhos em seu grande traseiro vistoso sob a calça apertada que ela usa. Mas logicamente ela percebeu isso, olhando seus rostos através do espelho. Ela sorriu. Ser admirada a deixa muito contente. Mas logo voltou suas atenções ao seu trabalho, e então estendeu suas mãos e tocou a superfície lisa do espelho. Antes que os irmãos pudessem imaginar qual era a sua intenção, eles viram suas mãos afundarem no vidro, que agora parecia líquido como por mágica. Assim a mulher foi entrando no espelho. — Sigam-me. — e eles, ainda com medo de estarem loucos, seguiram, pois não havia outra escolha.
Atravessando o líquido, frio como gelo e viscoso como cola, Ramon e José se depararam com uma sala muito maior e muito mais rica, com o teto decorado com afrescos e anjos de ouro, paredes com carpetes vermelhos e quadros renascentistas e móveis de valor incalculável. De uma grande janela podiam-se ver montanhas nevadas e pastos verdejantes que lembrava alguma cidade na Alemanha, Suíça ou Áustria. Contrastando com isso, havia na sala muitas telas de LCD e computadores ligados exibindo fotos de satélites e códigos indecifráveis por aqueles dois mariachis semi-analfabetos. Saindo do líquido, perceberam que saiam de um outro espelho, este muito maior, indo do chão até o teto e mais rico, com moldura de ouro e prata. Dividido em três seções onde cada divisão se dobra num ângulo de vinte graus, de modo que quem estiver de frente para a seção do meio verá três imagens suas, uma em cada seção.
— Bem-vindo Ramon Gonzáles... e seu irmão. — disse uma voz de homem que parecia ecoar por toda a ampla sala. — Não se assustem, eu estou bem aqui. — os dois se voltam e viram, dentro do espelho, um homem vestindo um manto negro, desde o capuz que cobre boa parte de seu rosto até os pés.
— Você é o Espelho? — perguntou José, fingindo certa normalidade.
— Evidentemente. — Espelho respondeu com um aceno de cabeça para José, depois se voltou para Ramon dizendo: — Senhor Gonzáles. Eu, em nome de minha organização, tinha que lhe dar meus parabéns por ter sido capaz de tirar a vida daquele que nos últimos tempos se tornou uma pedra em meu sapato. Super Justiça vinha atrapalhando as operações dos meus agentes em todos os cantos do mundo, chegando até a destruir uma Célula em Madri. O senhor prestou um grande serviço para nós e nossos negócios, por isso eu gostaria de recompensá-lo da forma adequada.
— Recompensa... isso é interessante! — disse José. Espelho o olhou com estranheza.
— Pois bem — continuou Espelho —, primeiramente pensei em oferta-lhe alguns milhões de euros como recompensa. — ao ouvir tal sentença José sentiu seu coração subir para a boca e Ramon também não pode disfarçar a emoção. — Contudo, creio que isso não é o bastante... penso que nós dois podemos nos ajudar mutuamente.
— Como assim? — disse Ramon, abrindo sua boca pela primeira vez em algum tempo.
— Eu tenho alguns poderes. O maior deles é conceder aos que me procuram um dom especial. Assim minha organização, chamada pela mídia de Grimm’s Gang, conta com agentes com distintos poderes. Mas nenhum deles deve ter o poder que o senhor tem. O poder de acabar com um grande herói. Por isso, senhor Ramon, gostaria que entrasse para minha organização, como líder de uma Célula, para levar meus agentes a um novo nível de excelência. Assim irá lucrar muitos numerários, muito além dos milhões de euros que lhe ofertarei, e assim eu também ganho com alguém tão forte como o senhor ao meu lado. O que me diz?
Ramon olhou para José. Este, com os olhos parecia dizer “está esperando o que, seu idiota? Aceita logo isso!”, mas Ramon, o velho Ramon de sempre, é lerdo para tomar qualquer decisão. Veja Ramon, eis a chance de ser alguém na vida. Milionário e mais rico a cada dia, com uma legião de super-seres aos seus pés dispostos a fazer o que você mandar. Respeito que nunca antes tivera. O que ainda está pensando, Ramon? Ah, claro... você seria um bandido... um ladrão... um mafioso. Mas, veja, você é temido e respeitado por ser um assassino, que é coisa pior. Por que não ser logo ladrão e mafioso e assim ter mais poder e respeito? O que acha?
— Eu... aceito.
— Excelente. — Espelho sorriu. — Minha rainha, conduza-os de volta ao México. — disse à bela mulher que logo fez o vidro sólido se tornar líquido e por ele passou, sendo seguida pelos irmãos Gonzáles. Do outro lado, no prédio do México, Ramon e José saíram e logo foram conduzidos através da porta que lacra a sala do espelho. A mulher ficou na sala, sozinha.
— Tens certeza de que fez a coisa certa, Espelho meu? — disse ela olhando para o espelho. Logo o rosto de Espelho apareceu refletido e esse disse:
— Por que me tomas?
— É que... se ele fez o que fez, ele é mais poderoso que ti, e tão logo poderá ser uma ameaça.
— Sei o que faço, minha rainha. Lembra como resolvi o problema com sua enteada? Com aquela marca em seu rosto ela não é mais bela do que ti, e agora me serve com lealdade.
— E o que tem a ver isso?
— Para que nos livrarmos das ameaças quando podemos fazê-las peões? — Espelho sorriu. A mulher compreendeu suas palavras e também sorriu.
LIÇÃO 4: Cometa crimes que o deixem famoso.
Ramon e José saíram na sala com um certo ar triunfante, como se voltassem vitoriosos de uma batalha. Os bandidos que lá esperavam, curiosos e ansiosos por alguma resposta, fitavam os dois com olhares famintos. A menina com asas de fada era a única que parecia estar a par dos acontecimentos, como se ela tivesse mais poderes que os outros que ali estavam. Não digo poderes de ordem física, mas de ordem hierárquica. Com seus encantadores olhos azuis ela encarou Ramon e José até perceber o sorriso crescente em seus lábios. Então, voltando-se para os outros ela disse com entusiasmo:
— Galera! Conheçam seu novo líder! — em seguida todos vibraram com alegria. Para aqueles criminosos exóticos, ter o assassino de um grande herói como chefe seria muito gratificante. Enquanto batiam palmas e assobiavam, a menina-fada conduziu os irmãos Gonzáles até um andar superior enquanto nas escadas ia conversando: — a Célula do México estava sem líder desde que Lupus Malvinos foi banido.
— Banido? — disse José.
— Sim, parece que ele teve desentendimentos com o Espelho, que controla todas as Células lá da Alemanha. Lupus era muito forte, mas também muito folgado, do tipo que não aceita ordens... Ele queria até enfrentar o Espelho, mas sua própria namorada interferiu. Pobre da Red-Charlie... — a menina parou entre os degraus e falou em voz baixa: — Dizem que Lupus tinha o costume de vestir as roupas da avó dela... Mas bem, agora que o senhor está entre nós, iremos prosperar muito mais que a Célula de Paris ou a de Nova York!
— Como funcionam essas Células? — perguntou Ramon, ao passo que os três chegavam a um escritório.
— Espelho nos recruta e nos manda para turnos em Células em cada lugar do mundo. Aqui passamos uma temporada e depois ele nos manda para outro lugar. Isso deixa as autoridades perdidinhas! Mal posso esperar para voltar para Amsterdã! Bem, chegamos ao seu escritório... Ai, que cabeça a minha, nem me apresentei! Pode me chamar de Sinin! — Sinin parou na porta do escritório e fez silêncio, apenas esperando que Ramon fizesse algo, que desse alguma ordem. Ramon, por sua vez, nem imaginava o que um líder da Grimm’s Gang deveria fazer. José, percebendo a situação e se usando da sua malandragem, tomou a palavra dizendo:
— Tem aí os relatórios das últimas ações do grupo?
— Claro! Deve estar nessa bagunça. — Sinin entrou na sala e vasculhou os muitos papéis e encontrou, escrito à mão em folhas de caderno, anotações sobre assaltos, sequestros, atentados e tudo mais que a gangue deveria fazer. José observou a lista e encontrou um item sem nenhuma marca, como se ainda não tivesse sito concluído. Tal item era: Diamante Rubro. Sinin também viu o item e começou a explicar: — O roubo do Diamante Rubro em exposição no Museu Municipal ainda não foi executado por culpa da expulsão de Lupus...
— Então vamos executar agora. — disse José. — Sinin, chame os melhores agentes que tiver e traga esse diamante... — Sinin consentiu com a cabeça e já ia saindo quando José acrescentou: — E faça as autoridades saberem que foi Ramon Gonzáles quem mandou. E isso é apenas o começo. — Após a menina sair José abriu seu sorriso cafajeste e se esparramou no sofá de couro enquanto Ramon ficou parado, sem entender o que tinha acontecido. — Não se preocupe com nada, irmão. Não se preocupe.
Apesar das palavras tranquilas de José, Ramon começava a se preocupar. Verdadeiramente ele não conhecia esse lado de seu irmão. Claro que ele sabia que José não era nenhum coroinha, já que ele gostava de noitadas em mesas de jogos, pequenos golpes e truques, mas daí até comandar um assalto grandioso como esse é um salto e tanto. Após pensar um pouco, Ramon resolveu ocupar a mesa do escritório e examinar a papelada que lá estava, como se ele entendesse de administração. A única coisa que compreendeu foi um relatório de lucros e a partilha entre os membros da Célula. Era simples: 50% do arrecadado ia diretamente para o Espelho, 30% ficava com o líder da Célula, sendo 25% destinado aos seus lucros pessoais e 5% destinado a manutenção da sede da Célula. Os outros 20% era divido entre os agentes. Fora que os agentes tinham que pagar uma mensalidade, e caso faltassem com o pagamento ou não atuassem mais em missão, seriam riscados da gangue. Agora como era feito isso Ramon não conseguiu descobrir.
Horas depois, já na noite alta, saiu do prédio a menina Sinin, acompanhada da garota do urso, chamada de Carina Goldlocks, só que agora sem o urso, e mais um rapaz que não estava na sala junto com os outros agentes. O rapaz é alto e loiro, vestido de casaco verde e que atende pelo nome de Jack Beans. Os três entraram em uma van e minutos depois estavam no Museu Municipal da Cidade do México. Os guardas da portaria não terão crédito, quando dias depois acordarem no hospital dizendo que três ursos saídos não se sabe de onde comandados por uma menina, os atacaram na porta do Museu. Claro que suas pernas decepadas, costas mordidas e arranhadas servirão de prova do fato, mas daí a se crer que três feras selvagens os atacaram ao comando de uma linda moça é muito forçado.
Depois de entrarem, já na sala onde o Diamante Rubro estava exposto, Sinin tirou da jaqueta um saquinho, e do saquinho tirou um fino pó que espalhou em sua mão, depois o soprou ao vento. O pó se espalhou por toda a sala e revelou inúmeros feixes de lasers cruzando o recinto. Em seguida Jack Beans estendeu a mão e da manga de seu casaco saiu um ramo vegetal que crescia como uma erva trepadeira. Tal ramo passou por entre os feixes de laser e logo encontrou a redoma onde repousa o diamante.
Exibindo grande concentração, Jack comandou sua planta para que ela removesse a redoma com cuidado, em seguida outro ramo do vegetal, saído de sua outra manga, pegou o diamante o enrolando em suas folhas e o trouxe para as mãos de Jack. O Diamante Rubro. Uma pedra de coloração avermelhada, como sugere seu nome, do tamanho de uma noz e de valor exorbitante. Com o produto do roubo em mãos, só restava a próxima etapa da missão. Na saída, Sinin espalhou um pouco do seu pó sobre si e, magicamente, alçou voo ficando sobre a fachada do prédio. Depois sacou uma lata de spray e pichou a seguinte frase: “Cortesia da Grimm’s Gang e de Ramon Gonzáles”. Terminado isso, os três voltaram para o carro.
LIÇÃO 5: Tenha fortes inimigos.
Os jornais do dia seguinte não vinculavam outra notícia senão o audacioso roubo orquestrado pelo perigoso Ramon Gonzáles. Agora além de assassino ele era gangster, ladrão e sabe-se lá mais o quê. Talvez terrorista, estuprador, pedófilo, canibal, ativista racista, caçador de baleias, profanador de templos cristãos, etc... Não demoraria e a imaginação das pessoas trataria de atribuir-lhes novos adjetivos. Passavam-se os dias, os meses, e ao seu comando a Grimm’s Gang roubava bancos, sequestrava aviões, destruía prédios públicos... Claro que as ideias vinham de José, mas era Ramon quem levava os louros da fama. E a polícia do México não sabia mais o que fazer. O povo o temia e com suas fofocas fazia sua fama crescer ainda mais. De repente Ramon Gonzáles foi acusado de planejar aquele incidente em Israel meses atrás[1]. Apesar da maioria de especialistas sérios descartarem essa hipótese.
José teve a brilhante ideia de divulgar vídeos onde Ramon aparecia ao mundo fazendo ameaças, ao estilo dos vídeos de terroristas do Oriente Médio. O tom sombrio das filmagens, sempre deixadas após grandes roubos e atentados, criava uma figura assustadora de Ramon. A sombra do seu nariz projetada de cima para baixo fazia parecer que ele tinha um bigode pequeno que muito lembrava Adolf Hitler.
O assassino de Super Justiça se tornava uma ameaça mundial. Nações passaram a reforçar a segurança nos aeroportos temendo que ele entrasse em seus territórios. O presidente dos Estados Unidos rapidamente o declarou o inimigo número um da humanidade. E enquanto tudo isso acontecia no mundo externo, Ramon, assessorado por José, desfrutava do luxo que o dinheiro lhe trazia. Hoje, cinco meses após a morte de Super Justiça, Ramon vive em uma mansão em Cancun, como um nome falso, obviamente, escondido do mundo que o caça, cercado por ouro e conforto numa praia particular e com belas mulheres a sua disposição. Enquanto José aproveita tudo aquilo, Ramon sente-se amargurado por algum motivo que nem ele mesmo podia compreender. Na varanda, tocando um lindo violão que mandou comprar, ele sente saudade da sua vida antiga. Como estarão Guadalupe e Inezita? Ele vive pensando nelas.
Enquanto sua fama de super-vilão crescia mundialmente, ele ganhava seguidores. Houve uma cisão na Grimm’s Gang. Uma grande parcela de agentes de menor escalão veio de todo mundo para servir Ramon. Com uma lealdade canina os criminosos queriam a qualquer custo servir o mais perigoso e poderoso vilão da história. Isso despertou a ira de Espelho. Ele viu Ramon lhe tirar seus agentes e com isso viu seus cofres se esvaziarem. Ao lado de Espelho ainda lhe restavam seus agentes mais graduados, entre eles sua bela rainha, que meses atrás lhe advertiu que Ramon poderia ser uma ameaça. Como Espelho se arrepende de não ter lhe dado ouvidos.
— A Grimm’s Gang está reduzia a pouco mais de cinquenta agentes enquanto Ramon Gonzáles tem a sua disposição mais de dois mil homens. Como isso me deixa aborrecido! — diz Espelho consigo mesmo, em sua sala na Alemanha.
— Espelho meu — a rainha entra na sala acompanhada de três outras mulheres —, creio que sei como reverter essa situação. — Espelho olhou para as três que chegavam. Ele as conhecia muito bem. A primeira é jovem e bonita com seus cabelos loiros enfeitados com uma tiara, vestida de azul e com botas de ladrilhos de cristal, atende pelo nome de Cindy. A segunda tem cabelos pretos e curtos, sua pele é pálida como a neve das montanhas, traz no rosto uma cicatriz feita a ferro quente e veste-se de preto, seu nome é Bianca. A última tem cabelos castanhos, com óculos e uma boina vermelha, vestida como colegial de sex-shop, trazendo consigo uma maleta, ela é Red-Charlie.
— No que elas podem me ajudar? — pergunta Espelho.
— Encontramos Lupus Malvinos. — diz Cindy.
— E no que aquele insolente pode me servir?
— É melhor o senhor ouvir o que ele tem a dizer. — concluiu Red-Charlie.
Espelho sorriu.
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[1] - Tal incidente em Israel aconteceu na maxi-série Alvorada dos Heróis. No antigo UNF. Clique aqui e confira.
Fim da parte dois.
Universo Nova Frequência
Por: Anderson Oliveira
Publicado originalmente em março de 2007.
10 LIÇÕES PARA SE TORNAR UM VILÃO
Parte 2
LIÇÃO 3: Tenha capangas.
— É aqui?
— Deve ser...
— Não parece um quartel general de super-vilões.
— Talvez seja exatamente essa a ideia! — diz José Gonzáles acompanhando seu irmão que resolveu procurar a Grimm’s Gang. Os dois estão diante de um prédio abandonado no centro da Cidade do México. O endereço estava no bilhete que Ramon recebeu junto com presentes. O prédio está em situações deploráveis, condenado para ser implodido em breve, com fiações soltas, infiltrações e manchas de incêndios. — Vamos lá, vamos entrar. — José vai na frente, Ramon continua parado, devidamente disfarçado com um boné, óculos escuros e uma blusa com touca. José bate na porta de ferro. Após alguns segundos uma portinhola se abre e alguém mete a cara pra fora dizendo:
— O que quer?
— Diga que Ramon Gonzáles está aqui. — responde José.
— Ramon Gonzáles? — o porteiro disse com surpresa. Em seguida fechou a portinhola, deixando José e Ramon confusos. Quando José ia novamente bater na porta o porteiro a destrancou e apareceu agora de corpo inteiro, com um jornal na mão e um sorriso de satisfação: — Vamos, entrem! É um prazer ter o senhor aqui, senhor Ramon! — ele disse para José, este respondeu:
— Ele é o Ramon, eu sou o irmão dele.
— Ah, mil perdões, senhor! — disse o porteiro muito exaltado. — Me perdoe mesmo, por favor. Entrem, o chefe quer vê-lo logo. O senhor e seu irmão serão muito bem tratados aqui.
Com um largo sorriso, o porteiro deu três passos para trás e abriu caminho para os irmãos Gonzáles passarem. Ramon primeiramente estranhou a pouca idade do porteiro, parecia um garoto, no máximo treze anos. Fora suas roupas, alguns farrapos coloridos que fazia parecer um palhaço da idade média. Ramon lembrou-se de certos desaparecimentos de meninos que estavam acontecendo. Seria este um dos Meninos Perdidos? Enquanto assim pensava não percebeu que já estava dentro do prédio. Pelo lado de dentro era tão sujo e abandonado quanto por fora.
— Venham comigo! — disse o menino porteiro, indicando que eles deveriam subir as escadas. Não vendo outra opção os dois o seguiram. Subiram cerca de três andares até entrarem em uma sala ampla, conservada, com boa iluminação e cheia de pessoas. Uns vinte indivíduos, todos membros da Grimm’s Gang. Isso podia se perceber por usarem roupas exóticas que lembram personagens de contos de fadas. Tais pessoas, ao verem dois homens estranhos chegarem ao seu refúgio primeiro ficaram sobressaltados, mas vendo o sorriso do menino porteiro logo deduziram de quem se tratava.
— Será ele? — cochichou uma garota jovem e bonita, de vestido justo com babados verdes e brancos, seus cabelos eram dourados e cheios de cachinhos. Porém o mais inusitado era que ela estava deitada no colo de um filhote de urso pardo verdadeiro, aparentemente manso e sossegado.
— Qual dos dois será? — questionou um rapaz gordo aos dois irmãos, ambos também gordos e rosados que faziam lembrar três leitões.
— Ele deve ser o mais alto! — comentou um rapaz vestido com macacão azul e usando um chapéu típico dos alemães e com manoplas e botas de madeira muito estranhas. Porém sua maior característica era seu enorme nariz.
— Não acreditem no filho do carpinteiro! Sabemos que ele só diz mentiras! Deve ser o de óculos! — tomou a palavra uma garota loirinha e baixinha, salpicada de sardas e com redondos olhos azuis. Ela usa um vestido de lona verde e jaqueta de couro preto e traz às costas asas de borboleta feitas de plástico translúcido. Ela se pôs na frente dos irmãos Gonzáles e do porteiro.
— Diga ao chefe que ele está aqui. — falou o porteiro. Logo a garota fez tocar um sininho que tirou do bolso da jaqueta. Atrás dela, uma grande porta se abriu. — Entrem, dessa porta não sou autorizado a passar. — assim os irmãos cruzaram a porta deixando todos para trás, com olhos curiosos com um misto de medo e satisfação.
Atrás da porta a sala era escura. Isso forçou Ramon a tirar seus óculos, mas mesmo assim sua visão ainda era sombria. Então se acendeu uma luz na frente deles. Parecia uma vela ou lamparina. Mas logo a luz cresceu e revelou se originar nas mãos de uma mulher. A tal ponto em que a luz se espalhou pela sala de uma forma mágica, Ramon e José conseguiram ver como a mulher era linda, mesmo do alto dos seus quarenta e tantos anos, era uma bela morena com olhar firme e traços majestosos. Atrás dela havia um grande espelho, com moldura decorada em puro mogno.
— Você é o Espelho? — perguntou José a mulher.
— Não, sou apenas sua guardiã. — ela respondeu com uma voz sensual e ao mesmo tempo autoritária. — O Espelho os espera do outro lado.
— Outro lado? — perguntou José.
— Sim. Venham. — então a mulher se virou. Os irmãos não puderam resistir e fixaram seus olhos em seu grande traseiro vistoso sob a calça apertada que ela usa. Mas logicamente ela percebeu isso, olhando seus rostos através do espelho. Ela sorriu. Ser admirada a deixa muito contente. Mas logo voltou suas atenções ao seu trabalho, e então estendeu suas mãos e tocou a superfície lisa do espelho. Antes que os irmãos pudessem imaginar qual era a sua intenção, eles viram suas mãos afundarem no vidro, que agora parecia líquido como por mágica. Assim a mulher foi entrando no espelho. — Sigam-me. — e eles, ainda com medo de estarem loucos, seguiram, pois não havia outra escolha.
Atravessando o líquido, frio como gelo e viscoso como cola, Ramon e José se depararam com uma sala muito maior e muito mais rica, com o teto decorado com afrescos e anjos de ouro, paredes com carpetes vermelhos e quadros renascentistas e móveis de valor incalculável. De uma grande janela podiam-se ver montanhas nevadas e pastos verdejantes que lembrava alguma cidade na Alemanha, Suíça ou Áustria. Contrastando com isso, havia na sala muitas telas de LCD e computadores ligados exibindo fotos de satélites e códigos indecifráveis por aqueles dois mariachis semi-analfabetos. Saindo do líquido, perceberam que saiam de um outro espelho, este muito maior, indo do chão até o teto e mais rico, com moldura de ouro e prata. Dividido em três seções onde cada divisão se dobra num ângulo de vinte graus, de modo que quem estiver de frente para a seção do meio verá três imagens suas, uma em cada seção.
— Bem-vindo Ramon Gonzáles... e seu irmão. — disse uma voz de homem que parecia ecoar por toda a ampla sala. — Não se assustem, eu estou bem aqui. — os dois se voltam e viram, dentro do espelho, um homem vestindo um manto negro, desde o capuz que cobre boa parte de seu rosto até os pés.
— Você é o Espelho? — perguntou José, fingindo certa normalidade.
— Evidentemente. — Espelho respondeu com um aceno de cabeça para José, depois se voltou para Ramon dizendo: — Senhor Gonzáles. Eu, em nome de minha organização, tinha que lhe dar meus parabéns por ter sido capaz de tirar a vida daquele que nos últimos tempos se tornou uma pedra em meu sapato. Super Justiça vinha atrapalhando as operações dos meus agentes em todos os cantos do mundo, chegando até a destruir uma Célula em Madri. O senhor prestou um grande serviço para nós e nossos negócios, por isso eu gostaria de recompensá-lo da forma adequada.
— Recompensa... isso é interessante! — disse José. Espelho o olhou com estranheza.
— Pois bem — continuou Espelho —, primeiramente pensei em oferta-lhe alguns milhões de euros como recompensa. — ao ouvir tal sentença José sentiu seu coração subir para a boca e Ramon também não pode disfarçar a emoção. — Contudo, creio que isso não é o bastante... penso que nós dois podemos nos ajudar mutuamente.
— Como assim? — disse Ramon, abrindo sua boca pela primeira vez em algum tempo.
— Eu tenho alguns poderes. O maior deles é conceder aos que me procuram um dom especial. Assim minha organização, chamada pela mídia de Grimm’s Gang, conta com agentes com distintos poderes. Mas nenhum deles deve ter o poder que o senhor tem. O poder de acabar com um grande herói. Por isso, senhor Ramon, gostaria que entrasse para minha organização, como líder de uma Célula, para levar meus agentes a um novo nível de excelência. Assim irá lucrar muitos numerários, muito além dos milhões de euros que lhe ofertarei, e assim eu também ganho com alguém tão forte como o senhor ao meu lado. O que me diz?
Ramon olhou para José. Este, com os olhos parecia dizer “está esperando o que, seu idiota? Aceita logo isso!”, mas Ramon, o velho Ramon de sempre, é lerdo para tomar qualquer decisão. Veja Ramon, eis a chance de ser alguém na vida. Milionário e mais rico a cada dia, com uma legião de super-seres aos seus pés dispostos a fazer o que você mandar. Respeito que nunca antes tivera. O que ainda está pensando, Ramon? Ah, claro... você seria um bandido... um ladrão... um mafioso. Mas, veja, você é temido e respeitado por ser um assassino, que é coisa pior. Por que não ser logo ladrão e mafioso e assim ter mais poder e respeito? O que acha?
— Eu... aceito.
— Excelente. — Espelho sorriu. — Minha rainha, conduza-os de volta ao México. — disse à bela mulher que logo fez o vidro sólido se tornar líquido e por ele passou, sendo seguida pelos irmãos Gonzáles. Do outro lado, no prédio do México, Ramon e José saíram e logo foram conduzidos através da porta que lacra a sala do espelho. A mulher ficou na sala, sozinha.
— Tens certeza de que fez a coisa certa, Espelho meu? — disse ela olhando para o espelho. Logo o rosto de Espelho apareceu refletido e esse disse:
— Por que me tomas?
— É que... se ele fez o que fez, ele é mais poderoso que ti, e tão logo poderá ser uma ameaça.
— Sei o que faço, minha rainha. Lembra como resolvi o problema com sua enteada? Com aquela marca em seu rosto ela não é mais bela do que ti, e agora me serve com lealdade.
— E o que tem a ver isso?
— Para que nos livrarmos das ameaças quando podemos fazê-las peões? — Espelho sorriu. A mulher compreendeu suas palavras e também sorriu.
LIÇÃO 4: Cometa crimes que o deixem famoso.
Ramon e José saíram na sala com um certo ar triunfante, como se voltassem vitoriosos de uma batalha. Os bandidos que lá esperavam, curiosos e ansiosos por alguma resposta, fitavam os dois com olhares famintos. A menina com asas de fada era a única que parecia estar a par dos acontecimentos, como se ela tivesse mais poderes que os outros que ali estavam. Não digo poderes de ordem física, mas de ordem hierárquica. Com seus encantadores olhos azuis ela encarou Ramon e José até perceber o sorriso crescente em seus lábios. Então, voltando-se para os outros ela disse com entusiasmo:
— Galera! Conheçam seu novo líder! — em seguida todos vibraram com alegria. Para aqueles criminosos exóticos, ter o assassino de um grande herói como chefe seria muito gratificante. Enquanto batiam palmas e assobiavam, a menina-fada conduziu os irmãos Gonzáles até um andar superior enquanto nas escadas ia conversando: — a Célula do México estava sem líder desde que Lupus Malvinos foi banido.
— Banido? — disse José.
— Sim, parece que ele teve desentendimentos com o Espelho, que controla todas as Células lá da Alemanha. Lupus era muito forte, mas também muito folgado, do tipo que não aceita ordens... Ele queria até enfrentar o Espelho, mas sua própria namorada interferiu. Pobre da Red-Charlie... — a menina parou entre os degraus e falou em voz baixa: — Dizem que Lupus tinha o costume de vestir as roupas da avó dela... Mas bem, agora que o senhor está entre nós, iremos prosperar muito mais que a Célula de Paris ou a de Nova York!
— Como funcionam essas Células? — perguntou Ramon, ao passo que os três chegavam a um escritório.
— Espelho nos recruta e nos manda para turnos em Células em cada lugar do mundo. Aqui passamos uma temporada e depois ele nos manda para outro lugar. Isso deixa as autoridades perdidinhas! Mal posso esperar para voltar para Amsterdã! Bem, chegamos ao seu escritório... Ai, que cabeça a minha, nem me apresentei! Pode me chamar de Sinin! — Sinin parou na porta do escritório e fez silêncio, apenas esperando que Ramon fizesse algo, que desse alguma ordem. Ramon, por sua vez, nem imaginava o que um líder da Grimm’s Gang deveria fazer. José, percebendo a situação e se usando da sua malandragem, tomou a palavra dizendo:
— Tem aí os relatórios das últimas ações do grupo?
— Claro! Deve estar nessa bagunça. — Sinin entrou na sala e vasculhou os muitos papéis e encontrou, escrito à mão em folhas de caderno, anotações sobre assaltos, sequestros, atentados e tudo mais que a gangue deveria fazer. José observou a lista e encontrou um item sem nenhuma marca, como se ainda não tivesse sito concluído. Tal item era: Diamante Rubro. Sinin também viu o item e começou a explicar: — O roubo do Diamante Rubro em exposição no Museu Municipal ainda não foi executado por culpa da expulsão de Lupus...
— Então vamos executar agora. — disse José. — Sinin, chame os melhores agentes que tiver e traga esse diamante... — Sinin consentiu com a cabeça e já ia saindo quando José acrescentou: — E faça as autoridades saberem que foi Ramon Gonzáles quem mandou. E isso é apenas o começo. — Após a menina sair José abriu seu sorriso cafajeste e se esparramou no sofá de couro enquanto Ramon ficou parado, sem entender o que tinha acontecido. — Não se preocupe com nada, irmão. Não se preocupe.
Apesar das palavras tranquilas de José, Ramon começava a se preocupar. Verdadeiramente ele não conhecia esse lado de seu irmão. Claro que ele sabia que José não era nenhum coroinha, já que ele gostava de noitadas em mesas de jogos, pequenos golpes e truques, mas daí até comandar um assalto grandioso como esse é um salto e tanto. Após pensar um pouco, Ramon resolveu ocupar a mesa do escritório e examinar a papelada que lá estava, como se ele entendesse de administração. A única coisa que compreendeu foi um relatório de lucros e a partilha entre os membros da Célula. Era simples: 50% do arrecadado ia diretamente para o Espelho, 30% ficava com o líder da Célula, sendo 25% destinado aos seus lucros pessoais e 5% destinado a manutenção da sede da Célula. Os outros 20% era divido entre os agentes. Fora que os agentes tinham que pagar uma mensalidade, e caso faltassem com o pagamento ou não atuassem mais em missão, seriam riscados da gangue. Agora como era feito isso Ramon não conseguiu descobrir.
Horas depois, já na noite alta, saiu do prédio a menina Sinin, acompanhada da garota do urso, chamada de Carina Goldlocks, só que agora sem o urso, e mais um rapaz que não estava na sala junto com os outros agentes. O rapaz é alto e loiro, vestido de casaco verde e que atende pelo nome de Jack Beans. Os três entraram em uma van e minutos depois estavam no Museu Municipal da Cidade do México. Os guardas da portaria não terão crédito, quando dias depois acordarem no hospital dizendo que três ursos saídos não se sabe de onde comandados por uma menina, os atacaram na porta do Museu. Claro que suas pernas decepadas, costas mordidas e arranhadas servirão de prova do fato, mas daí a se crer que três feras selvagens os atacaram ao comando de uma linda moça é muito forçado.
Depois de entrarem, já na sala onde o Diamante Rubro estava exposto, Sinin tirou da jaqueta um saquinho, e do saquinho tirou um fino pó que espalhou em sua mão, depois o soprou ao vento. O pó se espalhou por toda a sala e revelou inúmeros feixes de lasers cruzando o recinto. Em seguida Jack Beans estendeu a mão e da manga de seu casaco saiu um ramo vegetal que crescia como uma erva trepadeira. Tal ramo passou por entre os feixes de laser e logo encontrou a redoma onde repousa o diamante.
Exibindo grande concentração, Jack comandou sua planta para que ela removesse a redoma com cuidado, em seguida outro ramo do vegetal, saído de sua outra manga, pegou o diamante o enrolando em suas folhas e o trouxe para as mãos de Jack. O Diamante Rubro. Uma pedra de coloração avermelhada, como sugere seu nome, do tamanho de uma noz e de valor exorbitante. Com o produto do roubo em mãos, só restava a próxima etapa da missão. Na saída, Sinin espalhou um pouco do seu pó sobre si e, magicamente, alçou voo ficando sobre a fachada do prédio. Depois sacou uma lata de spray e pichou a seguinte frase: “Cortesia da Grimm’s Gang e de Ramon Gonzáles”. Terminado isso, os três voltaram para o carro.
LIÇÃO 5: Tenha fortes inimigos.
Os jornais do dia seguinte não vinculavam outra notícia senão o audacioso roubo orquestrado pelo perigoso Ramon Gonzáles. Agora além de assassino ele era gangster, ladrão e sabe-se lá mais o quê. Talvez terrorista, estuprador, pedófilo, canibal, ativista racista, caçador de baleias, profanador de templos cristãos, etc... Não demoraria e a imaginação das pessoas trataria de atribuir-lhes novos adjetivos. Passavam-se os dias, os meses, e ao seu comando a Grimm’s Gang roubava bancos, sequestrava aviões, destruía prédios públicos... Claro que as ideias vinham de José, mas era Ramon quem levava os louros da fama. E a polícia do México não sabia mais o que fazer. O povo o temia e com suas fofocas fazia sua fama crescer ainda mais. De repente Ramon Gonzáles foi acusado de planejar aquele incidente em Israel meses atrás[1]. Apesar da maioria de especialistas sérios descartarem essa hipótese.
José teve a brilhante ideia de divulgar vídeos onde Ramon aparecia ao mundo fazendo ameaças, ao estilo dos vídeos de terroristas do Oriente Médio. O tom sombrio das filmagens, sempre deixadas após grandes roubos e atentados, criava uma figura assustadora de Ramon. A sombra do seu nariz projetada de cima para baixo fazia parecer que ele tinha um bigode pequeno que muito lembrava Adolf Hitler.
O assassino de Super Justiça se tornava uma ameaça mundial. Nações passaram a reforçar a segurança nos aeroportos temendo que ele entrasse em seus territórios. O presidente dos Estados Unidos rapidamente o declarou o inimigo número um da humanidade. E enquanto tudo isso acontecia no mundo externo, Ramon, assessorado por José, desfrutava do luxo que o dinheiro lhe trazia. Hoje, cinco meses após a morte de Super Justiça, Ramon vive em uma mansão em Cancun, como um nome falso, obviamente, escondido do mundo que o caça, cercado por ouro e conforto numa praia particular e com belas mulheres a sua disposição. Enquanto José aproveita tudo aquilo, Ramon sente-se amargurado por algum motivo que nem ele mesmo podia compreender. Na varanda, tocando um lindo violão que mandou comprar, ele sente saudade da sua vida antiga. Como estarão Guadalupe e Inezita? Ele vive pensando nelas.
Enquanto sua fama de super-vilão crescia mundialmente, ele ganhava seguidores. Houve uma cisão na Grimm’s Gang. Uma grande parcela de agentes de menor escalão veio de todo mundo para servir Ramon. Com uma lealdade canina os criminosos queriam a qualquer custo servir o mais perigoso e poderoso vilão da história. Isso despertou a ira de Espelho. Ele viu Ramon lhe tirar seus agentes e com isso viu seus cofres se esvaziarem. Ao lado de Espelho ainda lhe restavam seus agentes mais graduados, entre eles sua bela rainha, que meses atrás lhe advertiu que Ramon poderia ser uma ameaça. Como Espelho se arrepende de não ter lhe dado ouvidos.
— A Grimm’s Gang está reduzia a pouco mais de cinquenta agentes enquanto Ramon Gonzáles tem a sua disposição mais de dois mil homens. Como isso me deixa aborrecido! — diz Espelho consigo mesmo, em sua sala na Alemanha.
— Espelho meu — a rainha entra na sala acompanhada de três outras mulheres —, creio que sei como reverter essa situação. — Espelho olhou para as três que chegavam. Ele as conhecia muito bem. A primeira é jovem e bonita com seus cabelos loiros enfeitados com uma tiara, vestida de azul e com botas de ladrilhos de cristal, atende pelo nome de Cindy. A segunda tem cabelos pretos e curtos, sua pele é pálida como a neve das montanhas, traz no rosto uma cicatriz feita a ferro quente e veste-se de preto, seu nome é Bianca. A última tem cabelos castanhos, com óculos e uma boina vermelha, vestida como colegial de sex-shop, trazendo consigo uma maleta, ela é Red-Charlie.
— No que elas podem me ajudar? — pergunta Espelho.
— Encontramos Lupus Malvinos. — diz Cindy.
— E no que aquele insolente pode me servir?
— É melhor o senhor ouvir o que ele tem a dizer. — concluiu Red-Charlie.
Espelho sorriu.
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[1] - Tal incidente em Israel aconteceu na maxi-série Alvorada dos Heróis. No antigo UNF. Clique aqui e confira.
Fim da parte dois.
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