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Teatral #1. Apenas uma Noite.



Conheça o mais incomum dos heróis, um jovem chamado Teatral, para o qual a vida não passa do palco de um grande teatro, onde ele vive as fantasias de combater o crime e ser um herói.
Mas será tudo real ou apenas fruto da imaginação de um louco?



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Apenas uma noite.[1]
Por João Norberto da Silva.

Sobem as cortinas

O cenário:

Um quarto escuro, onde a luz da rua entra apenas por uma pequena fresta da janela fechada. Uma cama simples, um criado mudo onde jaz um abajur, desses comuns em lojas de R$1,99 ao lado de um livro de Machado de Assis, cujas páginas gastas estão abertas de forma despudorada, deixando ao léu as palavras do escritor, um guarda-roupa permanece com uma das portas quebradas, que pende insistentemente. Esses são os únicos móveis ali.

Nas paredes vários cartazes de peças teatrais que estiveram em cartaz há anos atrás, dividem espaço com as novidades da semana, criando um ar caótico no quarto, deixando claro que, quem quer que more ali, não está no juízo perfeito de suas faculdades mentais.

Existem apenas duas portas. A que leva para fora do quarto e a do banheiro, o único outro cômodo, que finalmente se abre, dando passagem ao personagem principal.

Este entra no quarto arrastando os pés, corpo todo arqueado como um velho, mas sendo possível perceber se tratar de alguém bem jovem, por volta dos vinte e um anos. Vai até o criado mudo, abre uma gaveta e dela tira um CD-Player, coloca um CD do cantor Oswaldo Montenegro, põe os fones de ouvido e senta na cama ao mesmo tempo em que a música “A Lista” começa a tocar.

Ele cerra os olhos, voltando o rosto para o teto, curtindo a música. Lágrimas começam a descer lentamente por sua face e ele volta o corpo para frente, como se fosse vomitar. Depois de um acesso violento de tosse, ele leva a mão até o criado mudo outra vez e, ainda com alguns espasmos da tosse, de lá retira um revólver calibre 38. Ele abre o tambor e nota que existe apenas uma bala, recoloca o tambor no local, dá um giro no mesmo e leva a arma à têmpora direita. Enquanto ouve a música “Chão de Giz”, com as mãos firmes, sem sinais de tremedeira, aperta do gatilho.

Nada.

Ele volta a abrir os olhos e percebe que a bala estava pronta para ser disparada, caso ele tentasse outra vez. Decide devolver a arma para o criado mudo e se ergue, ainda ouvindo o CD-Player, indo na direção do banheiro. Uma vez lá dentro ele lava o rosto, e se olha no espelho.

Personagem principal: - Afinal... Quem é você?

Ele volta para o quarto e vai até o guarda-roupa, de lá retira o que parece ser uma malha de ginástica na cor verde, botas e luvas pretas. Veste-se lentamente, como se fosse um ritual de renascimento, e vai novamente até o banheiro, levando nas mãos a típica máscara, símbolo do Teatro, com metade do rosto feliz e metade triste.

Personagem principal: – Será Sérgio? (Ele coloca a máscara. Uma pausa dramática) – Ou será o Teatral? (ele ergue o corpo arqueado, agora aparentando um vigor inesperado e discursa como se houvesse um grande público a ouvi-lo) – A vida me escolheu hoje! Portanto devo retribuir levando a arte para os palcos que ela me proporciona! Que as luzes da Ribalta se acendam! (Dito isso ele vai até a janela do banheiro e ganha a noite)

Descem as cortinas

***

Sobem as cortinas

O cenário:

Um típico beco da cidade, as paredes de ambos os lados se encontram tomadas de pixações, algumas com desenhos, mas a maioria com frases que vão desde as simplesmente mal-educadas, às cheias de preconceito e ódio.

Mal se dá para ver o chão, tamanha é a quantidade de lixo espalhado. Latas de cerveja e refrigerante, camisinhas usadas, caixas de papelão, sacos pretos, abertos pelos cachorros e moradores de rua, excrementos completam a degradante visão do beco, mostrando como os seres humanos podem ser porcos. Porcos e covardes como é visto em seguida.

Um grupo de jovens, todos trajados com as típicas roupas do movimento punk entram em cena, arrastando uma garota para o beco. Ela tenta se soltar, mas o número e força deles é superior à dela e, entre lágrimas ela grita. Mesmo com o sangue que escorre de sua boca, resultado de um soco que a mesma levou, seus gritos por socorro chegam às janelas que dão para o beco. Nos apartamentos acima, entretanto, as pessoas evitam a todo custo se envolver.

Punk # 1:- É isso aí!!! Vamos barbarizá a vaca e depois detoná ela!!

Punk # 2:- Podicrê!!! É o bichooooo!!!

O terceiro punk apenas continua a arrastar a garota com violência, ele puxa o braço dela e a lança sobre os sacos de lixo, espalhando a imundice e fazendo com que a garota tenha espasmos de tosse e ânsia de vômito, mas antes de concretizar o que ela queria, um dos atacantes a tira dali.

Punk # 2:- Porra cara... Quer fazer a festinha no meio do lixo? Tu é nojento... Hehehehe...(Ele começa a soltar seu cinto e abrir sua braguilha) – Se prepara prá ser feliz, piranha...

Garota:- Por favor...(Ela respira profundamente fazendo o típico barulho de um nariz cheio de coriza) – Não façam isso... (Se encolhe, tentando proteger suas partes íntimas, mas é inútil e um dos punks arranca sua blusa com violência, deixando seus seios à mostra)- NÃÃÃÃÃOOOO!!!

Punk # 3:- Olha como berra a cadela... (Ele também começa a abrir as calças) – Vou colocar uma coisa na boca dela prá parar essa gritaria...

Os três se abaixam e jogam longe a saia da garota, após acertarem mais golpes nela e deixá-la quase sem sentidos. Em seguida começam a fazer um tipo de sorteio para decidirem quem a estuprará primeiro. Nesse momento uma voz é ouvida sem que se veja outra pessoa em cena

Teatral:- Soltem a mulher rufiões!!! Ou enfrentem a minha ira!

O herói pousa pouco atrás dos punks, estes se mostram confusos com a chegada de uma figura tão espalhafatosa, fazendo várias poses e se preparando para lutar, ficando parado de uma forma que fez os criminosos rirem alto.

Punk # 2:- Cacete! Quem é esse boiola?

Punk # 1:- Sei lá cara... O que importa é que ele vai morrê!

Os três começam a avançar, enquanto Teatral não faz nada. Equanto a vítima recolhe suas roupas e olha para aquele que tenta salvá-la, se surpreende com o que acontece a seguir.

O Teatral salta contra os três atacantes derrubando-os quando, usando suas costas, os atinge em cheio nas cabeças para, em seguida, cair de pé e continuar a atacar, dessa vez usando os pés numa seqüência de chutes que acabam por derrubar de vez um dos inimigos e ferir seriamente outro.

Teatral:- Última chance... Rendam-se e eu os poupo de mais dor e agonia... - (Ele dá um pulo para trás, se preparando outra vez, pois os inimigos restantes correm em sua direção, urrando de ódio) – O funeral é de vocês!

O primeiro punk a alcançar o herói cai pesadamente no chão, com dificuldade de respirar, depois de um golpe rápido contra seu pescoço. O último inimigo que se mantém em pé, com dificuldade, se detém ao ver o colega caído e tenta fugir, mas é impedido quando Teatral salta e o atinge com um chute na nuca que, por pouco, não quebrou seu pescoço.

O herói se aproximou da garota, esta agora conseguia se colocar de pé, sendo amparada por ele. Os dois ficam frente a frente, olhos nos olhos, algo que parecia com um clima romântico começara a surgir, mas logo o herói a afastou delicadamente.

Garota:- Muito obrigada... ObrigadaObrigadaObrigadaObrigada... O que mais eu posso fazer prá agradecer?

Teatral:- Apenas evite problemas... Eu já tenho muito com o que me preocupar... E posso não estar por perto numa outra vez. (o som de sirenes começa a ser ouvido) – Pelo visto ainda existem bons samaritanos por essas bandas... Ligaram para a polícia... Eles podem cuidar de você agora... Adeus!

Dito isso ele se lança para o alto, se escorando nas paredes dos becos e logo some do campo de visão dela e da platéia, deixando a garota sozinha com seus agressores, até que alguns policiais se aproximam para ajudá-la.

Descem as cortinas

***

Sobem as cortinas

O cenário:

Numa rua mal iluminada outra garota, esta aparentando ser menor de idade, se apóia num poste. Ela usa roupas curtas e provocantes, se exibindo para quem passa, deixando claro suas intenções.

Logo um carro de marca importada surge e, aos poucos, se aproxima da garota. O motorista e ela travam diálogo impossível de ser ouvido e, quando ambos parecem chegar a um acordo e ela leva a mão para abrir a porta do passageiro, acaba se afastando, como se visse algo assustador do outro lado da rua e, quando o motorista se volta, ele só tem tempo de ver um pé se aproximando de seu rosto.

Após chutar o motorista, Teatral o arrasta para fora do carro e o joga com o rosto na direção do asfalto da rua. Achando que o outro desmaiou, o herói se dirige para a garota, a fim de lhe falar e acaba não percebendo que o outro puxou uma arma.

O som do tiro ecoa na noite e o herói leva a mão até o abdômen, percebendo que uma mancha vermelha começa a se formar, além de ver que o tiro o trespassara e a bala se alojou na porta do carro.

O herói percebeu o olhar de medo da garota.

Antes que qualquer um dos presentes consiga sequer pensar, Teatral desfere um potente chute no rosto do homem que lhe feriu, deixando este realmente desacordado dessa vez. Em seguida ele salta e fica agachado no teto do carro, o rosto bem próximo da garota e fala entre gemidos de dor.

Teatral:- Siga essa rua até um sobrado... Número 72... Quando uma mulher atender... Diga que foi o Teatral quem te mandou prá lá... Aaahhhh... Ela vai te ajudar a sair dessa vida... Do contrário...

A garota não espera o final da frase e sai correndo para fora da cena. O herói coloca a mão sobre seu ferimento, olha mais uma vez para o homem caído, dá um ultimo chute na virilha deste e então também saí de cena, com o corpo encurvado pela dor.

Descem as cortinas

***

Sobem as cortinas

O cenário volta a ser o do quarto do herói.

Um som é ouvido do banheiro e logo Teatral reaparece em cena, aparentemente sentindo muita dor. Ele tira a máscara e a joga sobre a cama para, logo em seguida, após um longo suspiro, retirar o resto do uniforme. Agora ele se ergue, como se nada tivesse acontecido, o local onde antes estava cheio de sangue devido ao ferimento, agora está limpo e não há o menor sinal de que uma bala tenha passado por ali.

O jovem joga o uniforme dentro do guarda-roupa, vai até a cama e senta-se, pegando em seguida o que parece ser um retrato.

O rapaz:- Mais uma noite, meu amor... Outra vez, quando me desfaço do personagem nada mais resta, nem ferimentos ou mesmo as memórias completas do que ele fez... Amanhã terei que recorrer aos jornais de novo... (ele pega a arma outra vez, confere a única bala e recoloca na gaveta.) – mais uma noite em que eu não pude me unir a você... Mas amanhã é outro dia... Pois hoje, outra vez, foi apenas uma noite para o... Teatral. (Ele se deita e puxa um lençol sobre si)

As luzes se apagam aos poucos e a cortina se fecha pela última vez.


FIM


[1] Essa é uma peça do autor Pedro Neschling. A cada número do Teatral eu colocarei o nome de uma peça brasileira que, espero eu, tenha algo a ver com a minha história, mesmo que seja apenas por causa do nome.
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+ comentários + 1 comentários

16 de setembro de 2010 às 18:32

Muito legal, João!!
O modo como você conduziu o texto como se fosse realmente um script de teatro ficou ótimo! O texto tem um climão bem pesado, o que o torna ainda mais legal e denso!
Parabéns, camarada!!

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