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Profany, Contos Apócrifos #5



Profaniel sai em busca de seu grande amor, Kate, e a encontra no mundo dos mortos. Um encontro emocionante e inesperado que irá traçar o rumo da história daqui pra frente. Chega ao fim o primeiro arco dessa história.





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Por: Anderson Oliveira

05. O Evangelho de Profany, parte final.
O Encontro.


Isso foi há muito tempo...

Londres, Reino da Grã-Bretanha, 1791.

A aglomeração em frente ao Royal Opera House era grande. Choveu na noite passada, e o barro se espalhava pelas ruas calçadas, trazido pelas rodas das carruagens. Mas Profaniel não fazia questão de sujar os sapatos, e descendo primeiro, antes mesmo que o cocheiro, ele deu a mão para ajudar a sua esposa a descer. Aquela mão delicada, coberta por uma luva de cetim, encontrou a sua e se apertou fortemente entre seus dedos para poder descer da cabine. Tomando cuidado de levantar um pouco o vestido para não sujá-lo, Kate Goodsmith quase tropeçou mas encontrou o braço forte do marido que a amparou.

— Cuidado, querida. — disse o homem alto, com longos cabelos loiros penteados para trás, olhos verdes e um rosto bondoso, que vestia uma casaca comprida azul escura, com detalhes em dourado. Amparada em seus braços, Kate parecia tão pequena, com seus cabelos avermelhados presos sob um chapéu com plumas, o rosto liso com maquiagem leve que ressaltava seus brilhantes olhos verdes, vestida com um vestido vermelho e branco de rica seda do oriente. Ela lhe sorriu dizendo:

— Não tenho medo de cair. Sei que você estará ao meu lado. Como meu anjo protetor. — então ela se recompôs, e enquanto o cocheiro levava a carruagem dali, de braços dados os dois se dirigiram à entrada da casa de espetáculos.

Senhores e senhoras da corte preenchiam todo o vestíbulo. A aristocracia britânica – pelo menos os que apreciam boa música – viera em peso para assistir a primeira apresentação do maestro e compositor austríaco Joseph Haydn. As conversas entre as damas era se o rei George III compareceria. Não que Profaniel se importasse, pois mesmo vivendo na corte e desposando a herdeira do conde de Berkshire pouco ligava para essas convicções mortais e se recusaria a curvar-se ante qualquer ser de carne. Nem mesmo quando era um anjo – e essa lembrança ficava cada vez mais distante – era dado a obedecer hierarquias. Tanto que violou leis sagradas para se fazer mortal por seu grande amor.

Tinha sempre a impressão que essa sua atitude anárquica um dia lhe iria causar problemas, seja frente a autoridade do rei ao mesmo frente as Leis de Deus. Não se curvaria ante nenhum mortal, mas se curvava dia e noite ao seu Criador, mesmo depois de ter abandonado seu estado angelical. E isso o fizera por amor, e sabia que Deus não poderia ver esse amor com maus olhos. E também, ainda pensava, Deus é o criador de todas as coisas e conhece todos os desígnios, então nada acontece sem que ele saiba. Mesmo a mortalidade de um de seus filhos.

Os dois já tomavam seus lugares no camarote do Conde Joseph Williams e sua esposa Madalene, irmã de Kate. Williams era um homem na casa dos cinquenta anos, que na ocasião usava a peruca branca dos lordes, que contrastava com seu farto bigode escuro. Madalene ainda não chegara os trinta e tinha o mesmo cabelo ruivo de Kate, porém seus olhos eram castanhos e seu semblante já era castigado depois de dois filhos.

O concerto começara, Haydn tomou seu lugar coberto de aplausos e começou a reger a orquestra que executava sua Sinfonia Nº 92. Profaniel sempre apreciou música. A música é um elo de ligação entre este mundo e o próximo. Sábios eram os povos antigos que celebravam seus deuses com cânticos, flautas e harpas. Mas então vieram homens idiotas que distorceram a palavra do Cristo e mergulharam o mundo nas trevas da ignorância, chegando a dizer que música era pecado. Profaniel tinha pena de sua imbecilidade. Não há nada mais divino e santo do que boa música, como a de Haydn, assim como seu conterrâneo e aluno, Mozart.

E aqueles sons divinos eram como poder ouvir a voz de Deus novamente. E esse pensamento lhe deu uma certa tristeza. Mas no próximo acorde ele se esforçou para afastar essa ideia antes que as lágrimas começassem a correr em seu rosto. E no embalo da música, com a mente quase em outro mundo, seus olhos encontraram os de Kate, que apreciava a melodia, mas de outra forma, mais mortal.

Mas não importava. Profaniel a amava tanto, e sabia que a amaria para todo o sempre. Como se desde o princípio do tempo ele a amasse, ainda que ela nem existisse. Ele apertou sua mão pequena e ela lhe deu um olhar singelo como resposta. Se ainda tinha alguma coisa a se queixar, era a de após alguns anos de união ainda não tiverem tido um filho. Mal sabia ele que teria um filho dentro de poucos anos, porém complicações no parto tirariam a vida de Kate e também da criança. E como que antecipando esses acontecimentos numa profecia, Profaniel estremeceu, apertou forte a mão da esposa e resolveu se concentrar na música. E que música linda...


A lembrança desse dia tomou sua mente durante algum tempo impreciso. Profaniel estava em Londres, no jazigo da família Goodsmith, junto ao túmulo de Kate. Seu desejo agora era vê-la, e tal desejo o levou até aqui. Um mundo esverdeado, coberto por uma névoa espessa e fria, e não se podia ver nada além dela. Uma névoa que lhe trazia lembranças de uma época que pra ele é difícil crer que foi há tanto tempo. Kate, onde você estará? E quando ele corta mais uma camada de névoa a sua frente, tem a impressão de sentir um doce perfume. Será ela?

Rapidamente ele procura o fim da névoa verde sem saber em quê está pisando. O perfume fica mais forte e ele sente algo a mais no ar, como o cheiro de flores e relva. Ele corre, lutando para sair da bruma que parece não ter fim. Ouve seus passos ecoarem, como se pisasse na dura pedra. Ainda corre até que percebe a névoa se dissipar um pouco, podendo ver que pisa sobre um piso de pedras, como de um velho castelo.

E então ele também vê as paredes, suas colunas e o teto em abóbada. E a sua frente a luz parca de uma saída cada vez mais perto. E o perfume mais presente. Ouve também sons que não identifica. A poucos passos da saída então sua vista começa a perceber o que tem à sua frente, e seu coração quase não lhe cabe no peito...

Uma árvore grande, com sua copa repleta de folhas verdes que se agitam calmamente ao vento. Um campo florido, mas que não se vê ao longe por causa da nevoa, dando a impressão da árvore estar no centro de uma grande bolha, onde nem o céu acima se pode ver. E sentada aos pés da árvore, com seu vestido branco se espalhando pela grama, cabelos soltos sobre os ombros e com os braços segurando algo... está Kate. Profaniel se aproxima devagar, com uma lágrima molhando o rosto, mas quando seu pé toca a soleira daquela porta ele hesita. Sua aparência é monstruosa e ele se esconde na sombra por um momento.

Ouve que Kate está cantando. Cantando uma canção de ninar. O que ela leva nos braços é um bebê. É seu filho. Profaniel busca forças e avança. E magicamente, quando passa pela porta e desce os degraus até o jardim, envolto na névoa que ainda flutua naquele ambiente, sua imagem volta a ser de homem alto e forte, rosto belo e cabelos brilhantes. Suas roupas não mudam, mas parecem novas. O Selo em seu peito nu sumiu, assim como as chagas em seus pulsos. Está de volta a forma que tinha quando era um mortal. A única forma que Kate conheceu.

Então ele caminha até ela. Kate ainda não o viu. Ainda embala o bebê em seus braços. Profaniel chega até onde a sombra da árvore o cobre. Lágrimas ainda molham seu rosto e as palavras não se encontram em sua garganta. Só ouve a voz aveludada da mulher que ama. Até que ela para de cantar. E para sua surpresa, lentamente Kate levanta os olhos, seus lindos olhos verdes, e lhe sorri. Um sorriso branco e perfeito. Em meio ao pranto incontido, Profaniel lhe diz:

— Kate...

— Oi meu amor! — ela responde e seu tom de voz é natural. — Estava te esperando. Você demorou!

— De-demorei...?

— Sim. Mas está aqui agora! Isso me deixa muito feliz! — Kate depois olha para o bebê em seus braços, embora Profaniel veja apenas um embrulho. — Veja, Michael, seu papai está aqui! Eu disse que ele voltava!

— Michael... meu filho... — Profaniel nunca tinha visto o rosto de seu filho, que nascido morto, fora levado pelas parteiras. Kate tira o xale que cobre o bebê e Profaniel se atenta para ver seu rosto. Porém quando o pano é removido, ele dá um passo para trás.

— Diga oi para o papai, meu filho! — diz Kate para a criança, que aos olhos de Profaniel tem a mesma face mumificada que vira no seu túmulo. Kate embala em seus braços um cadáver inanimado. — Profaniel, o que foi? Está estranho. Venha, sente-se perto de mim.

Ele hesita um pouco, mas enfim se aproxima e deita o joelho sobre a grama. A face de Kate, agora de mais perto, está como quando ele a conheceu. Jovial e bela, como se ainda tivesse seus dezoito anos. Ela olhe sorri, suas faces coradas emolduradas pelos cabelos avermelhados. Profaniel leva a mão ao seu rosto e ela fecha os olhos para receber seu toque, mas Profaniel não a sente, como se aquela imagem fosse etéria. Quando ele lembra que ela está morta. Esta a sua frente é sua alma, em alguma espécie de esfera do mundo dos mortos. Ele retira a mão, sentindo dor por não poder tocá-la novamente.

— Profaniel, quando iremos voltar para casa? — ela pergunta de repente. Ele a olha e tem a certeza de que ela não sabe que está morta.

— Eu... eu não sei, querida.

— Que dia é hoje? — o tom de voz de Kate continua natural.

— Não sei... Domingo, talvez. — Profaniel não sabe porque disse que era domingo. Mas Kate não pareceu dar atenção.

— Estou com saudades da minha irmã Madalene. Ela está bem? — “Certamente está morta também”, pensa Profaniel, “assim como todos daquela época”. Kate não espera que ele lhe responda e se volta para o bebê em seus braços. Toca o rosto dele com carinho e Profaniel apenas vê o rosto mumificado de seu filho. Seu peito dói de tamanho sofrimento. Kate diz ao bebê: — Veja, Michael, o papei está aqui! Profaniel... Profaniel!! Nome estranho, não é? Vamos lhe dar um apelido? Profanie, Profanie! Diga, meu filhinho, diga: Profanie... Profany!! Profany...!

Mas a criança nada diz. Continua imóvel, como o cadáver que é. E na mente de Profaniel vem a certeza de que o pós-vida de Kate se resuma a isso: embalar uma criança morta. Seria esse seu castigo por gerar o filho de um Nofilim? Ou está assim depois que Satanás tomou o poder? Francamente Profaniel prefere não saber a resposta, e a essa altura já não contem as lágrimas que lhe tomam a face. Kate silencia-se um pouco e o olha com ternura. Um silêncio plácido se faz por algum tempo até que é rompido assustadoramente:

— Profany!

A múmia de Michael diz olhando para Profaniel que cai para trás assombrado. Olhando de volta, a criança está da mesma forma: morta e podre. Mas sua voz soou grave, como uma maldição. Kate não reagiu, como se nada de anormal tivesse acontecido. Ela começou a cantar novamente a canção de ninar. Profaniel quis tocá-la novamente, mas sentiu medo. Nisso ela lhe olhou e abriu seu lindo sorriso dizendo:

— Oi meu amor! Estava te esperando. Você demorou! — ela diz, como se o visse agora, nesse instante. Um misto de confusão e tristeza tomou conta de Profaniel. Não adiantaria nada que fizesse, Kate estaria para sempre longe dele. Mais inalcançável do que quando ele era um anjo e ela uma mortal. E ele sente a fria ironia das coisas.

Profaniel já se levantava, decepcionado com seu destino, quando percebe o ambiente ao redor escurecer. Como se uma sombra envolvesse aquela bolha de brumas e vazio. Ele olha para Kate, mas ela continua a embalar o bebê e nada percebe. Fica então cada vez mais escuro. A porta por onde ele entrou não mais pode ser vista. Apenas o tronco forte da árvore e o pedaço de chão gramado onde Kate está sentada permanece visível. Profaniel se levanta quando ouve alguém dizer:

— Profaniel. — a voz é fria, mas calma e serena, como a voz da própria morte.

— Quem está aí? — pergunta Profaniel olhando ao redor. Porém não houve resposta. A escuridão se acentuou até o ponto onde ele não via nada além da árvore e de Kate. Então um brilho fosco começou a surgir à direita da árvore, e Profaniel viu o brilho ficar mais forte e mais branco até que dele surgir um homem.

Seu manto de puro vermelho chegava até o chão, cobrindo seus pés e levantando a névoa que o rodeia numa sinistra dança. Sobre seu tronco, uma armadura branca e reluzente como prata. Em seus braços ele trazia braceletes também de prata com serpentes entalhadas. Seus cabelos brancos e longos pendiam às suas costas, levemente sacudidos em um vento tímido e vagaroso como um sonho... Seus olhos refletem a sabedoria de quem viu tudo e todas coisas que existiam antes mesmo do Universo. Com esses olhos o olhar que ele dirigiu para Profaniel foi atormentador.

— Lúcifer. — diz Profaniel frente ao Portador da Luz.

— Realmente... — diz Lúcifer o medindo de cima a baixo sem qualquer mácula na voz. — Realmente me esqueci de você. Mas deixe disso, e volte a sua forma verdadeira. — Lúcifer faz um aceno, e contra sua vontade Profaniel vê seu corpo tornar-se magro e seco outra vez como se se descascasse uma fruta podre. Sua boca se fechou em frestas e o Selo reapareceu. E com um sorriso irônico, Lúcifer disse: — Muito melhor.

— Então Gabriel tinha razão. Você...?

— Sim. Como devia ter sido desde o princípio. — disse com orgulho e a força da sua palavra abalou aquele ambiente, mas Profaniel nada manifestou. — Mas não vim aqui para isso. Então, Profaniel, confesso que esqueci da sua existência, da sua condenação ao Abismo... E o fato de Azazyel ter falhado em te capturar... me deixou muito aborrecido. Já diziam os homens com sua ínfima inteligência: se quiser algo bem feito, faça você mesmo.

— Parece-me que seguiu isso ao pé da letra. — Profaniel tenta manter uma calma sem estar seguro de que a tem. Lúcifer não dá sinal de que percebeu isso, mas seria absurdo pensar que não. Sentir o medo contido de Profaniel talvez lhe dê prazer. Se isso for, então ele saboreia o momento enquanto responde ao outro:

— Ainda não fiz tudo por mim mesmo. Sei que para Gabriel e todos os outros mortais tenha se decorrido muitos anos, mas para mim não. Tudo é muito recente. E tenho tempo para fazer as coisas do meu jeito. E, em seu momento, destruir toda essa existência e recriá-la a meu modo.

— Vai destruir a Criação?! — Profaniel agora não pôde conter a surpresa e o medo que o corroeu. Em resposta, Kristos Lúcifer sorriu.

— Não se desespere, Profaniel. É por isso que vim te encontrar. Não quero que chegue a viver o dia em que eu decretarei o juízo.

— Vai me matar então?

— Matar? — Lúcifer sorriu, mas logo voltou a ficar sério. — Por quê? Você não é um perigo para mim.

— Gabriel disse que--

— Que você usaria a Espada de Miguel? Besteira! Você não vai conseguir achá-la. E... você nem quer fazer isso, certo? Você disse não para Gabriel... Por que eu te mataria...?

— Então o que quer? — Profaniel dá um passo a frente, mostrando que não tem medo do outro. O que não é bem verdade. Lúcifer fica em silêncio, o olhando do alto, pois é mais alto que Profaniel. Por fim responde:

— Você ama aquela mortal, sim? — Profaniel fica em silêncio. — Hunf... patético... Não o amor, não... o amor é a força mais linda que há no Universo, mas... uma mortal? — e sua voz reflete desdem. — Mas, não o julgo, já fostes condenado por isso. Já pagou sua pena. Venho então lhe fazer uma oferta.

— Oferta?

— Diga-me francamente, Profaniel. Achas que eu sou estúpido? Seria eu tolo de exterminar uma criatura tão ímpar sendo que posso tê-lo ao meu lado? É isso que lhe proponho, anjo caído: Tome um lugar ao meu lado e não perecerá quando tudo encontrar seu fim! Venha para mim, e será grande no novo mundo que criarei! — e antes que Profaniel processasse direito tais palavras, Lúcifer repetiu: — Tu amas aquela mortal, não é? — e aponta para Kate, que continua embalando a criança, como se estivesse em outro plano de existência.

Profaniel não responde mais uma vez, mas seu olhar deixa claro que a ama muito. Lúcifer continuou:

— Além do poder que terá se ficar ao meu lado, dar-te-ei também sua amada Kate para todo o sempre, poupando sua alma do fim e dando-lhe um corpo imortal e belo, para que você sacie seu amor. — Profaniel abaixa a cabeça, olhando fixamente para a sombra de Kate logo atrás, enquanto Lúcifer abre seus braços esperando uma resposta. — Veja... Veja como eu posso ser razoável. Não sou aquele monstro de chifres que os homens imbecis pintaram. Você sabe bem disso. Sou como você.

O silêncio de Profaniel começa a irritar Lúcifer, mas ele sabe que este formidável ser, apesar do poder que possui, não deixa de ser um anjo, fraco e idiota. E que também já fora humano, mais incompetente ainda. Profaniel ergueu a cabeça de repente, e seu olhar não era menos frio e rancoroso – com um toque de ironia – do que quando estava frente a Gabriel.

— É muita generosidade vinda do senhor da Criação. Mas numa coisa os homens imbecis acertaram quando te descreveram: você nunca faz nada de graça. Então o que quer em troca?

— Verdade. — Lúcifer sorri e de uma forma fantasmagórica, sem parecer que seus pés tocam o chão, ele se aproxima até bem perto de Profaniel dizendo: — O que pedirei não é muito... Apenas que se ajoelhe diante de mim, e me adore como seu senhor.

— E depois saia matando os nefilins que foram meus irmãos? Seus irmãos...?

— Então recusa minha oferta, Profaniel? Recusa as fortunas que lhe esperam se sentando à minha direita? Vai cooperar com aqueles que lhe tiraram sua mulher e seu filho--

— E onde você estava quando isso aconteceu?! — Profaniel o interrompe com a voz forte, como certamente poucos tiveram a audácia de fazer. — Onde você estava que não me ajudou?! Para mim, isso não o torna melhor do que eles...

Lúcifer mordeu o lábio, e seu olhar faria qualquer mortal desejar a morte. Mas Profaniel permaneceu firme, mesmo que por dentro sentisse um vago medo de ser destruído. Só que ele lembrou do que aconteceu na barca contra Azazyel. Ele tem o Selo, e isso o torna intocável. Nem mesmo Lúcifer pode contra isso. Nem mesmo sendo ele o rei da criação. E essa certeza lhe dava um pouco de coragem.

— Então você recusa minha oferta? — o diabo repetiu.

Profaniel sentiu um aperto no peito, olhando mais uma vez para a alma de Kate, e sabendo que nunca mais a veria ao seu lado. Mas se o preço a pagar para tê-la consigo era trair tudo que acreditava, então era um preço alto demais. E Profaniel sabe que não se dobra frente ao poder de qualquer um. Em sua mente disse para Kate, mesmo sabendo que ela nunca o ouviria: “Adeus, minha querida”.

— Recuso. — diz voltando um olhar desafiador para o demônio.

— Não diga depois que não lhe dei escolha. — Profaniel só pôde ver a mão do outro pousar sobre sua cabeça, e logo em seguida estava caindo no chão há muitos metros de onde estava. É claro que essa explicação é metafórica, pois eles estão em plano espiritual onde tempo e espaço não existem. Mas Profaniel nem se ateve a isso devido a dor que sentia.

— Você não pode... você não pode me matar... — Profaniel se ergue devagar. Mas Lúcifer não está mais no lugar em que estava, e sim bem atrás dele.

— Não posso... Ainda não. Como te disse, apenas alguns instantes se passaram desde minha ascensão. Ainda não obtive poderes totais. Mas esse dia chegará, Profaniel, e saiba que a primeira coisa que farei será te destruir. — ele ergue sua mão, e Profaniel é erguido junto com ele, mesmo que Lúcifer não o toque. — Mas isso não significa que não farei de tua existência um inferno maior que o Abismo de onde fora tirado! — e mais uma vez Profaniel é jogado para o oposto do lugar.

— Eu-eu vou... te destruir... — Profaniel sente como se sua carne doesse. Mas aprendeu a suportar a dor, após séculos na lava do Tártaro.

— Me destruir? Você?! — Lúcifer, já próximo a ele, ri com deboche. — Não seja ridículo! Você é um verme! Patético e miserável verme!! Nem que consiga a Espada de Miguel, nenhuma força nesse Universo poderá contra mim.

— A Espada de Miguel... — Profaniel se põe de pé, mas encara Lúcifer com o corpo curvado, como se estive preparado para outro ataque.

— Pobre tolo. Pois bem, se é isso que você quer. Se você gosta de sofrer. Venha até mim, até meu trono, com a espada e tire-me de lá. Eu o desafio! — usando mais uma vez seu poder, Lúficer trás Profaniel para junto dele, ficando seus rostos há centímetros de distância. — Eu o desafio!! — Profaniel nada fala, em seu semblante Lúcifer lê que ele o odeia. Não o tanto quando pensa odiar, ou o quanto é capaz de odiar. E como se o ódio o alimentasse, Lúcifer sorriu e disse: — Cuspiria na minha face agora, não é, Profaniel? Faria isso, se sua boca deformada permitisse. Pois para que não diga que sairá desse encontro sem nada, lhe darei um presente... Farei o favor de esconder essa aberração!

Lúficer leva a mão até a boca de Profaniel e este tenta gritar quando sente os dedos do demônio entrarem em sua pele. Quase torcendo a cabeça do outro, Lúcifer o sacode para todos os lados e depois o solta no chão. Profaniel cai sentado e seus cabelos cobrem seu rosto.

— Erga-se. — diz Lúcifer com sua altivez. Uma fumaça branca subia do rosto de Profaniel, ainda abaixado, até que vagarosamente ele ergueu a cabeça, com olhos cheios de rancor, e com uma espécie de máscara cobrindo sua boca e nariz, como se ela estivesse cravada em sua carne. — Agora tu também tens uma marca minha.

Lúcifer lhe vira as costas e começa a caminhar em direção à árvore, que pouco se pode ver. Mas Profaniel ainda distingue um vulto branco que é a alma de Kate. E nesse momento teme que seu pensamento seja verdadeiro quando percebe Lúcifer indo de encontro à sua esposa.

— Para me certificar que você virá até mim com a espada... — diz O estrela da Manhã. — Te darei outro incentivo. — de súbito, algo como muitas cordas ou cipós brotam do chão onde Kate está e a amarram. O bebê que segurava vai ao chão e por ele é sugado. Profaniel tem a impressão de ouvir Kate gritar, como gritara na noite em que morreu, enquanto dava a luz ao seu filho. Ele vai até seu encontro, mas por algum truque do diabo, por mais que ele corra ele não chega até lá. Então, impotente, ele vê Kate sendo feita em pedaços e cada parte dela ser devorada pela terra. Lúcifer se volta para ele dizendo: — Ela estará comigo, Profaniel. Lembre-se que você só a verá novamente se me derrotar ou se me adorar como seu deus. E enquanto nenhuma dessas coisas acontecer, ela sofrerá para o meu bel prazer.

— EU VOU ACABAR COM VOCÊ!! — brada Profaniel, ainda sem poder se aproximar. Mas mesmo de longe ele percebe que Lúcifer lhe sorri quando diz:

— Agora você me odeia o bastante. — e ele se vira, indo embora pelo brilho fosco que se abre à sua frente.

— NÃO! VOLTE AQUI! — grita o nofilim ainda impotente.

— Vá embora para aquela imunda bola de lixo e tente resgatar a Espada de Miguel. Estarei esperando... — e Lúcifer lança-lhe um olhar cortante. — Profany!

Quando ele passa pelo feixe de luz, parece que algo se rompe e a escuridão do ambiente é varrida por uma cegante luz e uma energia que faz Profaniel voar para trás. Com a força desse fenômeno, ele não vê o que vem a seguir. Apenas sente um forte vento quase lhe arrancar a espinha. É quando percebe que afinal de contas está no plano espiritual, e não há espinha para ser arrancada.


Noriel deixou o lampião em um gancho que encontrou e se sentou sobre um velho e sujo banco de concreto. Aquele jazigo escuro faria muitos homens tremerem, mas para ele que já fora um anjo tudo isso não passa de bobagem. Sepultar as carcaças podres com rituais e homenagens é mais uma das fantasias inúteis dos humanos. Mas mesmo assim, tratou de ajeitar como pôde o caixão de Kate, cobri-lo e guardá-lo na gaveta. Tal trabalho e com tudo o que passou nesse dia o deixou desgastado, e agora ele sente fome.

Se amaldiçoa por não ter em sua bolsa um pedaço de pão que fosse e nem sequer algum dinheiro. Também não contava que sairia do barco de Haziel e viria para Londres – ou o que resta dela. Ouviu boatos, já há algum tempo, de que o novo rei do Reino Unido é um homem bom e que luta para impor a ordem e a justiça. Mas parece que ele não faz o suficiente. Pelo pouco que Noriel percebeu, de ruas sujas e casas depredadas, a anarquia impera nesse reino. Isso é bem comum depois que o homem teve a certeza de que Deus não estava mais presente.

Certeza essa que Noriel agora contesta, depois que soube quando rompia o véu dos mundos. E sabe que Gabriel estava certo. Se os demônios descobrirem isso, tudo estará perdido definitivamente. Enquanto nisso refletia ouviu atrás de si um ruído. A princípio julgou ser apenas seu estômago faminto, mas depois viu o que realmente era.

— Pelo Altíssimo! — exclama ao ver Profaniel se levantando do chão, do mesmo lugar de onde sumiu momentos atrás. Percebeu nele a máscara que cobre sua face mas não esconde seu semblante de dor. Profaniel se põe de pé, e sem nem olhar para Noriel se dirige à porta. — Profaniel, espere!

— Deixe-me. — responde o nofilim sem sequer olhar para trás. Então ele sobe as escadas e atinge a superfície, com Noriel ao seu encalço, este se apoiando em seu cajado e a passos lentos, não consegue acompanhar o amigo. Vê que Profaniel deixa a igreja e se dirige ao sul. Ele anda sem rumo, com passos vacilantes e perdidos.

— Profaniel! — Noriel o chama, mas sem sucesso. E tão pouco tem sucesso em alcança-lo.

Profaniel desce uma rua. Um pranto despercebido em seu rosto, trazendo apenas tristeza no olhar e não mais toda a ira que sentia. Apesar de ser pouco provável que não a sinta no fundo do peito. Não pensa em nada concreto. Apenas sente dor, como se Kate estivesse morrendo mais uma vez. E mais uma vez ele não pode fazer nada. Mas assim ele desceu a rua, e no próximo cruzamento encontra algo marcante o suficiente para fazer pará-lo.

Tomando conta da rua, dezenas de pessoas em trajes pretos e vermelhos, alguns não mais que farrapos, muitos sem roupa alguma, portando facas e armas de fogo, em meio a tochas e piras ardentes. Alguns tocam tambores e outros dançam numa dança frenética e animalesca. Porém o mais assustador vem a seguir, quando Profaniel vê que aos pés de uma estátua de um homem com cabeça de bode, na alegórica, carnavalesca, ignorante e deturpada representação de Satanás, há uma fogueira na qual são atiradas pessoas vivas.

São atiradas ao fogo não sem antes apanharem e serem violentadas até não poder mais. Pode-se ver que atrás da estátua, amarradas em postes, outras pessoas aguardam o mesmo destino. São homens, mulheres, velhos e jovens e, para a total desolação de Profaniel, muitas crianças.

— ABOMINAÇÃO!! — ele grita, e seu grito se faz ouvir por todos. Os tambores cessam, a carnificina também e todos olham este que chega. Portador de uma aura sinistra, Profaniel é confundido com algum demônio ou emissário destes, e um homem forte, vestindo um sobretudo preto com um capuz a cobrir sua face coberta de tatuagens e piercings, se aproxima para saudá-lo.

— Salve aquel--

Antes que pudesse concluir o que veio dizer, o homem é golpeado na barriga, levando uma cotovelada na nuca em seguida. Profaniel saca de sua cintura um facão e o empala. Sem pestanejar, usa o facão para decepar aquele que esta mais perto de si. Os outros, mais próximos e armados, partem para um contra-ataque. Profaniel é alvejado com tiros e isso o faz recuar e dobrar o joelho. Seu sangue pinga no asfalto, mas tão logo que se levanta todos veem as feridas se fecharem.

Sem nada dizer, Profaniel os ataca com o facão e seus braços caem rolando pelo chão. Outros veem e lhe atacam com facas e até uma espada, mas os cortes rapidamente são sarados. Cansado do facão, Profaniel o deixa de lado e ataca com suas próprias mãos, demonstrando sua força sobre-humana. As mulheres que participavam do ritual procuram fugir, mas também se tornam alvos fáceis, sendo executadas sem piedade. Resgadas ao meio como papel. Ele joga seus corpos contra as paredes das casas esmagando suas cabeças. Um por um até não restar mais ninguém.

Noriel chega nesse momento, e se apoiando em seu cajado para não desmaiar, vê Profaniel ofegante, com o corpo coberto de sangue e suor. Ainda nessa corrente de adrenalina, soca a estátua do diabo a derrubando no chão, onde ela se espatifa. Depois Profaniel, frio e passivo, pega do chão uma faca e vai até os prisioneiros, desamarrando primeiro uma garota que está mais próxima.

Esta garota é a única que o fita sem medo, o vendo como seu salvador. Um salvador que ela clamava desde que sua casa foi invadida e sua família morta. E por todo o caminho que ela foi carregada, violentada e humilhada de Liverpool até aqui. Uma ferida na diagonal cruza seu rosto magro e belo. E a jovem Liza Thompson[1] vê seu salvador lhe soltar e jogar a faca em seu colo, para que ela solte os outros. Os dois nada dizem, e Profaniel se afasta, indo de encontro a Noriel.

Na passagem, tira do primeiro homem que derrubou seu sobretudo, o olhando para ver se foi poupado de manchas de sangue, e achando seu estado satisfatório o veste. Vê no muro à sua direita a pichação que vira antes na igreja.

“SE DEUS É CONTRA NÓS, QUEM SERÁ POR NÓS?”

— Eu serei. — diz, não se importando que ninguém tenha ouvido, e passando por Noriel que o olha com assombro. Profaniel lhe devolve o olhar dizendo: — Vamos. Temos que achar aquela espada.

— Profaniel...

— Não. Profaniel não existe mais. Morreu com sua esposa, Kate Goodsmith. — ele colocou o capuz, tornando sua figura mais sombria e assustadora, e disse caminhando na noite, com Noriel ao seu lado, e a jovem Liza lhe observando à distância: — Eu sou Profany.

* * *
________________
[1] – Liza apareceu no capítulo 2, lembra?

A Seguir: O Rei-Drúida.
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