Fátima está começando a conhecer os caminhos que a levarão à verdade, porém um ataque inesperado a faz deixar de lado isso para agir como Sagrada Justiça e defender o Vaticano da insana Lady Aracnida. Ou ela não será tão insana assim?
IV. “Legados”
Por: Anderson Oliveira
A tarde já começa a chegar e a movimentação na Praça de São Pedro e por todas as ruas do Vaticano é grande. Na frente do Museu do Vaticano, entre o jardim e entrada da escada espiral, uma mulher com um longo casaco de couro branco, óculos escuros e chapéu fita as faixadas das construções como se procurasse algo em especial. Logo ela se aparta do grupo de turistas e segue para outro caminho, ao sul. O salto de suas botas golpeiam o chão com força, e a cada passo, um pequeno inseto cai no chão e rapidamente corre para o verde das praças. A mulher chega então até o prédio da Pontifica Accademia delle Scienze, fechada ao público, com seu portão de ferro vigiado por guardas.
Ela se recorda a primeira vez que esteve ali:
Faz doze anos, Anya não passava de uma menina, com longos cabelos castanhos, roupas grossas para evitar o frio e um rosto avermelhado. Sua mãe a segurava pela mão parada naquele mesmo lugar, de frente ao prédio. Era lá onde Anastácia Kütermann trabalhava. Geneticista renomada, já exercia tal profissão antes de se casar com o pai de Anya, o Conde da Moldávia. Mesmo após o casamento Anastácia não deixou de lado sua carreira, vindo a integrar a equipe de estudos genéticos de Roma, e logo depois do Vaticano.
Anya lembra que entraram no prédio, onde Anastácia era a única mulher. Mas não se recorda de como era lá dentro. Lembra vagamente de tubos e monitores. O que ficou em sua memória foram os carinhos da mãe, sempre atenciosa e amorosa com ela. Naqueles dias chegou uma garota ao laboratório. Uma menina loira, mais nova que Anya e temerosa de tudo que lhe cercava. Anya nunca mais a viu e nem se importou com ela.
Algum tempo depois, em sua luxuosa casa em Bucareste, capital da Romênia, Anya via sua mãe chegar das longas viagens de trabalho, onde ficava semanas fora, com o rosto cada vez mais abatido. Não dava atenção para o que a filha dizia, sempre cansada e querendo ficar só. Com o tempo, isso foi se tornando corriqueiro, ao ponto de Anastácia se tornar uma mulher amarga e fechada. Nem mesmo quando o Conde morreu, Anya lembra da mãe derramar alguma lágrima. As poucas palavras que dizia eram coisas sem sentido, como “É tudo uma mentira”, ou “A verdade é terrível”. Anya nunca se deu ao trabalho de entender.
Anya crescia, e com seus dezoito anos gozava da típica vida de socialite europeia. Festas, bebidas, amores e tabloides. Se dedicava também a universidade, se mostrando de um gênio que certamente herdara da mãe. Ela era feliz, deixando de lado qualquer esperança de ver a mãe ao seu lado. Ignorando sua existência desde que a Condessa deixou sem explicações o trabalho no Vaticano e se escondeu no castelo de Mondaveanu de onde nunca saíra até sua morte.
Foi durante suas aulas que teve a notícia. Anastácia fora encontrada em seu castelo, morta já há horas, picada por um escorpião que ela usava em suas experiências. Naquele dia Anya viu também reportagens vindas do Vaticano mostrando sua “protetora”, a tal Sagrada Justiça, que havia vindo do monte Mondaveanu, do castelo de sua mãe. Ela a matou, não foi escorpião nenhum. Foi ela, foram eles, os mesmos padres que acabaram com a vida de sua mãe. Eles enlouqueceram e mataram Anastácia.
Anya jurou vingança.
Voltando a si, Anya deixa de olhar a faixada do prédio e olha mais ao sul. Ela sabe que lá está o prédio da Cúria Romana, onde também o acesso é restrito. O sol ainda brilha, e ela resolve esperar mais um pouco para agir.
Já passava das duas da tarde quando D. Cecílio Ravoni foi ao apartamento onde Fátima mora. A irmã Constanza se apressou em atendê-lo, deixando de lado as roupas que passava e indo preparar um café fresco. Passaram alguns minutos conversando sobre coisas triviais, como quando o bispo perguntou onde estava a irmã Isabel, e a outra respondeu que fora ao convento. Após terminarem seu café, D. Cecílio tocou no único assunto que o traz até este apartamento:
— Onde está Fátima?
— Em seu quarto, com visita.
— Visita?
— Sim, a jovem Paola, uma amiga dos tempos do primário. — D. Cecílio ameaçou levantar, mas se conteve e em vez disso apenas disse:
— Elas estão sozinhas no quarto desde quando?
— Desde manhã. Paola chegou muito cedo, quando Fátima ainda estava dormindo.
– Con il permesso. — D. Celílio se levanta do sofá e vai até a porta do quarto de Fátima. Guarda consigo a vontade de gritar contra a freira, sabendo que ela tem ordens expressas de vigiar a garota e informar sobre qualquer visita. Não lembra quem é essa Paola, mas certamente não é uma visita que ele aprovaria. Sem cerimônia ele abre a porta. Porém o que ele vê o deixa vermelho, num misto de raiva e vergonha de si mesmo.
Sentada na cama, uma garota de cabelo quase ruivo que deve ser Paola penteia os cabelos dourados de Fátima, que está sentada do chão. Correndo os olhos pelo quarto, vê que a cama já está arrumada, a mochila de Paola sobre uma mesa longe dela e o computador ligado apenas tocando música. Música de jovens, mas tolerável. Uma cena absolutamente normal.
— Onore! — Fátima rapidamente se levanta para cumprimentar o bispo. Paola também se levanta, mas fica em silêncio. — Buon giorno D. Cecílio. Há alguma missão para mim?
— Buon giorno Fátima. Não, não há alguma missão. Só vim ver como está. E desculpe-me a forma como entrei. A idade me fazer esquecer das boas maneiras. — Fátima respondeu com apenas um sorriso tímido, como eram sempre seus sorrisos. Em seguida D. Cecílio fechou a porta.
Paola ia dizer algo, mas Fátima lhe fez um sinal para esperar. Em silêncio ficaram mais alguns instantes até que a garota loira disse:
— Pronto. — e pareceu a Paola que esteve prendendo a respiração todo esse tempo, voltando a respirar agora com calma. Ela se jogou na cama e tirou de baixo de uma almofada seu netbook.
— Não sabia que você tinha... como é que dizem naqueles gibis que o meu irmão lê? Ah, sim, super-audição.
— Não é bem isso. — o rosto de Fátima é sombrio e frio enquanto ela se senta na cama. — Eu apenas senti que ele estava perto. Nunca senti isso antes... apesar de ter sonhos e... visões...
— Visões? — Paola se aproximou com olhos arregalados.
— Sim. Foi numa delas - ou seria um sonho? - que ouvi alguém me dizer algo sobre Abraão. Alguém que... — ela ficou em silêncio e fechou os olhos. Depois voltou-se para Paola dizendo: — Lembra algo daquele Super Justiça?
— Super Justiça? Sim, um vigilante que foi morto. No México, se não me engano... deixa eu conferir. — e Paola abriu seu netbook e fez uma pesquisa. Como resultado teve inúmeras notícias, desde os atos heroicos até a morte do homem. Viu também algumas fotos. Um homem alto e robusto, loiro com cabelos pelo ombro, usando um macacão branco, com detalhes em vermelho. Detalhes que eram hieróglifos astecas, segundo estudiosos. — A roupa dele... se parece com a sua! Além do nome e... — dizia Paola com espanto.
— Acho que ele era meu pai. — diz Fátima com olhos marejando. — Quando me falaram que eu iria ter de usar um uniforme, eu mesma desenhei esse, para que lembrasse o dele. Quando era pequena ele me visitava durante a noite, voando do lado de fora da minha janela. Sempre achei que ele era um anjo...
Paola se vê pasma com a revelação, comparando as fotos do Super Justiça com Fátima e vendo semelhanças entre eles. Na sua tela, a reportagem que fala sobre os hieroglifos encontrados na roupa do herói. Paola reúne forças para falar as palavras a seguir:
— Um anjo... não. Mas talvez... um deus. — e uma nova conversa começa.
Deuses. Vindos do céu em tempos primordiais e dando os segredos da civilização a humanidade. Deuses vindos do céu. Na mitologia egípcia, eles vieram numa barca celeste. Barcas, naves celestiais. Os primeiros deuses foram cultuados na Suméria, a primeira civilização. Chamavam os deuses importantes de Anunnaki, “os que do céu desceram à terra”, e uma outra classe de deuses, que ficava sempre no céu, era chamada de Igigi, “os que vigiam e observam”, mas em geral esse povo divino era chamado de Din-gir, “o povo dos foguetes”, é a tradução.
Na própria Bíblia se encontra relatos de naves espaciais. A carruagem ou turbilhão de fogo que arrebatou o profeta Elias e o levou para o céu (2Rs 2,2-13); a nuvem e a coluna de fogo de Yahveh que guiava os hebreus através do deserto e pousou sobre o monte sinai quando Moisés lá subiu e ficou quarenta dias e quarenta noites (livro do Êxodo); no original em hebraico, o que hoje é lido como “Glória” de Yahveh era chamado de Kabod, literalmente “o que é pesado”; A visão do profeta Ezequiel, de um objeto com rodas dentro de rodas em Harran. Tudo isso seriam veículos, cujo olhos humanos não compreendiam a natureza, e procurava formas simples de descreve-los.
E o que mais assusta, quando se volta à Bíblia e sua tradução original, quando Deus é chamado de Elohim, plural de El (Deus), portanto Elohim se lê “deuses”. E ainda nas traduções modernas se lê, sempre no plural, como quando Heloim diz “façamos o homem a nossa imagem e nossa semelhança”...
Todas essas reflexões tomam a mente de D. Cláudio Hummes quando este volta, em silêncio, no mesmo carro onde teve a conversa com Giovanni Costelo e seu amigo silencioso Pepe, estando ainda acompanhado dos dois. O carro entra pelos portões do Vaticano e se dirige até a Cúria Romana, onde Hummes tem escritório.
— Desculpe-me se o deixei perturbado, Onore. — diz Giovanni através do retrovisor. Demora algum tempo para D Clãudio voltar a realidade e responder:
— Não é nada. O culpado sou eu, afinal, eu que quis ouvir o que tinha a dizer.
— Se sentirá melhor quando o Professor puder vir para conversar com o senhor. Ouvindo a mim e a ele tem toda a diferença do mundo. Com o perdão da comparação, é como se o coroinha rezasse a missa no lugar do padre. — D. Cláudio forçou um sorriso, mas não passou de um esticar de rugas. — Ora, já chegamos. — avisa Giovanni vendo o prédio da Cúria a sua frente. Pepe estaciona de frente a escadaria e D. Cláudio e Giovanni descem.
— Devem estar te procurando na sede da guarda, não? — perguntou o bispo estendendo a mão para cumprimentá-lo.
— Duvido. Em todo caso, estive a serviço do prefeito da Congregação do Clero. — Giovanni responde o cumprimento, e D. Cláudio pode notar uma tatuagem em seu antebraço. Parece uma serpente, onde se vê apenas a cabeça com a língua sibilante fora da manga da camisa.
— Curioso que esteja na guarda suíça com uma tatuagem dessas. Aliás, senhor Costelo, o senhor é suíço?
— Meus pais são italianos, mas nasci na Suíça, durante uma viajem deles. E lá cresci até os dez anos. Creio que fizeram isso de propósito para que eu entrasse na guarda. E a tatuagem... a fiz depois de ser aceito. Algum dia lhe conto sobre ela.
— Sim, mas agora não. Estou farto de suas histórias! — D. Cláudio sorri e já ia subindo as escadas quando vê os guardas de plantão deixarem seus postos e passarem por eles. Todos olham para onde vão, e o que veem é algo no mínimo estranho.
Uma jovem de cabelos castanhos pendendo nos ombros que se aproxima desfazendo o laço do casaco, o deixando cair no chão. Veste apenas um biquíni vermelho, o que chama a atenção dos guardas. E todos a sua volta. É Anya Kütermann.
— Senhorita, por favor, cubra-se. — diz o guarda suíço que primeiro se aproxima. Há quem diga que no Vaticano uma mulher não pode andar com as pernas descobertas, sendo obrigada a usar sempre calças ou saias longas. O que dirá transitar apenas de biquíni. — Senhorita, não me faça repetir. — insiste o guarda, vendo que a moça não dá atenção. É quando ele percebe uma barata sair de sua boca quando ela lhe lança um olhar assustador.
— Não o farei repetir. — ela diz, e os dois guardas veem com espanto surgir o que parecem ser ferrões em seus antebraços, três em cada um, enquanto mais baratas, besouros, grilos e formigas andam pelo seu corpo seminu.
De súbito, a mulher os acata com agilidade e força descomunais, os jogando para longe. Ouve-se gritos dos turistas ao redor. D. Cláudio fica estático na escadaria quando Giovanni o puxa pelo braço para dentro do prédio e Pepe tira o carro dali.
— Rápido, eminência! Aqui não é seguro! — e depois tira seu rádio da cintura dizendo: — Alerta nível dois na Cúria Romana...
Enquanto isso Anya caminha até a escadaria, não demora e mais guardas surgem. A maioria sem as roupas bufantes e coloridas, vestindo roupas que lembram uma polícia de elite como a SWAT. Fortemente armados, eles interceptam a moça, a cercando por todos os lados.
Ela olha para eles e parece sorrir. Grandes feridas se formam em suas costas e por elas brotam um par de asas de borboleta. O capitão daquele pelotão que a cerca dá uma ordem e são feitos três disparos de bala de borracha contra a criatura.
Ela se contorce um pouco, sentindo dor com o impacto das balas, não grita. Nenhuma ferida é vista em sua pele, além das quais já tinha, por onde brotam insetos e que a cada minuto aumentam. Ela bate suas asas, que se tornam grandes o bastante para sustentar seu próprio peso em voo.
Voando ela ataca os guardas com força e usando seus ferrões aparentemente venenosos. Os guardas disparam tiros letais que a derrubam ao chão. Mas somente lhe causam danos superficiais. Tiro algum penetra sua pele, que tem a resistência proporcional de uma casca de besouro.
Dentro do prédio da Cúria Romana, no escritório de D. Cláudio, vendo tudo pela janela, Giovanni ouve alguém dizer no seu rádio:
— Ativem a Arma Branca! Chamem a Sagrada Justiça!
Nisso, o comunicador auricular de Fátima começa a dar sinal do lugar onde está, em sua mesa de cabeceira. Ela então é obrigada a interromper a conversa com Paola, se levantando da cama e pegando o aparelho, colocando-o no ouvido. Paola vê sua expressão séria se modificar para assustada ao passo que ouve o que lhe dizem.
— Preciso ir. — ela diz secamente, pegando quase que automaticamente no armário seu uniforme e o levando ao banheiro, de onde volta momentos depois, já vestida.
— Quer que eu vá embora?
— Não! Fique aqui. É mais seguro. — Fátima coloca o visor azul e começa a levitar a menos de vinte centímetros do chão, para o espanto de Paola, que talvez nunca se acostume a isso. — Eu devo voltar logo. — e ela sai voando pela janela. Paola a acompanha com os olhos, vendo que ela vai para o leste, porém a perde de vista entre as torres e árvores.
Uma espuma paralisante é usada contra Anya. Ao passo que seca a espuma se torna tão dura quanto concreto, deixando-a completamente imóvel. Um soldado se aproxima com uma seringa com tranquilizante, porém a poucos passos de distância vê que a massa branca começa a trincar.
E todos veem estilhaços da substância sendo arremessados, e com eles insetos vivos. Com grande ira emanando de seus olhos, que brilham num tom amarelado, Anya ataca os guardas restantes, não medindo forças e sem medo de matá-los.
Então ela olha ao redor, e não vê mais nenhum deles de pé. Apenas sente, com suas percepções ampliadas, a presença de turistas tentando se esconder e espiar a cena ao mesmo tempo. Mas eles não são uma ameaça. Então ela caminha para seu objetivo: a Cúria Romana.
Um besouro deixado no chão onde ela pisou se contorce, com as patas para cima. Após lutar para se por de pé, sacudindo suas asas por debaixo da casca e esboçando os primeiros passos, o besouro é esmagado por uma bota azul. A mulher-inseto ouve o estalar provocado pela carapaça se quebrando e se volta, sabendo que enfim chegou aquela que é responsável pela morte sua mãe.
Sagrada Justiça fica há cerca de cinco metros de distância da outra, com seus cabelos esvoaçando ao vento frio e tendo na mente uma profusão de pensamentos.
A figura da mulher lhe traz lembranças. O corpo com chagas, por onde emergem insetos e suas asas recolhidas. Tudo a faz lembrar o monstruoso Casúlo e a Condessa da Moldávia, sua última e mais perigosa missão. A outra, caminhando até ela, mas mantendo uma distancia segura, parece perceber seus pensamentos quando diz:
— Então se lembra da experiência de minha mãe...
— Mãe? — Sagrada Justiça se assusta, até perceber a semelhança entre essa moça e a própria Condessa.
— Sim... minha mãe... a mulher que você matou! — grita Anya Kütermann abrindo suas asas e voando contra Sagrada Justiça com a maior velocidade que consegue. Depois a golpeando com força, força superior a que usou contra os guardas. Talvez estivesse se contendo, ou a força da vingança lhe deu mais poder.
Seja o que for, seu golpe tira Sagrada Justiça do chão e a leva até contra uma árvore ao sul do prédio da Cúria. Fátima nunca fora atingida com tanta força. E pela primeira vez tem sua vista turva. Apenas vê o vulto de Anya se aproximando entre as folhas da árvore que caem sobre si. Fora pega de surpresa em meio ao espanto.
— Você irá pagar por tudo! — diz Anya se aproximando dela.
— Eu... eu não matei sua mãe! — responde Sagrada Justiça se pondo de pé com dificuldade.
— É mentira... — e antes que Fátima percebesse, Anya leva a mão ao seu pescoço a suspendendo no ar. Anya diz com um olhar de extrema fúria: — Irá sofrer por toda a dor que me causou! E minha mãe finalmente será vingada! — Anya arremessa Sagrada Justiça contra o chão. Seu corpo quica antes de cair. Em seguida Anya se aproxima e a puxa pelos cabelos. Larvas e formigas caem no rosto de Fátima, de onde escorre um filete de sangue. Anya a arrasta um pouco e depois a ergue, lhe golpeando no estômago.
Da janela, Giovanni e D. Cláudio veem a barbárie estupefatos. Como alguém pode subjugar Sagrada Justiça, que se mostrou quase a pessoa mais forte do mundo? Giovanni luta consigo mesmo para resistir o impulso de descer lá para ajudar, sabendo que pouco poderia fazer.
Um helicóptero se aproxima e logo as TVs de toda a Itália, e logo de todo o mundo, transmitem as cenas da luta. Paola se deixa cair sentada do chão quando vê aquilo pela televisão no quarto de Fátima.
Anya não se incomoda com a lente da mídia. Quantos mais virem sua vingança melhor. A sua frente, Sagrada Justiça se esforça para se por de pé. Se fosse uma pessoa normal já teria morrido a muito tempo. Anya se abaixa para olhá-la no rosto, levando sua mão até o queixo e puxando para si seu olhar.
— Diga, qual é a sensação da derrota? Seria igual a perder uma mãe ou um pai? — Fátima lhe olha, com dificuldade de manter seu olho esquerdo aberto, com seu visor azul trincado, e o lábio inchado, com um filete de sangue escorrendo do nariz. Ela então responde:
— A única derrota aqui... será a sua. — sem que Anya pudesse ver, a mão de Fátima se agarra ao seu cabelo. Sagrada Justiça se põe de pé e seu joelho encontra o abdome de Anya. Uma... duas vezes, e ela cospe sangue. Agora não há mais surpresa.
— Argh-gh...! C-como...?! — antes que pudesse entender, Sagrada Justiça lhe disfere um soco que a joga contra a calçada que rodeia a parte de trás da Basílica de São Pedro. Anya foi jogada cerca de 50 metros. Mancando, Sagrada Justiça vai ao seu encontro, mas Anya alcança a parede da Basílica e começa a escalar, como um aracnídeo.
Fátima levanta voo e ataca Anya, que se desvia por algum tempo, fazendo a heroína arrancar pedaços da parede com seus socos, porém Sagrada Justiça consegue lhe agarrar pelo pé, e as duas atracadas caem, levando pedaços de concreto consigo e rolando pela rua. Anya se recupera e contra-ataca, dando mais equilíbrio ao embate. A cada movimento dela uma porção de insetos cai ao chão e Fátima não se importa de pisá-los. Porém, entre socos e chutes, ela se esforça para dizer:
— Me escuta...! Eu... não matei... sua mãe!
— Pare de dizer mentiras! Você e sua igreja só dizem mentiras!
— Eu nem sequer toquei na Condessa! Um escorpião que caiu daquela coisa, como esses bichos que saem de você, foi isso que a matou!
— Não seja tola. Aquela não foi a primeira vez em que você entrou na nossa vida para trazer destruição!!
— Do que você está falando? — Sagrada Justiça diz e seu olhar é inocente. Anya percebe isso, vendo que ela fala a verdade como se não sousesse de nada. O que ajuda para demonstrar isso é que Fátima para de atacar e recua, disposta a ouvir. Anya também para, mas não deixa a guarda aberta e diz:
— Você não sabe mesmo?
— Não tenho ideia do que você está falando...
— A Condessa da Moldávia, Anastácia Kütermann, integrou o grupo de cientistas que a estudaram durante anos desde que chegou aqui. Desde que você surgiu, ela nunca mais foi a mesma, entrando numa crise que culminou em faze-la se trancar naquele castelo com experiências bizarras. Ela mudou muito quando as pesquisas começaram, e quando à desligaram do projeto, ficou ainda pior.
Fátima digere a informação devagar. Agora faz sentido quando a Condessa lhe deu concelhos sobre coisas que ela mesma pouco sabia, como se a mulher a conhecia melhor do que ela. Porém não se recorda dela de quando era pequena... nem de cientistas, na verdade. Mas visto os poderes que a separam do resto da humanidade, sabe que com certeza fora objeto de estudo. Ainda mais depois da conversa que teve com Paola.
Anya a observa, como se esperasse algo. Mas o que Fátima diria que a faria se sentir melhor? Talvez nada. E realmente Fátima não tinha nada para dizer.
— Você não se lembra... é claro... — Anya desfaz a pose de luta, e vagarosamente se percebe as feridas e marcas em sua pele sumirem. — Você é tão vítima quando ela foi... talvez até mais... Como não percebi isso... — Anya recolhe os ferrões dos antebraços. — Apenas uma criança... usada como arma... — Anya cerra os punhos e seu olhar, que começava a ficar mais ameno, se torna sombrio como antes. Porém seu olhar se volta para o prédio da Cúria Romana. — Foram eles. Esses velhos malditos, que acham que representam a vontade de Deus! Se Deus permite que uma criança seja usada como brinquedo e que famílias se destruam por isso, então ele não é Deus...
— O que-- — Fátima vê que a mutação em Anya recomeça.
— Irei acabar com eles! — Anya se volta contra o prédio, dando um salto gigantesco graças a habilidades aracnídeas, saltando de novo assim que toca o chão, porém quando se aproxima da janela do terceiro andar, Fátima a intercepta voando, a atirando no chão de asfalto.
— Eu não posso permitir! — diz a heroína.
— Você protege quem te usa?!
— Não. Protejo pessoas inocentes que estão nesse prédio e não merecem morrer pelo crime de poucos! — Anya por um instante sente vergonha de si mesma, pensando se foi antes ou depois das experiências que fez em si mesma que se tornara um monstro. Mas Fátima lhe diz, tomando cuidado de tirar o ponto eletrônico do ouvido e destruí-lo: — Os responsáveis irão pagar... no seu devido tempo!
Anya se levanta sem nada a dizer, vendo que a criança boba que é manipulada começa a não ser mais tão boba. Enquanto nisso pensa, sem perceber sua aproximação, ela vê guardas de elite reagrupados a cercando e disparando de suas armas fios que grudam em seu corpo e soltam uma forte carga elétrica.
— Afaste-se! — diz um guarda para Fátima que também não percebe sua aproximação.
— Parem com isso! Vão matá-la! — diz Sagrada Justiça empurrando os homens, porém um deles lhe atinge na nunca com um aparelho que emite um raio azul que a imobiliza. Esse mesmo homem então diz:
— São ordens superiores. Seus serviços não são mais necessários. Ela está sob custódia da Guarda Suíça.
Anya por fim perde os sentidos. Fátima vê, de joelhos, sem forças para se erguer, que ela é levada numa maca amarrada. Fátima sente seu corpo inteiro formigar.
— Como ousam me ferir...?! — ela diz. O homem que lhe atacou faz pouco caso disso, e dá sinal a outro que vem com um objeto que lembra um inalador e o coloca em seu rosto. — M-maldição...!
Giovanni vê aquilo da janela e cerra os punhos, dando um potente soco na mesa de D. Cláudio.
— O senhor viu aquilo?! — diz quase gritando, tamanha sua revolta. D. Cláudio tira seus óculos e os limpa com um lenço dizendo:
— Vi. Vi perfeitamente. E isso não pode ficar assim.
— Tenha a certeza, onore... não vai ficar.
O sol entra pela janela do quarto de Fátima. Ela abre os olhos. Seu rosto dói. Sente uma mão quente sobre a sua e vê sua amiga Paola, sentada em sua cama com um rosto tenso.
— Você está bem?
— Hum? — Fátima ainda está sonolenta. — Acho que sim... estou bem sim...
— Te trouxeram desmaiada ontem. Já passava da meia-noite. Antes te levaram para o hospital. O que aconteceu? Não se pôde ver direito pela TV.
— Eu... não lembro bem... — Fátima põe a mão na cabeça, sentindo-a doer quando força a memória. Se lembra do dia todo que teve, desde quando saiu as escondidas e foi até o Líbano até a luta contra a filha da Condessa. Mas aí é que as memórias ficam confusas. E ela não vê mais do que cenas da luta que teve. — Acho que aquela mulher deve ter me nocauteado... não sei. — Paola a contempla com tristeza, mas sem nada dizer.
— Ela não lembra? — diz Giovanni para Paola, mais tarde, num café em Roma, estando disfarçado, escondido atrás de óculos escuros e um boné.
— Não. Certamente lhe fizeram lavagem cerebral no hospital. — Paola aperta a mão de Giovanni. — Você tinha razão! Ela está em perigo.
— Por isso nós vamos salvá-la. — Giovanni esfrega seu antebraço, onde agora se vê com todos os detalhes a serpente tatuada. Paola não entende o significado especial desse ato, mas quando ele lhe diz a frase a seguir, sabe que a uma esperança poderá surgir: — O professor está vindo.
Em algum lugar desconhecido, sob uma forte luz branca, atada pelos braços e pernas e em estado de semi-consciência, Anya Kütermann ouve em meio à penumbra que toma aquela sala, a voz rouca e o sotaque italiano de um velho que diz:
— Não foi para isso que lhe pagamos, senhorita Kütermann... — a batina preta entra na luz, com a faixa vermelha em sua larga cintura e o crucifixo de madeira pelo peito, mas o rosto do homem ainda permanece na sombra. — O trabalho de sua mãe é muito interessante e merece ser estudado. E é ótimo tê-la conosco para isso. — Anya olha com desprezo para aquele rosto, desconhecido para ela, não passando de outro bispo corrupto. Mas D. Cecílio Ravoni não se importa. — Até mais ver... Lady Aracnida.
Continua...
Por: Anderson Oliveira
A tarde já começa a chegar e a movimentação na Praça de São Pedro e por todas as ruas do Vaticano é grande. Na frente do Museu do Vaticano, entre o jardim e entrada da escada espiral, uma mulher com um longo casaco de couro branco, óculos escuros e chapéu fita as faixadas das construções como se procurasse algo em especial. Logo ela se aparta do grupo de turistas e segue para outro caminho, ao sul. O salto de suas botas golpeiam o chão com força, e a cada passo, um pequeno inseto cai no chão e rapidamente corre para o verde das praças. A mulher chega então até o prédio da Pontifica Accademia delle Scienze, fechada ao público, com seu portão de ferro vigiado por guardas.
Ela se recorda a primeira vez que esteve ali:
Faz doze anos, Anya não passava de uma menina, com longos cabelos castanhos, roupas grossas para evitar o frio e um rosto avermelhado. Sua mãe a segurava pela mão parada naquele mesmo lugar, de frente ao prédio. Era lá onde Anastácia Kütermann trabalhava. Geneticista renomada, já exercia tal profissão antes de se casar com o pai de Anya, o Conde da Moldávia. Mesmo após o casamento Anastácia não deixou de lado sua carreira, vindo a integrar a equipe de estudos genéticos de Roma, e logo depois do Vaticano.
Anya lembra que entraram no prédio, onde Anastácia era a única mulher. Mas não se recorda de como era lá dentro. Lembra vagamente de tubos e monitores. O que ficou em sua memória foram os carinhos da mãe, sempre atenciosa e amorosa com ela. Naqueles dias chegou uma garota ao laboratório. Uma menina loira, mais nova que Anya e temerosa de tudo que lhe cercava. Anya nunca mais a viu e nem se importou com ela.
Algum tempo depois, em sua luxuosa casa em Bucareste, capital da Romênia, Anya via sua mãe chegar das longas viagens de trabalho, onde ficava semanas fora, com o rosto cada vez mais abatido. Não dava atenção para o que a filha dizia, sempre cansada e querendo ficar só. Com o tempo, isso foi se tornando corriqueiro, ao ponto de Anastácia se tornar uma mulher amarga e fechada. Nem mesmo quando o Conde morreu, Anya lembra da mãe derramar alguma lágrima. As poucas palavras que dizia eram coisas sem sentido, como “É tudo uma mentira”, ou “A verdade é terrível”. Anya nunca se deu ao trabalho de entender.
Anya crescia, e com seus dezoito anos gozava da típica vida de socialite europeia. Festas, bebidas, amores e tabloides. Se dedicava também a universidade, se mostrando de um gênio que certamente herdara da mãe. Ela era feliz, deixando de lado qualquer esperança de ver a mãe ao seu lado. Ignorando sua existência desde que a Condessa deixou sem explicações o trabalho no Vaticano e se escondeu no castelo de Mondaveanu de onde nunca saíra até sua morte.
Foi durante suas aulas que teve a notícia. Anastácia fora encontrada em seu castelo, morta já há horas, picada por um escorpião que ela usava em suas experiências. Naquele dia Anya viu também reportagens vindas do Vaticano mostrando sua “protetora”, a tal Sagrada Justiça, que havia vindo do monte Mondaveanu, do castelo de sua mãe. Ela a matou, não foi escorpião nenhum. Foi ela, foram eles, os mesmos padres que acabaram com a vida de sua mãe. Eles enlouqueceram e mataram Anastácia.
Anya jurou vingança.
Voltando a si, Anya deixa de olhar a faixada do prédio e olha mais ao sul. Ela sabe que lá está o prédio da Cúria Romana, onde também o acesso é restrito. O sol ainda brilha, e ela resolve esperar mais um pouco para agir.
Já passava das duas da tarde quando D. Cecílio Ravoni foi ao apartamento onde Fátima mora. A irmã Constanza se apressou em atendê-lo, deixando de lado as roupas que passava e indo preparar um café fresco. Passaram alguns minutos conversando sobre coisas triviais, como quando o bispo perguntou onde estava a irmã Isabel, e a outra respondeu que fora ao convento. Após terminarem seu café, D. Cecílio tocou no único assunto que o traz até este apartamento:
— Onde está Fátima?
— Em seu quarto, com visita.
— Visita?
— Sim, a jovem Paola, uma amiga dos tempos do primário. — D. Cecílio ameaçou levantar, mas se conteve e em vez disso apenas disse:
— Elas estão sozinhas no quarto desde quando?
— Desde manhã. Paola chegou muito cedo, quando Fátima ainda estava dormindo.
– Con il permesso. — D. Celílio se levanta do sofá e vai até a porta do quarto de Fátima. Guarda consigo a vontade de gritar contra a freira, sabendo que ela tem ordens expressas de vigiar a garota e informar sobre qualquer visita. Não lembra quem é essa Paola, mas certamente não é uma visita que ele aprovaria. Sem cerimônia ele abre a porta. Porém o que ele vê o deixa vermelho, num misto de raiva e vergonha de si mesmo.
Sentada na cama, uma garota de cabelo quase ruivo que deve ser Paola penteia os cabelos dourados de Fátima, que está sentada do chão. Correndo os olhos pelo quarto, vê que a cama já está arrumada, a mochila de Paola sobre uma mesa longe dela e o computador ligado apenas tocando música. Música de jovens, mas tolerável. Uma cena absolutamente normal.
— Onore! — Fátima rapidamente se levanta para cumprimentar o bispo. Paola também se levanta, mas fica em silêncio. — Buon giorno D. Cecílio. Há alguma missão para mim?
— Buon giorno Fátima. Não, não há alguma missão. Só vim ver como está. E desculpe-me a forma como entrei. A idade me fazer esquecer das boas maneiras. — Fátima respondeu com apenas um sorriso tímido, como eram sempre seus sorrisos. Em seguida D. Cecílio fechou a porta.
Paola ia dizer algo, mas Fátima lhe fez um sinal para esperar. Em silêncio ficaram mais alguns instantes até que a garota loira disse:
— Pronto. — e pareceu a Paola que esteve prendendo a respiração todo esse tempo, voltando a respirar agora com calma. Ela se jogou na cama e tirou de baixo de uma almofada seu netbook.
— Não sabia que você tinha... como é que dizem naqueles gibis que o meu irmão lê? Ah, sim, super-audição.
— Não é bem isso. — o rosto de Fátima é sombrio e frio enquanto ela se senta na cama. — Eu apenas senti que ele estava perto. Nunca senti isso antes... apesar de ter sonhos e... visões...
— Visões? — Paola se aproximou com olhos arregalados.
— Sim. Foi numa delas - ou seria um sonho? - que ouvi alguém me dizer algo sobre Abraão. Alguém que... — ela ficou em silêncio e fechou os olhos. Depois voltou-se para Paola dizendo: — Lembra algo daquele Super Justiça?
— Super Justiça? Sim, um vigilante que foi morto. No México, se não me engano... deixa eu conferir. — e Paola abriu seu netbook e fez uma pesquisa. Como resultado teve inúmeras notícias, desde os atos heroicos até a morte do homem. Viu também algumas fotos. Um homem alto e robusto, loiro com cabelos pelo ombro, usando um macacão branco, com detalhes em vermelho. Detalhes que eram hieróglifos astecas, segundo estudiosos. — A roupa dele... se parece com a sua! Além do nome e... — dizia Paola com espanto.
— Acho que ele era meu pai. — diz Fátima com olhos marejando. — Quando me falaram que eu iria ter de usar um uniforme, eu mesma desenhei esse, para que lembrasse o dele. Quando era pequena ele me visitava durante a noite, voando do lado de fora da minha janela. Sempre achei que ele era um anjo...
Paola se vê pasma com a revelação, comparando as fotos do Super Justiça com Fátima e vendo semelhanças entre eles. Na sua tela, a reportagem que fala sobre os hieroglifos encontrados na roupa do herói. Paola reúne forças para falar as palavras a seguir:
— Um anjo... não. Mas talvez... um deus. — e uma nova conversa começa.
Deuses. Vindos do céu em tempos primordiais e dando os segredos da civilização a humanidade. Deuses vindos do céu. Na mitologia egípcia, eles vieram numa barca celeste. Barcas, naves celestiais. Os primeiros deuses foram cultuados na Suméria, a primeira civilização. Chamavam os deuses importantes de Anunnaki, “os que do céu desceram à terra”, e uma outra classe de deuses, que ficava sempre no céu, era chamada de Igigi, “os que vigiam e observam”, mas em geral esse povo divino era chamado de Din-gir, “o povo dos foguetes”, é a tradução.
Na própria Bíblia se encontra relatos de naves espaciais. A carruagem ou turbilhão de fogo que arrebatou o profeta Elias e o levou para o céu (2Rs 2,2-13); a nuvem e a coluna de fogo de Yahveh que guiava os hebreus através do deserto e pousou sobre o monte sinai quando Moisés lá subiu e ficou quarenta dias e quarenta noites (livro do Êxodo); no original em hebraico, o que hoje é lido como “Glória” de Yahveh era chamado de Kabod, literalmente “o que é pesado”; A visão do profeta Ezequiel, de um objeto com rodas dentro de rodas em Harran. Tudo isso seriam veículos, cujo olhos humanos não compreendiam a natureza, e procurava formas simples de descreve-los.
E o que mais assusta, quando se volta à Bíblia e sua tradução original, quando Deus é chamado de Elohim, plural de El (Deus), portanto Elohim se lê “deuses”. E ainda nas traduções modernas se lê, sempre no plural, como quando Heloim diz “façamos o homem a nossa imagem e nossa semelhança”...
Todas essas reflexões tomam a mente de D. Cláudio Hummes quando este volta, em silêncio, no mesmo carro onde teve a conversa com Giovanni Costelo e seu amigo silencioso Pepe, estando ainda acompanhado dos dois. O carro entra pelos portões do Vaticano e se dirige até a Cúria Romana, onde Hummes tem escritório.
— Desculpe-me se o deixei perturbado, Onore. — diz Giovanni através do retrovisor. Demora algum tempo para D Clãudio voltar a realidade e responder:
— Não é nada. O culpado sou eu, afinal, eu que quis ouvir o que tinha a dizer.
— Se sentirá melhor quando o Professor puder vir para conversar com o senhor. Ouvindo a mim e a ele tem toda a diferença do mundo. Com o perdão da comparação, é como se o coroinha rezasse a missa no lugar do padre. — D. Cláudio forçou um sorriso, mas não passou de um esticar de rugas. — Ora, já chegamos. — avisa Giovanni vendo o prédio da Cúria a sua frente. Pepe estaciona de frente a escadaria e D. Cláudio e Giovanni descem.
— Devem estar te procurando na sede da guarda, não? — perguntou o bispo estendendo a mão para cumprimentá-lo.
— Duvido. Em todo caso, estive a serviço do prefeito da Congregação do Clero. — Giovanni responde o cumprimento, e D. Cláudio pode notar uma tatuagem em seu antebraço. Parece uma serpente, onde se vê apenas a cabeça com a língua sibilante fora da manga da camisa.
— Curioso que esteja na guarda suíça com uma tatuagem dessas. Aliás, senhor Costelo, o senhor é suíço?
— Meus pais são italianos, mas nasci na Suíça, durante uma viajem deles. E lá cresci até os dez anos. Creio que fizeram isso de propósito para que eu entrasse na guarda. E a tatuagem... a fiz depois de ser aceito. Algum dia lhe conto sobre ela.
— Sim, mas agora não. Estou farto de suas histórias! — D. Cláudio sorri e já ia subindo as escadas quando vê os guardas de plantão deixarem seus postos e passarem por eles. Todos olham para onde vão, e o que veem é algo no mínimo estranho.
Uma jovem de cabelos castanhos pendendo nos ombros que se aproxima desfazendo o laço do casaco, o deixando cair no chão. Veste apenas um biquíni vermelho, o que chama a atenção dos guardas. E todos a sua volta. É Anya Kütermann.
— Senhorita, por favor, cubra-se. — diz o guarda suíço que primeiro se aproxima. Há quem diga que no Vaticano uma mulher não pode andar com as pernas descobertas, sendo obrigada a usar sempre calças ou saias longas. O que dirá transitar apenas de biquíni. — Senhorita, não me faça repetir. — insiste o guarda, vendo que a moça não dá atenção. É quando ele percebe uma barata sair de sua boca quando ela lhe lança um olhar assustador.
— Não o farei repetir. — ela diz, e os dois guardas veem com espanto surgir o que parecem ser ferrões em seus antebraços, três em cada um, enquanto mais baratas, besouros, grilos e formigas andam pelo seu corpo seminu.
De súbito, a mulher os acata com agilidade e força descomunais, os jogando para longe. Ouve-se gritos dos turistas ao redor. D. Cláudio fica estático na escadaria quando Giovanni o puxa pelo braço para dentro do prédio e Pepe tira o carro dali.
— Rápido, eminência! Aqui não é seguro! — e depois tira seu rádio da cintura dizendo: — Alerta nível dois na Cúria Romana...
Enquanto isso Anya caminha até a escadaria, não demora e mais guardas surgem. A maioria sem as roupas bufantes e coloridas, vestindo roupas que lembram uma polícia de elite como a SWAT. Fortemente armados, eles interceptam a moça, a cercando por todos os lados.
Ela olha para eles e parece sorrir. Grandes feridas se formam em suas costas e por elas brotam um par de asas de borboleta. O capitão daquele pelotão que a cerca dá uma ordem e são feitos três disparos de bala de borracha contra a criatura.
Ela se contorce um pouco, sentindo dor com o impacto das balas, não grita. Nenhuma ferida é vista em sua pele, além das quais já tinha, por onde brotam insetos e que a cada minuto aumentam. Ela bate suas asas, que se tornam grandes o bastante para sustentar seu próprio peso em voo.
Voando ela ataca os guardas com força e usando seus ferrões aparentemente venenosos. Os guardas disparam tiros letais que a derrubam ao chão. Mas somente lhe causam danos superficiais. Tiro algum penetra sua pele, que tem a resistência proporcional de uma casca de besouro.
Dentro do prédio da Cúria Romana, no escritório de D. Cláudio, vendo tudo pela janela, Giovanni ouve alguém dizer no seu rádio:
— Ativem a Arma Branca! Chamem a Sagrada Justiça!
Nisso, o comunicador auricular de Fátima começa a dar sinal do lugar onde está, em sua mesa de cabeceira. Ela então é obrigada a interromper a conversa com Paola, se levantando da cama e pegando o aparelho, colocando-o no ouvido. Paola vê sua expressão séria se modificar para assustada ao passo que ouve o que lhe dizem.
— Preciso ir. — ela diz secamente, pegando quase que automaticamente no armário seu uniforme e o levando ao banheiro, de onde volta momentos depois, já vestida.
— Quer que eu vá embora?
— Não! Fique aqui. É mais seguro. — Fátima coloca o visor azul e começa a levitar a menos de vinte centímetros do chão, para o espanto de Paola, que talvez nunca se acostume a isso. — Eu devo voltar logo. — e ela sai voando pela janela. Paola a acompanha com os olhos, vendo que ela vai para o leste, porém a perde de vista entre as torres e árvores.
Uma espuma paralisante é usada contra Anya. Ao passo que seca a espuma se torna tão dura quanto concreto, deixando-a completamente imóvel. Um soldado se aproxima com uma seringa com tranquilizante, porém a poucos passos de distância vê que a massa branca começa a trincar.
E todos veem estilhaços da substância sendo arremessados, e com eles insetos vivos. Com grande ira emanando de seus olhos, que brilham num tom amarelado, Anya ataca os guardas restantes, não medindo forças e sem medo de matá-los.
Então ela olha ao redor, e não vê mais nenhum deles de pé. Apenas sente, com suas percepções ampliadas, a presença de turistas tentando se esconder e espiar a cena ao mesmo tempo. Mas eles não são uma ameaça. Então ela caminha para seu objetivo: a Cúria Romana.
Um besouro deixado no chão onde ela pisou se contorce, com as patas para cima. Após lutar para se por de pé, sacudindo suas asas por debaixo da casca e esboçando os primeiros passos, o besouro é esmagado por uma bota azul. A mulher-inseto ouve o estalar provocado pela carapaça se quebrando e se volta, sabendo que enfim chegou aquela que é responsável pela morte sua mãe.
Sagrada Justiça fica há cerca de cinco metros de distância da outra, com seus cabelos esvoaçando ao vento frio e tendo na mente uma profusão de pensamentos.
A figura da mulher lhe traz lembranças. O corpo com chagas, por onde emergem insetos e suas asas recolhidas. Tudo a faz lembrar o monstruoso Casúlo e a Condessa da Moldávia, sua última e mais perigosa missão. A outra, caminhando até ela, mas mantendo uma distancia segura, parece perceber seus pensamentos quando diz:
— Então se lembra da experiência de minha mãe...
— Mãe? — Sagrada Justiça se assusta, até perceber a semelhança entre essa moça e a própria Condessa.
— Sim... minha mãe... a mulher que você matou! — grita Anya Kütermann abrindo suas asas e voando contra Sagrada Justiça com a maior velocidade que consegue. Depois a golpeando com força, força superior a que usou contra os guardas. Talvez estivesse se contendo, ou a força da vingança lhe deu mais poder.
Seja o que for, seu golpe tira Sagrada Justiça do chão e a leva até contra uma árvore ao sul do prédio da Cúria. Fátima nunca fora atingida com tanta força. E pela primeira vez tem sua vista turva. Apenas vê o vulto de Anya se aproximando entre as folhas da árvore que caem sobre si. Fora pega de surpresa em meio ao espanto.
— Você irá pagar por tudo! — diz Anya se aproximando dela.
— Eu... eu não matei sua mãe! — responde Sagrada Justiça se pondo de pé com dificuldade.
— É mentira... — e antes que Fátima percebesse, Anya leva a mão ao seu pescoço a suspendendo no ar. Anya diz com um olhar de extrema fúria: — Irá sofrer por toda a dor que me causou! E minha mãe finalmente será vingada! — Anya arremessa Sagrada Justiça contra o chão. Seu corpo quica antes de cair. Em seguida Anya se aproxima e a puxa pelos cabelos. Larvas e formigas caem no rosto de Fátima, de onde escorre um filete de sangue. Anya a arrasta um pouco e depois a ergue, lhe golpeando no estômago.
Da janela, Giovanni e D. Cláudio veem a barbárie estupefatos. Como alguém pode subjugar Sagrada Justiça, que se mostrou quase a pessoa mais forte do mundo? Giovanni luta consigo mesmo para resistir o impulso de descer lá para ajudar, sabendo que pouco poderia fazer.
Um helicóptero se aproxima e logo as TVs de toda a Itália, e logo de todo o mundo, transmitem as cenas da luta. Paola se deixa cair sentada do chão quando vê aquilo pela televisão no quarto de Fátima.
Anya não se incomoda com a lente da mídia. Quantos mais virem sua vingança melhor. A sua frente, Sagrada Justiça se esforça para se por de pé. Se fosse uma pessoa normal já teria morrido a muito tempo. Anya se abaixa para olhá-la no rosto, levando sua mão até o queixo e puxando para si seu olhar.
— Diga, qual é a sensação da derrota? Seria igual a perder uma mãe ou um pai? — Fátima lhe olha, com dificuldade de manter seu olho esquerdo aberto, com seu visor azul trincado, e o lábio inchado, com um filete de sangue escorrendo do nariz. Ela então responde:
— A única derrota aqui... será a sua. — sem que Anya pudesse ver, a mão de Fátima se agarra ao seu cabelo. Sagrada Justiça se põe de pé e seu joelho encontra o abdome de Anya. Uma... duas vezes, e ela cospe sangue. Agora não há mais surpresa.
— Argh-gh...! C-como...?! — antes que pudesse entender, Sagrada Justiça lhe disfere um soco que a joga contra a calçada que rodeia a parte de trás da Basílica de São Pedro. Anya foi jogada cerca de 50 metros. Mancando, Sagrada Justiça vai ao seu encontro, mas Anya alcança a parede da Basílica e começa a escalar, como um aracnídeo.
Fátima levanta voo e ataca Anya, que se desvia por algum tempo, fazendo a heroína arrancar pedaços da parede com seus socos, porém Sagrada Justiça consegue lhe agarrar pelo pé, e as duas atracadas caem, levando pedaços de concreto consigo e rolando pela rua. Anya se recupera e contra-ataca, dando mais equilíbrio ao embate. A cada movimento dela uma porção de insetos cai ao chão e Fátima não se importa de pisá-los. Porém, entre socos e chutes, ela se esforça para dizer:
— Me escuta...! Eu... não matei... sua mãe!
— Pare de dizer mentiras! Você e sua igreja só dizem mentiras!
— Eu nem sequer toquei na Condessa! Um escorpião que caiu daquela coisa, como esses bichos que saem de você, foi isso que a matou!
— Não seja tola. Aquela não foi a primeira vez em que você entrou na nossa vida para trazer destruição!!
— Do que você está falando? — Sagrada Justiça diz e seu olhar é inocente. Anya percebe isso, vendo que ela fala a verdade como se não sousesse de nada. O que ajuda para demonstrar isso é que Fátima para de atacar e recua, disposta a ouvir. Anya também para, mas não deixa a guarda aberta e diz:
— Você não sabe mesmo?
— Não tenho ideia do que você está falando...
— A Condessa da Moldávia, Anastácia Kütermann, integrou o grupo de cientistas que a estudaram durante anos desde que chegou aqui. Desde que você surgiu, ela nunca mais foi a mesma, entrando numa crise que culminou em faze-la se trancar naquele castelo com experiências bizarras. Ela mudou muito quando as pesquisas começaram, e quando à desligaram do projeto, ficou ainda pior.
Fátima digere a informação devagar. Agora faz sentido quando a Condessa lhe deu concelhos sobre coisas que ela mesma pouco sabia, como se a mulher a conhecia melhor do que ela. Porém não se recorda dela de quando era pequena... nem de cientistas, na verdade. Mas visto os poderes que a separam do resto da humanidade, sabe que com certeza fora objeto de estudo. Ainda mais depois da conversa que teve com Paola.
Anya a observa, como se esperasse algo. Mas o que Fátima diria que a faria se sentir melhor? Talvez nada. E realmente Fátima não tinha nada para dizer.
— Você não se lembra... é claro... — Anya desfaz a pose de luta, e vagarosamente se percebe as feridas e marcas em sua pele sumirem. — Você é tão vítima quando ela foi... talvez até mais... Como não percebi isso... — Anya recolhe os ferrões dos antebraços. — Apenas uma criança... usada como arma... — Anya cerra os punhos e seu olhar, que começava a ficar mais ameno, se torna sombrio como antes. Porém seu olhar se volta para o prédio da Cúria Romana. — Foram eles. Esses velhos malditos, que acham que representam a vontade de Deus! Se Deus permite que uma criança seja usada como brinquedo e que famílias se destruam por isso, então ele não é Deus...
— O que-- — Fátima vê que a mutação em Anya recomeça.
— Irei acabar com eles! — Anya se volta contra o prédio, dando um salto gigantesco graças a habilidades aracnídeas, saltando de novo assim que toca o chão, porém quando se aproxima da janela do terceiro andar, Fátima a intercepta voando, a atirando no chão de asfalto.
— Eu não posso permitir! — diz a heroína.
— Você protege quem te usa?!
— Não. Protejo pessoas inocentes que estão nesse prédio e não merecem morrer pelo crime de poucos! — Anya por um instante sente vergonha de si mesma, pensando se foi antes ou depois das experiências que fez em si mesma que se tornara um monstro. Mas Fátima lhe diz, tomando cuidado de tirar o ponto eletrônico do ouvido e destruí-lo: — Os responsáveis irão pagar... no seu devido tempo!
Anya se levanta sem nada a dizer, vendo que a criança boba que é manipulada começa a não ser mais tão boba. Enquanto nisso pensa, sem perceber sua aproximação, ela vê guardas de elite reagrupados a cercando e disparando de suas armas fios que grudam em seu corpo e soltam uma forte carga elétrica.
— Afaste-se! — diz um guarda para Fátima que também não percebe sua aproximação.
— Parem com isso! Vão matá-la! — diz Sagrada Justiça empurrando os homens, porém um deles lhe atinge na nunca com um aparelho que emite um raio azul que a imobiliza. Esse mesmo homem então diz:
— São ordens superiores. Seus serviços não são mais necessários. Ela está sob custódia da Guarda Suíça.
Anya por fim perde os sentidos. Fátima vê, de joelhos, sem forças para se erguer, que ela é levada numa maca amarrada. Fátima sente seu corpo inteiro formigar.
— Como ousam me ferir...?! — ela diz. O homem que lhe atacou faz pouco caso disso, e dá sinal a outro que vem com um objeto que lembra um inalador e o coloca em seu rosto. — M-maldição...!
Giovanni vê aquilo da janela e cerra os punhos, dando um potente soco na mesa de D. Cláudio.
— O senhor viu aquilo?! — diz quase gritando, tamanha sua revolta. D. Cláudio tira seus óculos e os limpa com um lenço dizendo:
— Vi. Vi perfeitamente. E isso não pode ficar assim.
— Tenha a certeza, onore... não vai ficar.
O sol entra pela janela do quarto de Fátima. Ela abre os olhos. Seu rosto dói. Sente uma mão quente sobre a sua e vê sua amiga Paola, sentada em sua cama com um rosto tenso.
— Você está bem?
— Hum? — Fátima ainda está sonolenta. — Acho que sim... estou bem sim...
— Te trouxeram desmaiada ontem. Já passava da meia-noite. Antes te levaram para o hospital. O que aconteceu? Não se pôde ver direito pela TV.
— Eu... não lembro bem... — Fátima põe a mão na cabeça, sentindo-a doer quando força a memória. Se lembra do dia todo que teve, desde quando saiu as escondidas e foi até o Líbano até a luta contra a filha da Condessa. Mas aí é que as memórias ficam confusas. E ela não vê mais do que cenas da luta que teve. — Acho que aquela mulher deve ter me nocauteado... não sei. — Paola a contempla com tristeza, mas sem nada dizer.
— Ela não lembra? — diz Giovanni para Paola, mais tarde, num café em Roma, estando disfarçado, escondido atrás de óculos escuros e um boné.
— Não. Certamente lhe fizeram lavagem cerebral no hospital. — Paola aperta a mão de Giovanni. — Você tinha razão! Ela está em perigo.
— Por isso nós vamos salvá-la. — Giovanni esfrega seu antebraço, onde agora se vê com todos os detalhes a serpente tatuada. Paola não entende o significado especial desse ato, mas quando ele lhe diz a frase a seguir, sabe que a uma esperança poderá surgir: — O professor está vindo.
Em algum lugar desconhecido, sob uma forte luz branca, atada pelos braços e pernas e em estado de semi-consciência, Anya Kütermann ouve em meio à penumbra que toma aquela sala, a voz rouca e o sotaque italiano de um velho que diz:
— Não foi para isso que lhe pagamos, senhorita Kütermann... — a batina preta entra na luz, com a faixa vermelha em sua larga cintura e o crucifixo de madeira pelo peito, mas o rosto do homem ainda permanece na sombra. — O trabalho de sua mãe é muito interessante e merece ser estudado. E é ótimo tê-la conosco para isso. — Anya olha com desprezo para aquele rosto, desconhecido para ela, não passando de outro bispo corrupto. Mas D. Cecílio Ravoni não se importa. — Até mais ver... Lady Aracnida.
Continua...
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