Finalmente Profaniel caminha sobre a Terra. A salvação do mundo com a destruição de Lúcifer está em seus ombros. Mas será que ele aceitará tal tarefa? Um ataque inesperado e uma chocante visita encaminharão o final dessa história.
Por: Anderson Oliveira
04. O Evangelho de Profany, parte 4.
“If God is against us, who will be for us?”
O cargueiro segue navegando na escuridão que apenas é cortada pelo clarão de raios e trovões. O mar se agita. Uma tormenta se aproxima. O timoneiro, um nefilim de aparência jovial e ao mesmo tempo castigada, estranha tal mudança climática. Ora o mar estava calmo e há muito tempo não se via sinais de chuva. Há algo errado. E ele sente sua espinha congelar quando vê diante de si um raio de puro vermelho cortar o céu. Sim, há algo muito errado acontecendo. E a origem disso está em uma das cabines abaixo.
Lorde Gabriel dá ordens a seus assistentes e este tiram o corpo de Noriel da banheira e o deixam sob um cobertor no chão. Do abdome para baixo ele é coberto com outro cobertor. Um assistente traz um velho desfibrilador, achado entre as tranqueiras desse sucateado barco. Gabriel toma o aparelho nas mãos e o liga – conhecendo esta ciência de tanto observar os humanos.
Então, contra o peito gélido de Noriel, Lorde Gabriel dispara uma carga do equipamento. Noriel se contorce e seu peito pula, mas logo caí inerte novamente. Gabriel prepara outra dose, agora mais forte. E aplica sem pestanejar. Outra vez o corpo de Noriel salta com o reflexo, mas com a mão em seu pescoço, Gabriel constata que ainda não há reação.
— Vamos, meu jovem. — sussurra o Lorde nefilim ao aplicar a terceira descarga. Por dentro do corpo desfalecido de Noriel, seu coração recebe a desfibrilação, se expande e bombeia sangue frio para dentro de suas válvulas. A reação faz todo seu corpo estremecer. — Volte para nós, Noriel... — outra carga do desfibrilador é aplicada.
No Abismo, Noriel sente a dor invadir seu peito. Uma dor que consegue ser maior que a do fogo e da lava, das pedras escaldantes e o ar carregado de enxofre. No desespero, enquanto Profaniel jaz diante de si envolto por correntes e fios, Noriel se atira contra ele, conseguido agarrar apenas a corrente que envolve seu braço direito. Sem ter onde se segurar, Noriel cai mergulhado na lava fervente. Seu espírito arde em agonia sem igual. Mas sua mão não larga a corrente, e conseguindo ver – ou imaginando que vê – o rosto de Profaniel confuso e assustado, Noriel lhe diz:
— Profaniel... venha...
E uma nova e mais intensa dor toma seu peito. Tamanha é sua força que Noriel perde os sentidos e quando o recupera está fora daquela lava, num imenso vazio branco, com Profaniel puxado por seu braço, enquanto parece voar em direção a algo. Agora não há mais qualquer dor, seja pelo fogo ou a estranha sensação no peito. Não há nem frio nem calor. E poderia dizer que não há nada, até que Noriel sente algo que há muito tempo não sentia.
E nem qualquer outra criatura deve ter sentido isso há muito tempo. Ao longe, quase despercebido... A presença de algo maior, que arrebata a mente de Noriel e, a sua frente, vê surgir o que lhe parece um túnel. Um túnel escuro e nada hospitaleiro. Porém ao passo que se aproxima dele, Noriel sente a presença cada vez maior. E ele ouve algumas palavras. Palavras dispersas, sem sentido, que assim que se aproxima do túnel vão ganhando forma e significado. Logo ele percebe que essa força está falando com ele.
Que essa força é a presença de Deus.
E num turbilhão de emoções e ideias, Noriel ouve as palavras de Deus. E vê tudo o que aconteceu na amplitude do Universo. Vê, como se fosse um anjo novamente. Talvez até algo maior. E sua mente é bombardeada com informações. O túnel bem a sua frente já o envolvendo. É quando Noriel tem a resposta da pergunta mais feita na Terra nos últimos anos. Onde está Deus?
Noriel agora sabe.
Seus olhos se abrem. É como despertar de um sono profundo. Uma claridade fere sua retina e ele mal consegue distinguir os vultos que dançam diante dele. Sente seu corpo frio e molhado se aquecer. Ar quente entra ferindo seus pulmões. Ele tosse e coágulos de sangue são cuspidos. Seus olhos ainda doem. Na tentativa de focar a visão, piscando várias vezes, Noriel consegue identificar um dos vultos que se apresentam diante dele. A pessoa se aproxima de seu rosto e ele vê a face assustadora de Lorde Gabriel.
— Bom trabalho, rapaz. — diz Gabriel apertando seu ombro. Noriel parece não entender. É quando vê Gabriel dirigir o olhar para algo a sua frente. Noriel se esforça para dobrar o pescoço e poder ver o que é. Joga seu ombro esquerdo para cima e se vira ainda deitado, querendo se levantar mas ainda sem força, para ver, assombrado como todos na sala, o que está parado ao fundo da mesma.
Entre as velas que queimam fazendo as sombras dançarem pelas paredes como almas penadas que com ele fugiram do inferno. Dentro do círculo desenhado com giz no chão, onde fora deixada sua velha camisa, resquício de sua vida humana na Terra. Nu, com o corpo, apesar de aparentemente molhado. soltando uma fumaça que sobe e some no ar. Agachado no meio do círculo como um animal arisco pego na caça frente aos seus caçadores. Seus olhos verdes parecem cinzentos refletindo medo e rancor em sua alma. Seu rosto é marcado pelo sofrimento, e sua boca deformada faz muitos virarem a face.
Profaniel está na Terra novamente.
Noriel vê seu amigo naquela situação, e parece que só agora se lembra do que aconteceu. Vê também quando Gabriel toma a frente e confronta Profaniel, pegando das mãos de um dos seus assistentes um embolado de roupas e jogando aos pés dele.
— Antes de qualquer coisa, vista-se. — diz Gabriel em tom de ultimato. Profaniel o olha com um olhar que faria qualquer um ali tremer, menos Gabriel.
E então Profaniel pega uma calça e a veste, sem se levantar. Afivela depois um cinto. E também ainda no chão, calça um par de botas. São roupas antigas, quase da época em que Profaniel era humano. Não veste camisa, deixando amostra no peito a cruz de duas hastes, com um tipo de cristal em cada ponta, seis ao todo. Em seus braços há uma cruz semelhante, incrustada na carne, formada por duas cruzes de metal sobrepostas, com os cristais nas pontas, menos da ponta de baixo, que fica no seu pulso, onde há uma chaga que, de forma sobrenatural, atravessa seu pulso como que ali houvesse transpassado algo.
— Profaniel. — começa a dizer Lorde Gabriel. — Caso não esteja me reconhecendo, eu sou Gabriel, teu príncipe-arcanjo no coro dos anjos divinos. Sabes que não sou de rodeios, então vou direto ao assunto. Outrora eu saudava aos mortais com palavras como “Não temas, o Senhor é convosco”. Hoje o saúdo dizendo: “Tenhas medo, pois o Senhor não é mais conosco”. — os presentes na sala engoliram em seco. Profaniel apenas piscou os olhos. — Este é o ano terrestre de 2028, caso ainda pense que está na sua bucólica vida de duzentos anos atrás. O pior aconteceu em 2012 e Satanás invadiu o Reino dos Céus, transformou todos os anjos em mortais, e os que não foram mortos pelos demônios se viram obrigados a rastejar pela Terra como vermes.
Profaniel olha ao redor. Fita todos os presentes naquela sala. Todos anjos transformados em mortais. Sente o gosto da ironia. Pois ele se tornou mortal por vontade própria, o que acarretou sua condenação ao Abismo. Agora todos eles foram sentenciados a sentirem o gosto da terra. Não pode deixar de sorrir no fundo da alma. É quando fita, deitado no chão, envolto em um cobertor e ainda tremendo, aquele que um dia chamou de amigo. Noriel. Seu rosto está abatido. Envelhecido. Marcado por anos de sofrimento. Um sofrimento que não escolheu sentir, mas foi forçado. Profaniel então sente vergonha.
— Dividimos o mundo com os homens. — continua Gabriel. — Por comida, terra e racismo entramos em guerra. Uma guerra que não acabou e nem acabará tão cedo. Pois agora o homem sabe que os anjos de Deus, que deviam protegê-lo, estão derrotados. E sabe que Deus não mais se ouve nos Céus. Em seu lugar, Satanás está sentado. Toda a crueldade que havia no homem, escondida no íntimo de sua alma, está livre. Mas não serei hipócrita e dizer que todos os homens são maus. Existem os que ainda seguem a senda reta, mas agora estes vivem com medo. E há também os de nós, que fomos rotulados de Nefilim, que se entregaram a maldade. Lúcifer brinca com nossos destinos. Ergueu sete impérios para que homens e nefilim o adorem em troca de paz e conforto.
Um vento estranho ameaça apagar as velas, mas ninguém dá conta disso. Nem ao balanço do barco e sua inclinação percebida na água da banheira que transborda. Profaniel tenta, involuntariamente, entender e imaginar o cenário descrito por Gabriel. Seria possível tal sorte? Mas Gabriel não lhe dá tempo de meditar e continua seu relato:
— Então, Profaniel, saiba que por isso o buscamos do Inferno. Você foi poupado da trama de Lúcifer. Esquecido no Abismo, sobrou em ti um último resquício da força divina. Ainda que não sejas nem anjo, nem mortal. Só você tem a força para combater Lúcifer e, quem sabe, devolver tudo ao seu devido lugar. — Gabriel faz silêncio agora, esperando do outro alguma resposta. Mas só tem um olhar de desprezo. Olhar que logo ganha voz nas seguintes palavras ditas por Profaniel:
— Vocês... vocês me condenaram ao Abismo. Maldito sejas tu Gabriel! E malditos sejam Metraton, Haziel, Auriel, Uriel, Raphael, Camael, Haniel e Miguel--
— Miguel está morto. — interrompe Gabriel com uma vaga tristeza no olhar. Profaniel arregala os olhos e se põe em silêncio quando o outro diz: — Miguel foi morto por Lúcifer em pessoa. Sua espada, a mesma que baniu o diabo nos primórdios, se tornou material e caiu na Terra. Com ela, Lúcifer poderá ser destruído. Mas mãos mortais não podem tocá-la. E, por sorte, nem os demônios. Por isso, só você poderá erguê-la.
Profaniel parece meditar sobre o assunto. Seu olho corre pela sala e ele não pode deixar de fitar Noriel, seu amigo, que transmite confiança em seu julgamento. Porém sua carne ainda sente a dor dos séculos no Inferno. Séculos? É estranho agora perceber que o tempo passou. Será difícil assimilar tudo. Kate... como ele sente sua falta. O doce perfume de sua pele. Profaniel guarda em sua alma que foram eles, Gabriel e os outros arcanjos, que a tiraram dele. E tal dor é maior que tudo. Maior que o amor ou a amizade.
— E se eu não quiser ajudá-lo? — pergunta. Gabriel levanta a sobrancelha deixando mais sinistra sua órbita vazia e responde:
— Isto não foi um pedido. Foi uma ordem.
— DESGRAÇADO!! — brada Profaniel com tamanha força que nem ele acreditasse em ter. Gabriel não se assusta. Apenas dá de ombros e gira nos calcanhares a lentos passos. Profaniel cerra os punhos em crescente ira e se atira contra o Lorde Nefilim como uma fera acuada. — Não me dê as costas!! — porém sua fúria é contida por uma barreira invisível, estando há menos de um metro de Gabriel. Todos se assustam com a cena. E leva alguns instantes até perceberem o que aconteceu.
— É claro que eu previa isso. — diz Gabriel quando todos veem o círculo místico desenhado no chão abaixo de Profaniel. Não era um encanto para trazê-lo do Inferno, mas para prendê-lo na Terra.
Percebendo isso, Profaniel recua da pose de ataque e volta a ficar acocorado no chão, maldizendo-se por dentro por não suspeitar do truque. Mas que seja. Isso não o obrigaria seguir as ordens de Gabriel. E Gabriel sabia disso. Talvez sua abordagem tenha sido incorreta e via que talvez toda essa esperança tenha sido em vão. Em silêncio ele ordena que seus assistentes tragam as roupas de Noriel, que já parece mais forte. Noriel por sua vez se veste, e enquanto faz, receando se essa é a melhor hora, diz a Gabriel:
— Lorde Gabriel... talvez ainda haja uma forma... — Gabriel o olha com certa surpresa no semblante. Noriel continua: — Quando rompia a barreira entre o mundo dos mortos e o dos vivos, minha mente se abriu e eu percebi todas as coisas. Foram poucos instantes onde me pareceu ouvir novamente a voz do Criador. E Ele me disse que--
— Basta! — de súbito, Gabriel se atira contra Noriel e tapa sua boca com força. — Não diga mais nada! A marca que fiz em sua nuca o protegeu no mundo espiritual e o protege neste mundo. Então tudo o que descobriu está seguro dentro da sua cabeça. Se falar tal segredo, os demônios ouvirão e, seja o que for, estará perdido, pois eles chegarão mais rápidos do que nós. Então não fale, não escreva, não faça sinais... Eles irão saber o que é. Promete?! — tentando balançar a cabeça e com medo no olhar, Noriel faz que sim. Então lentamente Gabriel o solta.
— O que sei é a salvação para nossa aflição. — diz Noriel em tom de súplica.
— Por isso. Se os demônios ouvirem, estará arruinada nossa salvação. Com a marca em sua nuca, eles não poderão ler sua mente, e o segredo estará a salvo. Caso for, pensaremos em um jeito... — Gabriel olha com o canto de seu olho bom e percebe o movimento irregular do fogo das velas. Jura que pode ouvir ruídos de pragas cercando aquela cabine. Nota que Haziel, a capitã do barco, também percebe. — Eles estão aqui.
Todos então sentem o vento frio encher de medo suas espinhas e a luz das velas se apagarem de uma vez só e depois se acenderem com violência. Quem tem alguma arma para sacar assim o faz. Noriel, que mal acabara de se vestir, se apoia em seu cajado e recua para perto de Profaniel. Este continua agachado e confuso, não entendo o que acontece. É quando todos ouvem o som de garras arranharem as paredes de metal. Alguns ouvem guinchos como de rapinas. Gabriel tira do bolso da calça um colar e o coloca no pescoço.
Um baque surdo é ouvido do lado de fora. Como um peso jogado à porta. Haziel faz seu facão correr da bainha até o batente da porta e, com uma semi automática na outra mão, encosta seu ouvido no metal e tenta ouvir o que puder. Seu lindo rosto se faz em treva quando percebe o grito do timoneiro e ouve o que julga ser seus ossos sendo moídos.
— Eles não passarão pelo sal. — diz um tripulante. A capitã Haziel faz um gesto para ele fazer silêncio. Apesar de ser verdade o que ele diz. Mas seja por superstição ou cautela, nunca se poderia dizer isso durante um ataque.
Profaniel vê tudo ainda muito confuso. Noriel ao seu lado queria lhe orientar, mas sabe que agora não era o momento. Gabriel vai até a porta e junto com Haziel guarda seus flancos. Ouvem agora o som de passos, ou algo tentando imitar o som de passos. Até que alguém se aproxima da porta. Os dois lordes sentem o frio que dela emana, assim como o fedor que sobe. Ouve-se ainda um estranho pigarrear antes da criatura dizer, com voz humana e limpa, quase hipnótica:
— Abram a porta. — não houve resposta. Um suor brotou na testa manchada de Gabriel enquanto seu dedo se firma no gatilho do seu AK-47. Então a voz tornou a falar, no mesmo tom hipnótico, só que agora mais severamente: — Abram essa porta. Só queremos o condenado. Não iremos machucá-los.
Profaniel soube na hora que falavam dele. Talvez nessa hora tenha entendido o que acontecia. Por ímpeto deu um passo, mas a magia do círculo ainda o prendia.
— Pela última vez: abram essa maldita porta. — diz novamente a voz, agora desprovida de qualquer humanidade que tentava simular.
— Não abriremos, — diz Gabriel. — ele é um dos nossos, e conosco ficará.
— Então sabes como termina, velho Gabriel.
— Tente a sorte, imundo. — frente ao desafio, o demônio deu um grito que obrigou a todos na sala a tapar seus ouvidos. Depois disso todos ouviram fortes trovões e com eles o bater de asas de um revoar de morcegos. — Essa não! — exclamou Gabriel ao olhar para o alto e ver uma ruptura crescente se formar no teto da cabine.
Pela fresta um vento gélido entra em rodopios e nele se percebe partículas como cinzas. A maioria das velas se apaga e os nefilins assistentes apontam suas armas tentando mirar no redemoinho em formação. Então o redemoinho desce até o solo e forma sobre a banheira no centro da sala, usando sua água como condutor das energias de que precisa para assumir forma visível. E assim o faz, na imagem de um homem forte, de cabelos pretos e barba curta, vestido de armadura como um soldado romano, apesar de usar coturnos de soldado moderno. Tendo em vez de asas uma capa preta a cair pelo ombro direito, com a mão pousada sobre a espada na bainha.
Levitando sem tocar na água, ele olhou tudo ao redor, lançando nada mais do que desprezo para Gabriel e Haziel, menos que isso para os demais nefilins, voltando toda sua atenção à frágil figura tenebrosa de Profaniel. Profaniel lhe olhou de volta, e tentou reconhecer aquele rosto, mas não conseguiu. O demônio fez que ia ao seu encontro, mas um tiro em suas costas o deteve. Um cartucho de sal, que seria suficiente para acabar com um Afrit, como os nefilins chamavam os demônios inferiores mais fracos, de nada adiantou contra aquele. Ele se vira para seu agressor, um dos assistentes de Gabriel, e com algum hipnotismo, levando a perder a respiração, diz:
— Tolo. Arma mortal alguma pode me ferir, pois fui eu quem as concebi. — tendo dito isso, apenas com sua vontade ele joga o nefilim contra a parede oposta.
— Azazyel. — diz Gabriel com repúdio.
— Vejo que me reconheceu, velho inválido.
— Veio sozinho? — pergunta Gabriel não dando atenção ao insulto.
— Não julguei que demandaria de mais do que eu para dar conta de um bando de mortais e de um estranho “Nofilim” recém tirado do Inferno. — por Nofilim ele chama Profaniel, pois ao contrário dos Nefilim, que foram jogados na terra, Profaniel se atirou por vontade própria. Azazyel então torna a fitar Profaniel. — Em verdade, morrerás antes que possa ver o amanhecer.
— Não existe verdade vinda da boca de um demônio! — protesta Noriel, até então contido.
— Cala-te, nefilim. Tua vez não tardará. E cuidarei para que ninguém o traga de volta da morte outra vez.
— Balela. — Noriel olha rapidamente para Profaniel e também para Gabriel. Nesse rápido intervalo percebeu a intenção de Azazyel sacar sua espada. Com seu pé, molhado pela água da banheira que por vezes trasbordara, ele fez uma brecha no círculo que prende Profaniel. Azazyel empunha sua arma e vai contra Profaniel. Este se protege com os braços, por puro reflexo, e todos se assombram quando a espada do demônio se parte em dezenas de pedaços ao tocar a cruz no antebraço do outro.
— Não é possível! — exclama num tom baixo Azazyel. É então que nota, tanto no peito como nos braços de Profaniel, aquela cruz que desde os primórdios dos tempos é chamada de “O Selo”. — Ele possui o Selo...
— Sim. — diz Gabriel se aproximando. — O sinal de Caim. Quem possuir tal marca, não deve ser molestado, assim decretou o Senhor. E seu decreto ainda vigora, mesmo que o usurpador tome seu assento.
E Azazyel dobra o joelho diante de Profaniel. Não para reverenciá-lo ou coisa do tipo, mas por simples e pura desolação. Quando olhou para o rosto de Profaniel, o espírito imundo viu, em meio ao seu semblante de ódio, o resplandecer de uma luz divina formar um arco de santidade em sua cabeça. Profaniel, em verdade, ainda tem o poder de Deus.
— Você é uma ameaça! — diz Azazyel retomando a ira no olhar e se precipitando contra o “nofilim”. Profaniel estende a mão para se proteger e nisso encontra o pescoço do demônio. Azazyel sente, e Profaniel sabe disso e talvez o usando como bode expiatório, expurga todo seu ódio latente contra os anjos no demônio. Azazyel agoniza como um mortal, mas não grita ou pede piedade. E nem Profaniel pensaria em dá-la. Por fim, Profaniel o solta sobre o chão e o prazer daquilo o toma por algum momento.
— Profaniel. — chama-lhe a atenção Noriel que depois diz: — Está livre. Saia daqui. — Profaniel olhou para baixo e viu que o círculo está rompido. Viu também Gabriel lhe fitando, vindo em sua direção. A vontade de dar a ele o que merece é crescente, mas o olhar piedoso de Noriel lhe mostrou que deve fazer o contrário. — Fuja!
Mas para onde ir? O que há nesse mundo que sirva de lugar para alguém como Profaniel? Se fosse sua terra de outrora, aquele mundo em que viveu. Onde amou e foi amado. Kate, como ele queria ver Kate novamente. Sentiu nessa hora que Noriel o tocou no ombro, como que para apressá-lo, visto que Gabriel e os outros se aproximavam, e mesmo Azazyel já voltava a si. Realmente ele teria que sair dali. É quando o desejo de estar perto de Kate aumenta e em sua memória vêm as imagens de Londres. É pra onde ele quer ir.
E Gabriel e os outros veem quando Profaniel, junto com Noriel, some de sua vista. Verdadeiramente ainda lhe resta a centelha divina para poder usar tais poderes. Mas ainda está lá Azazyel, e estando perto o bastante, Gabriel o empurra com o pé pra dentro do círculo no chão e conserta sua falha com giz. Gabriel aponta seu rifle para a cabeça do demônio dizendo:
— Mais sorte da próxima vez.
O disparo dá lugar a respiração ofegante de Noriel, se vendo numa rua aberta e deserta, com Profaniel ao seu lado, este frio e em silêncio. Ele tenta reconhecer aquele pedaço de mundo, que em nada remete a Londres que conheceu. Só vê uma desordem de casas de concreto, deterioradas, com pichações escandalosas e lixo por todos os lados. Ainda é noite, mas um fogo de fogueira ao longe dança no horizonte. Pode ouvir gritos na distância. Gritos de festa junto com gritos de dor. Até esse momento, qualquer dúvida sobre o relato de Gabriel chegara ao fim. Realmente o mundo que conheceu acabou.
Voltando-se para trás, viu algo que custou reconhecer. A destruição foi maior naquele prédio, mas ainda lhe restam algumas paredes, tão antigas quanto a vida humana de Profaniel, ou até mais. É ali, a velha igreja anglicana onde ele se fez mortal, onde desposou Kate e também onde chorou em seu funeral. E, se ele não está enganado...
Profaniel vai até a igreja. Noriel o segue de longe. Ambos vêem na parede que resta de pé uma pichação dizendo:
“IF GOD IS AGAINST US, WHO WILL BE FOR US?”
“SE DEUS É CONTRA NÓS, QUEM SERÁ POR NÓS?”
Profaniel não dá atenção aquilo e entra, tendo de saltar por montes de lixo e entulho, até acessar o que outrora fora a nave da igreja. Ainda vêm em sua memória os detalhes góticos do santuário, que hoje é palco da devassidão humana. Deus os abandonou, eles pensaram. E então depredaram sua casa. Como se templos de pedra pudessem servir de casa para Aquele que tudo fez. Mas são homens e ensinar-lhes inteligência é perda de tempo.
Atrás do que resta do altar, manchado de algo que aos olhos de Noriel parece ser sangue, Profaniel procura algo. Em silêncio, vasculha cada pedaço de chão. É então que, ao remover grandes blocos de entulho – sem perceber a força sobre humana que usa para isso – Profaniel encontra uma passagem para o subsolo. Do tamanho de uma porta convencional deitada sobre o chão, feita de metal e trancada com fortes correntes. Profaniel a abre sem fazer força.
A porta escondia uma escadaria que Profaniel desceu sem receio. Noriel ainda o segue, notando as ratazanas que fogem se enroscando nas teias de aranha. Ao fim da escada, a fraca luz vinda de fora é insuficiente para iluminar o local. Noriel vê a sombra de um lampião a gás, e junto dele uma caixa de fósforos. Acedendo o lampião o lugar ganha um tom assustador.
Teias pendem do teto e por todos os lugares. As quatro paredes, num espaço apertado de não mais de três metros quadrados, abrigam gavetas de concreto. Ao chão, alguns ossos espalhados. Ali é um jazigo, uma câmara mortuária. E Profaniel fita, no alto da parede a sua frente, o brasão da família Goodsmith.
— Kate! — diz num soluço. Ele desejou ver Kate novamente, e até ela foi trazido. Bem a sua frente, a gaveta que leva seu nome. A mais perto do chão. Com lágrimas brotando em seus olhos, Profaniel limpa a fuligem das bordas da tampa e depois a abre, mais uma vez usando a força que tem sem perceber.
Então o esquife se revela ao seu lado. Coberto por cinzas que um dia foram flores. Com a madeira apodrecida, Profaniel não precisa da sua força descomunal para abri-la também. Noriel nota claramente, sob a fraca luz do lampião, que as lágrimas tomam seu rosto. Dentro do caixão, os restos mortais do que fora uma jovem mulher. Agora não mais do que ossos escurecidos vestidos com um vestido consumido pelo tempo. Ainda resta ali tufos de cabelo ruivo. E o mais aterrador é o que jaz ao seu lado, apoiado em seu braço...
O pano onde esteve enrolado já não serve para tal função, e Profaniel sente uma dor tomar seu peito quando vê o corpo do seu filho natimorto, sepultado junto com a mãe. Michael seria chamado. Estranhamente mais conservado, o bebê é uma múmia, com pele seca e um rosto definível e assustador. Profaniel o pega nas mãos com cuidado, mesmo com as mãos trêmulas, e traz o frágil corpo até próximo ao seu rosto encharcado.
— Meu filho...! — balbucia, vendo aquele rosto inocente, tão pequeno e desprovido de vida. Destinado a morte, como é dado a todo ser humano. Michael, em homenagem ao Arcanjo Miguel, que agora Profaniel percebe que também foi morto, como um humano. Como se sua vida e tragédia fossem uma profecia do que viria a acontecer. Agora já não faz questão de conter qualquer lágrima, e o choro dele comove a Noriel, que também chora, tremendo a mão que segura o lampião. E nesse choro sofrido, Profaniel vê o corpo de seu filho se desmanchar em suas mãos. — Não! — diz quando os farelos se precipitam ao chão. — Não!!
Mas é tarde, e o que restava de sua existência terrena se converteu em pó. Do pó ao pó, como havia dito o Senhor. Mas em seu pranto, Profaniel lembra que a vida não se limita à matéria. Existe a vida após a vida. E lá ele encontraria seu amor perpétuo. Lá estaria Kate, e também Michael, e para lá ele deveria ir. No entanto antes ele olhou para Noriel, mal percebeu que seu amigo compadecia-se de seu sofrimento. Em seus olhos, Profaniel deixou claro que agora ele não poderá segui-lo. Antes de que Noriel pudesse compreender, via o amigo abaixar a cabeça e se concentrar, para depois sumir dali, deixando apenas um frio penetrante. Noriel entendeu onde ele iria.
* * *
Conclui no próximo capítulo.
Agradecimentos ao Nery pela revisão!
04. O Evangelho de Profany, parte 4.
“If God is against us, who will be for us?”
O cargueiro segue navegando na escuridão que apenas é cortada pelo clarão de raios e trovões. O mar se agita. Uma tormenta se aproxima. O timoneiro, um nefilim de aparência jovial e ao mesmo tempo castigada, estranha tal mudança climática. Ora o mar estava calmo e há muito tempo não se via sinais de chuva. Há algo errado. E ele sente sua espinha congelar quando vê diante de si um raio de puro vermelho cortar o céu. Sim, há algo muito errado acontecendo. E a origem disso está em uma das cabines abaixo.
Lorde Gabriel dá ordens a seus assistentes e este tiram o corpo de Noriel da banheira e o deixam sob um cobertor no chão. Do abdome para baixo ele é coberto com outro cobertor. Um assistente traz um velho desfibrilador, achado entre as tranqueiras desse sucateado barco. Gabriel toma o aparelho nas mãos e o liga – conhecendo esta ciência de tanto observar os humanos.
Então, contra o peito gélido de Noriel, Lorde Gabriel dispara uma carga do equipamento. Noriel se contorce e seu peito pula, mas logo caí inerte novamente. Gabriel prepara outra dose, agora mais forte. E aplica sem pestanejar. Outra vez o corpo de Noriel salta com o reflexo, mas com a mão em seu pescoço, Gabriel constata que ainda não há reação.
— Vamos, meu jovem. — sussurra o Lorde nefilim ao aplicar a terceira descarga. Por dentro do corpo desfalecido de Noriel, seu coração recebe a desfibrilação, se expande e bombeia sangue frio para dentro de suas válvulas. A reação faz todo seu corpo estremecer. — Volte para nós, Noriel... — outra carga do desfibrilador é aplicada.
No Abismo, Noriel sente a dor invadir seu peito. Uma dor que consegue ser maior que a do fogo e da lava, das pedras escaldantes e o ar carregado de enxofre. No desespero, enquanto Profaniel jaz diante de si envolto por correntes e fios, Noriel se atira contra ele, conseguido agarrar apenas a corrente que envolve seu braço direito. Sem ter onde se segurar, Noriel cai mergulhado na lava fervente. Seu espírito arde em agonia sem igual. Mas sua mão não larga a corrente, e conseguindo ver – ou imaginando que vê – o rosto de Profaniel confuso e assustado, Noriel lhe diz:
— Profaniel... venha...
E uma nova e mais intensa dor toma seu peito. Tamanha é sua força que Noriel perde os sentidos e quando o recupera está fora daquela lava, num imenso vazio branco, com Profaniel puxado por seu braço, enquanto parece voar em direção a algo. Agora não há mais qualquer dor, seja pelo fogo ou a estranha sensação no peito. Não há nem frio nem calor. E poderia dizer que não há nada, até que Noriel sente algo que há muito tempo não sentia.
E nem qualquer outra criatura deve ter sentido isso há muito tempo. Ao longe, quase despercebido... A presença de algo maior, que arrebata a mente de Noriel e, a sua frente, vê surgir o que lhe parece um túnel. Um túnel escuro e nada hospitaleiro. Porém ao passo que se aproxima dele, Noriel sente a presença cada vez maior. E ele ouve algumas palavras. Palavras dispersas, sem sentido, que assim que se aproxima do túnel vão ganhando forma e significado. Logo ele percebe que essa força está falando com ele.
Que essa força é a presença de Deus.
E num turbilhão de emoções e ideias, Noriel ouve as palavras de Deus. E vê tudo o que aconteceu na amplitude do Universo. Vê, como se fosse um anjo novamente. Talvez até algo maior. E sua mente é bombardeada com informações. O túnel bem a sua frente já o envolvendo. É quando Noriel tem a resposta da pergunta mais feita na Terra nos últimos anos. Onde está Deus?
Noriel agora sabe.
Seus olhos se abrem. É como despertar de um sono profundo. Uma claridade fere sua retina e ele mal consegue distinguir os vultos que dançam diante dele. Sente seu corpo frio e molhado se aquecer. Ar quente entra ferindo seus pulmões. Ele tosse e coágulos de sangue são cuspidos. Seus olhos ainda doem. Na tentativa de focar a visão, piscando várias vezes, Noriel consegue identificar um dos vultos que se apresentam diante dele. A pessoa se aproxima de seu rosto e ele vê a face assustadora de Lorde Gabriel.
— Bom trabalho, rapaz. — diz Gabriel apertando seu ombro. Noriel parece não entender. É quando vê Gabriel dirigir o olhar para algo a sua frente. Noriel se esforça para dobrar o pescoço e poder ver o que é. Joga seu ombro esquerdo para cima e se vira ainda deitado, querendo se levantar mas ainda sem força, para ver, assombrado como todos na sala, o que está parado ao fundo da mesma.
Entre as velas que queimam fazendo as sombras dançarem pelas paredes como almas penadas que com ele fugiram do inferno. Dentro do círculo desenhado com giz no chão, onde fora deixada sua velha camisa, resquício de sua vida humana na Terra. Nu, com o corpo, apesar de aparentemente molhado. soltando uma fumaça que sobe e some no ar. Agachado no meio do círculo como um animal arisco pego na caça frente aos seus caçadores. Seus olhos verdes parecem cinzentos refletindo medo e rancor em sua alma. Seu rosto é marcado pelo sofrimento, e sua boca deformada faz muitos virarem a face.
Profaniel está na Terra novamente.
Noriel vê seu amigo naquela situação, e parece que só agora se lembra do que aconteceu. Vê também quando Gabriel toma a frente e confronta Profaniel, pegando das mãos de um dos seus assistentes um embolado de roupas e jogando aos pés dele.
— Antes de qualquer coisa, vista-se. — diz Gabriel em tom de ultimato. Profaniel o olha com um olhar que faria qualquer um ali tremer, menos Gabriel.
E então Profaniel pega uma calça e a veste, sem se levantar. Afivela depois um cinto. E também ainda no chão, calça um par de botas. São roupas antigas, quase da época em que Profaniel era humano. Não veste camisa, deixando amostra no peito a cruz de duas hastes, com um tipo de cristal em cada ponta, seis ao todo. Em seus braços há uma cruz semelhante, incrustada na carne, formada por duas cruzes de metal sobrepostas, com os cristais nas pontas, menos da ponta de baixo, que fica no seu pulso, onde há uma chaga que, de forma sobrenatural, atravessa seu pulso como que ali houvesse transpassado algo.
— Profaniel. — começa a dizer Lorde Gabriel. — Caso não esteja me reconhecendo, eu sou Gabriel, teu príncipe-arcanjo no coro dos anjos divinos. Sabes que não sou de rodeios, então vou direto ao assunto. Outrora eu saudava aos mortais com palavras como “Não temas, o Senhor é convosco”. Hoje o saúdo dizendo: “Tenhas medo, pois o Senhor não é mais conosco”. — os presentes na sala engoliram em seco. Profaniel apenas piscou os olhos. — Este é o ano terrestre de 2028, caso ainda pense que está na sua bucólica vida de duzentos anos atrás. O pior aconteceu em 2012 e Satanás invadiu o Reino dos Céus, transformou todos os anjos em mortais, e os que não foram mortos pelos demônios se viram obrigados a rastejar pela Terra como vermes.
Profaniel olha ao redor. Fita todos os presentes naquela sala. Todos anjos transformados em mortais. Sente o gosto da ironia. Pois ele se tornou mortal por vontade própria, o que acarretou sua condenação ao Abismo. Agora todos eles foram sentenciados a sentirem o gosto da terra. Não pode deixar de sorrir no fundo da alma. É quando fita, deitado no chão, envolto em um cobertor e ainda tremendo, aquele que um dia chamou de amigo. Noriel. Seu rosto está abatido. Envelhecido. Marcado por anos de sofrimento. Um sofrimento que não escolheu sentir, mas foi forçado. Profaniel então sente vergonha.
— Dividimos o mundo com os homens. — continua Gabriel. — Por comida, terra e racismo entramos em guerra. Uma guerra que não acabou e nem acabará tão cedo. Pois agora o homem sabe que os anjos de Deus, que deviam protegê-lo, estão derrotados. E sabe que Deus não mais se ouve nos Céus. Em seu lugar, Satanás está sentado. Toda a crueldade que havia no homem, escondida no íntimo de sua alma, está livre. Mas não serei hipócrita e dizer que todos os homens são maus. Existem os que ainda seguem a senda reta, mas agora estes vivem com medo. E há também os de nós, que fomos rotulados de Nefilim, que se entregaram a maldade. Lúcifer brinca com nossos destinos. Ergueu sete impérios para que homens e nefilim o adorem em troca de paz e conforto.
Um vento estranho ameaça apagar as velas, mas ninguém dá conta disso. Nem ao balanço do barco e sua inclinação percebida na água da banheira que transborda. Profaniel tenta, involuntariamente, entender e imaginar o cenário descrito por Gabriel. Seria possível tal sorte? Mas Gabriel não lhe dá tempo de meditar e continua seu relato:
— Então, Profaniel, saiba que por isso o buscamos do Inferno. Você foi poupado da trama de Lúcifer. Esquecido no Abismo, sobrou em ti um último resquício da força divina. Ainda que não sejas nem anjo, nem mortal. Só você tem a força para combater Lúcifer e, quem sabe, devolver tudo ao seu devido lugar. — Gabriel faz silêncio agora, esperando do outro alguma resposta. Mas só tem um olhar de desprezo. Olhar que logo ganha voz nas seguintes palavras ditas por Profaniel:
— Vocês... vocês me condenaram ao Abismo. Maldito sejas tu Gabriel! E malditos sejam Metraton, Haziel, Auriel, Uriel, Raphael, Camael, Haniel e Miguel--
— Miguel está morto. — interrompe Gabriel com uma vaga tristeza no olhar. Profaniel arregala os olhos e se põe em silêncio quando o outro diz: — Miguel foi morto por Lúcifer em pessoa. Sua espada, a mesma que baniu o diabo nos primórdios, se tornou material e caiu na Terra. Com ela, Lúcifer poderá ser destruído. Mas mãos mortais não podem tocá-la. E, por sorte, nem os demônios. Por isso, só você poderá erguê-la.
Profaniel parece meditar sobre o assunto. Seu olho corre pela sala e ele não pode deixar de fitar Noriel, seu amigo, que transmite confiança em seu julgamento. Porém sua carne ainda sente a dor dos séculos no Inferno. Séculos? É estranho agora perceber que o tempo passou. Será difícil assimilar tudo. Kate... como ele sente sua falta. O doce perfume de sua pele. Profaniel guarda em sua alma que foram eles, Gabriel e os outros arcanjos, que a tiraram dele. E tal dor é maior que tudo. Maior que o amor ou a amizade.
— E se eu não quiser ajudá-lo? — pergunta. Gabriel levanta a sobrancelha deixando mais sinistra sua órbita vazia e responde:
— Isto não foi um pedido. Foi uma ordem.
— DESGRAÇADO!! — brada Profaniel com tamanha força que nem ele acreditasse em ter. Gabriel não se assusta. Apenas dá de ombros e gira nos calcanhares a lentos passos. Profaniel cerra os punhos em crescente ira e se atira contra o Lorde Nefilim como uma fera acuada. — Não me dê as costas!! — porém sua fúria é contida por uma barreira invisível, estando há menos de um metro de Gabriel. Todos se assustam com a cena. E leva alguns instantes até perceberem o que aconteceu.
— É claro que eu previa isso. — diz Gabriel quando todos veem o círculo místico desenhado no chão abaixo de Profaniel. Não era um encanto para trazê-lo do Inferno, mas para prendê-lo na Terra.
Percebendo isso, Profaniel recua da pose de ataque e volta a ficar acocorado no chão, maldizendo-se por dentro por não suspeitar do truque. Mas que seja. Isso não o obrigaria seguir as ordens de Gabriel. E Gabriel sabia disso. Talvez sua abordagem tenha sido incorreta e via que talvez toda essa esperança tenha sido em vão. Em silêncio ele ordena que seus assistentes tragam as roupas de Noriel, que já parece mais forte. Noriel por sua vez se veste, e enquanto faz, receando se essa é a melhor hora, diz a Gabriel:
— Lorde Gabriel... talvez ainda haja uma forma... — Gabriel o olha com certa surpresa no semblante. Noriel continua: — Quando rompia a barreira entre o mundo dos mortos e o dos vivos, minha mente se abriu e eu percebi todas as coisas. Foram poucos instantes onde me pareceu ouvir novamente a voz do Criador. E Ele me disse que--
— Basta! — de súbito, Gabriel se atira contra Noriel e tapa sua boca com força. — Não diga mais nada! A marca que fiz em sua nuca o protegeu no mundo espiritual e o protege neste mundo. Então tudo o que descobriu está seguro dentro da sua cabeça. Se falar tal segredo, os demônios ouvirão e, seja o que for, estará perdido, pois eles chegarão mais rápidos do que nós. Então não fale, não escreva, não faça sinais... Eles irão saber o que é. Promete?! — tentando balançar a cabeça e com medo no olhar, Noriel faz que sim. Então lentamente Gabriel o solta.
— O que sei é a salvação para nossa aflição. — diz Noriel em tom de súplica.
— Por isso. Se os demônios ouvirem, estará arruinada nossa salvação. Com a marca em sua nuca, eles não poderão ler sua mente, e o segredo estará a salvo. Caso for, pensaremos em um jeito... — Gabriel olha com o canto de seu olho bom e percebe o movimento irregular do fogo das velas. Jura que pode ouvir ruídos de pragas cercando aquela cabine. Nota que Haziel, a capitã do barco, também percebe. — Eles estão aqui.
Todos então sentem o vento frio encher de medo suas espinhas e a luz das velas se apagarem de uma vez só e depois se acenderem com violência. Quem tem alguma arma para sacar assim o faz. Noriel, que mal acabara de se vestir, se apoia em seu cajado e recua para perto de Profaniel. Este continua agachado e confuso, não entendo o que acontece. É quando todos ouvem o som de garras arranharem as paredes de metal. Alguns ouvem guinchos como de rapinas. Gabriel tira do bolso da calça um colar e o coloca no pescoço.
Um baque surdo é ouvido do lado de fora. Como um peso jogado à porta. Haziel faz seu facão correr da bainha até o batente da porta e, com uma semi automática na outra mão, encosta seu ouvido no metal e tenta ouvir o que puder. Seu lindo rosto se faz em treva quando percebe o grito do timoneiro e ouve o que julga ser seus ossos sendo moídos.
— Eles não passarão pelo sal. — diz um tripulante. A capitã Haziel faz um gesto para ele fazer silêncio. Apesar de ser verdade o que ele diz. Mas seja por superstição ou cautela, nunca se poderia dizer isso durante um ataque.
Profaniel vê tudo ainda muito confuso. Noriel ao seu lado queria lhe orientar, mas sabe que agora não era o momento. Gabriel vai até a porta e junto com Haziel guarda seus flancos. Ouvem agora o som de passos, ou algo tentando imitar o som de passos. Até que alguém se aproxima da porta. Os dois lordes sentem o frio que dela emana, assim como o fedor que sobe. Ouve-se ainda um estranho pigarrear antes da criatura dizer, com voz humana e limpa, quase hipnótica:
— Abram a porta. — não houve resposta. Um suor brotou na testa manchada de Gabriel enquanto seu dedo se firma no gatilho do seu AK-47. Então a voz tornou a falar, no mesmo tom hipnótico, só que agora mais severamente: — Abram essa porta. Só queremos o condenado. Não iremos machucá-los.
Profaniel soube na hora que falavam dele. Talvez nessa hora tenha entendido o que acontecia. Por ímpeto deu um passo, mas a magia do círculo ainda o prendia.
— Pela última vez: abram essa maldita porta. — diz novamente a voz, agora desprovida de qualquer humanidade que tentava simular.
— Não abriremos, — diz Gabriel. — ele é um dos nossos, e conosco ficará.
— Então sabes como termina, velho Gabriel.
— Tente a sorte, imundo. — frente ao desafio, o demônio deu um grito que obrigou a todos na sala a tapar seus ouvidos. Depois disso todos ouviram fortes trovões e com eles o bater de asas de um revoar de morcegos. — Essa não! — exclamou Gabriel ao olhar para o alto e ver uma ruptura crescente se formar no teto da cabine.
Pela fresta um vento gélido entra em rodopios e nele se percebe partículas como cinzas. A maioria das velas se apaga e os nefilins assistentes apontam suas armas tentando mirar no redemoinho em formação. Então o redemoinho desce até o solo e forma sobre a banheira no centro da sala, usando sua água como condutor das energias de que precisa para assumir forma visível. E assim o faz, na imagem de um homem forte, de cabelos pretos e barba curta, vestido de armadura como um soldado romano, apesar de usar coturnos de soldado moderno. Tendo em vez de asas uma capa preta a cair pelo ombro direito, com a mão pousada sobre a espada na bainha.
Levitando sem tocar na água, ele olhou tudo ao redor, lançando nada mais do que desprezo para Gabriel e Haziel, menos que isso para os demais nefilins, voltando toda sua atenção à frágil figura tenebrosa de Profaniel. Profaniel lhe olhou de volta, e tentou reconhecer aquele rosto, mas não conseguiu. O demônio fez que ia ao seu encontro, mas um tiro em suas costas o deteve. Um cartucho de sal, que seria suficiente para acabar com um Afrit, como os nefilins chamavam os demônios inferiores mais fracos, de nada adiantou contra aquele. Ele se vira para seu agressor, um dos assistentes de Gabriel, e com algum hipnotismo, levando a perder a respiração, diz:
— Tolo. Arma mortal alguma pode me ferir, pois fui eu quem as concebi. — tendo dito isso, apenas com sua vontade ele joga o nefilim contra a parede oposta.
— Azazyel. — diz Gabriel com repúdio.
— Vejo que me reconheceu, velho inválido.
— Veio sozinho? — pergunta Gabriel não dando atenção ao insulto.
— Não julguei que demandaria de mais do que eu para dar conta de um bando de mortais e de um estranho “Nofilim” recém tirado do Inferno. — por Nofilim ele chama Profaniel, pois ao contrário dos Nefilim, que foram jogados na terra, Profaniel se atirou por vontade própria. Azazyel então torna a fitar Profaniel. — Em verdade, morrerás antes que possa ver o amanhecer.
— Não existe verdade vinda da boca de um demônio! — protesta Noriel, até então contido.
— Cala-te, nefilim. Tua vez não tardará. E cuidarei para que ninguém o traga de volta da morte outra vez.
— Balela. — Noriel olha rapidamente para Profaniel e também para Gabriel. Nesse rápido intervalo percebeu a intenção de Azazyel sacar sua espada. Com seu pé, molhado pela água da banheira que por vezes trasbordara, ele fez uma brecha no círculo que prende Profaniel. Azazyel empunha sua arma e vai contra Profaniel. Este se protege com os braços, por puro reflexo, e todos se assombram quando a espada do demônio se parte em dezenas de pedaços ao tocar a cruz no antebraço do outro.
— Não é possível! — exclama num tom baixo Azazyel. É então que nota, tanto no peito como nos braços de Profaniel, aquela cruz que desde os primórdios dos tempos é chamada de “O Selo”. — Ele possui o Selo...
— Sim. — diz Gabriel se aproximando. — O sinal de Caim. Quem possuir tal marca, não deve ser molestado, assim decretou o Senhor. E seu decreto ainda vigora, mesmo que o usurpador tome seu assento.
E Azazyel dobra o joelho diante de Profaniel. Não para reverenciá-lo ou coisa do tipo, mas por simples e pura desolação. Quando olhou para o rosto de Profaniel, o espírito imundo viu, em meio ao seu semblante de ódio, o resplandecer de uma luz divina formar um arco de santidade em sua cabeça. Profaniel, em verdade, ainda tem o poder de Deus.
— Você é uma ameaça! — diz Azazyel retomando a ira no olhar e se precipitando contra o “nofilim”. Profaniel estende a mão para se proteger e nisso encontra o pescoço do demônio. Azazyel sente, e Profaniel sabe disso e talvez o usando como bode expiatório, expurga todo seu ódio latente contra os anjos no demônio. Azazyel agoniza como um mortal, mas não grita ou pede piedade. E nem Profaniel pensaria em dá-la. Por fim, Profaniel o solta sobre o chão e o prazer daquilo o toma por algum momento.
— Profaniel. — chama-lhe a atenção Noriel que depois diz: — Está livre. Saia daqui. — Profaniel olhou para baixo e viu que o círculo está rompido. Viu também Gabriel lhe fitando, vindo em sua direção. A vontade de dar a ele o que merece é crescente, mas o olhar piedoso de Noriel lhe mostrou que deve fazer o contrário. — Fuja!
Mas para onde ir? O que há nesse mundo que sirva de lugar para alguém como Profaniel? Se fosse sua terra de outrora, aquele mundo em que viveu. Onde amou e foi amado. Kate, como ele queria ver Kate novamente. Sentiu nessa hora que Noriel o tocou no ombro, como que para apressá-lo, visto que Gabriel e os outros se aproximavam, e mesmo Azazyel já voltava a si. Realmente ele teria que sair dali. É quando o desejo de estar perto de Kate aumenta e em sua memória vêm as imagens de Londres. É pra onde ele quer ir.
E Gabriel e os outros veem quando Profaniel, junto com Noriel, some de sua vista. Verdadeiramente ainda lhe resta a centelha divina para poder usar tais poderes. Mas ainda está lá Azazyel, e estando perto o bastante, Gabriel o empurra com o pé pra dentro do círculo no chão e conserta sua falha com giz. Gabriel aponta seu rifle para a cabeça do demônio dizendo:
— Mais sorte da próxima vez.
O disparo dá lugar a respiração ofegante de Noriel, se vendo numa rua aberta e deserta, com Profaniel ao seu lado, este frio e em silêncio. Ele tenta reconhecer aquele pedaço de mundo, que em nada remete a Londres que conheceu. Só vê uma desordem de casas de concreto, deterioradas, com pichações escandalosas e lixo por todos os lados. Ainda é noite, mas um fogo de fogueira ao longe dança no horizonte. Pode ouvir gritos na distância. Gritos de festa junto com gritos de dor. Até esse momento, qualquer dúvida sobre o relato de Gabriel chegara ao fim. Realmente o mundo que conheceu acabou.
Voltando-se para trás, viu algo que custou reconhecer. A destruição foi maior naquele prédio, mas ainda lhe restam algumas paredes, tão antigas quanto a vida humana de Profaniel, ou até mais. É ali, a velha igreja anglicana onde ele se fez mortal, onde desposou Kate e também onde chorou em seu funeral. E, se ele não está enganado...
Profaniel vai até a igreja. Noriel o segue de longe. Ambos vêem na parede que resta de pé uma pichação dizendo:
“IF GOD IS AGAINST US, WHO WILL BE FOR US?”
“SE DEUS É CONTRA NÓS, QUEM SERÁ POR NÓS?”
Profaniel não dá atenção aquilo e entra, tendo de saltar por montes de lixo e entulho, até acessar o que outrora fora a nave da igreja. Ainda vêm em sua memória os detalhes góticos do santuário, que hoje é palco da devassidão humana. Deus os abandonou, eles pensaram. E então depredaram sua casa. Como se templos de pedra pudessem servir de casa para Aquele que tudo fez. Mas são homens e ensinar-lhes inteligência é perda de tempo.
Atrás do que resta do altar, manchado de algo que aos olhos de Noriel parece ser sangue, Profaniel procura algo. Em silêncio, vasculha cada pedaço de chão. É então que, ao remover grandes blocos de entulho – sem perceber a força sobre humana que usa para isso – Profaniel encontra uma passagem para o subsolo. Do tamanho de uma porta convencional deitada sobre o chão, feita de metal e trancada com fortes correntes. Profaniel a abre sem fazer força.
A porta escondia uma escadaria que Profaniel desceu sem receio. Noriel ainda o segue, notando as ratazanas que fogem se enroscando nas teias de aranha. Ao fim da escada, a fraca luz vinda de fora é insuficiente para iluminar o local. Noriel vê a sombra de um lampião a gás, e junto dele uma caixa de fósforos. Acedendo o lampião o lugar ganha um tom assustador.
Teias pendem do teto e por todos os lugares. As quatro paredes, num espaço apertado de não mais de três metros quadrados, abrigam gavetas de concreto. Ao chão, alguns ossos espalhados. Ali é um jazigo, uma câmara mortuária. E Profaniel fita, no alto da parede a sua frente, o brasão da família Goodsmith.
— Kate! — diz num soluço. Ele desejou ver Kate novamente, e até ela foi trazido. Bem a sua frente, a gaveta que leva seu nome. A mais perto do chão. Com lágrimas brotando em seus olhos, Profaniel limpa a fuligem das bordas da tampa e depois a abre, mais uma vez usando a força que tem sem perceber.
Então o esquife se revela ao seu lado. Coberto por cinzas que um dia foram flores. Com a madeira apodrecida, Profaniel não precisa da sua força descomunal para abri-la também. Noriel nota claramente, sob a fraca luz do lampião, que as lágrimas tomam seu rosto. Dentro do caixão, os restos mortais do que fora uma jovem mulher. Agora não mais do que ossos escurecidos vestidos com um vestido consumido pelo tempo. Ainda resta ali tufos de cabelo ruivo. E o mais aterrador é o que jaz ao seu lado, apoiado em seu braço...
O pano onde esteve enrolado já não serve para tal função, e Profaniel sente uma dor tomar seu peito quando vê o corpo do seu filho natimorto, sepultado junto com a mãe. Michael seria chamado. Estranhamente mais conservado, o bebê é uma múmia, com pele seca e um rosto definível e assustador. Profaniel o pega nas mãos com cuidado, mesmo com as mãos trêmulas, e traz o frágil corpo até próximo ao seu rosto encharcado.
— Meu filho...! — balbucia, vendo aquele rosto inocente, tão pequeno e desprovido de vida. Destinado a morte, como é dado a todo ser humano. Michael, em homenagem ao Arcanjo Miguel, que agora Profaniel percebe que também foi morto, como um humano. Como se sua vida e tragédia fossem uma profecia do que viria a acontecer. Agora já não faz questão de conter qualquer lágrima, e o choro dele comove a Noriel, que também chora, tremendo a mão que segura o lampião. E nesse choro sofrido, Profaniel vê o corpo de seu filho se desmanchar em suas mãos. — Não! — diz quando os farelos se precipitam ao chão. — Não!!
Mas é tarde, e o que restava de sua existência terrena se converteu em pó. Do pó ao pó, como havia dito o Senhor. Mas em seu pranto, Profaniel lembra que a vida não se limita à matéria. Existe a vida após a vida. E lá ele encontraria seu amor perpétuo. Lá estaria Kate, e também Michael, e para lá ele deveria ir. No entanto antes ele olhou para Noriel, mal percebeu que seu amigo compadecia-se de seu sofrimento. Em seus olhos, Profaniel deixou claro que agora ele não poderá segui-lo. Antes de que Noriel pudesse compreender, via o amigo abaixar a cabeça e se concentrar, para depois sumir dali, deixando apenas um frio penetrante. Noriel entendeu onde ele iria.
* * *
Conclui no próximo capítulo.
Agradecimentos ao Nery pela revisão!
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