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Mundo Sombrio #5



Com o intuito de ajudar Joana, Florisval engana Melvin e parte para uma pequena missão em Govenrrar, levando consigo, uma flor chamada de Rosa do Ligamento.



Capítulo 05

Rosa do Ligamento



A atenção de Adler voltou-se para a porta, após ela ser aberta revelando a imagem de Joana adentrando ao cômodo. Ele estava deitado na cama com seus braços apoiados atrás de sua cabeça. A mulher fechou a porta, e ele perguntou mirando seu olhar sobre ela.
- Onde você foi para chegar a essa hora? Deve ter andado muito por aí ou ido a um lugar bem longe, fora da cidade provavelmente. – Joana lhe encarou, mas respondeu de forma tranquila.
- Fui ver a natureza um pouco. Tomar um ar fresco.
- Ar fresco? – perguntou ele com um sorriso. – Nós estamos viajando há quase três dias, e ar fresco é o que não falta. – Percebendo que sua mentira não deu certo, ela tentou dizer de outra forma.
- Eu só queria tomar um ar fresco... sozinha. – proferiu num tom firme. – Agora se me permite, vou descansar.
- É bom mesmo. Amanhã será um “graaande” dia – enfatizou o noivo. O modo como ele falou fizeram os olhos de Joana estreitarem sabendo exatamente ao que ele se referia.

. . . . . . . . .

Neal estava parado em frente à hospedaria quando passos se aproximaram. Ele notou um outro guarda, o mais jovem dentre os seis, Durval.
- A Joana demorou tanto. Onde ela foi? – perguntou ele. Tinha cabelos castanhos e olhos escuros.
- Eu a segui até um campo florido. Estava caminhando com algum amigo, eu acho. – respondeu Neal.
- Há um campo de flores por aqui? – perguntou Durval, ignorando a suposta companhia de Joana.
- Ah, sim. Fica a leste da cidade.
- Hm... – O jovem guarda sentiu-se conformado, provavelmente saciando sua curiosidade.

. . . . . . . . .

A atenção de Melvin voltou-se para a porta, após ela ser aberta revelando a imagem de Florisval adentrando ao quarto. Ele estava pensativo na cama no instante em que o floricultor apareceu.
- Er... Você está bem? – perguntou o camponês, meio sem jeito. Passou-se duas horas desde a discussão entre eles. Desde então, o mago não saiu do cômodo. Melvin levantou-se ficando sentado na cama, e o fitou em seguida. – Eu fiz chá. Você quer? – perguntou com uma xícara na mão e se aproximando do mago.
- Sim, obrigado – respondeu Melvin, enquanto pegava a xícara. O mago olhou seu reflexo na bebida e começou a falar sem olhar para o camponês. – Florisval, me desculpe pelo o que fiz antes. Eu só fiquei um pouco perturbado. Também tenho meus segredos.
- Tudo bem. Você parece ser alguém bem misterioso – disse Florisval nem um pouco chateado.
- Você também – Melvin disse dessa vez olhando para o floricultor, que arregalou os olhos um pouco. – Quem imaginaria que guardaria um lugar para flores mágicas? Afinal, muitas pessoas nem sabem da existência delas. – O mago percebeu que ele ficou sério pelo simples fato de ter tocado no assunto. Mas ele continuou dessa vez num tom mais atinado. – Aquela minha proposta de antes ainda continua valendo. Se me disser onde estão essas flores posso ajudar no caso da Joana. Mesmo que tenha de correr alguns riscos, esse é um lugar muito importante para deixar passar.
- Você vai continuar insistindo nisso? Isso é uma chantagem muito grosseira. Não se importa mesmo com os outros? – perguntou o camponês chateado com a proposta.
- Se eu não me importasse, você estaria morto e com seu campo queimado, lembra? Duvido muito que resistisse a mil socos. Mas devia estar agradecido por não serem outros magos ou até pessoas piores que descobririam esse seu segredo.
- Como assim?
- Se fosse qualquer outro mago, ele o forçaria a falar com certeza, e se não o fizesse, seria levado preso a cidade de Nerus. Mas não são com eles que você passaria o pior.
- Não? – Florisval ficava confuso com aquela conversa.
- Ah, deixa pra lá. Não preciso contar isso a você agora. Não sem antes de mostrar-me o esconderijo.
- Então prefiro não saber – disse ele de cara feia. Melvin deu um sorriso e tomou seu primeiro gole do chá. Florisval o observou atentamente e virou o rosto para o lado. - Ei, Melvin. Eu me decidi.
- Sobre o que? – perguntou após dois goles da bebida.
- Eu vou ajudar a Joana... e agora. – Melvin o olhou querendo saber se entendeu direito. – Irei até a cidade na hospedaria onde ela está.
- Como é que é? Ficou louco? Não pode fazer isso. – questionou o mago, irritado com aquela idéia.
- Essa foi a minha decisão, e não vou mudá-la – Florisval disse determinadamente olhando para o homem na cama.
- Huh! E acha que vou deixá-lo assim fácil. Terá de me deter se quiser ir lá agora – Melvin disse se levantando.
- Eu já o impedi.
- O que? – Nesse momento, Melvin sentiu seu corpo fraquejar. Sua visão começou a ficar turva, com a imagem de Florisval perdendo a sincronia em frente, formando quase duas pessoas. Ele ficou meio tonto, mas ainda se manteve de pé. – Você me drogou. – concluiu o mago deixando sua xícara escapar entre os dedos. O objeto caiu no chão de madeira esparramando uma porção de chá sobre ele.
- Foi necessário. Eu sinto muito – lamentou Florisval um pouco antes de Melvin cair para trás. Seu corpo já inconsciente encontrava-se sobre a cama. O floricultor se aproximou sentindo-se um pouco ruim por ter feito aquilo, mas julgando ser necessário. – Voltarei logo!
Em seguida, Florisval saiu do quarto de seu pai e foi até o seu. Ficou a um metro de distância da cama, e tirou uma flor de seu colete cinza. Era uma Miosótis. Ele agachou-se e tocou a flor no chão proferindo:
- Libere o seu segredo! Abertura do portal!
Uma linha luminosa riscou o chão formando um quadrado de um metro. Assim que ele foi formado, uma luz preencheu todo o seu interior, e após ela se extinguir, uma passagem estava formada. Era um alçapão com uma escada de metal para o subterrâneo. O segredo que tanto Melvin queria estava na frente de Florisval, mas ele se precaveu e deixou o mago inconsciente para que pudesse abrir a entrada. Seus olhos fitaram seriamente o esconderijo onde entrou logo em seguida.
Alguns minutos depois, Florisval abriu a porta de casa e saiu para o entardecer. O céu estava alaranjado sobre ele, e o único som era dos grilos que começavam a cantar. As flores começavam a ganhar um tom escuro devido à ausência da luz do sol. Após visar o seu campo, ele olhou para dentro de seu colete onde observou duas flores semelhantes a uma rosa, mas de pétalas azuis de tom forte. Determinado, pôs-se a andar para a estrada rumo à cidade de Govenrrar.

. . . . . . . . . .

Depois de muito caminhar pela estrada, finalmente Florisval chegou à cidade. No meio do caminho, ele passou em frente a sua floricultura para conferir se os garotos fecharam a loja corretamente. Ele acreditava muito em Ramon e Dimas, que eram bastante responsáveis com suas tarefas. Por isso quando Florisval não podia fechar a loja, eles exerciam esse trabalho.
Em seguida, rumou para a hospedaria “Meredith” onde Joana estava instalada. Parou em frente à pousada mais cara da cidade, e fitou as várias janelas ali, tentando adivinhar em qual delas ela poderia estar. De qualquer forma, entraria lá e pediria informação. Mesmo se fosse necessário encarar o próprio Adler, ele falaria com ela.
- Ei! – um chamamento tirou-lhe de sua reflexão, e desviou seu rosto para a direita, onde avistou um homem bem próximo. Pela sua roupa, e pelo o que ouviu do mago mais cedo, parecia ser um dos guardas de Joana. E pela fisionomia de seu rosto, a qual também tinha ouvido de Melvin, aquele era o mesmo homem que o mago encontrara mais cedo. – Você é aquele cara de antes. – disse o guarda antes de Florisval falar.
- Você é o Neal? – perguntou o camponês, causando uma reação de surpresa no guarda.
-Como sabe o meu nome? ...Então aquele mago lhe contou mesmo tudo o que disse a ele – proferiu vendo que aquele era o mais provável motivo. – O que você quer aqui?
- Eu preciso vê-la – Florisval disse bem determinado.
- Nem pensar! – negou o guarda. - Se sabe da história toda, também sabe que Adler está lá dentro com ela.
- Eu... tenho algo importante a falar com ela. Juro que não vou tentar nada arriscado que possa destruir o plano de vocês. Aliás, eu também irei ajudá-los – Neal arregalou um pouco os olhos, tanto pelo significado das palavras que ouviu, quanto do jeito forte de como elas foram pronunciadas. – Eu só quero falar com ela. Se eu não conseguir, eu voltarei. Mas por favor, deixe-me tentar. – insistiu ele. Neal sentiu algo vindo das palavras e da expressão daquele rapaz. Ele com certeza era um bom homem. Mesmo duvidando dessa possibilidade, as palavras que Joana dissera mais cedo lhe faziam pensar.

“- O que tanto conversava com aquela pessoa? – perguntou pondo-se a andar ao lado dela.
- Algumas coisas. Bem, acho que terei um lugar para voltar quando tudo acabar. Eu ficarei aqui nessa cidade. Aquela pessoa se tornou um grande amigo meu. – explicou ela, ainda sorrindo com seu olhar a frente.
- Amigo?
- Apenas uma pessoa que conheci há pouco tempo. Mas muito adorável, com certeza. – As palavras de Joana faziam Neal pensar se ela gostou do rapaz.”


- Será que esses dois... – pensava o guarda. Depois de alguns instantes, ele suspirou e assentiu. – Tudo bem. Você pode ir vê-la. Mas vá com cautela!
- Obrigado – agradeceu Florisval com alegria.

. . . . . . . . .

O jantar na hospedaria Meredith já estava sendo servido no salão, que não chegava a ser grande, mas suficiente para caber todas as pessoas do prédio. Decorada com paredes vermelhas e mesas alinhadas, a sala era totalmente à luz de velas tanto na mesa quanto nas paredes. A mesa de madeira era coberta por um pano de tom marfim, e sobre ele, alguns pratos, talheres e copos, pintados em diferentes temas para dar um toque mais nobre.
Além disso, um grupo mais ao fundo da sala tocava uma serena musica com vielas (viola um pouco maior que as modernas).
Alguns dos poucos hóspedes já estavam sentados e servindo-se com garçons anotando seus pedidos. Pela entrada da sala, que ficava junto à recepção da hospedaria, passaram Joana e Adler. Eles buscaram uma mesa mais ou menos localizada no centro da sala, e pediram o tipo de comida que queriam para um garçom vestido com um traje avermelhado próprio de sua profissão.
Adler percebeu o olhar distante de sua noiva. Ela parecia mais pensativa do que triste, mas provavelmente pensando em algo que poderia causar alguma infelicidade. Adler já sabia o que era, e tratou de puxar algum assunto com ela, já que pouco conversam quando estão juntos.
- Alguma coisa perturba você? – Joana o olhou após ouvir a pergunta. – Posso ver nesse seu olhar que algo lhe incomoda. Aliás, acho que desde o nosso casamento esse seu olhar se faz presente quando estamos juntos. O que poderia ser? – perguntou ele num tom irônico, pois ambos sabiam exatamente qual era a relação entre eles e o objetivo de cada um que de certa forma era o mesmo.
- É um problema meu – disse ela, calma, mas em tom forte. – Não se preocupe, devo resolvê-lo em breve.
- É, acho que sim – disse o outro rindo um pouco, o que causou uma irritação em Joana, mas a conteve antes de manifestá-la abertamente. – Sabe, é uma pena você ter ficada sozinha na família. Seu pai era um grande homem. Mesmo eu não tendo o conhecido direito, ele com certeza... – Adler lembrava-se do que ocorrera alguns dias atrás.

. . . . . . . . . .

O sótão empoeirado que antes era solitário por guardar coisas velhas da família Goldin, agora era pisado por várias pessoas. Nele, Silmour, Adler e seus capangas fitavam o velho Boris amarrado numa cadeira. Este, com seus olhos castanhos da mesma cor de seu cabelo curto, olhava para seu suposto amigo de cabelos semi-longos castanhos e duros, que se mostrou seu pior inimigo, e da boca dele saíram as próximas palavras daquele lugar. Sua voz era velha e seca.
- É bom cooperar velho amigo Boris. O que estou pedindo é apenas algo para agradar a minha sede por coisas valiosas. Nunca imaginei que sua família guardasse algo tão precioso. Pelo o que você me contou antes, esse tal tesouro vale mais do que ouro ou qualquer outra coisa de valor semelhante. Devo dizer que esse foi o seu maior erro, pois se fosse simplesmente um monte de ouro eu teria deixado-o morrer pacientemente até conseguir arrancá-lo de você. Mas algo com mais valor que ouro nesse mundo, algo maior que qualquer riqueza material. Esse toque final foi mesmo pura excitação. Estou muito curioso em saber o que é. É por isso que estamos aqui hoje, para que nos fale deliberadamente onde está esse belo tesouro.
Boris encarou seu falso amigo e respondeu secamente:
- Vá pro inferno! – Silmour engoliu aquelas palavras com um sorriso e um movimento de mãos para seus capangas. Dois chicotes foram balançados e chocados contra o corpo de Boris, que já estava todo machucado pelas chicotadas anteriores.
- Se recusar a falar, não sou eu quem vai para o inferno, e sim você, e de quebra, enviarei sua filha para lhe fazer companhia – zombou ele, despertando a fúria no olhar do Goldin, que tentou desamarrar suas mãos usando inutilmente sua força. – É simples. Diga onde está o tesouro, e pouparei sua filha de uma morte jovem.
- Você promete que não fará mal a minha filha se eu revelar onde ele está? – perguntou Boris, que mesmo não gostando daquela idéia era sua única opção naquele momento. Ele sabia como Silmour agia quando não conseguia o que queria. Vingança contra aqueles que o atrapalharam. Se ele não contasse o que ele ansiava, Joana certamente morreria nas mãos da família Collens.
- Claro, meu amigo. Basta apenas que fale o que quero desde o início – prometeu olhando nos olhos de Boris, que fez o mesmo antes de responder.
- No cofre, escondido atrás da parede de madeira, atrás daquele armário... – disse fitando o móvel de cor escura. Silmour olhou para os outros. Adler e os capangas empurraram o armário que era bem leve, pois estava vazio, e pegaram uma machado para furar a parede de madeira naquela região. Adler, com o objeto em mãos, começou a golpear a madeira, e não demorou muito até verem um compartimento com um cofre verde.
- A combinação – pediu Silmor, enquanto seu filho e os outros esperavam. – A combinação, Boris! – pediu num tom mais irritado.
- 4264 – Após a resposta, Silmor sorriu, e Adler abriu o cofre. Lá, havia dois pergaminhos. Ele os tirou e os mostrou ao pai. No primeiro havia um mapa que era a localização do tesouro, e no segundo, algum escrito. Silmour leu em voz alta.
“Este pergaminho é a prova do contrato entre a família Goldin e o guardião do tesouro. Este documento deve ser mostrado no ato da retirada do tesouro, podendo o membro da família deixá-lo no mesmo lugar para a próxima geração ou tomando-o para si. Entretanto, é importante ressaltar a condição para a retirada. Apenas os herdeiros da família que já estiverem casados podem encontrar este tesouro, sendo necessária a apresentação da certidão de casamento deles.
Glin”
- O que é isso? Quem é esse Glin? – Silmour perguntou confuso, para Boris.
- É isso mesmo o que ouviu. Apenas pessoas casadas podem buscar esse tesouro. Desista!
- Desistir? Está brincando? – riu ele. – Acho que você tem uma filha, não? Pensando bem, ela é melhor viva do que morta pelo o que vi. – Silmour pode ver o olhar desesperado de seu amigo. – Parece que aquela proposta inicial de um casamento entre os nossos filhos caiu bem agora.
- Não se atreva! Deixe-a fora disso! – gritou o pai de Joana.
- Do que está reclamando? Eu estou cumprindo a promessa de deixar sua filha viva. Bom, pelo menos por enquanto – terminou ele com um sorriso. Os outros capangas ocuparam-se em espalhar um líquido inflamável pelo local, e usaram algumas palhas que haviam ali guardadas. – Adeus, meu velho amigo. – despediu-se subindo as escadas para o térreo.
- Pare Silmour! Deixe minha filha fora disso! Deixe-a em paz! SILMOUR! – gritou o homem da casa desesperadamente. Quase todos já haviam subido as escadas deixando-o gritando na cadeira. O último foi Adler, que o fitou antes de subir os primeiros degraus.
- Não se preocupe, sogro – proferiu com um sorriso, ao mesmo tempo em que pegava uma vela acesa na parede. – Cuidarei bem de sua filha! – terminou com uma risada, arremessando em seguida, a vela sobre uma palha molhada com o líquido.
Adler subiu para o primeiro andar, e em poucos segundos, o sótão já estava preenchido pelas chamas. E para garantir a destruição total do lugar, tacaram fogo nos outros cômodos. Quando saíram, ainda aproveitaram para queimar uma estufa próxima a casa, destruindo assim tudo da família Goldin. A única coisa que restou foi a filha do homem que morrera dentro de sua casa.


. . . . . . . . .

-... até o último momento foi um bom homem. – terminou Adler após relembrar o episódio. Joana sentiu uma certa provocação naquela frase, tanto que ele sorriu descaradamente para ela. O olhar da jovem queria mostrar raiva, e mostrou, mas de uma forma muita mais contida do que ela verdadeiramente sentia. Apesar disso, respondeu sem olhar para o seu noivo.
- Eu sei disso. Fui a filha dele, portanto conhecia-o muito bem – Adler gostava muita daquela cena, pois tudo parecia tão falso, quando na verdade, um tinha vontade de matar o outro.
- É! Nisso você tem razão. Mas eu também conheci muitos segredos de seu pai, coisas que nem mesmo você sabe. – Joana fechou a cara. Ele abertamente a provocava.
- Aqui está o seu vinho, senhor – aproximou-se um garçom com uma bandeja contendo um copo da bebida. – Em breve trarei o jantar. – disse ele fitando os dois à mesa. Após a saída do garçom, Adler pôs seu vinho na boca e o saboreou.
- É tão bom beber em momentos importantes – proferiu ele com alegria.
- Que momento importante é este? – Joana perguntou.
- Nosso elo. O que mais poderia ser? Poderia estar brindando comigo, se também bebesse.
- Eu não gosto de bebida.
- É mesmo uma pena. Mas beberei por você também. Em razão ao momento de união presente, e... para um grande futuro que se aproxima – Joana encarou Adler após ouvir dizê-lo “grande futuro”. Ele estava muito concentrado bebendo para perceber os olhos furiosos de Joana.
O grupo que tocava a música na sala mudou a melodia para algo mais alegre, mas ainda suave. Os calmos e alegres sons provenientes da viela preenchiam o salão.
Algo que também mudou foi o rosto de Joana ao avistar um conhecido parado na entrada do salão, meio que escondido atrás da parede da recepção.
- Florisval? – soltou ela, surpresa por vê-lo ali.
- O que? – perguntou seu noivo acabando de beber o vinho. – Disse alguma coisa?
- Ah, não – respondeu ela voltando seu olhar para Adler. Florisval ainda continuava escondido atrás da parede com apenas a cabeça para dentro do salão. – Se importa de comer sozinho? – perguntou ela a seu noivo, que ficou um pouco surpreso. – Eu estou cansada depois de caminhar tanto hoje. Acho que vou para cama deitar.
- Se quer assim, por mim tudo bem – concordou ele, com olhos que estranhavam tal ação. Joana levantou-se e caminhou calmamente para fora da sala, sendo seguida com os olhos de seu noivo até certo ponto.
Na sala da recepção, num canto mais escondido da vista do salão, Joana e Florisval se reencontraram.
- O que está fazendo aqui? – perguntou ela, não escondendo sua surpresa.
- Joana, antes de tudo, tem algum lugar onde possamos conversar mais à vontade? – perguntou ele, num tom baixo, como se não quisesse ser notado naquele lugar.
Minutos depois, ambos se encontravam no terraço da hospedaria. Um lugar bem quieto, e um pouco frio por estarem ao ar livre. Dali, eles podiam ter uma ampla vista da cidade que não chegava a ser tão grande, mas conseguia esconder parte dos campos que a rodeavam. Os dois pararam a alguns centímetros da ponta do prédio e se entreolharam.
- Florisval, o que veio fazer aqui? – perguntou ela.
- Bem melhor agora. Eu não podia entrar lá, já que o Adler também estava naquela sala. – Joana quase se engasgou ao ouvir.
- Você sabe sobre ele? – perguntou bem nervosa e surpresa.
- Sim – respondeu o camponês, num tom melancólico, pois sabia que aquilo a magoaria. – Um amigo meu que é mago ouviu de um de seus guardas. Ele acabou me contando tudo. Eu sei o que você quer, Joana. – disse ele a fitando nos olhos. – Você quer pegar o tesouro de seu pai, e por isso foi forçada a se casar com aquele cara. Mas, você não acha que está pondo sua vida em risco? – Joana não respondeu, apenas desviou o olhar para baixo. Florisval continuou. – Sei que é importante pra você. Não deve ser fácil ver um cara cruel como ele pôr as mãos naquilo que seu pai confiou a você, mas se você não for pegar esse tal tesouro, o Adler não poderá fazer nada, certo? Sendo assim, por que você não tenta começar uma nova vida? Basta apenas ter a coragem de largar isso tudo. É difícil, mas pense bem, você pode morrer se continuar.
- Não posso – disse ela calmamente, ainda sem olhá-lo. – Sinto falta dos meus pais. Se aquele tesouro estiver em minhas mãos, estarei perto deles novamente. Tocar algo que já teve proximidade com minha mãe e meu pai. É isso o que esse tesouro significa pra mim. É preencher o buraco que fizeram em mim, e dentro dele, no lugar dos meus pais, estará esse tesouro, onde os sentirei para sempre dentro de mim. Por isso, por favor, não insista. Eu não voltarei com minha decisão.
Florisval sentiu-se meio triste ao ver que a pessoa à frente se arriscaria tanto por aquilo. Ele fechou os punhos e a olhou determinadamente.
- Se é assim, eu também correrei esse risco junto a você. Vou lhe ajudar a recuperar o tesouro do seu pai.
- Florisval, não...
- Joana! – Interrompeu-a. – Desde que meus pais se foram, você foi a pessoa mais maravilhosa que surgiu na minha vida. Eu já disse isso. Sinto-me feliz quando você está perto, não quero perder esse sentimento. Por isso, vou ajudá-la. – Florisval tirou uma das flores de seu colete e a entregou para Joana.
- Uma flor?
- É uma “Rosa do ligamento”. Não é uma flor comum... – começou a explicar enquanto Joana a examinava. – ... é uma flor mágica.
- Mágica?
- Sim. Olhe! – O camponês tirou a flor restante de seu colete e a mostrou. As duas eram idênticas. – Quando duas “Rosas do ligamento” estão bem próximas, elas ficam numa coloração azulada bem forte, entretanto, quanto mais distante elas ficam uma da outra mais claras elas vão se tornando, até o ponto em que o azul desaparece, e ambas as flores tornam-se brancas. – Florisval tirou seus olhos das flores e os direcionou à Joana. – Quando partir com Adler, para procurar o tesouro ao amanhecer, eu saberei onde você está. Portanto, não permitirei que se afaste de mim. Quando a flor ficar nessa cor estarei bem perto de você. Eu e meu amigo mago vamos recuperar o tesouro e salvá-la antes que Adler faça alguma coisa. Por favor, não insista em me fazer desistir, eu não voltarei atrás com minha decisão.
Joana ficou admirada com aquilo, e sorriu mesmo não assentindo com a decisão dele. Naquele instante, ela sentiu um feliz sentimento dentro dela batendo cada vez mais forte. Algo que de maneira nenhuma pensou em sentir durante sua missão em achar o tesouro. Sua vida estava tão triste e pesada, como se estivesse caminhando para a própria morte, já que Adler era mais esperto que ela. Ainda assim, tinha esperança das coisas acabarem bem. E com a chegada do estranho floricultor, que agora já não era tão estranho, sentiu que suas esperanças foram infinitamente aumentadas. Ela sentia-se feliz e apaixonada, apesar da situação em que estava.
- Obrigada – agradeceu com um sorriso radiante.

. . . . . . . . . . .

Florisval caminhava feliz como nunca em meio à sua volta para casa na estrada do campo. Ele tirou a “Rosa do ligamento” do colete e viu que o azul estava se tornando cada vez mais claro, e mal via hora de vê-lo novamente mais forte.

. . . . . . . . . . . .

Joana olhava com um grande sorriso no rosto, a “Rosa do ligamento” em suas mãos. Deitada no quarto, ela aproveitava cada momento do que sentia.

. . . . . . . . . . .

Melvin, ainda sob o efeito da droga do floricultor, dormia no quarto de Bartolomeu. Mas em seu sono ele se encontrava em outro lugar.

As pétalas das flores tocavam suavemente o seu rosto. Melvin abriu os olhos e notou as flores bem próximas, e ao observar melhor o que havia em frente, notou um número ilimitado delas. Deixou seu corpo sentado, apoiando seus dois joelhos no chão e fitando a região ao redor.
- O campo de Florisval. – perguntou-se sobre o local onde se encontrava.
- Exatamente – proferiu uma voz atrás dele. O mago virou-se abruptamente e se deparou com alguém que não via há anos. Túnica branca, olhos cinzentos, e cabelos lisos e brancos até abaixo do pescoço, penteados para trás e repartidos na frente em inúmeras e pequenas mechas. Aparentava ser um jovem entre 20 e 25 anos. Este fitava o mago, com as mãos para trás.
- Oráculo... – reconheceu Melvin. Entretanto, ele desconhecia toda aquela juventude apresentada a frente. – É você?
- Um pouco diferente, devo dizer, mas ainda sou o mesmo. Tive que encolher um pouco os meus anos de vida por certos motivos. Mas essa não foi a razão da minha aparição. Faz apenas um ano, não faz, Melvin?
- Sim – levantou-se o mago, olhando-o de modo sério. – Mas é raro você aparecer para mim. Em seis anos, eu o vi apenas três vezes. Qual o motivo da visita repentina?
- Como você sabe, um Oráculo pode prever alguns eventos próximos, e eu previ um, envolvendo você.
- Eu?
- É por isso que estou aqui. Para alertá-lo sobre o que deve fazer para que tal evento não ocorra.
- O que vai ocorrer? – Melvin perguntou em seu tom sério, bem curioso e atento àquilo.
- Parece que algumas pessoas estão lhe pedindo ajuda pelo fato de ser um mago, estou certo? – Melvin não ficou surpreso, afinal ele era um Oráculo. – A solução é simples: não faça nada. –respondeu de maneira fria. – Vá embora o quanto antes, e deixe esse assunto de lado.
- O que vai acontecer se eu não fizer isso? –
- Você será descoberto.
- Por quem?
- Não use sua energia Volaki em grande quantidade – aconselhou o Oráculo lançando-lhe um sério olhar. – Eles estão perto.
- Quem está me procurando? – Melvin perguntou impacientemente.
- É melhor nem saber – respondeu ele virando-se e se afastando.
- Ei! O que vai acontecer com Florisval e Joana se eu não fizer o que você disse? Mencionou não ajudá-los, mas o que vai acontecer com eles se o fizer?
O Oráculo parou e encarou o mago virando seu rosto por cima do ombro. Ficou assim por um tempo, sem dizer uma única palavra. Em seguida, voltou a andar. Seu corpo foi desaparecendo lentamente.
- Ei! Oráculo! – gritou o mago inutilmente. Ele já se fora.


Melvin abriu os olhos ainda na cama, acordando sobressaltado. Sentado no colchão, respirou um pouco analisando o que tinha acontecido. Não havia sido um simples sonho, ele sabia. Uma das habilidades do Oráculo era entrar nos sonhos das pessoas para algum fim. Mas o que mais lhe perturbava era o seu aviso.
- Quem está me procurando? – perguntou para si mesmo, preocupado.
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