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Mundo Sombrio #04



Diante de um mago, Neal resolve contar o passado envolvendo Joana Goldin e Adler Collens. No campo florido, um camponês faz um pedido inesperado à Joana.



Capítulo 04

Pedido


Com o corpo suspenso e encostado a parede, o homem era encarado pelo mago, que fez mais uma pergunta.
- Por que estava espionando aqueles dois? – perguntou Melvin se referindo a Joana e Florisval.
- Eu... sou um guarda – respondeu o homem. – Eu protejo a moça chamada Joana. – explicou ele, ainda sofrendo por causa da força exercida pelo mago.
- Um guarda? – indagou Melvin, abaixando o seu cajado em seguida. O homem resvalou suas costas no muro antes de pousar seus pés sobre o solo. A telecinese sobre ele pareceu ter requerido muito de sua força física para suportá-la, o que se pôde notar em sua respiração ofegante. Ainda neste estado, ele fitou o mago à frente. – Você é mesmo um guarda que protege a Joana? – Melvin perguntou querendo uma confirmação.
- Sim. Me chamo Neal. Sou um dos guardas que protege a herdeira da família Goldin.
- Família Goldin? – repetiu o mago desconhecendo-a. – Me desculpe. Eu pensei que fosse alguém com más intenções, por isso usei a força bruta logo de cara.
- Sem problemas. Mas quem é você? – perguntou Neal olhando o outro de baixo pra cima. Foi quando chegou numa provável conclusão. – Você seria um... mago?
- Mago Melvin – respondeu ele.
- Eu sabia. Pelo o que fez comigo agora a pouco já podia desconfiar.
- Me diga, Neal. Por que estava espionando-a daqui? Não seria mais fácil se ficasse perto dela, mas distante o suficiente para não ouvir a conversa entre eles. Parece que a está vigiando em segredo – disse o mago mostrando seu ponto de vista e querendo uma resposta por tê-lo encontrado naquele lugar.
O guarda hesitou um pouco em contar. Ficou pensativo se poderia dizer aquilo, mas não ganharia nada dizendo uma mentira. E, além disso, contaria para um mago, alguém que com certeza podia confiar pelo o que essa classe representava.
- Sim, estou vigiando em segredo, supostamente.
- Supostamente? –indagou o mago.
- Na verdade, Joana sabe que estou a espionando de longe. Mas acontece que foi uma ordem de seu noivo para que um dos guardas a vigiasse quando ela saísse. E temos que fingir que a cumprimos.
- Mas por que isso? – Melvin perguntou não compreendendo. Neal suspirou e fitou o mago com seriedade.
- Como você é um mago, acho que não há problemas em contar. Nenhum dos guardas ou Joana contaria isso a alguém, pois é um assunto que diz respeito apenas à família Goldin. Mas no seu caso, posso abrir uma exceção, se quiser saber.
- Agora que tocou nisso, por favor, conte-me – pediu o mago gentilmente, bastante interessado no que o outro escondia.
- A família Goldin vem de uma linhagem nobre, porém, nos últimos anos só se resumiram a pai, mãe e filha, já que os restantes foram perdidos lamentosamente naquela guerra. Entretanto, há mais ou menos quatro anos, a mãe de Joana faleceu de uma doença. Então ficaram só pai e filha. Apesar disso, os dois viviam felizes naquela casa, e nós, os guardas que protegemos aquela família, garantimos a felicidade deles. Somos muito gratos, pois graças a eles, deram uma nova vida para pessoas que não tinha nenhuma. Éramos apenas pobres tentado sobreviver, e o senhor Boris, pai de Joana, nos acolheu e nos deu uma nova vida. Tudo estava indo bem, até um reencontro entre o pai de Joana e um outro homem de família nobre: Silmor Collens – Os olhos de Neal se estreitaram ao pronunciar o nome dele. Melvin ficou ainda mais atento. – Ele era um grande amigo do senhor Boris, e depois que os dois colocaram a conversa em dia, Silmor propôs um acordo. Algo que poderia aumentar a riqueza de ambas as famílias, já que suas linhagens estavam ameaçadas por terem somente dois membros cada. A família Collens também tinha apenas pai e filho. A proposta... – Neal fitou o mago seriamente. –... era um casamento entre seus dois filhos: Joana Goldin e Adler Collens. Claro que de início Joana não aceitou, e seu pai foi a pressionando cada vez mais, pois pensava que aquilo era o melhor para a sua filha. Os meses passavam e Adler e Silmor visitavam a casa com mais frequência. E então, há quase uma semana atrás, um triste dia chegou.
- A casa da família Goldin pegou fogo, e Boris morreu lá dentro, não foi? – perguntou o mago antecipando a revelação do guarda, que ficou surpreso ao ouvir aquilo.
- Como sabe sobre isso?
- Eu encontrei Adler numa taverna não faz muito tempo. O seduzindo na conversa de bar ele me contou algumas coisas.
-Você o encontrou... O que ele contou?
- Quase tudo que você narrou sobre este acordo entre as famílias. Joana foi obrigada a se casar com ele para preservar sua riqueza, já que tudo de valor na casa foi queimado. Mas ainda assim, eu não consigo entender. Pelo o que você me contou, ela não estava tão disposta com este casamento. Mesmo perdendo toda a riqueza que possuía, isso não a impedia de viver a vida da maneira que quisesse sendo rica ou não. E, além disso, não sei se Joana é mesmo ambiciosa a este ponto. Mesmo não a conhecendo, posso concluir que ela é uma jovem gentil. Forçar-se a se casar com alguém apenas para manter sua posição na nobreza não me parece um motivo muito forte para alguém que não queria se casar. Por que motivo então ela fez isso?
- Há um segredo. Algo que veio do avô de Joana, um tesouro, pelo o que sei.
- Tesouro? – perguntou Melvin que se aprofundava cada vez mais naquela história.
- Sim. Nós, os seis guardas, soubemos do próprio Boris que havia um tesouro na família que deveria ser conhecido por sua própria filha. Entretanto, ele não disse o que era e muito menos sua localização. Ele não contou isso à filha ou aos guardas, e seu maior erro foi ter contado para o seu melhor amigo, provavelmente sob tortura antes de sua morte. O segredo da localização do tesouro está com Silmor Collens.
-O pai de Adler? – Melvin disse, um pouco surpreso.
- Deve ter sido pouco antes de sua morte, o senhor Boris foi forçado a contar isso à outra família. Neste dia, Boris dispensou os guardas. Adler, Silmor e mais alguns capangas torturaram nosso patrão em sua própria casa, e depois de conseguirem o que queriam da boca dele, começaram a incendiar o lugar. Claro, eles aproveitaram e levaram parte da riqueza em cédulas e ouro que poderiam ser perdidas no fogo. Eu e o restante dos guardas, acompanhados de Joana que estava fora, chegamos depois que o fogo já tinha se alastrado pela casa inteira.

. . . . . . . . . .

- Pai! Pai! – Joana gritava desesperadamente pela única pessoa de sua família, além dela. Suas lágrimas caiam na visão flamejante poucos metros à frente. Ela queria entrar para tirar o seu pai do fogo, mas era segurada por Neal e pelos outros guardas. Quando não agüentou mais gritar pelo seu pai, e sem forças para se soltar, desabou no chão num lamentável choro de sofrimento. Sob a escura noite daquele dia, uma escura lembrança nasceu, tornando-se um dos momentos de maior sofrimento em sua vida.
. . . . . . . . . .

- Perder a família inteira é muito triste – continuou Neal, num tom lamentável. – Logo após esse trágico fato, Adler e seu pai apareceram para Joana ascendendo ainda mais a proposta. Ela disse que precisava pensar mais sobre isso. Foi então que neste mesmo dia, eu ouvi uma conversa entre Adler e Silmour. Eles sabiam a localização do tesouro da família Goldin. E não apenas isso, para pegar esse tesouro era necessário que a herdeira da família estivesse casada para confiar o mesmo tesouro a próxima geração. Disseram que o tesouro era guardado por alguém que só o daria sob esta condição. Fui relatar isso a Joana, e ela tomou a corajosa decisão de casar-se com Adler apenas com o interesse em saber onde estaria o tesouro que seu pai confiaria a ela. Como as duas famílias se uniram, nós tínhamos que obedecer a ordem de ambas, mas Silmor e Adler nos ameaçaram caso contrariássemos qualquer ordem deles. Por isso temos que fingir obedecê-los, quando na verdade, só temos lealdade a Joana. A qualquer momento, Adler pode levar Joana ao local onde o tesouro está escondido, e depois que eles o pegarem, vamos matá-lo.
- Assassinar Adler após ele pegar o tesouro... – disse o mago refletindo. – Odeio esse tipo de idéia... E se por acaso, ele matar Joana antes que vocês façam isso?
- Significa que... nós falhamos. Mas não há outro jeito. Esse tesouro é a única coisa que restou da família e Joana está disposta a tudo para pegá-lo. Não é questão de valor material, e sim paternal. – Neal caminhou até o muro onde antes, espionava as duas pessoas no campo. – Mesmo não parecendo, ela é uma pessoa muito madura, e está disposta a correr todos os riscos com isso.
- Por que vocês não usam o mesmo jogo que fizeram com Boris? Torturem-no até falar, e ele cederá priorizando sua vida.
- Ele mesmo disse. “Mesmo que eu morra, o segredo continuará comigo. Por um tesouro maior vale pôr a minha vida em jogo. O mesmo vale para o meu pai.” É por isso que esse é o único jeito de recuperar o tesouro que Joana tanto quer.
- Entendo. É mesmo uma missão perigosa – Melvin disse olhando para a mulher que conversava com o floricultor. Seus olhos passaram a visar o camponês. “Nesse caso, não sei se essa seria a mulher ideal para você, Florisval. Ela carrega um peso o qual não vai se livrar até a hora certa. Entretanto, ambos estão sozinhos. É algo em comum, mesmo vindos de vidas distintas. Terei que contar isso a ele, se não...”
- Ah, Melvin. Eu estive pensando, se talvez... – Neal começou a falar, mas foi interrompido pelo mago.
- Pudesse ajudá-lo? – Melvin completou a idéia do guarda com sua pergunta. O mago então o fitou. – Gostaria de ajudar a recuperar o tal tesouro. Entretanto, eu não poderei fazer nada para impedir Adler.
- Mas por quê? – perguntou Neal, surpreso.
- Eu... tenho meus motivos – proferiu o mago, meio receoso. – Na verdade, os magos não se envolvem com qualquer problema que encontram. É preciso analisá-lo para não criarem desavenças com outras pessoas. Nesse caso, terei que impedir os Collens de pôr a mão neste tesouro. Mesmo impedindo a ambição desta família, acha que não existem outras “famílias Collens” que nem esta por aí? Se eu impeço uma família, estou dizendo que posso impedir as outras. E quando estas souberem que os magos estão afrontando qualquer tipo de ambição que elas tenham, será um palco perfeito para uma guerra entre os magos e estas famílias. É preciso ressaltar que elas acumulam uma parte significativa da riqueza de todo o mundo. Elas não se contentarão com isso, e porão a vida de muitas pessoas em risco. Embora, magos tenham a missão de levar o mundo para um caminho melhor, não é simplesmente nós dizermos e fazermos o que é certo. Temos que pensar nas conseqüências e mudanças que cada ato nosso fará no mundo. – Ele centrou-se novamente em Neal. – Por isso, um pedido desse requer muito de minha reflexão.
O guarda assentiu depois de ouvir toda aquela explicação.
- Está bem. Eu entendi. Mas mesmo com sua ajuda ou não, sei que vamos conseguir. Iremos recuperar aquilo que é precioso para ela. – disse Neal, fitando Joana no campo florido.
- Eu acredito que sim – Melvin o incentivou.

. . . . . . . . . . .

Joana continuava surpresa, olhando para o rosto contente do floricultor que detalhou ainda mais o pedido.
- Não quer ficar aqui? Cuidando desse campo ao meu lado.
- Eu... – a mulher não sabia o que responder diante daquele pedido. Aquilo foi sem dúvida uma surpresa para ela. Mas algo naquela expressão de Florisval e em sua proposta lhe confortava. A possibilidade de uma nova vida, uma que seja feliz. A reconstrução de uma família e o retorno das flores que lhe acompanharam um bom tempo no decorrer de sua existência. Entretanto, um motivo não a deixava dizer sim. – Sinto muito – lamentou desviando o olhar e passando a fitar o belo campo florido. – Eu não posso aceitar isso.
- Por quê? – Florisval perguntou um pouco surpreso, mas não totalmente.
- Tenho meus motivos. Tenho... – ela hesitou um pouco e continuou, com uma expressão de quem escondia algo muito profundo. – ...uma coisa importante para fazer.
Aquelas palavras não podiam ser derrubadas, visto que pareciam vir de algo bem relevante na vida dela. Mas a cada segundo que o floricultor olhava para o rosto daquela mulher, que ainda fitava o campo, mais ele se enchia de coragem para não desistir do pedido. Algo não o fazia parar de tentar. Algo que brotava de um sentimento que raramente ele sentiu na vida. Pensou ele se poderia ser amor. E se fosse, não queria largar aquela sensação de maneira nenhuma. E também, não queria largar aquela jovem de forma alguma.
- Essa coisa é tão importante a ponto de desperdiçar a chance de obter uma nova vida? – perguntou ele, causando uma certa surpresa em Joana, que voltou seu olhar para o camponês. – Eu não sei o que você tem que fazer, mas pelo o que você me contou da sua história, é uma pessoa que no momento se encontra infeliz e sem um lar. Eu estou te oferecendo um, e ficaria muito feliz se aceitasse.
- Você quer que eu more aqui com você?
- Não exatamente morar aqui comigo, mas eu pagaria um lugar pra você ficar na cidade. E assim, poderia me ajudar na floricultura e no campo. – disse o camponês, entusiasmado. – Seria muito bom ter você por perto, pois... eu... – Florisval sentiu-se encabulado em dizer todo o resto. Joana lhe fitava cada vez mais atenta. O floricultor tomou coragem e ascendeu todo o seu sentimento em suas palavras. – Eu gosto muito de você. Quando eu a olhei pela primeira vez na loja, eu tinha certeza de que poderia me dar muito bem com você. Para alguém que vivia sozinho, eu me senti tão feliz como nunca me senti antes.
A expressão impressionada de Joana permaneceu por alguns segundos até ela soltar um sorriso admirável.
- Eu também senti isso quando nos vimos – aquela resposta encheu o rosto do camponês de felicidade. – Eu vou pensar no seu pedido. Darei a reposta amanhã de manhã. – disse ela pondo-se a andar para sair do campo seguido do rosto apaixonado do camponês. – Me espere até lá. – terminou ela dando uma última olhada para ele antes de se afastar mais. Florisval correu seus olhos por ela. Mesmo sem se olharem, ambos estavam esboçando felizes sorrisos.
“Poderei eu...” pensava Joana ”... começar uma nova vida?” As palavras de Florisval e o seu sentimento por ele cresciam cada vez mais dentro dela, a ponto de seu sorriso não se desmanchar por um longo tempo em seu caminho de volta para casa.

. . . . . . . . . . .

- Ela está indo embora – observou Melvin. Ele e o guarda viam Joana se afastando do campo e tomando a estrada para a cidade. – Você vai segui-la, não vai? – perguntou o mago olhando para Neal.
- Sim – respondeu o guarda. Mas antes de ir também, ele deu uma última olhada para o mago e fez uma pergunta. – E quanto a sua ajuda?
- Eu irei pensar no caso. Mas julgo necessário alguns dias para que eu possa dizer um “sim”.
- Por favor, não demore. Sinto que estamos perto do local do tesouro. Mais três dias de viagem, e chegaremos à casa da família Collen. Antes disso, Adler com certeza vai ir ao lugar do tesouro com Joana. É nesse momento que agiremos.
- Farei o possível para ser breve – disse o mago gentilmente.
- Joana e Adler estão na hospedaria “Meredith” e os outros guardas estão em hospedarias próximas. Quando se decidir, passe por lá, que iremos te ver. – Estava para andar, quando se lembrou de mais uma coisa. – Ah, e não conte a ninguém o que disse a você.
- Nem para o Florisval? O cara com quem Joana conversou. Ele é um amigo meu. – perguntou o mago.
- Não. E além do mais, Joana deve ter ocultado isso dele.
- Certo – assentiu o mago. Neal agradeceu e se afastou. Melvin ficou o fitando por um tempo, vendo sua figura sumir após muitas árvores à frente. Ele voltou seu olhar para Florisval que permanecia parado no campo.
Em questão de poucos minutos, Melvin estava apenas a alguns metros do floricultor.
- No que está pensando, Florisval? Está a um bom tempo aqui parado – disse o mago se aproximando. Florisval virou-se com seu rosto ainda feliz.
- Eu estava...
- ...com a Joana. – interrompeu o mago para a surpresa do camponês.
- Como sabe disso?
- Eu estava por perto quando os vi aqui. O que andaram dialogando pra conversa se prolongar tanto?
- Eu... – Florisval não conseguia desatar seu sorriso e esconder sua felicidade. – fiz um pedido a ela.
- Pedido?
- Disse que poderia morar aqui na cidade e me ajudar com a loja e com o campo, para sempre. Ela me contou que estava se sentindo sozinha. Por incrível que pareça, ela é muito semelhante a mim. Acho que nosso encontro foi coisa do destino, não acha? – dizia o camponês cheio de alegria. Melvin estreitou os olhos um pouco, estranhando o que Florisval acabara de contar.
- Semelhantes? O que ela contou sobre Adler a você? – perguntou o mago.
- Adler? – o floricultor desconheceu aquele nome. – Quem é? – O mago suspirou.
- Parece que ela não contou nem o início dessa história. – proferiu o mago. Florisval fez uma cara de quem não entendia.
- Como assim?
- Vamos entrar. Eu vou lhe contar o que sei sobre ela.

. . . . . . . . . .

- Joana – chamou Neal se aproximando da jovem no meio da estrada. Estavam voltando para Govenrrar pelo mesmo caminho, com os campos com poucas árvores ao lado.
- Ah, Neal – reconheceu ela com um sorriso.
-O que conversava tanto com aquela pessoa? – perguntou pondo-se a andar ao lado dela.
- Algumas coisas. Bem, acho que terei um lugar para voltar quando tudo acabar. Eu ficarei aqui nessa cidade. Aquela pessoa se tornou um grande amigo meu. – explicou ela, ainda sorrindo, com seu olhar a frente.
- Amigo?
- Apenas uma pessoa que conheci há pouco tempo. Mas muito adorável, com certeza. – As palavras de Joana faziam Neal pensar se ela gostou do rapaz. Queria perguntar isso, mas achou melhor contar sobre o que houve com ele antes.
- Eu também conheci uma pessoa agora a pouco – disse ele despertando a atenção dela. – Ele me achou quando eu estava vigiando você no campo. Era um mago.
- Um mago? – Joana ficou surpresa e parou de caminhar fitando o guarda em seguida.
- Esse homem encontrou Adler por acaso, em uma taverna na cidade, e ficou sabendo sobre você. Parece que esse mago é um amigo do seu novo amigo, a pessoa com quem conversou agora. Eu contei tudo pra ele, todos os pontos da história, porque queria a ajuda dele. Com um mago tudo ficaria mais fácil. Entretanto, ele explicou os motivos para não se envolver e disse que irá pensar sobre o assunto.
- Esse mago é amigo do Florisval?
- Esse é o nome daquele camponês? Sim. Foi o que ele me disse – Neal pôde ver certo tormento no rosto de Joana.
- E se ele contar tudo para o Florisval? – perguntou ela, um pouco aflita.
- Eu pedi a ele para que não contasse nada – disse Neal, confortando-a.
- Que bom. Eu não quero que ele saiba sobre isso – suspirou aliviada, pondo-se a andar novamente.

. . . . . . . . . . .

Quase uma hora depois, Florisval, sentado à mesa de sua cozinha ainda absorvia aquela inesperada informação sobre a vida de Joana. Adler? Silmour? Tesouro? Nada daquilo fazia sentido pra ele.
- Melvin. Você tem certeza do que está me contando? – perguntou o camponês com uma aparente agonia em sua fala.
- Foi o que ouvi do Neal, um dos guardas de Joana.
- Isso não pode ser verdade – disse ele olhando para baixo, um pouco em choque se forçando a não acreditar. – Tem algo errado, Melvin! – exclamou fitando o mago. – Eu tenho certeza que ela era mulher que pensei que era. Quando ela me contou a história dela, eu logo de cara me identifiquei e pensei que nós seríamos felizes. Estava indo tudo tão bem, tudo tão certo. Tenho certeza que ela era a pessoa certa. – As palavras de Florisval soaram desesperadas.
- Florisval, eu vou dizer o que há com você – disse o mago calmamente. – Você fez uma visão errada de Joana. Uma pessoa que sempre viveu sozinha e esperou ansiosamente para encontrar a mulher de sua vida. Uma imagem utópica é o que você tem dela. As pessoas nem sempre são como esperamos que fossem. Apenas porque você viu uma semelhança entre suas vidas não significa que ela seja tudo aquilo que você imagina dela. Afinal, ela só contou um pedaço de sua história. Ela ocultou muitas verdades de você, pois essas com certeza fariam a diferença e quebrariam de vez qualquer semelhança que vocês tivessem entre si. Ela não revelou isso tudo para não envolvê-lo. E para ser franco, eu tenho minhas dúvidas se ela vai mesmo aceitar o seu pedido.
- Ela vai aceitar! – disse o camponês em um primeiro momento bem confiante, mas fraquejou em seguida, pela crescente dúvida que se apoderou de sua determinação. – Ela vai... aceitar. – sua voz já não era tão determinada, e sim duvidosa. – Droga! – gritou ele socando a mesa.
- Acalme-se, Florisval. Você não pode fazer nada até ela decidir o que é melhor para a vida dela.
- Não posso decidir. É claro que posso! – exclamou ele com uma leve raiva, levantando-se da cadeira. – Posso parar esse Adler! Ele é o desgraçado que está prendendo a vida dela. Vou forçá-lo a falar onde está o tesouro do pai dela, e assim ninguém precisará correr riscos.
- Não seja estúpido, Florisval! – disse o mago já não tão tranqüilo. – Se fizer isso, você mesmo vai se pôr em risco. Além do mais, o próprio Adler disse que está disposto a morrer pelo segredo. Torturá-lo até falar não vai adiantar em nada.
Florisval se hesitou em falar, vendo que o mago tinha razão. Mas aquela situação ainda o perturbava, e ficar sentado não fazendo nada, não era o que queria.
- Nesse caso, vou ir para a cidade, e ajudar ela e os guardas. Vou segui-los durante a viagem, e quando chegar a hora eu também ajudarei.
- Então tenha paciência até amanhã de manhã.
- Mas não seria melhor ficar na cidade, para caso deles fugirem antes?
- Acho pouco provável que isso aconteça. Ela disse que lhe daria uma resposta de manhã, e mesmo se não fizer isso eles só partirão no amanhecer. Não fique afobado! É até melhor que deixe os garotos fecharem a loja hoje por você, como os instruiu antes de sair. – Florisval finalmente assentiu. Ele olhou para o mago.
- Você também irá ajudar, não é?
- Eu não sei. Preciso pensar sobre isso – Melvin disse refletindo.
- Pensar sobre o que? O que a Joana está tendo é uma injustiça. O ato que Adler está para fazer é condenável, não é? Magos não permitem coisas assim.
- É claro que não. Mas eu já lhe expliquei antes o mesmo que disse para o Neal.
- Mas você tem o poder pra impedir que uma coisa ruim aconteça. O Adler não vai ter a mínima chance se você estiver lá. Aquele cara vai acabar morrendo por você e pelos guardas e pagando pelo o que fez.
- Cale-se! – gritou o mago, furioso. Ele olhava para baixo, não triste, mas frustrado. Depois, mais calmamente, ele tornou a falar. – Não é tão simples assim. – proferiu saindo da cozinha.
- O que houve com ele? – O floricultor ficou sem entender o porquê daquela repentina fúria.
Melvin entrou no cômodo o qual dormira na noite passada, e ficou parado, refletindo.
- Matar... – murmurou. – Eu... não faço mais isso. – terminou ele com uma enorme frustração e raiva que se refletia em seus punhos cerrados.
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