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Sagrada Justiça #3



Ainda perturbada pela visões que teve, Sagrada Justiça, com a ajuda de uma amiga, procura solucionar alguns mistérios por contra própria enquanto um grupo dedicado a essa tarefa faz importantes revelações. E legados familiares surgem querendo vingança.



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III. “Abraão”

Por: Anderson Oliveira


A brisa do mar traz um estranho perfume de flores. Estranho mesmo. Um perfume tão delicioso vindo do mar. Mas todo o ar está perfumado, desde as planícies até os montes. É como se a poluição do mundo civilizado não existisse. A areia dessa praia é tão branca, como se fosse intocada e imaculada da imundície da espécie humana. É uma manhã tão gostosa que... que até parece um sonho.

Fátima caminha na areia. Seus rastros logo são apagados pelas ondas do mar. Ao fundo ela vê um bosque, um campo com árvores e mais distante há uma cadeia de montanhas nevadas. Seus cabelos loiros se embaraçam no vento que vem do mar, tapando seus olhos e também quase levantando seu vestido. Vestido? Desde quando ela usa vestido?

Antes de puder se dar conta da resposta, ela ouve um som ensurdecedor que parece cruzar os céus. É como uma trombeta do apocalipse que faz até a terra tremer. Então ela vê no céu um objeto voar expelindo um rastro de fogo e fumaça. Um objeto cônico, com asas que lembram uma meia-lua. É uma espécie de avião. Curiosa, ela alça voo e decide seguir aquele veículo.

Ele é rápido. Passa pela floresta sem dificuldade, e logo está perto das montanhas. Fátima pode ver que cruzou um grande rio, nascido do pé de um monte. Então eles atravessam as montanhas. Fátima sente o ar frio naquela região. Depois sente que a nave faz uma curva, se dirigindo agora para o sul. Ela segue. Passam então por uma densa floresta de árvores iguais. São cedros. Imponentes e majestosos cedros que se erguem numa paisagem bela. E no fim dessa floresta, Fátima vê que a nave começa a pousar.

Seguindo seu rastro de fumaça, ela chega até seu ponto de aterrissagem. A surpresa e o assombro tomam conta de si, quando constata que ali há uma enorme plataforma de pedras, onde cada bloco de pedra é maior que uma casa de dois andares. A nave pousa ali, no meio de outras naves parecidas. Ali há pessoas. Pessoas enormes. São gigantes. Três metros, no mínimo. Ela também vê, numa parte mais distante, outros objetos voadores, muito maiores, e estes postos na vertical, como torres ou... foguetes.

Onde fica este lugar? Onde ela está? Ao redor de toda a plataforma, muitos daqueles cedros. Sem dúvida, esse seria o país dos cedros. O mar não é muito longe, fica ao oeste dali. Montanhas, um grande rio. Ela quer saber onde está. Então resolve voar para mais alto, para ter uma visão mais ampla. Assim vai subindo nas alturas, por cima das poucas nuvens, vendo a plataforma se afastando aos poucos. E agora ela sabe que claramente está num sonho, pois consegue ver uma amplitude do mundo que só seria possível se deixasse a atmosfera e olhasse do espaço vazio.

O que ela vê é a região que conhece dos mapas escolares como sendo o Oriente Próximo, onde reconhece a localização da Terra Santa ao sul daquela plataforma. Também pode ver dali, se voltando para sudoeste, picos elevados, que projetam sua sombra no que parecem ser setas de indicação. É o nordeste da África. O Egito. E ali são as pirâmides de Gizé. Entre a plataforma e as pirâmides, bem no meio do caminho, está a península do Sinai. O monte Moshé, onde Moisés recebeu as tábuas da lei. Tudo isso ela sabe dado as aulas de religião. Mas, o que ela vê a seguir não estava em nenhum livro.

Do Sinai, muitos daqueles “foguetes” se levantam em direção ao céu. Curiosa, ela se aproxima da terra, e então toda a admiração que teve ao ver a plataforma da terra dos cedros se torna mínima ao contemplar o que ela não pode descrever senão como um “espaçoporto” avançado e formidável. Vendo de perto um foguete ganhar aos céus, Fátima o segue com os olhos, até ver, estarrecida, que compartilhando o céu com o sol quente e branco, há um outro sol, esse num tom de vermelho com dourado, assombroso e venerável ao mesmo tempo, para onde todos os foguetes se dirigiam.

Ainda se surpreendendo com a visão desse segundo sol, ela ouve o estrondo de múltiplas detonações. Voltando seus olhos para a terra, Fátima viu a planice do Sinai arder num ataque bélico e fumaça densa e cônica subir ao céu. Viu também, ao noroeste do Sinai, próximo a um grande lago, evento igual destruir algumas cidades na baixada daquele grande lago. A fumaça subiu ao céu como um cogumelo. Uma detonação nuclear.

“Abraão viu a mesma coisa. Não deixe que aconteça de novo, Fátima!”

Essa última visão foi tão assustadora, que Fátima despertou do seu sonho. O suor empapava seu travesseiro e suas roupas. Seu peito inflava e ardia buscando doses generosas de ar. Sentia que seu coração estava prestes a sair pela boca. Nunca antes se sentira assim. Nunca antes tivera um sonho tão estanho. E olha que sonhos estranhos ela tem tido aos montes nos últimos tempos.

Ainda era quatro da madrugada de um sábado. Ela não tinha nenhum compromisso que a obrigasse a levantar cedo, mas tal sonho a perturbara de tal forma que não podia mais dormir. Saltando da cama, flutuando pelo quarto sem tocar no chão — como costumava fazer desde que aprendeu a voar — ela foi até o seu computador e o ligou. Queria procurar na internet alguma informação que a ajudasse a compreender o sonho. Porém constatou que estava com acesso restrito a qualquer site de pesquisa. Somente a página do Vaticano de entidades católicas abriam.

Com certa revolta no olhar, ela foi até sua estante de livros e pegou seu velho atlas. Acendeu a luminária sobre a mesa bagunçada e buscou nos mapas a localização do lugar que vira no sonho. Usando Israel como referência, viu que a região dos cedros é o atual Líbano (que até hoje, em sua bandeira, ostenta a figura do cedro). E viu com grande surpresa, que a distância entre Gizé e o Sinai, era o mesmo entre o Sinai e o norte do Líbano, região onde estaria a plataforma.

Buscando outro livro, desta vez um almanaque, procurou os dados específicos daquele país, e num mapa mais detalhado, viu que a localização da plataforma, calculando a distância do mar (Fátima se orgulhava de sua facilidade por cálculos) ela supôs que a região seria ao nordeste do Líbano. Tal região, no mapa, assim como no texto de apresentação, recebe um nome. É um patrimônio cultural, hoje chamado de Baalbek.

— Baal! — murmurou, se lembrando da passagem bíblica da luta do profeta Elias contra a maligna Jezabel e seu deus Baal. Não menos estranho, é que tem a impressão, a vaga lembrança de que o misterioso vilão que acabou com a vida do santo Shalom teria berrado para todos ouvirem que ele era o próprio Baal. O que teria ele a ver com isso?

Instigada a descobrir, ainda com os ecos da moribunda Condessa lhe dizendo para buscar por respostas, Fátima olha a janela ao seu lado. Hesita, pensando que estaria desobedecendo ordens estritas do próprio Papa, mas sua curiosidade adolescente falou mais alto, e logo ela estava com seu traje branco e azul, voando na surdina até cruzar os portões do Vaticano, sem alarmar os guardas suíços de plantão. Debaixo do braço seu almanaque para o caso de se desviar da rota. É uma distância considerável da Itália até o Líbano, mas se ela usasse sua velocidade máxima, que francamente ela não sabia qual era, pois tinha medo de forçar seu corpo, ela chegaria ao seu destino em poucos minutos.

Verdade, e em quarenta e dois minutos já avistava a costa do Líbano. Não usou sua força máxima, ainda teve medo, mas já lhe era suficiente tal velocidade. O sol já nascera, afinal, avançou alguns fusos-horários. Penetrando em espaço aéreo libanês, temeu por ser avistada pelas autoridades, e resolveu voar acima das nuvens, o que não ajudou, pois não havia ali muitas nuvens para se esconder. Mesmo assim, não foi detectada por nenhum radar. Sendo vista apenas por poucas pessoas que, entre um afazer e outro, tiveram a ideia de olhar para o céu justamente naquela hora.

Tão logo ela se aproximou de Baalbek, região de domínio muçulmano xiita, o que a deixou mais apreensiva. Mas tão logo cruzou o grande rio Orontes e o Vale do Bekaa, ela avistava a região de Baalbek. Para sua decepção, não estava ali o esplendor de seu sonho. Havia sim as ruínas de um templo – um grandioso complexo de templos, é verdade – no estilo romano. O maior deles seria o templo dedicado a Júpiter, o maior de todo o Império Romano. Fátima desceu furtivamente até mais perto, e pôde perceber que a grande plataforma ainda estava lá, sob as ruínas do templo. De fato, os romanos, assim como outros antes deles, edificaram templos sob a plataforma já existente. Fazendo dali ponto turístico para visitantes de todo o mundo.

Fátima ainda pode se admirar com a opulência de seus blocos, realmente grandes, feitos de uma única peça. Sem dúvida, homem algum poderia ter cortado aquela pedra de alguma pedreira – possivelmente há muitos quilômetros dali –, esculpido os blocos e os assentados como estão. Perto desses blocos, os usados nas pirâmides do Egito são mínimos. Seria, Fátima começava a pensar, obra de gigantes.

Porém antes que pudesse prosseguir em suas pesquisas, viu a aproximação de policiais libaneses e alçou voo a toda a velocidade, deixando para trás uma nuvem de poeira que deixou os guardas confusos. Pairando nos céus, ela resolveu ir agora para o Sinai. Corrigiu seu curso para o sudoeste, sobrevoando boa parte do Líbano e também Israel. Viu ao longe Jerusalém e passou rapidamente pela faixa de Gaza. Então, minutos depois, chegou no deserto do Sinai.

Pousou entre desfiladeiros áridos e dali teve uma ampla visão a sua frente. Um mar de pedra e areia composta por calcário tornava a tudo ali uma imensidão bege como todos sempre imaginam como um deserto deve ser. Então ela viu, por todos os lugares, pedras de todos os tamanhos e formas com algo que as destacavam daquele mar de calcário: elas eram pretas. Se Fátima ainda se lembrava se suas aulas, sabia que o calcário tem sempre tons claros, então pedras escuras ali não era algo natural.

Resquícios de uma explosão que devastou aquele lugar há muito tempo.

O choque da conclusão a fez temer estar ali por mais tempo, como se alguma força do passado a arrastasse junto com a destruição. Por isso resolveu se dirigir de volta para o Vaticano.


Já amanhecia no Vaticano quando Fátima cruzou os muros em alta velocidade para não ser detectada pelos guardas enquanto os portões da Santa Sé são abertos. Entrando pela janela do seu apartamento, onde ela mora com duas freiras, a italiana irmã Constance e a portuguesa irmã Isabel, Fátima constata que as duas ainda dormem cada qual em seu quarto.

O sono das freiras é pesado e profundo, o que dá a Fátima tempo de trocar de roupa, guardar o almanaque que levou e voltar para sua cama. Porém o sono não lhe vem, muito menos ela o busca. Mesmo assim fecha os olhos e medita. Em êxtase ainda por sua viagem e com as conclusões a que chegou, percebendo que seu sonho tem grande fundamento, ela se recorda de uma outra visão-sonho recente.

A visão que teve quando foi à Romênia e confrontou a Condessa da Moldávia. Naquela visão, a cidade de ouro com a pirâmide em degraus, os poderosos no alto dela, adorados como deuses, a nuvem de fogo que pairava no céu de onde os deuses desceram e a detonação nuclear. Porém o que mais se repete em sua cabeça é a frase: “Abraão viu a mesma coisa. Não deixe que aconteça de novo, Fátima!” Inúmeras vezes ela ouve aquela voz familiar lhe dizer isso em seu subconsciente. Uma voz que há tempo ela não ouvia.

— Pai... — ela sussurra quase em transe, lembrando do seu anjo protetor que a visitava as noites quando era criança. Aquele que mais tarde se apresentou ao mundo como Super Justiça e depois morreu em circunstâncias mal explicadas.

Abraão viu a mesma coisa... é o que ela ouve antes de abrir os olhos com a luz irritante que entra pela janela. Ao mesmo tempo ouve a porta se abrir. Se sobressalta temendo que as freias suspeitassem de algo errado ou mesmo que alguém a tivesse visto entrando pela janela, mas seu medo logo passa quando ela olha e vê, com deliciosa surpresa e espanto ao mesmo tempo, um rosto amigo e reconforte.

Uma garota de baixa estatura, um pouco acima do peso, com cabelos entre o castanho claro e o loiro, olhos castanhos, vestida com uniforme colegial, com a mochila cor de rosa caída pelo ombro direito. No rosto salpicado de sardas, um sorriso sincero que parece ter prevalecido de um semblante de medo. A garota, após ter certeza de que a outra lhe reconheceu, lhe diz:

Bon diorno, ragazza!

— Paola! — responde Fátima largando o cobertor de lado e partindo para um abraço na sua melhor amiga. Porém a outra recua um pouco. E Fátima sabe por quê. — Oh... scusami... — se desculpando ela volta para trás.

Santo Dio...! — exclama Paola Graziano e dessa vez é ela que vai até Fátima e a abraça. — Sim, fiquei com medo da sua força, me desculpa. Mas chega de sentir medo de você. Desde aquele dia no Coliseu, quando não te deixaram mais ir à escola... Meus pais disseram para eu não me aproximar mais de você. Disseram que você era pericolosa. Daí então vi você in televisione, anunciada pelo próprio Papa!

— Eu... — Fátima tem na mente tais fatos, desde o dia no Coliseu com o jovem Giusepe e aquela cena na Praça de São Pedro. Tudo isso parece para ela vagas lembranças. — Não entendo direito como acontece... digo da minha força... esses... poderes...

— No dia em que te apresentaram como la Sacra Giustizia disseram que você é filha dos anjos. Talvez seja isso. Apesar de eu não crer mais em anjos ultimamente... — Paola vira o rosto num claro sinal de desapontamento.

— O que houve? Você sempre foi tão mais católica do que eu.

— Nada importante. — Paola mente, mas a resposta sobre tal assunto será revelada em breve. — Mas me conte, bella, como estão as coisas pra você? Foi uma luta passar pelos guardas suíços e pelas duas freiras que te vigiam! Tudo isso é para ninguém vir te ver?

— Acho que é para não me deixarem sair, isso sim.

— Hmmm... eu suspeitava...

— Mas que bom que está aqui. Eu preciso falar com alguém.

E Fátima conta tudo que ocorreu até então. Suas visões de um passado remoto e misterioso, o anjo guardião que era na verdade seu pai, o Super Justiça dos jornais. Conta do confronto com a Condessa da Moldávia e seu concelho de buscar a verdade. Paola ouve tudo atentamente, em nenhum momento demonstrando desacreditar das palavras da amiga. Quando, depois de longos minutos, Fátima lhe diz que sua internet está censurada e que precisa fazer algumas pesquisas.

— Abraão. — completa Fátima.

Senza intoppi. Sem problemas. — Paola tira na mochila um netbook e o liga com um modem 3G conseguindo rapidamente o resultado de sua busca. — Veja isso: A história de Abraão começa no fim do capítulo 12 e vai até o 25 do Livro do Gênesis. Filho de Terã, marido de Sarah, pai de Isaac e Ismael, tio de Ló. Mas isso já sabemos... está na Bíblia... agora o que poucos sabem – apesar de também estar na Bíblia mas poucos levarem em conta – é que Abraão não era somente um velho pastor de ovelhas com barbas brancas e cajado como vemos nos filmes e pinturas. Ele era um grande general.

— General? — Fátima interrompe, tamanha a surpresa.

— Gênesis, capítulo 14, versículos 14 e 15: “Ouvindo, pois, Abrão que o seu irmão estava preso, armou os seus criados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito, e os perseguiu até Dã. E dividiu-se contra eles de noite, ele e os seus criados, e os feriu, e os perseguiu até Hobá, que fica à esquerda de Damasco.” O termo certo não seria “criados”, mas sim “soldados”. Uma tropa de mais de trezentos soldados montados em camelos.

— Camelos?!

— Quando o Senhor lhe disse, conforme o primeiro versículo do capítulo 12: “Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” O objetivo seria levar o General Abraão, à época chamado ainda de Abrão, e seu exército para defender o caminho de Haran contra a investida de outros exércitos, que Abraão derrota no capítulo 14. — Paola faz uma pausa, processando tudo que acabara de ler.

— Tem mais alguma coisa? Fala sobre a nuvem de fumaça? — pergunta Fátima curiosa.

— Tem uma coisa interessante. Abraão nasceu na antiga cidade de Ur. Chamada na Bíblia de Ur dos caldeus. Pois ficava no país descrito como Caldéia... — Paola faz outra pausa e agora fixa seu olhar ao de Fátima e conclui: — Caldéia era como chamavam a Suméria. A primeira civilização do mundo.

— E...?

— Você precisa ouvir o que eu tenho pra dizer agora.


Em outra parte, fora dos portões do Vaticano, na zona sul de Roma, D. Cláudio Hummes está sentado em uma parada de ônibus, vestindo roupas normais, aparentemente tenso e apreensivo. Quem ele espera está atrasado e conforme o dia avança e as pessoas começam a circular pelas ruas, ele teme ser reconhecido por alguém. Os últimos acontecimentos lhe renderam uma paranoia que antes não tinha. Até mesmo quando o Audi cinza perolado estaciona à sua frente ele se sobressalta.

Quando o vidro escuro abaixa e ele vê que o jovem Giovanni Costelo está no banco do carona, ele enfim relaxa e vai até o carro, entrando pela porta traseira.

Bon diorno, Onore. — saúda respeitosamente Giovanni, colocando seus óculos escuros e dando sinal para o motorista seguir em frente.

— Bom dia, senhor Costelo. Então, o que o senhor tem para me contar e... — D. Cláudio olha para o motorista e teme contar coisa demais para ouvidos estranhos.

— Não se preocupe, eminência. O Pepe também pertence ao nosso Grupo. E respondendo a sua pergunta, eu não irei contar aqui nenhuma novidade. Nada que o senhor já não tenha lido. O professor é quem pode nos mostrar novas notícias.

— E quem é esse professor?

— O senhor vai conhecê-lo, a seu tempo.

— Bom, então acho que algumas perguntas o senhor já pode me responder?

— Ainda resta dúvidas com o senhor, onore?

— Sou um homem de fé e um sacerdote. E não é fácil abandonar todos os dogmas que creio e que preguei durante anos. Mesmo que as evidências mostrem que as teorias de seu grupo fazem sentido. Mas minha intenção aqui não é debater teologia ou política, mas sim tirar aquela garota do erro em que a colocaram.

Sono d'accordo. Então, quais são suas perguntas?

— São tantas que invadem meus pensamentos e não me deixam dormir, mas agora só consigo formular uma simples pergunta: Quem é Sagrada Justiça? Não, melhor dizendo, o que é a Sagrada Justiça?

Antes de responder, o jovem Giovanni fita o olhar sério e abatido de D. Cláudio através do retrovisor. Lembra de quando há algum tempo se fez a mesma pergunta, num escopo maior, abrangendo toda a raça humana, o que o fez dar uma guinada radical em sua vida. O primeiro contato com o professor e suas teses, quase desconhecidas do grande público, porém tão factíveis e incontestáveis que por muitas vezes o assustou durante a leitura dos volumosos livros que garimpava em todos os sebos e bibliotecas de sua cidade natal.

E ele vê que novamente essa guinada parece querer afetar a vida daquele respeitável cardeal, que em seu país defendeu os mais pobres e oprimidos com tamanha força. Força esta que o move a fim de salvar a pobre Fátima, prisioneira de um destino que não é seu. Giovanni lembra da jovem que, através dele próprio, teve a vida transformada pela verdade. E o jovem guarda suíço lembra de seus doces beijos e belos olhos castanhos.

A pequena Paola Graziano. Giovanni ainda vê com grata surpresa o fato dela ser amiga da jovem Fátima. Não foi intencional envolvê-la nessa trama, ele diz para si mesmo, ainda que duvidando disso. Mas foi conveniente. Giovanni sabe que agora Paola está na casa de Fátima e, seguindo seu plano, está mostrando a Fátima aos poucos a verdade. O que o leva à pergunta deixada no ar por D. Cláudio. O que é a Sagrada Justiça. Giovanni se vira no banco do carona responde:

— O Papa não mentiu quando disse que ela é filha dos anjos. Pois como anjos eles são conhecidos atualmente. Um Deus único cercado de anjos. Seus emissários e guerreiros. Mas nem sempre foi assim. Desde o nascimento da raça humana – até mesmo antes – e até meados do século cinco antes de Cristo, os anjos eram chamados também de deuses.

— Então Sagrada Justiça é filha dos “deuses”. — atalha D. Cláudio.

— Deuses, eu disse. Porém esse não é o nome adequado. Não eram chamados assim antigamente. Os egípcios chamavam seus deuses de Guardiões. Esses Guardiões aparecem na Bíblia... em hebraico: nephelim.

— Os caídos. — traduz D. Cláudio.

— Sim. Mas a palavra tem outros significados conforme o contexto. Um adjetivo de Nephelim era Anaquim. Que quer disser “Os que desceram”. Anaquim lembra o termo usado pelos sumérios. A primeira civilização do mundo, que criou desde a roda até os tijolos de barro, desde a escrita cuneiforme até avançada matemática. Os sumérios diziam em suas lendas que aprenderam todas as ciências com os ANUNNAKI: “Aqueles que do Céu desceram à Terra”.

— Anunnaki... — pondera D. Cláudio, pensando se já ouviu tal palavra antes. — Estes então seriam alguma classe de deuses?

— Não. Não eram deuses. Mas se tornaram. Pois governaram a Terra como deuses. E todas as lendas sobre deuses, de todas as culturas, se baseia nos Anunnaki. Em cada lugar e época nomes diferentes, mas os mesmos indivíduos. Seres que desceram do céu até a terra.

— O senhor insinua que... — D. Cláudio tira o lenço do bolso e limpa o suor da testa. — Esses Anunnaki eram seres alienígenas?

— Veja isso, onore. — e Giovanni joga uma página de jornal no colo de D. Cláudio. Este pega a folha e lê a manchete.

“L’Osservatore Romano, 14 de maio de 2008: Astrônomo do Vaticano, José Gabriel Funes, admite possibilidade de vida extra-terrestre.”

— Eles sabem. — continua Giovanni.

— Desculpe, senhor Costelo, mas isso não prova nada. — D. Cláudio dobra o jornal e devolve ao outro.

Scusami. Estou sendo superficial. Quando entrarmos em detalhes vossa eminência perceberá. Mas um detalhe importante que não pode ser esquecido: a verdade sobre os Anunnaki diminui a crença em um Deus único?. O monoteísmo é uma ideia recente. Era comum a crença em vários deuses. Quase algo nato do ser humano. Porém, um homem surgiu, vindo do seio do politeísmo e jurando devoção a um único deus todo-poderoso, senhor de exércitos e que lhe daria, através de sua semente muitas nações. Esse deus era Yahweh. Javé, Jeová. E esse homem era Abraão.


Muito longe dali, a silhueta de um belo corpo feminino, sob o vapor esverdeado que se espalha por uma sala de vidro, se levanta de uma mesa de operações e caminha delicadamente até a porta. Acessando o corredor, largo, frio e vazio, com seus cabelos castanhos pendendo nas costas e não se importando com sua nudez, a mulher anda até outra sala no outro extremo do ambiente onde encontra cinco grandes sacolas sobre uma mesa.

Ela abre uma das sacolas e vê que o conteúdo dela é maços e mais maços de euros. Ela sabe muito bem qual será o destino daquela fortuna. Em seus pensamentos agradece seus patrocinadores, sejam eles quem forem. Na mesma sala, uma escrivaninha porta projetos e cálculos que a mulher se empenha em corrigir, digitando todas as informações em um computador portátil.

O projeto em que trabalha leva o nome da Dra. Anastácia Küterman, a Condessa da Moldávia. O uso de DNA de insetos para ampliar as capacidades humanas. Na tela do computador se vê o indivíduo rotulado como Casulo, primeiro cobaia sobrevivente do estudo, apesar de estar muito aquém do resultado esperado. Se baseando nos registros do Casulo, a mulher faz correções em variantes determinadas.

Porém o computador lhe alerta de arquivos ausentes para concluir a operação. Arquivos estes em poder do antigo laboratório em que a Dra. Kütermann trabalhava e começou a desenvolver suas pesquisas. Tal laboratório fica na Cidade do Vaticano.

— Ora... — diz com seus belos lábios vermelhos contrastando com a luz da tela do computador. — Esta é uma oportunidade perfeita para conseguir minha vingança, mãe. — asas de mariposa começam a brotar de suas costas quando ela diz: — Fiz grandes avanços em seu projeto. Há alguns detalhes que estão faltando, mas já é notável a evolução. Esses malditos vão pagar por estragar seu trabalho. E aquela marionete deles pagará mil vezes mais por ter te matado. — um pequeno besouro sai de sua boca e entra em sua narina. — Isso eu prometo.


Continua...


Anexo:

Baalbek vista no Google Maps

Um dos blocos de Baalbek:
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