Melvin engata uma conversa com Adler, o noivo da mulher pela qual Florisval se apaixonou a primeira vista, e acaba sabendo mais sobre o casal. Nesse meio tempo, Joana decide fazer uma visita a alguém.
Capítulo 03
Joana e Adler
Florisval, ainda impressionado, fitava o mago a sua frente que lhe encarava esperando uma decisão.
- Você quer que lhe conte sobre esta flor em troca de me ajudar a me aproximar daquela mulher? Porque está me chantageando? Por que quer tanto essa flor? – perguntou o camponês.
- Flores que curam uma pessoa de uma hora pra outra, não são flores comuns. Neste mundo, existem várias espécies vegetais com poderes variados. Entretanto, apenas os magos têm conhecimento sobre tais espécies e apenas eles têm posse sobre elas. Tanto que flores e plantas com poderes mágicos são cultivadas em Nerus, a cidade dos magos. É raro existir um lugar fora da cidade onde essas plantas cresçam, pois precisam de um determinado tipo de solo para se reproduzirem. E mesmo estas que estão fora, os magos têm total conhecimento de sua localização e a lacram em um local secreto, para que nenhum homem com más intenções se apodere destas plantas mágicas. Logo, se você tem uma flor mágica, deve ter algum esconderijo onde ela é plantada, e não deve ser apenas uma, mas várias. Se você não quer contar para um mago onde elas estão escondidas quer dizer que nem mesmos os magos sabem desse tal lugar. Estou errado?
Florisval desviou o olhar para o lado após Melvin ter explicado seus motivos. Era notório pelo seu rosto que as palavras do mago estavam corretas.
- Eu já disse. É um segredo de família – insistiu o floricultor. –Não posso contar a ninguém, mesmo a um mago. – o floricultor voltou a encarar o homem em frente. – Foi a promessa que meu pai me forçou a fazer.
- Seu cultivo de flores mágicas é ilegal. Deveria ser confiscado pelo magos. – Melvin conclui.
- Então, você vai me forçar a falar, e me prender por isso, não vai? – Florisval perguntou já prevendo a afirmação do mago.
- Não – A negação inesperada foi ouvida pelo camponês. Melvin abaixou levemente o olhar mostrando uma leve expressão melancólica. – Eu não sou um mago para fazer isso, apenas me pareço com um. – O floricultor ficou sem entender aquela última frase, e quando tentou tirar essa dúvida, o mago novamente falou. – Já que você não quer me contar, não posso fazer nada por você. – Melvin virou-se e caminhou para a saída da floricultura. – Vou andar um pouco pela cidade antes de ir embora. Mais tarde eu passo aqui para me despedir. – O camponês ergueu a mão para frente e ia dizer alguma coisa, mas desistiu, e apenas observou o homem de capa preta sair da loja.
Melvin caminhou pela rua da loja de Florisval. Ele estava pensativo demais para notar o panorama movimentado ao redor. “Só me pareço com um, mas ainda sou um. Preciso descobrir onde ele guarda essas flores.”.
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Joana e Adler, acompanhados de seus guardas, se aproximaram de uma hospedaria. Era um prédio de três andares de cor azul, sem nenhuma amostra de desgaste. Na frente, a porta dupla da entrada estava aberta com um homem, funcionário deste estabelecimento, logo ao lado. Sobre ela, uma placa escrita “Hospedaria Meredithi”.
- Esperem aqui fora – ordenou Adler aos guardas. Ele e Joana caminharam para a hospedaria e passaram sobre o tapete vermelho da entrada. Em seguida, dirigiram-se para o balcão logo à frente. Pediram um quarto, e instantes depois já estavam entrando em um dos inúmeros aposentos do prédio.
O cômodo era bem luxuoso, visto que era a hospedaria mais cara da cidade. As paredes brancas e os móveis de boa qualidade completavam o quarto. A cama de casal estava alguns metros ao lado da janela, cuja cortina balançava com o vento vindo de fora. Joana adentrou mais ao cômodo, e Adler ficou parado alguns centímetros em frente à porta.
- Fique aqui por enquanto. Eu vou dispensar os guardas, e mais tarde estarei de volta.
- Mais tarde? – perguntou Joana virando-se para o seu noivo. – Aonde você vai?
- Querida, só vou a uma taverna aqui da cidade. Nada demais. Logo estarei de volta. – disse ele tentando confortá-la, e em seguida fechou a porta. Joana ficou sozinha no quarto, preocupando-se com aquela situação, ou mais longe ainda, preocupando-se com o seu futuro.
Os seis guardas estavam em espera no lado de fora, mas ficaram alertas ao verem Adler saindo do prédio.
- Vocês têm o dinheiro necessário para se hospedarem em outro lugar. Não há necessidade de todos vocês estarem aqui. Revezem-se em turnos de duas pessoas a cada quatro horas. E o mais importante. – Adler visou o segundo andar da hospedaria, mas precisamente para a janela do quarto onde Joana estava. – Não a deixem sair. Se ela fizer muito escândalo, podem deixá-la ir aonde quiser, mas fiquem de olho nela e não a percam de vista.
- Sim – assentiram todos os guardas que fitaram o nobre se afastando.
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Melvin sentou-se em uma cadeira em frente ao balcão de um bar, esperando para ser atendido. O local onde se encontrava até era tranquilo, pois a maioria conversava num tom bem ameno, diferente daquelas gritarias de homens bêbados. Somente duas ou três pessoas num canto discutiam num tom mais exacerbado.
O mago voltou seu olhar para frente ao ouvir a voz do balconista.
- O que vai querer? – perguntou um homem careca e bigodudo, de físico meio gordo, que aparentava ter de quarenta a cinquenta anos.
– Um vinho, por favor. Da melhor qualidade – pediu o mago adicionando sua preferência.
- Certo – disse o homem antes de pegar um copo e enchê-lo de vinho com uma torneira aderente a um barril atrás dele. – Aqui está! – Em seguida, ele pôs o copo sobre o balcão, e fitou o mago enquanto este bebia os primeiros goles do vinho. – Você é um mago, não é?
Atento a pergunta, Melvin tirou o copo de sua boca e fitou o balconista.
- Sim – confirmou pondo o vinho sobre o balcão.
- Eu já imaginava. Eu não consigo esquecer o estilo de traje que um mago usa.
- O senhor já viu magos anteriormente?
- Sim. Faz algum tempo. – contou o balconista relembrando o passado. – Foi naquela guerra há seis anos. Na época, passavam muitos magos por aqui visando proteger as vilas e cidades deste continente. Diziam que a qualquer momento poderíamos sofrer um ataque de um exército maligno, ou algo parecido. Foram dias conturbados e inesquecíveis para um velho taberneiro como eu. E algo que não me esqueço, eram as roupas tradicionais que vocês usavam, apesar de que uma minoria se diferenciava nisso. Só que... faz um bom tempo que não vejo um. Os últimos magos a entrarem neste bar foram aqueles de seis anos atrás. Então, fico curioso para saber o que traz uma classe tão nobre a minha humilde taberna.
- O vinho. – respondeu Melvin tranquilamente colocando mais alguns goles goela a baixo. – O senhor parece ser daqueles que sabem sobre muita coisa.
- Por favor, me chame de Balto. – disse o taberneiro gentilmente.
- Claro, Sr. Balto.
- Pretende ficar aqui por quanto tempo?
- Não muito. Na verdade, já estaria indo embora se não estivesse preso a este lugar por um motivo.
- Motivo? E qual seria? – perguntou o homem com curiosidade.
- Bem, não posso dizer o que é, mas tenho que convencer o floricultor daqui a me contar uma coisa importante.
- Está falando do filho de Bartolomeu, Florisval, o floricultor, estou certo? – Melvin arregalou os olhos surpreso com isso.
- O senhor o conhece?
- Sei muito sobre esta cidade e sobre as pessoas daqui, e aquele floricultor não é exceção. Eu até fui o melhor amigo do pai dele. Florisval seguiu a vontade do pai e tornou-se um floricultor tendo também a responsabilidade de cuidar daquele enorme campo em frente à casa dele. É um bom rapaz, e é muito querido entre as pessoas residentes de Govenrrar. Pode perguntar a todos, que a maioria sabe quem é o floricultor desta cidade.
- Não sabia que ele era tão popular assim. – disse o mago um pouco impressionado. Balto suspirou e continuou.
- Imagino que o assunto que tenha a tratar com ele seja sobre certas flores que são de seu interesse, estou certo?
Melvin ficou muito mais surpreso do que antes, ao ver que aquele homem sabia exatamente o que ele queria.
- Certo novamente. O senhor sabe sobre elas? – perguntou o viajante num tom mais baixo.
- Como já disse, eu e Bartolomeu éramos grandes amigos, e alguns segredos ele confiava a mim. Um deles era sobre essas flores peculiares. Ele me contou que elas existiam, mas mesmo eu o pressionando, ele não quis me contar onde estavam escondidas, por medo de eu fazer algo errado com elas, ou por descobrirem que sei esse segredo. Ele me instruiu a contar isto somente para os magos.
- Florisval não quis me contar, pois disse que seu pai lhe impediu de revelar esse segredo pra quem quer que fosse. – Melvin disse, pensativo. – Mas o senhor foi instruído de modo diferente. Porque somente para magos? Eram as pessoas mais adequadas a saber este segredo. Acho que vou pensar melhor sobre isso. Há algo mais que eu precise saber?
- Isso é tudo o que sei, sinto muito. Mas se quiser descobrir mais sobre isso terá que insistir Florisval a lhe contar – aconselhou Balto.
- É isso o que vou fazer. Obrigado pela informação Sr.Balto. A propósito, meu nome é Melvin.
- Disponha, mago Melvin. Eu vou atender as outras pessoas, se precisar de algo é só chamar. – disse o taberneiro. Melvin sorriu e voltou a beber seu vinho. Sua atenção então se voltou para o lado onde um homem acabava de se sentar um pouco próximo.
- Cerveja, por favor! – gritou o homem com uma expressão contente em seu rosto. O mago logo o reconheceu. Era aquele que levou Joana da loja de Florisval. Um outro balconista atendeu Adler, que rapidamente após seu copo ser enchido com bebida, o pôs diretamente na boca. Ele soltou um ar de satisfação após os goles, e Melvin ousou iniciar uma conversa.
- Parece estar bastante feliz. Com certeza não veio afogar as mágoas na bebida, veio? – perguntou o mago fitando o homem que fazia o mesmo. De início, Adler estranhou e teve a impressão de tê-lo visto antes.
- Eu te conheço de algum lugar?
- Talvez nós tenhamos nos visto de relance. É mesmo muita coincidência nos encontrarmos. – Melvin olhou para trás visando todo o bar. – Você deixou aquela jovem de vestido amarelo em algum lugar? Ela é sua filha? – perguntou voltando-se para o homem, que sorriu depois da pergunta.
- Não – respondeu e complementou pouco antes de beber mais um gole de sua cerveja. – É minha noiva.
- Noiva? – surpreendeu-se o mago com seus olhos virados para Adler. Ele ficou em silêncio e tornou a falar. – Bem, é que pela idade de vocês, eu pensei que fossem pai e filha.
- Nós somos casados – ele bebeu mais um gole e voltou a falar. – E isso me deixa muito feliz. – terminou apreciando o gosto da bebida. Melvin voltou-se para frente, mas continuou a conversa.
- É algo bem incomum, um casal que nem vocês. É natural a curiosidade das pessoas em saber como aconteceu – Melvin disse olhando de relance o homem, que o encarou por um instante, mas resolveu contar.
- Eu e minha noiva, Joana, pertencemos a famílias nobres e respeitadas. Para aumentar a riqueza delas, nossas famílias fizeram um acordo de se fundir. A família de Joana só tinha ela e o pai. Os irmãos foram mortos na guerra há seis anos e a mãe faleceu alguns anos depois. Por isso, a linhagem deles estava quase desintegrando quando nós viemos com a proposta de fundi-la, e para isso, era necessário um casamento entre os dois herdeiros das duas famílias. De início, Joana não aceitou, mas quando aquele terrível dia chegou, ela foi forçada a mudar de idéia.
- Terrível dia? – Melvin perguntou num tom curioso.
- A casa dela foi queimada, e seu pai, morto pelas chamas. – disse Adler, causando surpresa no mago. – Depois disso, Joana não teve opção a não ser se casar comigo, já que toda a riqueza da família dela se perdeu no fogo.
“Obrigada a se casar apenas para se sustentar. Ela não teve opção. Mas será que ela está feliz com isso? Além disso, sinto que falta linha nessa história.” ponderava o mago.
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Joana rodava a rosa que ganhara na floricultura enquanto descansava sentada na macia cama do quarto.
- Flor... – murmurou ela. Em seguida, uma lágrima caiu sobre a rosa resvalando sobre as pétalas. Ela ficou olhando para a flor, e depois de um tempo, levantou-se da cama com o intuito de ir a um lugar.
No lado de fora da hospedaria, dois guardas estavam parados. Eles viram a jovem saindo do prédio e se aproximaram antes que ela se afastasse mais.
- Joana. Onde está indo? – perguntou um deles com um aparente tom de preocupação. Era o mais velho dentre os seis guardas, com quase quarenta anos. Tinha um bom porte físico, cabelos negros presos por um rabo de cavalo bem curto e pra cima, e olhos da mesma cor. Ela o fitou com um belo sorriso e respondeu.
- Quero ir a uma loja. Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem.
- Mas o Adler disse para ficar de olho em você. E caso insistisse em sair, teríamos que segui-la.
- Então fique a vontade para obedecer esta ordem. Apenas um é necessário para me vigiar. O outro deve ficar aqui e esperar pelo Adler. – Ela desmanchou sua alegre expressão dando lugar a uma preocupada, voltando a fitar os dois guardas. – Terão que agir conforme ele quer, caso contrário, não poderão pegá-lo desprevenido.
- Nós sabemos. Não vamos desapontá-la, Joana. – respondeu o guarda mais velho com total obediência.
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- E quanto a você? – Adler perguntou interessado no homem ao seu lado. – Afogando alguma mágoa nesse vinho? Você só me fez perguntas até agora, por que não me conta algo sobre você? – Melvin virou-se para o balcão e respondeu tranquilamente.
- Não há muito o que falar sobre mim. Sou apenas um andarilho. E antes que pergunte, apesar de conhecer muitos lugares, não sou do tipo que pode contar histórias da minha vida, pois nenhuma delas seria interessante.
- Entendo. No final das contas, não fiquei sabendo nada de você – disse o homem nobre tomando seu último gole de cerveja. – Está na hora de ir.
- Felicidades a você e sua noiva – desejou o mago enquanto Adler se afastava rumo à saída do bar. O mago pôde ouvir um baixo obrigado vindo daquele homem. Depois, seu olhar voltou-se para o resto de seu vinho sobre o balcão. – Ainda bem que Florisval e aquela mulher não se viram por muito tempo.
Adler caminhou tão tranquilamente e sem preocupação pela rua em frente à taverna, que mal reparou que bem próximo dali, um de seus guardas o espreitava do lado do bar.
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Ramon e Dimas chegaram à loja depois de terem olhado o campo de Florisval, que se encontrava regando algumas flores em um canteiro. Bem contente com o que fazia, ficou um pouco surpreso ao ouvir uma voz feminina e vagamente conhecida. Ele olhou para a entrada da loja, após o “Com licença” de uma bela jovem de vestido amarelo.
- Joana!? – O floricultor disse, deslumbrado em vê-la de novo. Ramon e Dimas também olhavam admirados para ela.
- Olá! Eu vim aqui agora a pouco comprar uma flor, e... bem... você disse que queria me mostrar um campo cheio de flores. Será que tem como me levar lá agora? – pediu ela, docilmente. A face do camponês encheu-se com um sorriso.
- Claro – ele virou para os dois garotos ao seu lado. – Ramon! Dimas! Cuidem das coisas por aqui. Fechem a loja se eu não voltar. – pediu ele.
- Sim – disseram os dois em uníssono, meio que boquiabertos por aquela cena. O floricultor caminhou e se posicionou ao lado de Joana.
- Vamos? – perguntou ele com um sorriso no rosto e feliz de um certo modo como nunca sentira antes. Ramon e Dimas ficaram parados, vendo os dois saindo.
- Aquele é o Florisval... com uma mulher? – perguntou Ramon não acreditando no que via.
- Incrível! – disse o outro.
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Adler se aproximou da hospedaria e logo notou a presença de apenas um único guarda, quando antes havia dois. Ele soltou um murmúrio de estranhamento, e dirigiu-se ao solitário guarda.
- Onde está o outro?
- Está seguindo sua noiva, como o senhor mesmo nos instruiu. – respondeu o guarda. Adler suspirou irritado, e pôs-se a andar para dentro do prédio. Depois que o guarda o observou entrando, ele virou-se para a rua, onde bem próximo, um outro guarda lhe avistava. Este fez um sinal de negação com a cabeça, e o que estava na hospedaria assentiu.
Adler entrou em seu quarto e o olhou vazio, sem ninguém mais além dele dentro do cômodo. Começou a refletir sobre o que fazer. Joana era necessária para o que queria, mas ela não estava lá no momento. Teria ele esperado demais? Teria sido mais fácil seguir viagem e alcançar aquele local de uma vez? Afinal, eram apenas alguns kilômetros. Mas ainda sim, ela era necessária, e nada podia fazer a não ser esperá-la.
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Melvin entrou na loja procurando por Florisval, mas encontrou apenas os dois garotos de antes, entediados atrás do balcão. Mas o tédio deu lugar a um sorriso de ambos quando avistaram o mago se aproximando.
- Melvin! – exclamou Dimas.
- Que bom que voltou – disse Ramon.
- Olá, meninos! – cumprimentou-os gentilmente. – Onde está o Florisval?
- Ele não está aqui – disse Ramon.
- Ele saiu com uma mulher – completou o outro garoto.
- Saiu... com uma mulher? – Melvin ponderou por um instante, e voltou-se meio aflito para os dois meninos. – Por acaso, é uma mulher de cabelos castanhos e vestido amarelo?
- É sim. Como sabe? – Ramon perguntou.
- Vocês sabem pra onde foram?
- Acho que... pro campo de flores do Florisval – disse Dimas.
- Campo de flores... – murmurou o mago. Agradeceu os meninos e saiu correndo da loja, deixando-os confusos. Melvin corria pelas ruas de Govenrrar rumo à saída da cidade.
“Por que estou correndo? Por que isso me preocupa tanto? Seria um mau pressentimento?”
Mesmo em meio à dúvidas, o mago permaneceu com sua corrida.
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Já bem próxima de seu destino, Joana, ao lado de Florisval, mostrou um largo sorriso ao avistar o campo de flores. Há menos de cem metros dela, caminhando numa estrada próxima, seus olhos brilharam devido aquela imensa visão.
- Que lindo! É tão grande. – maravilhou-se com a quantidade de flores nas mais variadas cores que resplandeciam na luz do dia.
- Eu cuido desse campo como se fosse minha própria vida – comentou Florisval caminhando ao lado dela, que o olhou impressionada.
- Você cuida disso tudo sozinho? – perguntou ela.
- Na verdade, dois garotos da minha loja me ajudam um pouquinho, mas a maior parte do cuidado fica a meu cargo.
Ambos adentraram no campo depois de percorrerem a estrada de terra. Havia trilhas de gramas que cortavam as cuidadas flores do camponês.
- Nossa! Você deve levar isso mesmo a sério – disse a jovem mirando as flores ao lado. Até que parou de caminhar, e fez uma expressão distante, recordando algo no passado. – Assim como minha mãe e eu. – Florisval ficou curioso com aquelas palavras, e Joana continuou. – Quando eu era criança, minha mãe criou uma estufa, e lá havia muitas flores. Eu fiquei vislumbrada com aquele lugar a primeira vista, e passei a ajudá-la no cuidado. Eu cresci gostando de flores. Elas... – a mulher se interrompeu e uma lágrima resvalou em seu rosto. Imagens passadas se ascenderam em sua mente, e inevitavelmente, mergulhou nelas.
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A estufa a qual cuidara desde a morte de sua mãe já não existia. Naquele lugar, apenas o indício de que fora uma estufa um dia. Os vidros quebrados, o cheiro de queimado, as cinzas de que em uma época foi um lugar de alegria, agora era apenas um lugar vazio e melancólico. Nada ali transmitia a felicidade de antes, e sim, apenas a tristeza de dias irretornáveis. A estufa que ela e sua mãe cuidaram desde criança e que ela mesma cuidou depois da morte dela, estava destruída. A cada passo dado a mais naquele lugar, e a cada nova olhada pelo o que sobrou era uma profunda tristeza.
Entretanto, essa não foi sua única perda. Em frente à estufa, a luxuosa residência dos “Goldins”, estava queimada. Nela, sua riqueza e família, que se resumia apenas ao pai, se perderam nas chamas da noite anterior.
As lágrimas não podiam ser contidas, visto que perdera tudo o que era valioso pra ela.
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- Joana... – aproximou-se Florisval notando a lágrima em sua face. – O que foi?
- É que... isso me lembrou... – Joana sentia-se hesitante em falar sobre isso em seu tom abatido. - ... o que eu perdi. – Ela suspirou uma vez enquanto tomava coragem para continuar. – Meu pai e minha mãe não estão mais vivos. Minha mãe faleceu de uma doença há alguns anos, e meu pai não faz nem uma semana, também se foi. Nossa casa pegou fogo, e parece que meu pai ficou preso lá dentro.
- Eu sinto muito – lamentou o camponês, com um olhar melancólico.
- A estufa em frente à casa, a qual eu e minha mãe cuidávamos das flores, também foi queimada. Flores tão belas como essa, se foram. – referiu-se olhando para as flores do campo. – Eu perdi minha família, as flores, tudo. Me sinto sozinha. – conclui ela, se lamentando.
Foi então que Florisval notou uma semelhança entre eles. Seus pais faleceram e suas famílias só se resumiam a eles próprios. Estavam solitários. Esse fato comum o incitou a contar também sobre ele.
- Eu também estou sozinho – disse ele olhando para o campo. Joana o fitou, um pouco curiosa, o que amenizou o seu estado de tristeza de antes. – Meus pais também faleceram, e sou o único na família. Esse campo é tudo o que me sobrou... – Joana ficou impressionada depois de ouvir aquilo. Ela sentiu uma simpatia por aquele rapaz, relacionado a sua situação de vida. Tinha certeza que ambos podiam entender um ao outro.
- Pelo menos você ainda tem esse campo, não é? Não é igual a mim que não tenho nada. – disse ela sorrindo. O floricultor a fitou, vendo que aquela era a melhor hora para se fazer o pedido.
- Você não quer que ele também seja seu?
A pergunta pegou a jovem de surpresa que não sabia o que responder. Apenas olhava, impressionada para o rosto feliz daquele recém-conhecido floricultor.
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Há duzentos metros de onde Florisval e Joana conversavam, num pequeno morro onde se situava as ruínas de um casebre, um homem espreitava as duas figuras sobre o campo florido. Agachado, atrás de um muro de concreto de meio metro.
Uma outra pessoa aproximava-se sorrateiramente por trás, com seus olhos sobre um homem de calça vermelha, camisa branca, colete azul e cabelos negros com rabo de cavalo. Ao chegar mais perto, resolveu que era hora de agir.
De forma inesperada, o espreitador de Joana e Florisval foi arremessado para a esquerda por uma força invisível. Soltou um pequeno grito de dor quando suas costas colidiram com uma parede ao lado. Seus pés estavam suspensos alguns centímetros acima do solo, e seu corpo sendo empurrado contra o concreto para que não pudesse se mover. Foi então que ele notou os passos de uma pessoa à frente se aproximando. Com o cajado segurado na mão direta, e erguido na direção do homem, Melvin o fitava seriamente.
- Quem é você? – perguntou o espreitador de forma esforçada.
- Engraçado! Eu ia te perguntar a mesma coisa. – respondeu o mago num tom bem humorado.
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