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Mundo Sombrio #2



Após ter salvo a vida de Florisval, Melvin passa a conhecer mais sobre este camponês, descobrindo um segredo interessante guardado pelo mesmo.




Capítulo 02 - Rápidas e passageiras


A cozinha mostrava-se num tom amarelado devido à lamparina no centro da mesa. Melvin estava sentado à mesa, enquanto Florisval colocava em um prato de barro uma sopa da panela que estava no fogo. A cada porção depositada sobre o prato, a fumaça elevava-se devido à sopa estar muito quente. O mago observou o camponês colocar o prato sobre a mesa.

- Tome cuidado. Está quente! – alertou ele.

- Sim. Obrigado. – agradeceu o mago, enquanto mexia a sopa com uma colher.

- Seu nome... é Melvin, não é? – perguntou Florisval, encostado na quina da pia, enquanto a panela continuava no fogo. Seu rosto estava quase totalmente enfaixado por causa da surra que levara há poucos minutos.

- Sim. – confirmou.

- E você é realmente um mago. Aquilo que você fez lá fora somente um ser assim faria. Mas eu nunca vi algo como aquilo. Magos são realmente incríveis. – disse o camponês com certa alegria em seu tom.

- Você já viu algum mago antes? – Melvin perguntou, virando seu rosto para Florisval um pouco atrás dele.

- Sim, em algumas ocasiões. Há alguns anos atrás, alguns magos passaram pela pequena cidade de Govenrrar aqui próxima. Foi antes e depois daquela guerra, e além disso... – Florisval abaixou o seu rosto com um olhar triste e distante.

- Além disso... – Melvin repetiu para que ele terminasse.

- Eu os vi em Seylor, durante a guerra. – pronunciou melancolicamente.

- No reino de Seylor? Você estava lá?

- Eu e meu irmão éramos arqueiros de Seylor. Não fazia nem seis meses desde que chegamos lá, e meu irmão, Eric, perdeu sua vida naquela guerra. – Florisval terminou cerrando seus punhos. Melvin voltou seu olhar para a sopa ainda quente, e fitou o reflexo de seu rosto nela, como se sua própria imagem o fizesse lembrar-se dos fatos.

- A “Guerra das energias” como ficou conhecida. Há seis anos ela decidiu e cessou o futuro de muita gente. O ataque contra o reino de Seylor foi só uma parte desta guerra. Eu me lembro...

- Você também estava lá? – perguntou o floricultor, um pouco curioso.

- Estive, mas... tem algumas coisas que não quero lembrar. – disse o mago rolando os olhos para baixo. Florisval observou a expressão no rosto dele e mostrou-se um pouco deprimido. Melvin virou-se novamente para ele. – Quer dizer que, depois que perdeu seu irmão, você começou a cultivar flores e criou esse campo.

- Não foi bem assim. – Florisval passou os olhos pelo teto da cozinha. – Eu, meu irmão, e meu pai, já morávamos nessa casa desde que nascemos. Foi meu pai quem começou a cultivar esse campo em frente, e fez isso durante toda a sua vida. Eu vim primeiro, e depois, minha mãe faleceu ao dar novamente a luz dois anos mais tarde. Então ficou só eu, Eric, e meu pai. Nós crescemos cultivando flores e trabalhando como floricultores em Govenrrar. Nossa floricultura está de pé até hoje, mesmo com apenas uma pessoa no comando.

- Eu não entendo. Se você e seu irmão eram tão apegados ao cultivo de flores, por que foram se tornar arqueiros em Seylor?

- Egoísmo. – respondeu Florisval num tom lamentoso. – Nós queríamos tentar outras coisas. Aos poucos a vida de floricultor foi nos enjoando e decidimos fazer algo novo, algo diferente. Mesmo contra a vontade de nosso pai, nós fomos a Seylor para tentar nos tornarmos soldados, pois todos diziam que os soldados daquele reino ganhavam muito bem e levavam uma ótima vida. Mesmo sem nenhuma experiência ou treinamento para isso, nós entramos para a academia do exército e ficamos surpresos ao descobrirmos que levávamos jeito para sermos arqueiros. – terminou ele com um sorriso.

- Naquela época, o reino de Seylor era o mais rico deste continente e um dos mais equipados com poderio militar. Mas com o massacre da guerra há seis anos, o número de soldados foi reduzido a mais da metade. O mesmo aconteceu com sua riqueza, que teve de ser investida para a reconstrução de Seylor, já que os outros reinos se recusaram a ajudar com grande quantia alegando que também sofreram baixas em sua estrutura. Como Seylor foi quem mais sofreu com a guerra, a decadência nele foi maior. – Melvin deu uma pausa e continuou. – Então... Depois da guerra, você retornou para casa e ficou com seu pai?

- Sim. Meu pai ficou triste pelo o que aconteceu com meu irmão, e nós continuamos a viver do mesmo jeito de antes. Mas... eu me sentia infeliz. Apesar de sempre estar cultivando flores, eu me sentia distante daquele trabalho. Eu não queria estar lá, na verdade, eu não sabia onde queria estar. Até aquele fatídico dia chegar. – disse Florisval apertando mais os punhos e abaixando sua cabeça. Lembrar daquilo lhe trazia inquietação. Melvin o fitou seriamente, e pôde sentir uma perturbação dentro dele, o que lhe deixou mais curioso sobre aquilo.

- Florisval. O que houve? O que aconteceu neste dia? – perguntou o mago.

- Naquele dia, meu pai estava doente. Ele me chamou até seu quarto e me pediu para ir ao campo procurar uma certa flor, e que o chá desta podia fazê-lo melhorar.

- Uma certa... flor? – perguntou Melvin estreitando os olhos em seguida.

- Eu fui ao campo e procurei pela tal flor. Eu vi uma que se assemelhava a descrição que meu pai me deu, e então eu a peguei. – ele engoliu uma saliva para continuar. O suor começou a descer de seu rosto mesmo naquela fria noite com as janelas da casa abertas. – Eu fiz o chá com aquela flor e dei para meu pai beber. Poucos segundos depois... ele já estava morto. – Melvin arregalou os olhos ao ouvir aquilo. – Eu peguei a flor errada. Fui eu. – disse Florisval com os olhos fechados tentando se controlar. A raiva dele originada da culpa de um trágico ato fazia seu corpo tremer. – Eu matei... meu próprio pai. Eu o matei. – ele abriu os olhos marejados, com suas lágrimas já querendo descer pelo seu suado rosto. A panela com a sopa no fogo já havia fervido, mas Florisval nem havia dado importância a isso. O olhar de Melvin era distante e lamentoso.

- Florisval. – chamou o mago em voz baixa sem olhá-lo. – Por que está me contando isso?

- Você é um mago. – começou a falar num tom triste. – Dizem que os magos podem compreender a dor das pessoas tanto quanto elas mesmas. – Melvin o fitou. – Eu tive vontade de dizer. Eu moro sozinho nesta casa, e as pessoas que passam por mim são rápidas e passageiras, assim como você. – Além da infelicidade, sua voz agora expressava desgosto – Se... se eu tivesse impedido o meu irmão de ir para Seylor, se estivesse mais atento quando o meu pai me pediu para buscar aquela flor, eles poderiam estar todos aqui.

- Você está se sentindo sozinho, não está? – perguntou o mago. – Eu posso ver... dentro do seu coração. Uma barreira. – Florisval permaneceu quieto e Melvin virou o olhar para a sopa em seu prato que agora estava morna. – O mesmo vale pra mim. – disse ele calmamente.

- Hã? – Florisval ergueu a cabeça e olhou para o mago.

- Sou um homem que viaja pelo mundo. Eu não tenho uma casa fixa como você, mas todas as pessoas que passam por mim também são rápidas e passageiras. – Melvin terminou pouco antes dele tomar sua sopa pela primeira vez. Florisval o olhou com uma expressão impressionada. Ele depois sorriu, sentindo-se melhor. Aquele homem de certa forma lhe fazia bem. Com seus olhos sobre ele, Florisval tinha certeza de que podia viver feliz, mesmo com um peso de culpa. Ainda com um leve sorriso, ele voltou-se para o fogão ao seu lado esquerdo e apagou o fogo da sopa que fervia há um bom tempo.

. . . . . . . . . . .

O quarto do pai de Florisval era quase semelhante ao de seu filho, paredes azuis, cama, mesinha, armário e quadros com o mesmo tema de flores. A única diferença era um vaso com uma flor sobre a mesinha ao lado da cama. Melvin observou o local ao entrar, e virou-se para o camponês parado em frente à porta.

- Tem certeza? – perguntou o mago. – Acha mesmo que devo dormir no quarto de seu pai? Eu poderia até ficar no chão da cozinha. Desde que fique aquecido dentro de um lugar fechado, eu não me importo.

- Não. Pode usar a cama do meu pai. – disse gentilmente. – Na verdade, desde que ele faleceu ninguém mais dorme nessa cama. Eu sempre venho aqui limpar esse lugar pra livrá-lo da poeira, e... sempre venho colocar aquele jarro com aquela flor. – Melvin olhou para o jarro branco com uma flor azul.

- Miosótis... “Não se esqueça de mim”. – disse o mago reconhecendo a flor e lembrando-se do seu significado.

- Você conhece sobre flores? – perguntou Florisval um pouco impressionado.

- Só as que interessam aos magos. Existem algumas lendas sobre a Miosótis. Um delas é que conta-se que este nome tem relação com a última frase de um cavaleiro, que tentando alcançar uma flor para oferecer a sua companheira, devido ao peso de sua armadura, caiu em um rio e se afogou. Mais a que interessou aos magos, foi a de uma tradição de um povo de uma antiga cidade que usava a flor para lhe atribuir poderes. Poderes esses que podiam abrir portais para grandes tesouros escondidos e desconhecidos. Entretanto, não pudemos saber mais sobre esse povo, pois ele e sua cidade desapareceram sem deixar vestígios.

- Nossa. É mesmo? – impressionou-se o floricultor olhando para a Miosótis. – Dessa eu não sabia.

- É uma história contada por magos, e isso já aconteceu há séculos. Ninguém nunca descobriu nada sobre aquele fato. As investigações foram encerradas como um caso sem solução e sem relação com a Miosótis, que alguns anos depois passou a se espalhar por outras regiões do mundo. Hoje, o fato da Miosótis ter tal poder é apenas uma lenda.

- Ainda assim, é incrível. – disse Florisval enquanto o mago caminhava até a cama. – Por favor, sinta-se à vontade.

Florisval fechou a porta, e Melvin sentou-se na macia cama. Ele se sentiria constrangido por ter que dormir na cama de um falecido, mas já que Florisval insistiu, ele aceitou. Melvin deitou-se na cama e fitou o vaso com a flor sobre a mesinha o lado.

- Hã? – Melvin arregalou um pouco os olhos ao enxergar algo a mais. Ele viu partículas brancas em volta do vaso. – Energia Benigna... – As partículas saiam da flor e se expandiam pelo quarto. Melvin olhou o cômodo e as observou, já que segundos depois, as partículas desapareciam. Em seguida, ele voltou a olhar a Miosótis. – A Energia Benigna está saindo da flor? Seriam apenas os sentimentos do Florisval inseridos nela, ou será que... – Melvin refletia observando a Miosótis expelir Energia Benigna.

. . . . . . . . . . .

A luz do sol entrava pela janela do quarto onde Melvin dormira. Seus olhos já estavam abertos, e ele podia ver os feixes solares invadirem o cômodo. Levantou-se da cama e abriu a porta. Logo ao pisar no chão de madeira do corredor, ouviu um som vindo da cozinha. Parecia que Florisval já havia acordado. Melvin caminhou até o cômodo, e teve uma grande surpresa.

- Florisval?! – exclamou o mago ao olhar o camponês, que fazia tranquilamente o café da manhã em frente à pia. Mas o que impressionou foi o seu rosto. Quem o visse daquele jeito, de maneira alguma falaria que ele levou uma surra na noite passada. A face de Florisval estava limpa, sem um único machucado. – O que houve com o seu rosto? Seus ferimentos...

- Ah, isso. Bem , é que... é um efeito de remédio. – explicou o outro não querendo se aprofundar muito.

- Nenhum remédio é capaz de curar machucados de forma tão rápida. Que tipo de remédio é esse?

- Na verdade, é um remédio secreto feito a partir de uma flor que meu pai me mostrou. Desculpe, mas eu não posso contar muito sobre isso. – Florisval disse meio que sem jeito. Melvin via que mesmo insistindo naquele assunto, o floricultor não iria lhe contar nada. Ele desistiu de saber, mesmo aquilo lhe despertando interesse.

- Tudo bem. Se é segredo de família, não vou me meter.

O camponês sorriu e lhe ofereceu uma xícara de café. O viajante a pegou e bebeu um pouco.

- Ei. – Melvin chamou fazendo uma careta após experimentar o café. – Você esqueceu o açúcar.

- Ah, não acredito. – Florisval rapidamente pegou o pote de açúcar e adicionou algumas colheres ao café.

- Você é meio esquecido, não? – reparou o mago.

- É um defeito meu.

Algum tempo depois, ambos estavam à mesa, tomando tranquilamente o café da manhã. Pão, leite, café e frutas compunham a primeira refeição do dia.

- Sua mesa é bem farta, mesmo pra uma só pessoa. – Melvin disse reparando.

- Eu trabalho com uma floricultura em Govenrrar. Minha loja recebe um bom número de compradores, por ser a única que vende flores da cidade. Logo, acaba entrando um bom dinheiro nela.

- Entendo.

- E você, Melvin. É um viajante, certo? Você vai pra algum lugar daqui? – perguntou o homem, pouco depois do visitante beber um gole de café.

- Meu destino é Seylor. – respondeu o mago.

- O reino de Seylor? Muitas pessoas estão indo pra lá nessa época para comemorar o Festival do Renascimento. – Florisval rolou os olhos para cima tentando imaginar como seria este festival. – Deve ser muito divertido.

- Não sente vontade de ir lá? Por que não vai?

- Eu não posso. – respondeu voltando o olhar para o mago. – Tenho que cuidar deste campo e da loja.

- É mesmo. Esse campo... Você deve cuidar da sua vida, não? – Melvin disse sorrindo.

- Antes de partir, não quer conhecer minha loja? – perguntou Florisval com um pouco de entusiasmo.

- Claro. – Melvin assentiu ainda com um sorriso.

. . . . . . . . . .

O sol brilhava no céu, mostrando que seria um dia claro. Por este motivo, o mago guardou suas luvas negras num bolso atrás de sua roupa. Melvin e Florisval saíram da casa e se puserem a andar para a estrada de terra alguns metros dali.

No caminho sobre a grama, Melvin notou o extenso campo florido à direita. Na noite passada, por causa da luz de seu cajado, ele pode notar que era um belo campo, mas à luz do dia ele parecia ser muito mais. Numa diversidade de cores, com borboletas sobrevoando, aquele campo era sem dúvida, admirável.

- Você realmente cuida muito bem dele. – comentou o mago parando durante o caminho. Florisval sorriu e também observou o campo.

- Sim. Eu me esforço bastante para ter essa mesma visão todas as manhãs. – respondeu ele. Melvin desmanchou o sorriso, e fez uma cara normal.

- Escuta. Aquela flor que lhe curou também está neste campo? – A pergunta do mago impressionou o camponês que receou por um instante.

- Melvin, por favor...

- Tudo bem. – interrompeu o mago. – Desculpe a minha curiosidade. – disse num tom gentil. – Vamos continuar.

- Sim. – concordou o homem voltando a andar. Melvin foi logo em seguida, mas com uma expressão preocupada.

. . . . . . . . .

A cidade próxima ao campo de Florisval era Govenrrar. A mesma onde Melvin queria chegar, e por conta disso, tomara um atalho pela montanha. Graças a isso, ele pôde conhecer um floricultor chamado Florisval, que era um dos trabalhadores desta cidade.

Govenrrar era uma simples cidade temporária para quem passava por ali. Apesar disso, tinha um número considerável de pessoas, só que a maioria não eram moradores, e sim viajantes, que se abrigavam nas inúmeras hospedarias da cidade. O comércio era bem ativo, apostando sua renda nesses viajantes. Numa visão geral, a parte física da cidade era marcada por prédios, lojas e ruas de barro.

Melvin e Florisval estavam bem próximos da entrada da cidade. Eles estavam entrando na estrada principal acabando de sair de uma outra estrada menor à direita desta. Agora, já no caminho que os levariam à cidade, eles puderem notar uma simples placa ao lado do caminho inscrita “Bem-vindo a Govenrrar”. Em ambos os lados só havia campo, árvores e logo depois montanhas. Na frente, a continuação da estrada, só que desta vez dentro da cidade, onde caminhavam várias pessoas entre prédios e lojas ao lado.

Após caminharem por algumas ruas, eles chegaram à loja do único floricultor da cidade. Ela ficava na extremidade de uma das ruas e a loja ao lado esquerdo era de artesanato.

A primeira impressão da loja era simples, de parede amarela, e fechada por uma porta de enrolar, mas bem espaçosa pelo seu tamanho. Florisval se aproximou e depois de destrancá-la, abriu a porta para cima revelando uma vidraça e uma porta também de vidro no centro dela. Mesmo do lado de fora, podia-se ver um pouco de como era o interior da floricultura.

Ao entrarem, Melvin se deparou com um esplêndido lugar bem arrumado. As placas de vidro no teto deixavam parte da luz solar passar, podendo se ver os raios luminosos atingirem as várias flores no lugar que mais parecia uma estufa. Havia muitas flores, algumas em arranjos sobre prateleiras e estantes, e outras sendo cultivadas em um canteiro mais afastado do centro da loja.

- É realmente um belo lugar. Além das flores do campo você ainda cuida dessa loja. – O mago observou as belas flores cultivadas ali. – Mas como você consegue cuidar de tanta coisa ao mesmo tempo? Aquele campo é muito grande pra uma pessoa só cuidar.

- Ah, eu conto com duas ajudas. –respondeu ele antes de duas vozes soarem na floricultura.

- Chegamos, Florisval! – disseram dois garotos parados na entrada. Melvin virou-se para olhá-los. Ambos usavam a mesma roupa: calça preta, tênis, e camisa bege, embora todas as peças pareciam estar sujas e velhas.

- Dimas! Ramon! – exclamou Florisval assim que os viu.

- Cliente! – disse um dos garotos, que tinha cabelos curtos e castanhos. Ele se aproximou de Melvin. – Bom dia, senhor! Dar uma flor a alguém significa demonstrar que você tem ou quer criar laços com esta pessoa. Gostaria de comprar uma?

Melvin tentou dizer algo, mas foi Florisval quem pronunciou com um sorriso para o garoto.

- Dimas, ele não é um cliente, e sim um convidado. Além do mais, mesmo se vendesse uma flor a ele, sairia de graça.

- Convidado? – perguntou o garoto chamado Ramon. Diferente do outro, este tinha cabelos escuros e meio rebeldes.

- Sim. Ele é um mago. – As palavras de Florisval impressionaram os dois garotos de oito anos.

- Olá! Eu sou Melvin. – apresentou-se gentilmente. A expressão de Dimas e Ramon era de admiração.

- Incrível! – Ramon maravilhou-se.

- Faz muito tempo que não vemos um, aliás, acho que essa é a primeira vez, já que na época só tínhamos dois anos e não nos lembramos direito. – Dimas disse tão feliz quanto o outro garoto, que fitavam o mago com admiração.

- Ei! Você pode nos mostrar alguma magia? Nós queremos ver como é. – pediu Ramon, ansioso.

- Crianças, já chega! – pediu Florisval, vendo a importunação sobre o mago. – Já que chegaram tão cedo, por que vocês não vão conferir como está o campo esta manhã?

- Sim! – responderam os dois em uníssono, mas desanimados pela ordem.

As crianças se despediram do mago enquanto ele as observava saindo da loja.

- Desculpe por isso. Acho que eles ficaram ansiosos demais. – desculpou-se o floricultor.

- Não, tudo bem. – disse o mago olhando para o camponês. – É natural em crianças.

- Ramon e Dimas me ajudam bastante tanto no campo como na loja. Eles mesmos se prontificam em me ajudar a fim de também ajudarem a família deles com o dinheiro que ganham. Entretanto, eu não os forço a trabalharem, pois tiraria toda a liberdade deles.

- Entendo. É um ato muito nobre por parte dessas crianças.

. . . . . . . . . .

Muitas pessoas caminhavam nas ruas de Govenrrar. Moradores nativos e viajantes, e entre estes, estava um pequeno grupo que se destacava dos demais.

Um homem de quarenta anos com seus cabelos cheios de cor castanha num tom mais escuro, e olhos de cor negra, vestido com uma roupa nobre de cor cinza, caminhava ao lado de uma bela e jovem mulher que aparentava ter no máximo vinte e cinco anos. Sua beleza era notória pelos seus lisos cabelos castanhos amarrados por uma fita amarela deixando um rabo de cavalo que ia até um pouco abaixo do pescoço. Seus olhos dourados combinavam com seu vestido amarelo de babado branco onde seus braços ficavam a mostra.

Os dois andavam cercados por seis guardas, dois de cada lado e mais dois atrás. Eles vestiam uma calça vermelha e uma camisa branca por baixo de um colete azul claro.

- Mais duas cidades depois desta, e chegaremos à casa de meu pai. Mais um pouco querida, e chegaremos em nossa nova casa. – pronunciou o homem com um aparente sorriso para a mulher ao lado.

- Sim. – ela disse sem muito entusiasmo, e olhando para as lojas ao lado como quem não quisesse dar muita atenção. O homem esboçou um pouco de seriedade no rosto, mas suas próximas palavras soaram calmamente.

- Ei, Joana. Deveria se alegrar mais. Este casamento foi o último desejo de seu pai. – A jovem finalmente olhou para o homem. Ela demonstrou uma expressão alegre.

- Eu sei, Adler. Por isso não vejo a hora de chegar lá. – disse ela produzindo um leve sorriso ao homem. Em seguida, Joana virou seu rosto novamente para observar as lojas, deixando Adler com um olhar desconfiado. Foi quando os olhos da jovem se fascinaram por um lugar específico. Ela deu seu maior sorriso naquele dia ao notar uma floricultura ao lado.

Sem se preocupar com quem andava, ela pôs-se a caminhar para a loja. Adler e os guardas pararam ao notarem Joana saindo de perto deles.

- Joana. Aonde você vai? – perguntou Adler vendo-a se afastar. Sem ter resposta, ele suspirou e a seguiu lentamente.

. . . . . . . . .

Melvin ainda estava dentro da loja observando algumas flores.

- Eh. Pelo o que vejo, cuidar das flores é a coisa mais importante pra você. Existe alguma que você goste em especial? – perguntou o mago. Florisval fez cara de pensativo enquanto pousava sua cabeça em sua mão fechada com o cotovelo apoiado sobre o balcão.

- Acho que não. Todas têm a mesma importância pra mim. Mas...

- Olá! – uma voz cortou a conversa entre o camponês e o mago. Ambos olharam para a entrada da loja, e observaram uma bela jovem de vestido amarelo. Imediatamente, Florisval levantou sua cabeça e seus olhos se arregalaram com aquela visão. Tanto as flores de sua própria loja quanto aquela mulher pareciam brilhar em harmonia. Suas flores realçavam ainda mais a beleza dela. Seus olhos dourados em seu rosto eram encantadores. A jovem aproximou-se com um sorriso. – Será que poderia me dar uma rosa? – perguntou ela gentilmente olhando para o floricultor.

Melvin, um pouco afastado ao lado do balcão, observou a cena, curioso. Florisval rapidamente saiu de seu transe, e pegou uma rosa de um vaso no canto do balcão e a deu para a jovem. O mago observou este ato, e por um momento, como se em câmera lenta, ele pudesse ver pequenas partículas brilhantes em volta das mãos da mulher e do floricultor.

- Aquilo é... – ponderava o mago. Os olhos de Florisval fascinavam na entrega da rosa, que era aceita de bom grado pela mulher que sorria. No instante em que ela foi pegar a flor, acidentalmente, seus dedos se tocaram. Mesmo sem saberem, eles sentiram algo de diferente naquele quase um segundo. Os sorrisos de ambos denunciavam tal sentimento. O mago ainda observava calmamente e atenciosamente. As duas mãos se afastaram enquanto o olhar dos dois se cruzavam.

- Obrigada. – agradeceu Joana. – Quanto custa? – perguntou ainda com um sorriso.

- Imagine. É por minha conta. – respondeu o floricultor recebendo mais um agradecimento dela.

- Ela é tão cheirosa. – comentou a mulher cheirando o aroma da rosa. Seus olhos então se voltaram para a floricultura. – Aliás, a fragrância desse lugar aqui também é perfumada, além de ser lindo. É você quem cuida disso tudo? – perguntou ela voltando-se para Florisval.

- Sim. Na verdade, cuidar das flores é quase como se fosse a minha vida. Senhorita, você gosta de flores?

- Bastante. – respondeu ela sorridente. Florisval falou então de uma forma ansiosa.

- Er... Se você quiser... eu posso te mostrar um campo de flores que tenho em frente à minha casa. É um belo lugar, assim como aqui, e é bem grande. – Melvin observava a cena com um leve sorriso.

- Eu adoraria. – respondeu ela. Florisval ia dizer algo, mas foi interrompido por uma grossa voz vinda da entrada da loja.

- Joana! – chamou um homem. – Se já comprou o que tem de comprar então vamos. – disse ele quase como se fosse uma ordem.

- Sim. – assentiu a mulher pouco antes de virar-se para Florisval. – É uma pena, mas tenho que voltar, pois estou de viagem. Talvez quem sabe, numa próxima vez quando estiver aqui.

- Sim. Estarei esperando. – disse o floricultor ainda com um sorriso, mas escondendo uma certa tristeza. Ele observou-a indo embora da loja. Antes de sair, ela virou seu rosto para ele como quem quisesse dar uma última olhada. Florisval não percebeu, mas Adler lhe lançava um sério olhar. Ele tocou no ombro de Joana e os dois andaram para a direita, sumindo da vista do floricultor.

- Joana... – murmurou Florisval. Após isso, ele encolheu os ombros e abaixou o rosto. Melvin se aproximou estranhando.

- O que foi? Percebo que está triste. Diferente do que eu senti quando você entregou aquela rosa a ela. – disse o mago.

- Eu queria mostrar o campo pra ela. É apenas uma viajante que por acaso entrou na minha loja. De fato, é verdade. As pessoas que passam pela minha vida, são rápidas e passageiras. Nunca vou encontrar alguém assim. – terminou com os olhos marejados e num tom melancólico. – Estarei sempre sozinho.

- Florisval... – murmurou o mago sentindo a tristeza vinda daquele homem. -... Você está solitário. – conclui lamentosamente. Melvin caminhou um pouco em frente ao balcão e olhou para a saída da loja. – Eu posso ajudá-lo nisso. – Florisval levantou o rosto olhando o mago de forma curiosa. – Posso segui-la e ver se ela vai ficar na cidade por mais algum tempo. Além disso, posso ver onde ela mora. Se você quiser mudar essa forma de ver as pessoas como sendo apenas passageiras, sugiro que não fique parado. Algumas pessoas que se tornaram permanentes em nossa vida, já foram passageiras antes. Portanto, não deve perder essa chance.

- Você faria isso? – perguntou o floricultor, impressionado, ainda vendo o mago de costas.

- Sim. Mas sob uma condição. – Melvin proferiu esboçando um afetado sorriso.

- Condição? Que condição? – Florisval perguntou estranhando. Melvin se virou o fitando seriamente.

- Diga-me! Onde está a flor que lhe curou? Dê-me-a, e farei isso por você. Escolha entre revelar seu segredo de família ou arriscar uma nova vida. – As palavras do mago abismaram Florisval.
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