O primeiro confronto entre Stahl e o estranho casal de vilões pode ter sérias repercussões na vida do jovem Marcelo, culminando numa terrível decisão que ele terá de tomar.
Conheça o Inferno. Parte 3.
Por João Norberto da Silva.
A noite no cemitério Parque das Flores em Campinas era iluminada por uma imensa fogueira que ardia onde, há poucos minutos, estava o herói conhecido como Stahl.
- Eles não deveriam fazer isso deveriam Xangô?
- Como eu vou saber mulher? Em todos esses anos servindo os Flamejantes eu nunca vi nossos animais fazerem algo desse tipo... Eles normalmente cortam e suas garras também queimam, mas se fundirem desse modo eu nunca vi e... O QUÊ??!!!!
As labaredas bruxuleavam, como se tomadas por um forte vento e foram pouco a pouco perdendo a força até que restou apenas o jovem herói, parado e com os braços ainda erguidos diante do rosto, esperando o ataque dos animais de fogo que seus inimigos haviam invocado.
Embaraçosos minutos se passam até que Stahl reuniu coragem para abrir os olhos e então ele viu seus oponentes parados diante dele, com expressões de surpresa em seus rostos.
- Como você fez isso moleque?
- Hã?
- Não se faça de idiota... Xangô eu vou tacar outro animal nele...
- Calma Héstia... O momento agora é para analisarmos o que está acontecendo e...
- Se vocês não podem me ferir... - Stahl empertigou o corpo, assumindo uma típica pose heróica, como as que ele costumava ver nas revistas de seu amigo, achando que era o suficiente para intimidar os dois bandidos diante dele, afinal eles não podiam perceber que era a primeira vez em que o herói tinha que enfrentar algo além de um incêndio. - Então é melhor se entregarem e me acompanharem até a delegacia mais próxima e... EEEIII!!!!
- Xangô!!! Você falou prá eu ter calma e então lança outro urso prá cima do moleque?!!! Quer se divertir sozinho é?
- Não aguentei a pose do desgraçado... - Ele então fez uma imitação de como o outro estava antes de ser envolvido pelas chamas, dando as costas para o mesmo e indo na direção da saída do cemitério. - “Se entreguem e me acompanhem até a delegacia mais próxima” o cacete... Eu...
- Xangô...
- Onde já se viu um merdinha desses achar que pode me ameaçar...
- Xangô!
- Sou o senhor das chamar mortais! O mais fodão que já andou por esse mundinho e...
- XANGÔ!!
- Que que foi mulher? Eu...
A frase do vilão foi interrompida quando ele se voltou para onde sua esposa estava apontando, a tempo de ver que as chamas do último urso que ele criara diminuíram novamente, até ficarem a poucos centímetros de distância da palma da mão de Stahl, que a mantinha assim e, depois de finalmente parecer assimilar o que estava acontecendo, se voltou para os vilões, sendo possível perceber que o mesmo estava sorrindo por debaixo da máscara.
- Hum... Nunca tinha tentado fazer algo assim... Até que não é difícil... - Ele começou a gesticular e logo a chama foi mudando de forma, parecendo com um tipo de pássaro. - Nossa! Legal!!
- Como é que...
- Cuidado Xangô!!!
O aviso de Héstia chegou a seu marido pouco antes de Stahl esticar a mão, fazendo com que o pássaro voasse, aumentando de tamanho até se tornar uma rajada de fogo, que passou a poucos centímetros dos vilões, agora caídos no chão do cemitério.
Eles se ergueram vagarosamente, ainda aturdidos com o que estava acontecendo, algo para o qual com certeza não estavam preparados, acostumados como estavam a apenas lidar com pessoas normais.
- Desgraçado... - Xangô se ajeitou, limpando furiosamente a camisa de seda que exibia várias manchas de terra. - Agora você vai ver!!!!
Das mãos do vilão começaram a surgir duas enormes colunas de fogo que foram formando um dragão parecido com o que Stahl havia enfrentado, mas esse era ainda maior e mais perigoso, o que tirou todo e qualquer traço de confiança do herói.
- Merda... - Ele ergueu os dois braços, torcendo para que, assim como da última vez, fosse o suficiente para sobreviver.
Enquanto o enorme monstro de fogo se lançava ao ataque, Héstia fechou os olhos e mexeu os lábios como se estivesse conversando com alguém.
- De-desgraçado... – Xangô se esforçava como nunca fizera antes. - Ele ainda está resistindo... Co-como isso é possível...
Dentro do redemoinho de fogo que se formou ao seu redor, Stahl se concentrava ao máximo, fazendo com que as chamas continuassem longe dele, ao mesmo tempo em que ele lutava pelo controle das mesmas, acabando por tocar o solo com um dos seus joelhos devido ao esforço. Ele arrancou a máscara, sentindo-se sufocado e percebendo surpreso que não precisava da mesma para respirar.
- Pare Xangô... - Héstia pousou suavemente a mão no ombro do marido, tentando não deixar transparecer como ele a estava assustando, devido à máscara de ódio que ele parecia estar vestindo. - O-os Flamejantes... E-estão no-nos convocando...
- O quê?!!! - Os olhos dele estavam arregalados e injetados, repletos de veias aparentes, seu rosto estava todo marcado pelas linhas de expressão e seus dentes cerrados mal deixavam passar as próximas palavras. - Justo agora?!! Vou matar esse merdinha antes e...
- Xangô... Agora.
As palavras dela soaram delicadas, mas foram o suficiente para ele se fixar nos belos olhos verdes, o que bastou para que o vilão começasse a se acalmar, baixando vagarosamente as duas mãos, até deixá-las caídas dos lados de seu corpo, sua voz saiu num sussurro, mal ouvido por sua esposa:
- Certo... Vamos...
Pouco a pouco Stahl sentia seu controle sobre as chamas aumentar e logo ele começava a fazer as mesmas diminuírem até que não restou mais nada. Foi então que ele se viu sozinho no cemitério, sobre um chão calcinado pelo calor.
- Mas... Prá onde eles foram?
O som de sirenes começava a chegar até os ouvidos do rapaz e este, logo depois de pegar sua máscara do chão, se teleportou. A última coisa que passou por sua cabeça era se explicar para as autoridades sobre o que ocorrera ali.
Ainda mais que ele mesmo mal fazia idéia.
XXX
Os dias seguintes transcorreram sem maiores problemas, mesmo com Renato se assustando facilmente com qualquer barulho, esperando um novo ataque do casal de vilões, mas logo ele começou a relaxar, ainda mais com seus amigos Santos e Bete se esforçando ao máximo para que o rapaz se concentrasse em outros assuntos, como os exames de final de ano que se aproximavam cada vez mais.
- Cê tem que me ajudar Renato... Essa coisa num entra de jeito nenhum na minha cabeça... Putz... Eu já te disse o quanto eu detesto matemática?
- Só toda vez que me pede ajuda... Se ficasse mais tempo com os livros e menos com os gibis...
- Revistas em Quadrinho ou HQ... Gibi prá mim é aquele doce de amendoim... Aquela paçoca que esfarela menos e...
- E qual é o valor dessa equação?
- Hã... Hum... Bem...
- Putz... Olha... Vai vendo essas páginas que eu marquei... Quando eu voltar, se você não tiver conseguido responder eu te ajudo... De novo...
- E aonde cê vai?
- Até a padaria... - O rapaz vestiu uma camiseta, a noite estava extremamente quente e Renato preferiria permanecer apenas de bermuda, mas como o dono da padaria não o deixaria entrar assim, ele suspirou enquanto ia até a porta. - Me deu mó vontade de comer um gibi...
- Me traz um? No próximo final de semana te pago...
- Claro... Claro... Vou aproveitar e comprar uns pães prá amanhã, já que “alguém” esqueceu...
- Foi mal... É que eu comprei a última edição do Batman e...
- E ele finalmente assumiu?
O rapaz precisou fechar rapidamente a porta, escapando por pouco do livro que o outro jogara contra ele.
O caminho até a padaria foi realizado em poucos minutos e logo Renato se dirigia até o caixa, com o valor dos pães numa mão e o saco com os mesmos na outra, totalmente distraído enquanto procurava as moedas em seu bolso e só percebeu quem estava na frente dele na fila quando reconheceu a voz de Carla, seu amor platônico da faculdade.
- Dois maços de Free por favor?
“Ela fuma?” Renato tentava esconder a breve decepção, enquanto a bela jovem se voltava para ele e o fitou durante alguns segundos, parecendo reconhecê-lo, enquanto abria um dos maços e retirava um cigarro, pretendendo acender o mesmo assim que saísse da padaria.
- Eu te conheço lá da faculdade né? Rodrigo?
- Renato... - “Pensa em algo legal prá falar... Pensa em algo legal...” - A noite tá super quente né? - “AAAARRRGGGHHH!!! Estúpido!!!”
- Hum... - Ela fez um beicinho e agitou os longos cabelos loiros, deixando o decote da sua blusinha ainda mais evidente. - Mas dá prá esquentar ainda mais... Cê tem fogo?
Renato quase derrubou os pães, mas precisou se abaixar, pois as moedas que ele pegava do bolso acabaram caindo, devido à sensualidade com que a garota disse a última frase, fazendo ele se sentir ainda mais envergonhado e querendo até mostrar o quanto de fogo ele tinha.
Antes de ele poder dar qualquer resposta, entretanto, ela acabou saindo, uma vez que o pessoal da fila começou a reclamar da demora e, depois de finalmente pagar, ele correu até a porta da padaria, querendo ver para que lado Carla havia ido e é então que ele presenciou uma estranha e incômoda cena.
Um mendigo se protegia, enquanto a garota gritava com ele, ameaçando agredir o pobre coitado.
- Sai de perto de mim seu nojento!!! Por que você num acha uma ponte e pula dela?!!! - Vendo que seus gritos começavam a chamar a atenção de algumas pessoas, a garota resolveu se afastar. - Ai! Que ódio!!! Vou chegar em casa e me lavar imediatamente!!!
- E-eu só queria um trocado...
- Tô um pão tio... - Seguindo os ensinamentos de seus pais de jamais dar esmola, Renato deixou o assustado mendigo para trás, voltando para seu apartamento com a mente confusa depois de ver o modo como Carla havia se portado.
- Ah! Cê tá de sacanagem né?
Assim que entrou em casa, Renato flagrou Santos deitado no sofá e lendo uma revista em quadrinhos despreocupadamente. No chão os cadernos e livros jaziam abandonados.
- Pô cara... - O rapaz se levantou, deixando de lado a revista e pegando o doce que o outro jogava para ele. - Cê demorou pacas! Vamos voltar aos estudos?
- Tô meio sem cabeça prá isso cara... Eu vou deitar... Tenta resolver esses problemas que qualquer coisa a gente olha de novo amanhã...
Enquanto o jovem saia da sala, Santos deu de ombros, olhou demoradamente para os livros e enquanto começava a comer o doce, voltou para o sofá e para sua revista em quadrinhos.
Já Renato, depois de deixar os pães e seu doce sobre a mesa da cozinha foi direto para seu quarto, mesmo sabendo que Santos iria acabar comendo o gibi dele, o rapaz não ligou. Ele tirou a camiseta e se deitou, a cabeça cheia de pensamentos com as decepções da noite, sabendo que o sono não viriafácil.
Perto dali, numa das ruas da frente do prédio onde os rapazes moravam, um casal se abraçava sob a sombra de uma árvore, ambos com o olhar fixo na janela do quarto de Renato.
- Será verdade Xangô...?
- Não sei mulher... Eles nunca mentiram, ou nunca pareceram mentir esses anos todos...
- Mas...
- Vamos... A gente vai acabar chamando a atenção por aqui... Vamos dormir... Amanhã nós resolvemos isso.
XXX
O Passado. Dezoito anos atrás.
- A gente tem mesmo que fazer isso querido?
- Não temos escolha meu amor... Não podemos arrastar nosso filho para o que eles estão pedindo...
- Continuo não confiando neles... A aparência dos dois... Se não os tivesse visto...
- Nem me fale... Agora vamos fazer logo...
- Sim... Chuif... Vamos de uma vez antes que eu mude de idéia... Será que eles vão cuidar bem dele?
- Carla e José Luiz são ótimas pessoas... E ela é sua melhor amiga... Claro que vão cuidar bem do Renato... Agora deixa a cesta aí... A carta está junto dele?
- Sim...
- Tem certeza?
- Eu estou deixando meu único filho para ser criado pela minha melhor amiga... Você acha mesmo que eu esqueceria algum detalhe do que combinamos?
- Ssshhhh... Vem cá... Deixa eu te abraçar...
- Hum... Sempre que você me abraça é como se o tempo voltasse... Nós temos mesmo que fazer isso?
- Segundo eles nós somos parte da última esperança do planeta... Fazendo esses sacrifícios, ao menos o Renato terá um mundo no qual viver... E vai crescer em segurança longe de nós... Agora vamos... Temos que sair daqui antes que alguém apareça...
- Espera... Deixa eu dar um último beijo nele...
- Certo, mas anda logo...
- Adeus meu filho... Eu vou te amar para sempre...
XXX
No dia seguinte em que Renato se encontrara com Carla, o rapaz despertou com os primeiros raios de sol entrando pela sua janela, que ele esquecera de fechar antes de dormir. Ainda sonolento e com os pensamentos voltados para o que ele havia visto na noite anterior, ele se levantou e seguiu vagarosamente para o banheiro, sabendo que Santos, como sempre, já deveria estar lá trancado àquela hora.
Ele bateu na porta e se surpreendeu com o fato da mesma estar aberta, isso acabou despertando-o por completo e então ele percebeu como o local estava silencioso.
Aguçando seus sentidos ele tentou perceber o que estava errado e foi até o quarto de seu amigo, para constatar, logo depois de ver que Santos não estava lá, que o computador do outro permanecia ligado e na tela uma estranha mensagem podia ser lida.
“Abra esse vídeo Renato... Sua vida está para mudar. Ass. X e H.”
Sentindo a apreensão crescer mais e mais ele ignorou o fato de que talvez fosse uma brincadeira, ou se pegou rezando para que fosse e clicou no local indicado, sentindo o coração quase parar.
- Olá Renato... - A face de Xangô, o homem que ele enfrentara há pouco tempo surgia de um lado da tela do vídeo que estava dividida ao meio. - Ou deveria dizer Stahl... Aliás... Que merda de nome é esse? Bem... De qualquer forma você está diante do maior dos pesadelos dos heróis... - Dizendo isso ele se afastou e Renato pôde ver sua família, seu pai, mãe e irmãos, todos amordaçados e amarrados em algumas cadeiras. - Estou no Parque da Figueira e se você quiser salvar a sua família venha até aqui agora mesmo...
O rapaz se preparava para realizar o teleporte, mas antes ele percebeu o lado negro da tela se acender, sendo possível ver o rosto da parceira de Xangô, Héstia, que começava a falar:
- Ou... - Ela deu um passo para o lado e, para o horror crescente de Renato, atrás dela estavam Santos e Bete. - Você pode vir para a Lagoa do Taquaral tentar salvar esses dois aqui...
- A escolha é sua. - Ambos disseram em uníssono antes da imagem ficar toda escura.
No apartamento Renato entrava em desespero sem imaginar o que ele podia fazer. Alguns instantes se passaram e, com os olhos cheios de lágrima ele abaixou a cabeça e sussurrou para si mesmo:
- Me perdoem...
Em seguida ele se teleportou.
Conclui a seguir
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