Apresentada como agente especial do Vaticano, Sagrada Justiça agora age salvando pessoas e cuidando dos interesses da Santa Sé pelo mundo. Uma emergência a leva até a Romênia onde confronta seus primeiros inimigos. Mas, como tudo em sua, nada é o que parece ser...
II. “Ecos do Passado”.
Por: Anderson Oliveira
O vento sopra com violência em seu rosto. A água espirra e molha seu macacão. Alguns insetos batem contra sua face, obrigando-a a manter a boca bem fechada para não engolir algum. Ela usa o visor para proteger seus olhos de tais agressões. É certo que o rugido do ar passando por seus ouvidos incomoda bastante. Mas mesmo assim, a sensação é muito boa. Voar a quinze centímetros da superfície do mar Mediterrâneo, numa velocidade de trezentos quilômetros por hora. Uma sensação de liberdade.
Fátima Duarte de Sá, chamada de Sagrada Justiça, numa manhã ensolarada como pouco se vê na Itália. Enfim um momento de paz. Desde que foi anunciada ao público como a defensora do Vaticano, ela nunca mais teve sossego. Sempre com alguém por perto, lhe dizendo o que fazer, como falar, como se comportar. Fora quando não era mandada em missões, resgatando foragidos ali, dando fim a um sequestro aqui e por aí vai. Os últimos meses têm sido corridos.
Mas agora ela está só, e sentir os insetos se espatifarem em sua cara é tudo que ela quer.
— Sagrada Justiça. Apresente-se agora! — ela ouve a voz que vem do seu comunicador no ouvido.
— Droga. Será que não tenho paz?! — diz ela tirando o dispositivo e o esmagando com seus dedos. Depois se vira, passando a voar de costas para o mar, cruzando os braços atrás da cabeça, como se estivesse deitada numa relaxante cama. Ela sorri e respira fundo. Só quer aproveitar o momento.
— Sagrada Justiça! Pela última vez, volte para o Vaticano! — diz a voz novamente.
— Mas como?! — se questiona a moça visto que não há mais comunicador. Abrindo seu olho esquerdo vagarosamente ela se surpreende ao ver que um helicóptero com o brasão da Santa Sé se aproxima, e um homem quase pra fora do veículo lhe diz ao megafone:
— Sagrada Justiça! Reduza a velocidade. Agora! — irritada, mas sabendo que é o que deve fazer, ela obedece o homem e reduz sua velocidade de vôo até parar por completo, ficando de pé sem tocar na água. Assim ela se pergunta se Jesus não teria usado um truque semelhante para andar sobre as águas.
Alguns instantes depois o helicóptero baixa, fazendo as águas levantarem com o vento de suas hélices, a molhando por completo, deixando seus mamilos rígidos, facilmente visíveis naquele macacão branco, para a vergonha da garota que logo se cobre com seus braços. O homem ao megafone apenas observa, não deixando claro se conseguiu ver alguma coisa, mas com um olhar de que certamente gostaria de ver. Ela não o conhece, nunca o viu, mas um único pensamento lhe vem à cabeça agora: como ele é lindo.
— Tchau, bella! Sou Giovanni Costelo, seu novo melhor amigo! — diz o rapaz sorrindo.
— Hmm? C-como é que é? — ela pergunta intrigada, ainda que medindo aquele moço de cima a baixo, fitando desde seus coturnos até seu corte de cabelo rebelde. Um tipo bem difícil de ver na guarda suíça.
— Ordens dos secretários. Eu, e nosso amigo Pepe, o piloto aqui, estaremos com você em suas missões. Se por acaso você se ferir e não puder voar, seremos sua carona. Se precisar trazer pessoas, nosso helicóptero será o transporte. Se você quiser conversar, sere--
— Meus cães de guarda? — a interrupção de Fátima faz Giovanni levantar a sobrancelha. Ele abaixa a cabeça e depois de um tempo lhe diz:
— Ordens dos secretários. — sem mais palavras, apenas com um olhar nada satisfeito, Sagrada Justiça deixa o helicóptero ali e levanta vôo, espalhando grande volume de água, molhando Giovanni inteiro. — Cáspite!
Cúria Romana – Secretaria de Defesa do Vaticano.
Sentados ao redor da mesa de carvalho, os três secretários se assustam quando Sagrada Justiça abre as grandes portas com força e adentra na sala com passadas firmes. Estão ali D. Cecílio Ravoni, D. Sérgio de Santiago e D. Mário Tarichelli, bispos da confiança do papa, encarregados de coordenar as ações da heroína.
— O que justifica tal falta de educação, Fátima? — pergunta D. Cecílio se levantando com um ar nada amistoso.
— Que história é aquela de helicóptero? — diz a moça em alto tom.
— Eu disse que ela teria essa reação. — comenta D. Sérgio, com seu sotaque espanhol, a D. Mário.
— Menina, o que você acha que somos? Loucos?! — diz D. Cecílio. — Você é, até onde sabemos, a criatura mais forte desde mundo, mas mesmo assim ainda é uma garota de dezessete anos, ingênua e está começando a ficar rebelde. O senhor Costelo só estará por perto para te proteger. — Fátima escuta tudo em silêncio, ainda com aquele olhar típico dos adolescentes contrariados. — No cenário atual, com o mundo de pernas pro ar, no que parece ser uma corrida armamentista em busca de super seres, você é um bem tão precioso que precisamos defendê-la a todo custo.
— Exatamente. — D. Mário toma a palavra, num tom bem mais calmo. — Chineses, Ingleses, Estadunidenses, brasileiros, mexicanos, japoneses... parece que cada país quer ter alguns super seres na folha de pagamento. Precisamos estar atentos a qualquer tentativa de te... sequestrarem.
— O Shalom não tinha uma babá! — diz Fátima num resmungo.
— Eram outros tempos. Ele era uma novidade, não havia ainda esse furor todo. — diz D. Cecílio. — E por favor, pare de se comparar ao Shalom, você não é a substituta dele... você é... diferente.
— Diferente como? — pergunta a moça, já num tom mais ameno. Há tempos ela vem querendo respostas, mas o que obtém são palavras vazias, sempre lhe desviando da verdade. Assim ela percebe mais uma vez com os três clérigos se olhando entre si. Quando então D. Sérgio liga uma tela com um controle e começa a dizer.
— Não há tempo para conversas, minha cara. Veja. — Fátima se volta para a tela e vê imagens de uma vila bem antiga, onde a população é vítima de terroristas mascarados. — Esta é a vila próxima a Timisoara, na Romênia. Ativistas raciais estão mantendo a vila, habitada por ciganos, sob mercê, prestes a iniciar um genocídio. O exército romeno e a polícia tática estavam controlando a situação, mas os terroristas se apresentaram bem mais hostis do que se imaginava. Veja. — Na tela, todos vêem um grupo de ciganos serem detonados com explosivos enquanto os terroristas comemoram. — dizem que se as forças armadas intervirem, vai haver mais execuções.
— O que eles querem em troca? — pergunta Fátima.
— Este é o problema. Não querem nada. Só matar aquela gente.
— E por que este é um caso pra mim?
— Por causa daquilo. — D. Sérgio mostra na tela o que parece ser uma criatura mutante no conflito. De tamanho e forma desproporcional. — Não sabemos de que lado essa criatura está, mas certamente é algo que só você pode deter.
— Entendi. — responde Fátima se voltando a indo para a porta.
— O Sr. Costelo acabou de aterrissar no heliporto. — avisa D. Mário. — Fátima, per favore, pelo menos seja gentil com o rapaz. — sem responder a garota cruza as portas deixando os três velhos a sós. D. Mário ameaça dizer algo, mas os outros dão sinal para ele esperar. Se passam alguns minutos e então ele é autorizado a falar: — Acha que ela poderia nos ouvir? Nos testes, ela não apresentou super-audição.
— Todo cuidado é pouco, caro Mário. — diz Cecílio.
— Sim, sim, é claro. Mas será que foi mesmo uma boa ideia colocar aquele jovem agente no seu encalço? O Sr. Giovanni Costelo não era conhecido na academia por sua ótima disciplina.
— Mário, você já viu o que aquela garota é capaz de fazer? Se ela se rebelar, o que acha que poderá impedi-la?
— Certamente não o Costelo, Cecílio.
— Exato. Por isso é melhor colocar um agente que seja dispensável. Não gostaríamos de perder um bom homem, caso nossa “filha de anjos” se revolte. Fora que, trabalhar seu psicológico sempre funcionou. Ela não precisa ser vigiada. Apenas precisa pensar que está sendo vigiada.
— Que Deus concorde contigo, amigo Cecílio. — quem diz agora é D. Sérgio.
— Amém. Para o bem de todos nós! — completa D. Mário enquanto D. Cecílio se volta para a janela.
Nesse momento, Sagrada Justiça pousa no heliporto da Cúria Romana, vendo ali aquele que será sua babá, como ela mesmo disse. Giovanni está parado, fora do helicóptero, falando ao celular quando a moça pousa na sua frente.
— Nossa, eu preciso me acostumar com isso! Não é sempre que se vê gente voando por aí! — diz o rapaz com um grande sorriso.
— Não vai precisar se acostumar, pois, espero, você não vai me ver tão cedo.
— Já te falaram que você fica muito bonita assim nervosinha? — provoca Giovanni, para a vergonha da garota.
— Só... só vim te dizer pra não cruzar meu caminho! — dizendo isso, lutando para esconder as bochechas coradas, ela alça vôo novamente, deixando Giovanni olhando para o céu até perdê-la de vista.
— Ei! Vamos lá, Pepe. Seguir essa menina é nosso trabalho, então não percamos tempo! — diz ele entrando no helicóptero. Já distante, Sagrada Justiça não pode deixar de pensar nesse tal Giovanni, nos seus gracejos e em como ele é bonito.
Alguns minutos depois ela entra em território Romeno. Um novo comunicador em seu ouvido lhe fornece as coordenadas que deve seguir. Voando acima das nuvens para não ser avistada, ela logo entra no povoado sob custódia dos terroristas. Porém há um detalhe que a deixa muito, mas muito incomodada. Não há terrorista algum.
— O que é isso? — se questiona quando só avista um povoado em paz, com seus habitantes em seus afazeres do cotidiano. Então uma série de pensamentos nada cristãos se formam em sua mente, pensando que aqueles velhos a enganaram. Cerrando os punhos, ela se vira e se prepara para retornar para a Itália, mas uma descarga elétrica a atinge pelas costas. Uma carga muito forte, capaz de fritar uma baleia, que a faz perder os sentidos e despencar dos céus caindo numa barraca de verduras.
Assustada, aquela pobre gente se aproxima com grande agitação. Crianças a cutucam com varetas enquanto os velhos parecem fazer preces. É quando uma criatura se aproxima, afastando todos, pegando a heroína pelo braço e voando com ela, com asas de inseto, para longe, dizendo com uma voz moribunda:
— Afastem-se. Ela pertence à Condessa.
Desacordada. Agora ela está no mundo dos sonhos novamente. Mas este sonho é diferente, pois reflete um lugar desconhecido, onde, com certeza, ela nunca esteve. Um lugar que existiu há muito tempo, numa era onde as guerras eram travadas pelos deuses. Templos revestidos de ouro. Pirâmides em degraus unidas por avenidas de tijolos, ao redor de palácios também de ouro.
Fátima então se vê no meio daquela avenida. Nessa cidade esquecida pelo tempo, com sua gente indo pra lá e pra cá, carregando cestos de pão e jarros de água no lombo de camelos e jumentos. Um pastor leva suas ovelhas para o campo. Uma criança vende bolos numa barraca. Mulheres com os seios a mostra vendem seus corpos para soldados embriagados. Ele ouve suas vozes, numa língua que não entende, e talvez nem se fale mais no mundo. Que cidade é essa? Onde ela está?
Um estrondo chama a atenção de todos. Fátima busca a origem dele, mas não vê nada. Só vê aos poucos as pessoas se prostrando de joelhos, com o rosto no chão numa clara reverência para algo ou alguém importante. Mas Fátima continua de pé. Ela olha no céu, que agora está escuro, e procura o motivo de tal escuridão. O que seus olhos vêem, sem dúvida não é visto há milênios.
Ela é feita de metal. Como uma nave. Uma nave espacial. Luzes piscam num vermelho e azul no que parece ser mil olhos por seu corpo. Fátima pode ver nela rodas dentro de rodas e ouve trovões em seu interior. Uma escada desce dela até o maior templo, a pirâmide de degraus. Então eles descem pelas escadas. Um outro deles sai de dentro do templo. Espadas se erguem. Veneno é derramado.
Gigantes. Em média três metros de altura. Eles também tomam as ruas e forçam o povo a saírem do caminho. Fátima ouve as lamentações das mulheres. Como que dizendo (isso fica claro) que os deuses estão zangados. Homens de cabeça raspada, sacerdotes, queimam incenso e sacrificam animais. Mas é em vão. Fátima olha mais uma vez para o céu, para o alto do templo, e vê:
O Trovejador desceu. Sua ira é grande. O Grande Guerreiro, irmão do Trovejador, também está irado. Seu amigo, o Aniquilador afronta seu velho pai (aquele que saiu do templo) e se junta a estes que desceram da nave. Aquele que saiu do templo, Aquele que Resolve Segredos, está triste, quer evitar tal situação. Ao seu lado, seu filho mais novo, o Arquiteto cujo símbolo é a Serpente, tenta ser justo e racional. Mas é em vão, pois o Grande Guerreiro e o Aniquilador já decidiram. Receberam aval do Céu. As Sete Armas Terríveis foram desenterradas. Eles vão atrás daquele cujo símbolo é o Olho para destruí-lo. A ele, seu filho e quem os proteger.
Fátima, num piscar de olhos, se vê sozinha na cidade. Todos se foram. As pessoas, os gigantes, aqueles do templo. Todos se foram. Ela sobe no templo, com em um sonho, já estava lá assim que pensou em subir. Olha ao redor. Não vê nada além de matas e montanhas. O sol vai nascer. Então um estranho ruído, vindo da direção do poente, lhe chama a atenção. Seu terror é enorme quando vê subir ao céus uma nuvem, como um cogumelo, subir ao céu e cobrir tudo com morte. Era uma explosão nuclear. Aterrorizada, Fátima ainda ouve uma voz familiar lhe dizer:
— Abraão viu a mesma coisa[1]. Não deixe que aconteça de novo, Fátima! Termine o que eu não pude terminar!
— Aaaahhh!! — ela acorda. Afinal, foi apenas um sonho. Mas quando um sonho é apenas um sonho e não uma mensagem?
— Olá, querida. Que bom que resolveu acordar. — diz uma voz feminina, um tanto fria, mas ainda assim pouco ameaçadora.
— Q-quem é... você? Onde... onde estou? — pergunta Sagrada Justiça. É quando então sua vista fica mais clara e ela pode ver um vulto sair das sombras.
— Eu sou Anastácia Kütermann, mas por aqui me chamam de Condessa da Moldávia. — uma bonita mulher, na casa dos quarenta e poucos anos, cabelos castanhos e longos, olhos também castanhos, vestida com um casaco vermelho. — Agora, sua segunda pergunta, bem... estamos em meu castelo, no monte Mondaveanu, centro da Romênia, há mais de 200 quilômetros daquele vilarejo onde você foi... atraída.
— Aquela história de terroristas então...?
— Um truque. Na verdade, só me interessava te ver.
— Mas pra quê? — só então Fátima se dá conta de que está numa mesa de cirurgia, presa com grilhões nos pulsos e nas canelas, num cenário que lembra o laboratório do Dr. Frankenstein.
— Você é uma espécime rara, Sagrada Justiça. Saber como cada parte de seu fabuloso corpo funciona é meu objetivo. Não se engane por essa baboseira de títulos de nobreza. Eu sou uma cientista e desde que vi aqueles velhotes do Vaticano te anunciarem, me despertou o desejo de estudar sua morfologia. — dizendo isso, a Condessa retira seu casaco e veste um jaleco branco, pondo também uma máscara cirúrgica e óculos.
— Não ouse tocar em mim! — protesta Fátima se debatendo.
— Calma, minha linda. Prometo que isso não vai doer. — Condessa veste suas luvas e pega um bisturi.
— Mas isso aqui vai doer sim! — Sagrada Justiça se livra das correntes com grande facilidade, as quebrando como se fossem de plástico. — Achou que isso iria me segurar? — e em seguida avança no pescoço da Condessa.
— Verdadeiramente? Não. — diz a mulher com muita calma. Estranhando tal reação, Sagrada Justiça não percebe quando um estranho homem entra na sala. — Por isso estou acompanhada. — o homem se aproxima. Seu corpo é deformado, repleto de chagas ainda frescas, como um verdadeiro leproso. Sagrada Justiça sente nojo a ponto de soltar a Condessa. Mais nojo ainda sente quando vê alguns insetos saírem das chagas abertas. — Dê uma lição nessa criança, Casulo.
Seguindo a ordem, o homem chamado de Casulo avança. Sagrada Justiça se põe em condição de luta. O corpo do seu adversário então começa a ser coberto por diversos insetos, todos saídos de suas feridas. Besouros, abelhas, formigas, baratas, grilos, escorpiões, aranhas, mariposas, mosquitos e taturanas, entre outros. Com isso, ele quase que duplica de tamanho, se tornando uma criatura monstruosa. Sagrada Justiça então o reconhece daquele vídeo. Ele a ataca com força e rapidez, a jogando contra uma parede.
— Casulo foi uma das minhas tentativas de criar o ser humano perfeito. — começa a dizer a Condessa enquanto seu monstro golpeia a jovem heroína. — Criei uma simbiose entre um homem semi-morto e diversas espécies de insetos, de modo que o homem e os bichos se tornassem um. Casulo soma as habilidades dos insetos, ganhando força proporcional a dos besouros, agilidade das aranhas, capacidade de voar como as abelhas, sentidos ampliados como formigas e baratas entre outras habilidades. E claro: é venenoso como um escorpião!
Segurando Sagrada Justiça pela cabeça, Casulo sobe as paredes, deixando um rastro de insetos que se soltam de seu corpo. Atingindo o teto, ela a toma com as duas mãos e a joga com força para baixo, depois salta sobre seu corpo. Tonta com tamanho ataque, a garota mal vê quando Casulo faz surgir um ferrão do dorso de sua mão direita. Ela nunca tinha enfrentado algum adversário desse tipo. Nunca tinha se envolvido numa luta. E, francamente, não sabe se sobreviveria a esse ataque. Casulo ergue seu braço, pronto a desferir seu ferrão envenenado.
— Espere! — grita a Condessa. — Eu quero ela viva! — Casulo a olha com rancor. Há tempos ele anseia por... refeição. Ser canibal é uma das habilidades que adquiriu dos insetos. Nesse ínterim, Sagrada Justiça consegue reagir, com um belo soco no estômago de Casulo.
— Não pare, Fátima! Não pare de bater! — diz ela pra si mesma enquanto desfere novos socos, numa força absurda, capaz de fazer toda a sala estremecer. A cada soco uma porção de insetos cai do corpo de Casulo, se espalhando por todos os lados. O monstro, com a perda dos insetos, vai perdendo massa e força, até que é abatido com um forte golpe na cabeça. Ofegante, Fátima diz: — Até... até que foi... fácil!
— Não precisa terminar assim. — ela ouve a voz da Condessa. Se virando, a vê caída no chão, com um escorpião africano correndo de seu corpo, um dos insetos espalhados com o ataque. Sagrada Justiça então se atenta ao ferimento no braço da mulher. Ela foi picada.
— Vou tirar você daqui.
— É tarde. A mutação genética potencializou a força do veneno. Irei morrer em poucos minutos. Nem meus antídotos farão efeito. Mas, quem sabe, talvez eu mereça.
— Não. Eu posso--
— Você tem um bom coração. Mas eu já fiz coisas horríveis. Nesse laboratório, desde que meu marido e meu filho mais novo morreram, eu tentei fazer de tudo. Desde cloná-los até criar novas formas de vida, como o Casulo que ali está. Minha filha sempre tentou me impedir. Pobre Anya... Eu simplesmente brinquei de Deus. — lágrimas escorrem do rosto da condessa enquanto ela faz sua confissão. — Fátima. Preciso lhe dizer. Não... não deixe que eles distorçam os fatos. Não deixe te tornarem algo que você não é. Que não nasceu pra ser.
— Do que está falando?
— Cuidado com a luz azul. Cuidado com o que come. Procure respostas. — a Condessa pega no braço de Fátima e, olhando em seus olhos, lhe diz: — Procure seu passado. — depois vira seu rosto para seu laboratório e, num tom de delírio, diz para si mesma: — Eu quis bancar Deus. Ser como nosso pai Enki.
— Enki? — diz Fátima curiosa com tal nome. — Condessa...? Condessa?! — ela chama, mas a Condessa não responde. Fátima fecha seus olhos, a deixando naquele lugar parcialmente destruído pela breve luta, com insetos andando pelo chão e um homem morto sendo devorado por eles. — Mãe do Céu! É esse meu destino?! Ver a morte? Portar a morte?! — com lágrimas nos olhos, ela alça vôo, atingindo uma pequena janela que é estraçalhada com sua passagem.
Em alta velocidade ela cruza os céus da Romênia, se guiando pela posição do Sol, ruma de volta para Roma, ainda pensando na tragédia que presenciou. No entanto ela vê ao longe um helicóptero familiar.
— Ei, bella! — chama Giovanni com seu megafone. Sagrada Justiça prefere nem responder, apenas lhe desfere um olhar triste, e segue seu curso de vôo em altíssima velocidade.
Dias depois, Fátima, com roupas normais, está sentada no chão da sala do apartamento que agora ocupa com suas damas de companhia, zapeando com o controle os canais da TV. Nesse momento os secretários D. Mário e D. Cecílio entram no apartamento, sendo recepcionados pelas freiras. Fátima não tira seus olhos da TV, atenta a uma reportagem sobre a crise no Iraque.
— Bon diorno, Fátima. — diz D. Cecílio se aproximando. — Viemos ver como está. Sua última missão a deixou muito perturbada. Isso nos preocupa. Lamentamos que tenha caído numa cilada armada por aquela mulher. Realmente não tínhamos como saber que o vídeo era falso...
— Por que não me mandam para o Iraque? — interrompe a moça.
— Iraque?! — se sobressalta D Mário.
— É. Olha só, aquela gente está morrendo numa guerra estúpida. Eu posso por fim nisso num--
— Fátima. Não é assim que funciona. — diz D. Cecílio. — Não podemos te mandar para lugares que não querem sua ajuda. Esse é um assunto dos norte-americanos e um envolvimento do Vaticano nessas questões seria--
— Tá. Já entendi. Olha... gostaria de ficar sozinha agora.
— Tudo bem. Só viemos ver se já estava bem. Então vamos agora. Até mais. — diz Cecílio, acompanhado de seu amigo. Quando os dois já deixavam o prédio, caminhando pela rua, D. Mário lhe diz:
— Norte-americanos uma ova. Não quer que ela vá ao Iraque, pois teme que lá ela encontre provas sobre sua origem.
— Mas é claro, amigo Mário. Se ela descobrir, não só nosso trabalho estará arruinado, mas toda a Igreja Católica será destruída, toda a fé cristã. Todo o monoteísmo! Os últimos dois mil anos irão por água abaixo. Histórias de Maria Madalena são refresco perto dessa verdade.
— Compreendo, amigo. É assustador, não é?
— Sem dúvida. Sem dúvida.
— E... e aquele brasileiro? Acha que ele sabe?
— Não sabe muita coisa. O que ele viu foram apenas especulações. Certamente não tem nada de concreto. Por isso ele não é um perigo. — os dois bispos continuam sua caminhada, sem perceber que são observados de longe pelo jovem Giovanni Costelo.
Em outro lugar, o bispo brasileiro D. Cláudio Hummes, em seu escritório, lê um papel xerocado em meio a muitos papéis. O conteúdo do documento é sobre as pesquisas que foram feitas em Fátima quando ela chegou ao Vaticano. Traz a relação dos envolvidos nos estudos. Entre eles, a Dra. Anastácia Kütermann, desligada do projeto por circunstâncias desconhecidas. Nesse momento o celular de D. Cláudio toca.
— Alô? Ah, é claro. Muito obrigado pelas informações. Falta pouco para desvendarmos o quebra-cabeças. Ainda bem que seu grupo vê que se pode fazer justiça e libertar essa menina de seu destino. Claro que podem contar comigo. Mais uma vez, muito obrigado... Sr. Costelo.
Epílogo:
O enterro de Anastácia Kütermann foi simples e rápido. Seus amigos e conhecidos não somaram mais de dez. Sozinha perante o túmulo, ainda está sua filha, Anya, de cerca de dezoito anos, belos olhos azuis e cabelos castanhos como os da mãe. Suas lágrimas molham as rosas deixadas na lápide e, antes de deixar sua mãe repousar em paz, Anya diz consigo mesma:
— Isso não vai ficar assim.
Continua...
__________________
[1] - “E Abraão levantou-se aquela mesma manhã de madrugada, e foi para aquele lugar onde estivera diante da face de Yahweh. E olhou para Sodoma e Gomorra, e para toda a planície; e viu, e eis que o fumo da terra subia, como o fumo duma fornalha.” - Gênesis 19:27-28.
Por: Anderson Oliveira
O vento sopra com violência em seu rosto. A água espirra e molha seu macacão. Alguns insetos batem contra sua face, obrigando-a a manter a boca bem fechada para não engolir algum. Ela usa o visor para proteger seus olhos de tais agressões. É certo que o rugido do ar passando por seus ouvidos incomoda bastante. Mas mesmo assim, a sensação é muito boa. Voar a quinze centímetros da superfície do mar Mediterrâneo, numa velocidade de trezentos quilômetros por hora. Uma sensação de liberdade.
Fátima Duarte de Sá, chamada de Sagrada Justiça, numa manhã ensolarada como pouco se vê na Itália. Enfim um momento de paz. Desde que foi anunciada ao público como a defensora do Vaticano, ela nunca mais teve sossego. Sempre com alguém por perto, lhe dizendo o que fazer, como falar, como se comportar. Fora quando não era mandada em missões, resgatando foragidos ali, dando fim a um sequestro aqui e por aí vai. Os últimos meses têm sido corridos.
Mas agora ela está só, e sentir os insetos se espatifarem em sua cara é tudo que ela quer.
— Sagrada Justiça. Apresente-se agora! — ela ouve a voz que vem do seu comunicador no ouvido.
— Droga. Será que não tenho paz?! — diz ela tirando o dispositivo e o esmagando com seus dedos. Depois se vira, passando a voar de costas para o mar, cruzando os braços atrás da cabeça, como se estivesse deitada numa relaxante cama. Ela sorri e respira fundo. Só quer aproveitar o momento.
— Sagrada Justiça! Pela última vez, volte para o Vaticano! — diz a voz novamente.
— Mas como?! — se questiona a moça visto que não há mais comunicador. Abrindo seu olho esquerdo vagarosamente ela se surpreende ao ver que um helicóptero com o brasão da Santa Sé se aproxima, e um homem quase pra fora do veículo lhe diz ao megafone:
— Sagrada Justiça! Reduza a velocidade. Agora! — irritada, mas sabendo que é o que deve fazer, ela obedece o homem e reduz sua velocidade de vôo até parar por completo, ficando de pé sem tocar na água. Assim ela se pergunta se Jesus não teria usado um truque semelhante para andar sobre as águas.
Alguns instantes depois o helicóptero baixa, fazendo as águas levantarem com o vento de suas hélices, a molhando por completo, deixando seus mamilos rígidos, facilmente visíveis naquele macacão branco, para a vergonha da garota que logo se cobre com seus braços. O homem ao megafone apenas observa, não deixando claro se conseguiu ver alguma coisa, mas com um olhar de que certamente gostaria de ver. Ela não o conhece, nunca o viu, mas um único pensamento lhe vem à cabeça agora: como ele é lindo.
— Tchau, bella! Sou Giovanni Costelo, seu novo melhor amigo! — diz o rapaz sorrindo.
— Hmm? C-como é que é? — ela pergunta intrigada, ainda que medindo aquele moço de cima a baixo, fitando desde seus coturnos até seu corte de cabelo rebelde. Um tipo bem difícil de ver na guarda suíça.
— Ordens dos secretários. Eu, e nosso amigo Pepe, o piloto aqui, estaremos com você em suas missões. Se por acaso você se ferir e não puder voar, seremos sua carona. Se precisar trazer pessoas, nosso helicóptero será o transporte. Se você quiser conversar, sere--
— Meus cães de guarda? — a interrupção de Fátima faz Giovanni levantar a sobrancelha. Ele abaixa a cabeça e depois de um tempo lhe diz:
— Ordens dos secretários. — sem mais palavras, apenas com um olhar nada satisfeito, Sagrada Justiça deixa o helicóptero ali e levanta vôo, espalhando grande volume de água, molhando Giovanni inteiro. — Cáspite!
Cúria Romana – Secretaria de Defesa do Vaticano.
Sentados ao redor da mesa de carvalho, os três secretários se assustam quando Sagrada Justiça abre as grandes portas com força e adentra na sala com passadas firmes. Estão ali D. Cecílio Ravoni, D. Sérgio de Santiago e D. Mário Tarichelli, bispos da confiança do papa, encarregados de coordenar as ações da heroína.
— O que justifica tal falta de educação, Fátima? — pergunta D. Cecílio se levantando com um ar nada amistoso.
— Que história é aquela de helicóptero? — diz a moça em alto tom.
— Eu disse que ela teria essa reação. — comenta D. Sérgio, com seu sotaque espanhol, a D. Mário.
— Menina, o que você acha que somos? Loucos?! — diz D. Cecílio. — Você é, até onde sabemos, a criatura mais forte desde mundo, mas mesmo assim ainda é uma garota de dezessete anos, ingênua e está começando a ficar rebelde. O senhor Costelo só estará por perto para te proteger. — Fátima escuta tudo em silêncio, ainda com aquele olhar típico dos adolescentes contrariados. — No cenário atual, com o mundo de pernas pro ar, no que parece ser uma corrida armamentista em busca de super seres, você é um bem tão precioso que precisamos defendê-la a todo custo.
— Exatamente. — D. Mário toma a palavra, num tom bem mais calmo. — Chineses, Ingleses, Estadunidenses, brasileiros, mexicanos, japoneses... parece que cada país quer ter alguns super seres na folha de pagamento. Precisamos estar atentos a qualquer tentativa de te... sequestrarem.
— O Shalom não tinha uma babá! — diz Fátima num resmungo.
— Eram outros tempos. Ele era uma novidade, não havia ainda esse furor todo. — diz D. Cecílio. — E por favor, pare de se comparar ao Shalom, você não é a substituta dele... você é... diferente.
— Diferente como? — pergunta a moça, já num tom mais ameno. Há tempos ela vem querendo respostas, mas o que obtém são palavras vazias, sempre lhe desviando da verdade. Assim ela percebe mais uma vez com os três clérigos se olhando entre si. Quando então D. Sérgio liga uma tela com um controle e começa a dizer.
— Não há tempo para conversas, minha cara. Veja. — Fátima se volta para a tela e vê imagens de uma vila bem antiga, onde a população é vítima de terroristas mascarados. — Esta é a vila próxima a Timisoara, na Romênia. Ativistas raciais estão mantendo a vila, habitada por ciganos, sob mercê, prestes a iniciar um genocídio. O exército romeno e a polícia tática estavam controlando a situação, mas os terroristas se apresentaram bem mais hostis do que se imaginava. Veja. — Na tela, todos vêem um grupo de ciganos serem detonados com explosivos enquanto os terroristas comemoram. — dizem que se as forças armadas intervirem, vai haver mais execuções.
— O que eles querem em troca? — pergunta Fátima.
— Este é o problema. Não querem nada. Só matar aquela gente.
— E por que este é um caso pra mim?
— Por causa daquilo. — D. Sérgio mostra na tela o que parece ser uma criatura mutante no conflito. De tamanho e forma desproporcional. — Não sabemos de que lado essa criatura está, mas certamente é algo que só você pode deter.
— Entendi. — responde Fátima se voltando a indo para a porta.
— O Sr. Costelo acabou de aterrissar no heliporto. — avisa D. Mário. — Fátima, per favore, pelo menos seja gentil com o rapaz. — sem responder a garota cruza as portas deixando os três velhos a sós. D. Mário ameaça dizer algo, mas os outros dão sinal para ele esperar. Se passam alguns minutos e então ele é autorizado a falar: — Acha que ela poderia nos ouvir? Nos testes, ela não apresentou super-audição.
— Todo cuidado é pouco, caro Mário. — diz Cecílio.
— Sim, sim, é claro. Mas será que foi mesmo uma boa ideia colocar aquele jovem agente no seu encalço? O Sr. Giovanni Costelo não era conhecido na academia por sua ótima disciplina.
— Mário, você já viu o que aquela garota é capaz de fazer? Se ela se rebelar, o que acha que poderá impedi-la?
— Certamente não o Costelo, Cecílio.
— Exato. Por isso é melhor colocar um agente que seja dispensável. Não gostaríamos de perder um bom homem, caso nossa “filha de anjos” se revolte. Fora que, trabalhar seu psicológico sempre funcionou. Ela não precisa ser vigiada. Apenas precisa pensar que está sendo vigiada.
— Que Deus concorde contigo, amigo Cecílio. — quem diz agora é D. Sérgio.
— Amém. Para o bem de todos nós! — completa D. Mário enquanto D. Cecílio se volta para a janela.
Nesse momento, Sagrada Justiça pousa no heliporto da Cúria Romana, vendo ali aquele que será sua babá, como ela mesmo disse. Giovanni está parado, fora do helicóptero, falando ao celular quando a moça pousa na sua frente.
— Nossa, eu preciso me acostumar com isso! Não é sempre que se vê gente voando por aí! — diz o rapaz com um grande sorriso.
— Não vai precisar se acostumar, pois, espero, você não vai me ver tão cedo.
— Já te falaram que você fica muito bonita assim nervosinha? — provoca Giovanni, para a vergonha da garota.
— Só... só vim te dizer pra não cruzar meu caminho! — dizendo isso, lutando para esconder as bochechas coradas, ela alça vôo novamente, deixando Giovanni olhando para o céu até perdê-la de vista.
— Ei! Vamos lá, Pepe. Seguir essa menina é nosso trabalho, então não percamos tempo! — diz ele entrando no helicóptero. Já distante, Sagrada Justiça não pode deixar de pensar nesse tal Giovanni, nos seus gracejos e em como ele é bonito.
Alguns minutos depois ela entra em território Romeno. Um novo comunicador em seu ouvido lhe fornece as coordenadas que deve seguir. Voando acima das nuvens para não ser avistada, ela logo entra no povoado sob custódia dos terroristas. Porém há um detalhe que a deixa muito, mas muito incomodada. Não há terrorista algum.
— O que é isso? — se questiona quando só avista um povoado em paz, com seus habitantes em seus afazeres do cotidiano. Então uma série de pensamentos nada cristãos se formam em sua mente, pensando que aqueles velhos a enganaram. Cerrando os punhos, ela se vira e se prepara para retornar para a Itália, mas uma descarga elétrica a atinge pelas costas. Uma carga muito forte, capaz de fritar uma baleia, que a faz perder os sentidos e despencar dos céus caindo numa barraca de verduras.
Assustada, aquela pobre gente se aproxima com grande agitação. Crianças a cutucam com varetas enquanto os velhos parecem fazer preces. É quando uma criatura se aproxima, afastando todos, pegando a heroína pelo braço e voando com ela, com asas de inseto, para longe, dizendo com uma voz moribunda:
— Afastem-se. Ela pertence à Condessa.
Desacordada. Agora ela está no mundo dos sonhos novamente. Mas este sonho é diferente, pois reflete um lugar desconhecido, onde, com certeza, ela nunca esteve. Um lugar que existiu há muito tempo, numa era onde as guerras eram travadas pelos deuses. Templos revestidos de ouro. Pirâmides em degraus unidas por avenidas de tijolos, ao redor de palácios também de ouro.
Fátima então se vê no meio daquela avenida. Nessa cidade esquecida pelo tempo, com sua gente indo pra lá e pra cá, carregando cestos de pão e jarros de água no lombo de camelos e jumentos. Um pastor leva suas ovelhas para o campo. Uma criança vende bolos numa barraca. Mulheres com os seios a mostra vendem seus corpos para soldados embriagados. Ele ouve suas vozes, numa língua que não entende, e talvez nem se fale mais no mundo. Que cidade é essa? Onde ela está?
Um estrondo chama a atenção de todos. Fátima busca a origem dele, mas não vê nada. Só vê aos poucos as pessoas se prostrando de joelhos, com o rosto no chão numa clara reverência para algo ou alguém importante. Mas Fátima continua de pé. Ela olha no céu, que agora está escuro, e procura o motivo de tal escuridão. O que seus olhos vêem, sem dúvida não é visto há milênios.
Ela é feita de metal. Como uma nave. Uma nave espacial. Luzes piscam num vermelho e azul no que parece ser mil olhos por seu corpo. Fátima pode ver nela rodas dentro de rodas e ouve trovões em seu interior. Uma escada desce dela até o maior templo, a pirâmide de degraus. Então eles descem pelas escadas. Um outro deles sai de dentro do templo. Espadas se erguem. Veneno é derramado.
Gigantes. Em média três metros de altura. Eles também tomam as ruas e forçam o povo a saírem do caminho. Fátima ouve as lamentações das mulheres. Como que dizendo (isso fica claro) que os deuses estão zangados. Homens de cabeça raspada, sacerdotes, queimam incenso e sacrificam animais. Mas é em vão. Fátima olha mais uma vez para o céu, para o alto do templo, e vê:
O Trovejador desceu. Sua ira é grande. O Grande Guerreiro, irmão do Trovejador, também está irado. Seu amigo, o Aniquilador afronta seu velho pai (aquele que saiu do templo) e se junta a estes que desceram da nave. Aquele que saiu do templo, Aquele que Resolve Segredos, está triste, quer evitar tal situação. Ao seu lado, seu filho mais novo, o Arquiteto cujo símbolo é a Serpente, tenta ser justo e racional. Mas é em vão, pois o Grande Guerreiro e o Aniquilador já decidiram. Receberam aval do Céu. As Sete Armas Terríveis foram desenterradas. Eles vão atrás daquele cujo símbolo é o Olho para destruí-lo. A ele, seu filho e quem os proteger.
Fátima, num piscar de olhos, se vê sozinha na cidade. Todos se foram. As pessoas, os gigantes, aqueles do templo. Todos se foram. Ela sobe no templo, com em um sonho, já estava lá assim que pensou em subir. Olha ao redor. Não vê nada além de matas e montanhas. O sol vai nascer. Então um estranho ruído, vindo da direção do poente, lhe chama a atenção. Seu terror é enorme quando vê subir ao céus uma nuvem, como um cogumelo, subir ao céu e cobrir tudo com morte. Era uma explosão nuclear. Aterrorizada, Fátima ainda ouve uma voz familiar lhe dizer:
— Abraão viu a mesma coisa[1]. Não deixe que aconteça de novo, Fátima! Termine o que eu não pude terminar!
— Aaaahhh!! — ela acorda. Afinal, foi apenas um sonho. Mas quando um sonho é apenas um sonho e não uma mensagem?
— Olá, querida. Que bom que resolveu acordar. — diz uma voz feminina, um tanto fria, mas ainda assim pouco ameaçadora.
— Q-quem é... você? Onde... onde estou? — pergunta Sagrada Justiça. É quando então sua vista fica mais clara e ela pode ver um vulto sair das sombras.
— Eu sou Anastácia Kütermann, mas por aqui me chamam de Condessa da Moldávia. — uma bonita mulher, na casa dos quarenta e poucos anos, cabelos castanhos e longos, olhos também castanhos, vestida com um casaco vermelho. — Agora, sua segunda pergunta, bem... estamos em meu castelo, no monte Mondaveanu, centro da Romênia, há mais de 200 quilômetros daquele vilarejo onde você foi... atraída.
— Aquela história de terroristas então...?
— Um truque. Na verdade, só me interessava te ver.
— Mas pra quê? — só então Fátima se dá conta de que está numa mesa de cirurgia, presa com grilhões nos pulsos e nas canelas, num cenário que lembra o laboratório do Dr. Frankenstein.
— Você é uma espécime rara, Sagrada Justiça. Saber como cada parte de seu fabuloso corpo funciona é meu objetivo. Não se engane por essa baboseira de títulos de nobreza. Eu sou uma cientista e desde que vi aqueles velhotes do Vaticano te anunciarem, me despertou o desejo de estudar sua morfologia. — dizendo isso, a Condessa retira seu casaco e veste um jaleco branco, pondo também uma máscara cirúrgica e óculos.
— Não ouse tocar em mim! — protesta Fátima se debatendo.
— Calma, minha linda. Prometo que isso não vai doer. — Condessa veste suas luvas e pega um bisturi.
— Mas isso aqui vai doer sim! — Sagrada Justiça se livra das correntes com grande facilidade, as quebrando como se fossem de plástico. — Achou que isso iria me segurar? — e em seguida avança no pescoço da Condessa.
— Verdadeiramente? Não. — diz a mulher com muita calma. Estranhando tal reação, Sagrada Justiça não percebe quando um estranho homem entra na sala. — Por isso estou acompanhada. — o homem se aproxima. Seu corpo é deformado, repleto de chagas ainda frescas, como um verdadeiro leproso. Sagrada Justiça sente nojo a ponto de soltar a Condessa. Mais nojo ainda sente quando vê alguns insetos saírem das chagas abertas. — Dê uma lição nessa criança, Casulo.
Seguindo a ordem, o homem chamado de Casulo avança. Sagrada Justiça se põe em condição de luta. O corpo do seu adversário então começa a ser coberto por diversos insetos, todos saídos de suas feridas. Besouros, abelhas, formigas, baratas, grilos, escorpiões, aranhas, mariposas, mosquitos e taturanas, entre outros. Com isso, ele quase que duplica de tamanho, se tornando uma criatura monstruosa. Sagrada Justiça então o reconhece daquele vídeo. Ele a ataca com força e rapidez, a jogando contra uma parede.
— Casulo foi uma das minhas tentativas de criar o ser humano perfeito. — começa a dizer a Condessa enquanto seu monstro golpeia a jovem heroína. — Criei uma simbiose entre um homem semi-morto e diversas espécies de insetos, de modo que o homem e os bichos se tornassem um. Casulo soma as habilidades dos insetos, ganhando força proporcional a dos besouros, agilidade das aranhas, capacidade de voar como as abelhas, sentidos ampliados como formigas e baratas entre outras habilidades. E claro: é venenoso como um escorpião!
Segurando Sagrada Justiça pela cabeça, Casulo sobe as paredes, deixando um rastro de insetos que se soltam de seu corpo. Atingindo o teto, ela a toma com as duas mãos e a joga com força para baixo, depois salta sobre seu corpo. Tonta com tamanho ataque, a garota mal vê quando Casulo faz surgir um ferrão do dorso de sua mão direita. Ela nunca tinha enfrentado algum adversário desse tipo. Nunca tinha se envolvido numa luta. E, francamente, não sabe se sobreviveria a esse ataque. Casulo ergue seu braço, pronto a desferir seu ferrão envenenado.
— Espere! — grita a Condessa. — Eu quero ela viva! — Casulo a olha com rancor. Há tempos ele anseia por... refeição. Ser canibal é uma das habilidades que adquiriu dos insetos. Nesse ínterim, Sagrada Justiça consegue reagir, com um belo soco no estômago de Casulo.
— Não pare, Fátima! Não pare de bater! — diz ela pra si mesma enquanto desfere novos socos, numa força absurda, capaz de fazer toda a sala estremecer. A cada soco uma porção de insetos cai do corpo de Casulo, se espalhando por todos os lados. O monstro, com a perda dos insetos, vai perdendo massa e força, até que é abatido com um forte golpe na cabeça. Ofegante, Fátima diz: — Até... até que foi... fácil!
— Não precisa terminar assim. — ela ouve a voz da Condessa. Se virando, a vê caída no chão, com um escorpião africano correndo de seu corpo, um dos insetos espalhados com o ataque. Sagrada Justiça então se atenta ao ferimento no braço da mulher. Ela foi picada.
— Vou tirar você daqui.
— É tarde. A mutação genética potencializou a força do veneno. Irei morrer em poucos minutos. Nem meus antídotos farão efeito. Mas, quem sabe, talvez eu mereça.
— Não. Eu posso--
— Você tem um bom coração. Mas eu já fiz coisas horríveis. Nesse laboratório, desde que meu marido e meu filho mais novo morreram, eu tentei fazer de tudo. Desde cloná-los até criar novas formas de vida, como o Casulo que ali está. Minha filha sempre tentou me impedir. Pobre Anya... Eu simplesmente brinquei de Deus. — lágrimas escorrem do rosto da condessa enquanto ela faz sua confissão. — Fátima. Preciso lhe dizer. Não... não deixe que eles distorçam os fatos. Não deixe te tornarem algo que você não é. Que não nasceu pra ser.
— Do que está falando?
— Cuidado com a luz azul. Cuidado com o que come. Procure respostas. — a Condessa pega no braço de Fátima e, olhando em seus olhos, lhe diz: — Procure seu passado. — depois vira seu rosto para seu laboratório e, num tom de delírio, diz para si mesma: — Eu quis bancar Deus. Ser como nosso pai Enki.
— Enki? — diz Fátima curiosa com tal nome. — Condessa...? Condessa?! — ela chama, mas a Condessa não responde. Fátima fecha seus olhos, a deixando naquele lugar parcialmente destruído pela breve luta, com insetos andando pelo chão e um homem morto sendo devorado por eles. — Mãe do Céu! É esse meu destino?! Ver a morte? Portar a morte?! — com lágrimas nos olhos, ela alça vôo, atingindo uma pequena janela que é estraçalhada com sua passagem.
Em alta velocidade ela cruza os céus da Romênia, se guiando pela posição do Sol, ruma de volta para Roma, ainda pensando na tragédia que presenciou. No entanto ela vê ao longe um helicóptero familiar.
— Ei, bella! — chama Giovanni com seu megafone. Sagrada Justiça prefere nem responder, apenas lhe desfere um olhar triste, e segue seu curso de vôo em altíssima velocidade.
Dias depois, Fátima, com roupas normais, está sentada no chão da sala do apartamento que agora ocupa com suas damas de companhia, zapeando com o controle os canais da TV. Nesse momento os secretários D. Mário e D. Cecílio entram no apartamento, sendo recepcionados pelas freiras. Fátima não tira seus olhos da TV, atenta a uma reportagem sobre a crise no Iraque.
— Bon diorno, Fátima. — diz D. Cecílio se aproximando. — Viemos ver como está. Sua última missão a deixou muito perturbada. Isso nos preocupa. Lamentamos que tenha caído numa cilada armada por aquela mulher. Realmente não tínhamos como saber que o vídeo era falso...
— Por que não me mandam para o Iraque? — interrompe a moça.
— Iraque?! — se sobressalta D Mário.
— É. Olha só, aquela gente está morrendo numa guerra estúpida. Eu posso por fim nisso num--
— Fátima. Não é assim que funciona. — diz D. Cecílio. — Não podemos te mandar para lugares que não querem sua ajuda. Esse é um assunto dos norte-americanos e um envolvimento do Vaticano nessas questões seria--
— Tá. Já entendi. Olha... gostaria de ficar sozinha agora.
— Tudo bem. Só viemos ver se já estava bem. Então vamos agora. Até mais. — diz Cecílio, acompanhado de seu amigo. Quando os dois já deixavam o prédio, caminhando pela rua, D. Mário lhe diz:
— Norte-americanos uma ova. Não quer que ela vá ao Iraque, pois teme que lá ela encontre provas sobre sua origem.
— Mas é claro, amigo Mário. Se ela descobrir, não só nosso trabalho estará arruinado, mas toda a Igreja Católica será destruída, toda a fé cristã. Todo o monoteísmo! Os últimos dois mil anos irão por água abaixo. Histórias de Maria Madalena são refresco perto dessa verdade.
— Compreendo, amigo. É assustador, não é?
— Sem dúvida. Sem dúvida.
— E... e aquele brasileiro? Acha que ele sabe?
— Não sabe muita coisa. O que ele viu foram apenas especulações. Certamente não tem nada de concreto. Por isso ele não é um perigo. — os dois bispos continuam sua caminhada, sem perceber que são observados de longe pelo jovem Giovanni Costelo.
Em outro lugar, o bispo brasileiro D. Cláudio Hummes, em seu escritório, lê um papel xerocado em meio a muitos papéis. O conteúdo do documento é sobre as pesquisas que foram feitas em Fátima quando ela chegou ao Vaticano. Traz a relação dos envolvidos nos estudos. Entre eles, a Dra. Anastácia Kütermann, desligada do projeto por circunstâncias desconhecidas. Nesse momento o celular de D. Cláudio toca.
— Alô? Ah, é claro. Muito obrigado pelas informações. Falta pouco para desvendarmos o quebra-cabeças. Ainda bem que seu grupo vê que se pode fazer justiça e libertar essa menina de seu destino. Claro que podem contar comigo. Mais uma vez, muito obrigado... Sr. Costelo.
Epílogo:
O enterro de Anastácia Kütermann foi simples e rápido. Seus amigos e conhecidos não somaram mais de dez. Sozinha perante o túmulo, ainda está sua filha, Anya, de cerca de dezoito anos, belos olhos azuis e cabelos castanhos como os da mãe. Suas lágrimas molham as rosas deixadas na lápide e, antes de deixar sua mãe repousar em paz, Anya diz consigo mesma:
— Isso não vai ficar assim.
Continua...
__________________
[1] - “E Abraão levantou-se aquela mesma manhã de madrugada, e foi para aquele lugar onde estivera diante da face de Yahweh. E olhou para Sodoma e Gomorra, e para toda a planície; e viu, e eis que o fumo da terra subia, como o fumo duma fornalha.” - Gênesis 19:27-28.
Postar um comentário