Muitas ameaças aguardam Noriel no seu caminho pelo mundo dos mortos em busca das portas do Abismo, de onde pretende resgatar o condenado Profaniel. Como será o inferno agora que Lúcifer reina no firmamento?

Por: Anderson Oliveira
03. O Evangelho de Profany, parte 3.
Limbo, Purgatório e Inferno.
“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” – A Divina Comédia
O vento frio acaricia o rosto esverdeado de Noriel, fazendo o crer, por alguns instantes, que aquilo ali é mesmo vento e que ele tem um rosto naquele plano espiritual. Os anos que literalmente “viveu” na Terra atrofiaram sua percepção das coisas. Tal que aos seus olhos o mundo dos mortos é semelhante ao dos vivos. Mas ele deixa o vento acariciar-lhe enquanto processa o fato de ter sido recebido por Abel, o filho pastor de Adão.
— Aqui não é seu lugar. — repete Abel com olhar não muito amistoso. Talvez devido ao seu rosto primitivo. — Volte enquanto ainda é tempo.
— Não vou voltar ainda. Preciso ir pra um certo lugar. — e sem esperar alguma resposta, Noriel se voltou e começou a caminhar. Abel o seguia de perto e começou a dizer.
— Onde queres ir, nefilim? Lá não irá chegar sozinho.
— Então me acompanhe, se isso escolher.
— Você que escolheu minha companhia.
Ouvindo isso Noriel se pergunta se tudo aquilo não seria um meio do seu subconsciente traduzir o ocorrido. Quando os homens morrem, relatam que um antepassado o recebeu no além. Já que nefilins não têm antepassados e esse Abel foi o primeiro homem que morreu - na verdade foi assassinado - na Terra, nada mais natural a associar-lhe a isso. Mas essa é uma divagação desnecessária, como todas as divagações, e Noriel continua seu caminho, sem se dar conta que caminhar é coisa dos vivos.
Mas não deixa de reparar a sua volta. Aquele campo bucólico, um tanto frio e assustador como a solidão, ainda que não esteja sozinho. As árvores retorcidas como múmias de um tempo mais feliz que outrora existiu. Seria tudo isso consequência do reinado do diabo ou realmente sempre foi assim e ele não se lembra? Talvez, pois antes olhava isso como olhos de anjo, e aos olhos dos anjos tudo parecia melhor.
— É árdua a descida até o Abismo. — diz Abel sem nenhum aviso. Noriel não se lembra de ter dito onde queria ir.
— Achei que seria mais fácil agora que Satanás é o senhor.
— Não. Ele teme o Abismo, pois sabe que fora reservado para ele. Não deve ter poder para desfazê-lo, ou talvez tenha outros planos. Não sei dizer. Foi o único lugar que não foi corrompido.
Noriel medita as palavras de Abel e percebe que ele tem certa razão. Isso também significa que Profaniel ainda está lá, isolado de tudo. Noriel não tem certeza de qual é a origem do Inferno. Ele sabe que lá é o Abismo, que é o nome mais correto para se aplicar. Dizem que o Abismo foi criado por Deus para punir os anjos rebeldes desde o principio da Criação. Outros dizem que o Abismo já estava lá e Deus criou tudo ao seu redor e a partir dele. Portanto ele seria o centro do Universo.
Enquanto pensa nisso que Noriel se aproxima de uma baixada e, a descendo, chega a um exuberante rio. Extenso como o mar e esverdeado como tudo mais ali. A sua margem, numa areia preta e de aspecto mal cheiroso (apesar de não sentir cheiro algum), um pequeno barco rebocado de betume, com remos sujos de lodo, saltando pra fora, abriga uma figura encoberta por um manto negro, de cócoras dentro do barco, dormindo ou coisa parecida. Noriel sabe exatamente onde está.
O rio Aqueronte. E seu barqueiro é certamente Caronte. É ele que levará Noriel para outro lado. Mas antes de dar o próximo passo, Abel o segurou firme pelo braço, quase a ponto de puxá-lo de volta, para lhe dizer:
— Se cruzar o rio, não haverá volta. — Noriel pensa por um momento. Não se lembra de Gabriel ter-lhe dado instruções de como regressar. Só disse para voltar em seis minutos. Apesar do crescente e real medo de não poder voltar, Noriel se aventura com o primeiro passo, vendo que Abel o solta e fica parado, como se não acreditando na sua audácia.
Noriel se aproxima do barco, mas Caronte não faz caso dele e continua abaixado e enrolado em seu manto. Noriel fita o rio por um momento e percebe nuances de águas claras e belas contrastando com água preta e poluída, como os rios da Terra. E Caronte nem se mexe. Noriel pensa em dar-lhe um safanão para acordá-lo, mas então antes que resolva isso, o barqueiro se põe de pé.
— Nefilim... — diz o barqueiro com uma voz esganiçada, como de um animal moribundo. A cabeça baixa sob o capuz não mostra seu rosto. E nem as mãos se vê por baixo do espesso manto. Noriel olha ao redor e uma imagem perturbadora o toma, quando vê, atrás do barco, destroços do que fora um corpo, agora carbonizado e parcialmente tomado pelo rio. Olhando novamente para o barqueiro, sente a repugnância quando este ergue a cabeça e pode-se ver seus olhos vermelhos.
— Você não é Caronte. — Noriel recua um passo e vê, sem nada dizer, o barqueiro se livrando do capuz, mostrando seu semblante demoníaco. — É um demônio!
— Eu sou Biloxih!! — diz o demônio saltando do barco pra cima de Noriel. O nefilim se sobressalta mas não consegue escapar, porém quando o espírito imundo o toca, sente sua mão ser tomada por uma dor indescritível. — Não!! Você é só um nefilim morto, como podes me repelir?!
Noriel, ainda confuso, também busca a resposta e a encontra virando de costas e mostrando a marca em sua nuca, feita a ferro quente por lorde Gabriel. Se lembra do que Gabriel disse, que tal marca lhe daria um caminho seguro no mundo dos mortos. Ciente disso, saboreando o medo nos olhos de Biloxih, Noriel o ataca, primeiro puxando-o pelo manto e depois, com um potente soco, lhe lançando na terra.
— Biloxih é um ladrão de almas. — diz Noriel para Abel, que apenas observa de longe. — Demônio do submundo que rouba as almas dos homens quando estes morrem. Quanto mais almas ele leva, mais poderoso ele se torna. — e após outro golpe no seu adversário, ele completa: — Diga-me, imundo, desde quando está se passando por Caronte?!
— Desde o dia em tu foi feito carne, verme! O dia da assunção! — responde o demônio com sua voz asquerosa.
— Maldito seja você, Biloxih e seus companheiros! E mais maldito seja seu mestre!! — e Noriel parte para outro ataque, mas Biloxih desaparece numa fumaça negra. Certamente fugindo. Antevendo que ele poderia voltar com mais demônios, Noriel se volta para o barco e o prepara para a travessia. Abel permanece longe, abaixado como um primata curioso, quando ouve Noriel dizer: — Você vem comigo ou não? — meio que automaticamente Abel se levanta e vai até o barco, sem expressar qualquer emoção.
Enquanto isso, no cargueiro dos nefilins, na sala do ritual, Lorde Gabriel, que permanece ao lado da banheira onde jaz o congelado corpo de Noriel, coça sua barba, cercado pelos outros nefilins, apreensivos com o transcorrer dessa demanda. Olhando um velho relógio de bolso, que aparenta ter sua própria história tão interessante quanto esta, Gabriel confere a hora e diz, mais pra si mesmo do que para os outros:
— Cinco minutos...
Noriel rema, de pé sobre o barco, com Abel abaixado voltado para trás, como um vigia. O céu sobre eles apresenta sinais de tempestade. Abel disse que nunca chove ali e que Noriel não precisa se preocupar, pois ali não existe céu. Sob o rio, o nefilim vê o que parecem crânios flutuando pelas águas sujas e, em alguns pontos, espumantes. A travessia já dura algum tempo, apesar de não ter noção de quanto. Amaldiçoou tanto o tempo e agora o procura. Porém, para seu alívio, já avista a outra margem.
Muros altos de uma fortaleza os aguardam do outro lado. Até onde a vista chega só se vê aquele muro, seccionado por algumas torres, aparentemente vazias. No centro, um grande portão ornamentado com símbolos de várias épocas e culturas, pois é ali a entrada do mundo do além para todos os homens que já viveram. Desde cristãos a pagãos, egípcios a astecas.
— A mansão dos mortos. — disse Abel. Noriel conhece o lugar. Também por Inferno é chamado. Não o Abismo, onde está Profaniel, mas o mundo do além como um todo. Está descrito na oração católica do credo: “Cruxifixus, mortuus et sepultus, descendit ad Inferno”, adaptado para “foi crucificado, morto e sepultado, desceu à Mansão dos Mortos”, Aqui é entrada. Em algum lugar, há a passagem para os círculos inferiores e, mais abaixo, o Abismo.
Segundo os cristãos, na Mansão dos Mortos ficavam os virtuosos que nasceram e morreram antes da ressurreição de Jesus. Como a Graça só veio depois da ressurreição, aqui eles aguardavam o momento de irem para o Paraíso. Aqui estariam Abraão, Issac, Jacó, Noé, Adão e Abel, que agora está no barco. Depois de Cristo, aqui ficariam aqueles que eram bons, mas não eram cristãos, ou que não foram batizados. Os homens chamam esse lugar às vezes de Limbo.
Noriel deixa o barco e cruza a ponte que leva ao portão. Abel o segue alguns passos atrás, como se não quisesse entrar naquele lugar, o que deixava Noriel perturbado. Cruzando o portão, as preocupações sobre Abel dão lugar a outra muito maior.
— O que houve aqui?! — exclama Noriel vendo o lugar vazio, completamente vazio. Um amplo pátio cobrindo toda a distância, tal qual o muro que o cerca, vazio com alguns objetos revirados como se os habitantes dali tivessem sido arrebatados para outro lugar. Abel vem atrás e vê a cena, parecendo ser tomado por emoções claras de sofrimento, como se acordasse de um sonho para a amarga vida. Ou morte, no caso.
— Eles levaram todos! — diz, com um semblante bem menos selvagem. Antes que Noriel formule alguma pergunta, os dois ouvem o bater de asas e o vento frio da chegada de outros demônios. No ato, a escuridão toma conta do lugar e Noriel percebe que dessa vez são muitos. Como uma revoada de morcegos, ele vê os imundos se aproximarem. — São eles!
— O que houve aqui Abel?! — insiste Noriel em meio à penumbra que recai sobre eles.
— Esses anjos sombrios levaram todos daqui, no dia que chamam de “dia da assunção”. Primeiro nos trouxeram pra cá. Do Éden vi meu pai ser expulso mais uma vez. Lúcifer lançou toda alma de volta para a Mansão dos Mortos, e depois seus anjos sombrios as varreram para os círculos inferiores do Inferno junto com as que já encontravam no Limbo! — enquanto isso dizia, as hordas se aproximavam.
— Já esperava por isso... — Noriel solta um suspiro ao imaginar que seria óbvio que Lúcifer jogaria os justos e santos para que sofressem. Talvez - e essa é a pior parte - tenha elevado os perversos para o Paraíso. Mas a crescente escuridão e o frio o alerta, tardiamente, que as hordas chegaram.
Noriel se volta e vê descer daquele céu uma nuvem negra e dela se formar homens de armadura preta como alcatrão e asas de morcego. Dentes pontiagudos e olhos vermelhos. O líder deles, ostentando cabelos em tranças como um guerreiro viking, olha com surpresa para Noriel e, com um sorriso cínico, começa a dizer:
— Noriel... Há muito não o vejo... Velho amigo.
— Há muito não somos mais amigos, Samyaza. — responde Noriel protegendo Abel atrás de si. — Então o diabo o libertou de seu castigo? Deu-lhe salvo conduto? A você e seus Vigilantes?
— A resposta é tão clara como a luz de Kristos Lúficer, nosso senhor. Nosso exílio no pó da terra terminou.[1]
— Mas isso há de acabar! — provoca Noriel.
— Não diga tolices. Tu não passas de um morto. Não ascenderás ao paraíso e nem na Mansão dos Mortos ficarás... Teu lugar é no Inferno!! — Samyaza ergue sua lança contra Noriel, mas em vez de atingi-lo, golpeia o chão propagando uma onda de choque que faz, aos poucos, o piso ruir.
A fenda traga Noriel e Abel para o fundo, que é como uma caverna escura e revestida de lodo, aparentemente sem fim. Em meio à queda, Noriel vê que Samyaza e seus Vigilantes se jogam em sua direção. Além da lança, Samyaza agora saca sua espada e mira seu ataque em Noriel. Porém ao tocá-lo, é repelido pela magia da marca em sua nuca. Como se ofuscado por uma forte luz, Samyaza e os seus gritam e chiam, ficando parados, com suas asas batendo freneticamente, enquanto Noriel e Abel caem naquele poço.
— Não ficará assim, Noriel. — brada Samyaza. — Irei te buscar para que sofra, assim como todos os anjos que assassinaram meus filhos no passado! Principalmente Gabriel! — dito isso, Zamyaza volta com sua tropa para o alto.
— Quatro minutos. — anuncia Lorde Gabriel.
O poço não é sem fundo e Noriel constata isso quando vê o brilho das tochas e fogueiras e o reboliço dos condenados nos espirais de vapor e cinzas do primeiro círculo. Pegando Abel pelo braço, Noriel procura acessar os sentidos angelicais que pensa ainda ter, para que tenham uma queda segura. Porém o máximo que consegue é se afastar do tufão e cair na rocha. Apesar de estar morto, a dor ainda existe. Pois ali é o local dos condenados, e a dor é seu castigo.
— Levanta-te, nefilim. — diz uma potente voz. Noriel levanta a cabeça e vê um homem num trono, de pele verde e podre com a cabeça costurada no pescoço, vestido com um sudário branco e com adornos em ouro velho e lápis-lazúli. Na cabeça, uma coroa egípcia branca. Tal figura, após ver que Noriel - e Abel logo atrás dele - se colocam de pé, resolve se apresentar: — Sou Osíris, o juiz dos mortos. — Noriel o olha por um instante e logo responde:
— Não, não és.
— Como ousas?! — responde irado Osíris.
— Você é algum demônio em mais um dos seus disfarces! — e Noriel vira a nuca para ele. Osíris se contorce em dor e, se levantando do trono, diz:
— Nefilim maldito! Por tamanho desrespeito, condeno-o ao vale dos hereges na Cidade de Dite!
E batendo seu cetro no chão, Osíris faz a fumaça de vapor carregar Noriel e seu companheiro até o meio do fosso, de onde, em espiral, se dá acesso aos círculos inferiores. Tamanha a força do vento, Noriel não vê os condenados por onde passa e seus castigos. Poços de lama e excremento; mordidas dilacerantes de feras; o rio Estige, de sangue fervente e envenenado entre outras atrocidades. Mas o vento cessa, e em seguida Noriel e Abel são deixados dentro da Cidade de Dite, a cidade da Dor Eterna.
— Ótimo. Isso nos poupa tempo. — diz Noriel se pondo de pé e ajudando Abel.
— Você foi condenado, não eu. — diz o pastor primitivo.
— Escute Abel. Suspeito que seu pai e os outros justos estão aqui. É minha intenção salva-los também.
— Como faria isso? Descendo ao Abismo?
— Exato. — e sem mais nada a dizer, Noriel se põe a seguir em frente, quando é cercado pelos guardiões de Dite. Anjos caídos, da casta do próprio Lúcifer.
— Aonde pensa que vais, condenado? — diz um deles.
— Afastem-se! — e Noriel apresenta a marca na nuca. E os demônios fogem como previsto. E então ele avança por entre o mar de condenados, em covas ardentes e entoando seus gritos de dor. Fitando suas faces, constata, para sua máxima surpresa, que ali estão os injustos e maus. Pensava que Lúcifer lhes teria dado o paraíso, mas não. Irônico, pois certamente eles pensaram que se dariam bem com a ascensão do diabo. Mas esqueceram que ele é o pai das mentiras. E certamente se rejubila com o sofrimento merecido deles.
Mas virando os olhos para o outro lado, vê que ali também se encontram os justos e bons, santos e heróis. Tirados do Paraíso e do Limbo, sofrem por pecados que não cometeram. Noriel vê, numa cova profunda, rostos que conhece, como do líder indiano, da freira de bom coração, do velho papa polonês, do reverendo negro, de mártires e libertadores, e mesmo de crianças inocentes e mães e pais honrados e anônimos. Tal visão lhe encheu de indignação.
Com um ar um pouco mais perverso, Noriel viu também que ali, em outra cova, estavam os ateus. É claro que Lúcifer condenaria que não cresse em Deus, pois automaticamente não creria nele próprio. Noriel viu lá Nietzsche, Che Guevara, Hitchcock, José Saramago, Richard Dawkins entre muitos outros. Em outras valas viu também agnósticos e seguidores de outras crenças. Apesar de não estarem reunidos por esses critérios, mas por outros. Foi nessa ocasião que se ateve e viu Abel fitando um ponto distante.
— Meu pai. — disse o pastor indicando um fosso onde Adão e outros patriarcas jaziam. — Devo ficar com ele. — Noriel assentiu, sem nada dizer. Só viu Abel, andando como um chimpanzé, seguir entre as pontes que dividem as covas até sumir entre os gritos de sofrimento. Mas tem a impressão de ouvir Abel dizer: — Bem aventurado seja em tua busca, nefilim. Aqui estarei esperando que devolva a ordem como pretende.
— Isso eu prometo. — era hora de seguir sozinho. As portas do Abismo não estão longe. Noriel só espera que ainda lhe reste tempo suficiente. No plano material, lorde Gabriel lhe dá a resposta:
— Três minutos.
O precipício no fim da Cidade de Dite leva ao sétimo círculo. Por lá sobe um fedor sem igual. Noriel encontra lá os violentos, ladrões, tiranos e assassinos, mergulhados no rio de sangue fervente chamado Flegetonte. O rio corta um longo trajeto, divido em três vales. No primeiro, mergulhados no rio e tentando escapar, Noriel vê ali todos os senhores da guerra: Hitler, Stalin e Napoleão, Bush e antigos papas. Também estão ali os fabricantes de armas.
Entrando no segundo vale, onde uma escura e fria floresta rodeia o rio, Noriel é forçado a repelir mais demônios que tentam barrar seu avanço. Faz isso facilmente e o clarão da magia pagã do seu “amuleto” ilumina o lugar. Vê então que as árvores da floresta eram outrora os suicidas, e que os demônios devoram suas folhas e galhos. Ouve-se o fantasmagórico lamento daqueles que julgaram serem donos da própria vida para decidir quando tirá-la.
No terceiro vale Noriel encontra um deserto de areia escaldante onde precipita uma chuva de brasas e mesmo grandes pedras incandescentes sobre os condenados. São os chamados violentos contra Deus... e também contra o diabo. Entre blasfemadores e sodomitas, Noriel vê os exorcistas e caçadores de demônios, ali sofrendo em dobro por tudo que fizeram e disseram contra os mesmos.
Após uma longa jornada, Noriel chega ao final do sétimo círculo, se deparando com a nascente do rio Flegetonte numa cachoeira. No fundo do caminho, a passagem para o próximo círculo: Malebolge.
— Dois minutos.
Toda a corrupção é punida no Malebolge. Espalhados em dez fossos numa fortaleza de pedra, milhões de fraudulentos recebem o devido castigo: os rufiões e sedutores; aduladores e bajuladores; os sonegadores; os adivinhos e falsos profetas; os que desviam dinheiro; os hipócritas; os ladrões, os maus conselheiros; os semeadores de discórdias; e os falsários de toda espécie. Por demônios são castigados e Noriel não sente pena. Aqui, se alguém parar para contar, verá que é o local mais cheio de todo o mundo do além. Porém quando acessa os portões do novo círculo, Noriel vê toda a perversão de Lúficer.
Aqui é o rio Cócito. O inferno de gelo, onde são deixados os traidores de toda sorte. Desde os adúlteros aos inimigos de suas pátrias. Seu destino é padecerem no frio. Quanto mais intensa a traição, mais intenso será o frio. Porém, junto com os pecadores, Noriel vê seus irmãos nefilins. Outrora os anjos de Deus, mortos por Lúcifer e seus demônios ou nas guerras contra os homens, fadados ao pior dos infernos. Os piores inimigos de Satanás sendo castigados com a maior das violências.
— Toma teu lugar entre os seus, infeliz! — diz um demônio que se aproxima.
— Não! Afaste-se de mim! — bradou Noriel, mais com tristeza do que com fúria. Mas mesmo assim o demônio se foi pela força da magia que o protege.
Então Noriel vê os rostos congelados dos seus irmãos. Ele chora, e suas próprias lágrimas congelam em seu rosto. Os pés já se prendem ao gelo e na tentativa de se libertar, Noriel cai de joelhos. “Será que não conseguirei avançar?” Se pergunta. “Seria esse o fim? Padecer por toda a eternidade junto aos meus?”
O frio o toma como naquela banheira. De joelhos, cruzando os braços sobre seu peito, ele percebe que talvez não consiga seu objetivo. Os olhos se tornam pesados como se o sono da hipotermia voltasse.
— Não. — Ouve alguém dizer. Com muito esforço move a cabeça para procurar o dono da voz, mas não o encontra. Então, sentindo mais uma vez o cortante frio, abaixa sua cabeça. É quando ouve outro “não”, e vê uma flutuação debaixo dele. Fixando o olhar para aquilo, ainda com a vista turva e com a mente confusa, ele vê um rosto se movimentar debaixo da camada de gelo. Aproximando mais a cabeça do solo, Noriel sente um arrepio ao ver quem é.
— M-miguel...! — soterrado no gelo, entre corpos de outros anjos, emerge o rosto do Arcanjo Miguel.
— Noriel... — diz a voz fantasmagórica do arcanjo. — Não desista...
— Mas meu senhor--
— Lute! O Abismo... Está perto... Profaniel... Deve ser libertado...!
— Como sabes...?
— Não importa... Vá! Salve todos nós!
Dito isso, Miguel submergiu de volta para as profundezas até não mais poder ser visto. Noriel ainda ponderou sobre tal visão, refletindo se era mesmo Miguel ou alguma alucinação. Assombra-se como sua mente está materialista. Então percebe que, mesmo que fosse coisa de sua mente, o que Miguel disse era verdade. E ele precisa continuar. Tentou ergue-se. Falhou. Reuniu mais forças e tentou novamente. Falhou. E numa nova tentativa, sentiu o gelo que envolvia seus braços e pernas se partindo. O joelho dormente se apartou da superfície do rio congelado.
E de pé Noriel ficou.
O Abismo está perto.
— Um minuto.
Além do Cócito, e do Malebolge. Muito além das esferas já tão distantes. A escuridão que tudo consome. Um vale profundo, vazio e assombroso. É como o final do universo. Ou mesmo seu começo. Noriel contempla o Abismo. E sente que o Abismo lhe contempla de volta.
Lá embaixo, pensa Noriel, está seu amigo. Sozinho. Sofrendo. Noriel cruzou todo o Inferno dos homens. O Abismo é o inferno dos anjos pecadores. Mas Profaniel é o único ali. Todos os demônios têm medo daqui. Nenhum se aproxima. Nem mesmo Lúcifer. Mas Noriel avança.
Um salto na escuridão. É como perder toda e qualquer esperança. Noriel se atira nas trevas. É agora.
— PROFANIEL!! — ele grita. Não há eco. Não há nada. Nem vento contra o rosto. Chega a pensar que não está indo pra lugar nenhum. Mas então ele vê, na imensidão, se aproximando lentamente, o brilho do fogo eterno e do enxofre em saraivas. — PROFANIEL!!!! — grita novamente, e ouve sua voz voltando, parecendo ecoar em paredes cavernosas. — PROFANIEEEEEEELLLL!!!!
A figura esquelética se contorce. Mas as correntes não permitem muitos movimentos. Teve a impressão de ouvir uma voz chamar o nome que um dia foi seu. Uma voz um tanto familiar. Está louco. Há muito tempo ficou louco.
— PROFANIEL!! — ouve outra vez. Isso o deixa perturbado. Será algum tipo novo de provocação? Como se já não bastasse a dor e o ódio que aspira naquele lugar? Com esforço ele ergue a cabeça, aperta os olhos e tenta ver algo além da escuridão que paira sobre si. E para seu total e grato espanto, ele vê.
Noriel sente o calor. Mil vezes mais do que os homens condenados recebem. Insuportável, mas ele não se entrega. Vê um rio de lava ali embaixo e quase mergulhado nele, um monstro nu e magro atado em correntes e fios. Tal monstro não é outro senão Profaniel. Noriel desce sob as pedras ardentes o mais próximo que pode do outro. Sente a pele das mãos ficar grudada na pedra. Profaniel lhe devolve um olhar de dúvida.
— No-noriel? — diz, com sua asquerosa boca selada.
— Sim, meu amigo. Vim para tirar-te daqui! — o anjo condenado não responde, incrédulo. — Venha e--
De repente Noriel sente um tremendo mal estar. Dores fortes do peito e uma sensação realmente desconfortante (apesar dali não ser nada confortável). Ele se aproxima de Profaniel, entre respingos de lava, sentido a dor infligida pelo fogo e o mal estar crescente. Ele ergue o braço para Profaniel, alcançando a corrente que prende seu braço direito. Profaniel acompanha tudo confuso quando vê Noriel perder os sentidos e cair na lava, se agarrando às correntes e ao anjo caído.
— Profaniel... — diz Noriel, já sem forças. — Venha...
— Acabou o tempo.
* * *
_________________
[1] - A história de Samyaza e seus Vigilantes e seu exílio será contada em breve.
Agradecimentos ao amigo João “Resgate” Norberto pela revisão!
Continua...
03. O Evangelho de Profany, parte 3.
Limbo, Purgatório e Inferno.
“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” – A Divina Comédia
O vento frio acaricia o rosto esverdeado de Noriel, fazendo o crer, por alguns instantes, que aquilo ali é mesmo vento e que ele tem um rosto naquele plano espiritual. Os anos que literalmente “viveu” na Terra atrofiaram sua percepção das coisas. Tal que aos seus olhos o mundo dos mortos é semelhante ao dos vivos. Mas ele deixa o vento acariciar-lhe enquanto processa o fato de ter sido recebido por Abel, o filho pastor de Adão.
— Aqui não é seu lugar. — repete Abel com olhar não muito amistoso. Talvez devido ao seu rosto primitivo. — Volte enquanto ainda é tempo.
— Não vou voltar ainda. Preciso ir pra um certo lugar. — e sem esperar alguma resposta, Noriel se voltou e começou a caminhar. Abel o seguia de perto e começou a dizer.
— Onde queres ir, nefilim? Lá não irá chegar sozinho.
— Então me acompanhe, se isso escolher.
— Você que escolheu minha companhia.
Ouvindo isso Noriel se pergunta se tudo aquilo não seria um meio do seu subconsciente traduzir o ocorrido. Quando os homens morrem, relatam que um antepassado o recebeu no além. Já que nefilins não têm antepassados e esse Abel foi o primeiro homem que morreu - na verdade foi assassinado - na Terra, nada mais natural a associar-lhe a isso. Mas essa é uma divagação desnecessária, como todas as divagações, e Noriel continua seu caminho, sem se dar conta que caminhar é coisa dos vivos.
Mas não deixa de reparar a sua volta. Aquele campo bucólico, um tanto frio e assustador como a solidão, ainda que não esteja sozinho. As árvores retorcidas como múmias de um tempo mais feliz que outrora existiu. Seria tudo isso consequência do reinado do diabo ou realmente sempre foi assim e ele não se lembra? Talvez, pois antes olhava isso como olhos de anjo, e aos olhos dos anjos tudo parecia melhor.
— É árdua a descida até o Abismo. — diz Abel sem nenhum aviso. Noriel não se lembra de ter dito onde queria ir.
— Achei que seria mais fácil agora que Satanás é o senhor.
— Não. Ele teme o Abismo, pois sabe que fora reservado para ele. Não deve ter poder para desfazê-lo, ou talvez tenha outros planos. Não sei dizer. Foi o único lugar que não foi corrompido.
Noriel medita as palavras de Abel e percebe que ele tem certa razão. Isso também significa que Profaniel ainda está lá, isolado de tudo. Noriel não tem certeza de qual é a origem do Inferno. Ele sabe que lá é o Abismo, que é o nome mais correto para se aplicar. Dizem que o Abismo foi criado por Deus para punir os anjos rebeldes desde o principio da Criação. Outros dizem que o Abismo já estava lá e Deus criou tudo ao seu redor e a partir dele. Portanto ele seria o centro do Universo.
Enquanto pensa nisso que Noriel se aproxima de uma baixada e, a descendo, chega a um exuberante rio. Extenso como o mar e esverdeado como tudo mais ali. A sua margem, numa areia preta e de aspecto mal cheiroso (apesar de não sentir cheiro algum), um pequeno barco rebocado de betume, com remos sujos de lodo, saltando pra fora, abriga uma figura encoberta por um manto negro, de cócoras dentro do barco, dormindo ou coisa parecida. Noriel sabe exatamente onde está.
O rio Aqueronte. E seu barqueiro é certamente Caronte. É ele que levará Noriel para outro lado. Mas antes de dar o próximo passo, Abel o segurou firme pelo braço, quase a ponto de puxá-lo de volta, para lhe dizer:
— Se cruzar o rio, não haverá volta. — Noriel pensa por um momento. Não se lembra de Gabriel ter-lhe dado instruções de como regressar. Só disse para voltar em seis minutos. Apesar do crescente e real medo de não poder voltar, Noriel se aventura com o primeiro passo, vendo que Abel o solta e fica parado, como se não acreditando na sua audácia.
Noriel se aproxima do barco, mas Caronte não faz caso dele e continua abaixado e enrolado em seu manto. Noriel fita o rio por um momento e percebe nuances de águas claras e belas contrastando com água preta e poluída, como os rios da Terra. E Caronte nem se mexe. Noriel pensa em dar-lhe um safanão para acordá-lo, mas então antes que resolva isso, o barqueiro se põe de pé.
— Nefilim... — diz o barqueiro com uma voz esganiçada, como de um animal moribundo. A cabeça baixa sob o capuz não mostra seu rosto. E nem as mãos se vê por baixo do espesso manto. Noriel olha ao redor e uma imagem perturbadora o toma, quando vê, atrás do barco, destroços do que fora um corpo, agora carbonizado e parcialmente tomado pelo rio. Olhando novamente para o barqueiro, sente a repugnância quando este ergue a cabeça e pode-se ver seus olhos vermelhos.
— Você não é Caronte. — Noriel recua um passo e vê, sem nada dizer, o barqueiro se livrando do capuz, mostrando seu semblante demoníaco. — É um demônio!
— Eu sou Biloxih!! — diz o demônio saltando do barco pra cima de Noriel. O nefilim se sobressalta mas não consegue escapar, porém quando o espírito imundo o toca, sente sua mão ser tomada por uma dor indescritível. — Não!! Você é só um nefilim morto, como podes me repelir?!
Noriel, ainda confuso, também busca a resposta e a encontra virando de costas e mostrando a marca em sua nuca, feita a ferro quente por lorde Gabriel. Se lembra do que Gabriel disse, que tal marca lhe daria um caminho seguro no mundo dos mortos. Ciente disso, saboreando o medo nos olhos de Biloxih, Noriel o ataca, primeiro puxando-o pelo manto e depois, com um potente soco, lhe lançando na terra.
— Biloxih é um ladrão de almas. — diz Noriel para Abel, que apenas observa de longe. — Demônio do submundo que rouba as almas dos homens quando estes morrem. Quanto mais almas ele leva, mais poderoso ele se torna. — e após outro golpe no seu adversário, ele completa: — Diga-me, imundo, desde quando está se passando por Caronte?!
— Desde o dia em tu foi feito carne, verme! O dia da assunção! — responde o demônio com sua voz asquerosa.
— Maldito seja você, Biloxih e seus companheiros! E mais maldito seja seu mestre!! — e Noriel parte para outro ataque, mas Biloxih desaparece numa fumaça negra. Certamente fugindo. Antevendo que ele poderia voltar com mais demônios, Noriel se volta para o barco e o prepara para a travessia. Abel permanece longe, abaixado como um primata curioso, quando ouve Noriel dizer: — Você vem comigo ou não? — meio que automaticamente Abel se levanta e vai até o barco, sem expressar qualquer emoção.
Enquanto isso, no cargueiro dos nefilins, na sala do ritual, Lorde Gabriel, que permanece ao lado da banheira onde jaz o congelado corpo de Noriel, coça sua barba, cercado pelos outros nefilins, apreensivos com o transcorrer dessa demanda. Olhando um velho relógio de bolso, que aparenta ter sua própria história tão interessante quanto esta, Gabriel confere a hora e diz, mais pra si mesmo do que para os outros:
— Cinco minutos...
Noriel rema, de pé sobre o barco, com Abel abaixado voltado para trás, como um vigia. O céu sobre eles apresenta sinais de tempestade. Abel disse que nunca chove ali e que Noriel não precisa se preocupar, pois ali não existe céu. Sob o rio, o nefilim vê o que parecem crânios flutuando pelas águas sujas e, em alguns pontos, espumantes. A travessia já dura algum tempo, apesar de não ter noção de quanto. Amaldiçoou tanto o tempo e agora o procura. Porém, para seu alívio, já avista a outra margem.
Muros altos de uma fortaleza os aguardam do outro lado. Até onde a vista chega só se vê aquele muro, seccionado por algumas torres, aparentemente vazias. No centro, um grande portão ornamentado com símbolos de várias épocas e culturas, pois é ali a entrada do mundo do além para todos os homens que já viveram. Desde cristãos a pagãos, egípcios a astecas.
— A mansão dos mortos. — disse Abel. Noriel conhece o lugar. Também por Inferno é chamado. Não o Abismo, onde está Profaniel, mas o mundo do além como um todo. Está descrito na oração católica do credo: “Cruxifixus, mortuus et sepultus, descendit ad Inferno”, adaptado para “foi crucificado, morto e sepultado, desceu à Mansão dos Mortos”, Aqui é entrada. Em algum lugar, há a passagem para os círculos inferiores e, mais abaixo, o Abismo.
Segundo os cristãos, na Mansão dos Mortos ficavam os virtuosos que nasceram e morreram antes da ressurreição de Jesus. Como a Graça só veio depois da ressurreição, aqui eles aguardavam o momento de irem para o Paraíso. Aqui estariam Abraão, Issac, Jacó, Noé, Adão e Abel, que agora está no barco. Depois de Cristo, aqui ficariam aqueles que eram bons, mas não eram cristãos, ou que não foram batizados. Os homens chamam esse lugar às vezes de Limbo.
Noriel deixa o barco e cruza a ponte que leva ao portão. Abel o segue alguns passos atrás, como se não quisesse entrar naquele lugar, o que deixava Noriel perturbado. Cruzando o portão, as preocupações sobre Abel dão lugar a outra muito maior.
— O que houve aqui?! — exclama Noriel vendo o lugar vazio, completamente vazio. Um amplo pátio cobrindo toda a distância, tal qual o muro que o cerca, vazio com alguns objetos revirados como se os habitantes dali tivessem sido arrebatados para outro lugar. Abel vem atrás e vê a cena, parecendo ser tomado por emoções claras de sofrimento, como se acordasse de um sonho para a amarga vida. Ou morte, no caso.
— Eles levaram todos! — diz, com um semblante bem menos selvagem. Antes que Noriel formule alguma pergunta, os dois ouvem o bater de asas e o vento frio da chegada de outros demônios. No ato, a escuridão toma conta do lugar e Noriel percebe que dessa vez são muitos. Como uma revoada de morcegos, ele vê os imundos se aproximarem. — São eles!
— O que houve aqui Abel?! — insiste Noriel em meio à penumbra que recai sobre eles.
— Esses anjos sombrios levaram todos daqui, no dia que chamam de “dia da assunção”. Primeiro nos trouxeram pra cá. Do Éden vi meu pai ser expulso mais uma vez. Lúcifer lançou toda alma de volta para a Mansão dos Mortos, e depois seus anjos sombrios as varreram para os círculos inferiores do Inferno junto com as que já encontravam no Limbo! — enquanto isso dizia, as hordas se aproximavam.
— Já esperava por isso... — Noriel solta um suspiro ao imaginar que seria óbvio que Lúcifer jogaria os justos e santos para que sofressem. Talvez - e essa é a pior parte - tenha elevado os perversos para o Paraíso. Mas a crescente escuridão e o frio o alerta, tardiamente, que as hordas chegaram.
Noriel se volta e vê descer daquele céu uma nuvem negra e dela se formar homens de armadura preta como alcatrão e asas de morcego. Dentes pontiagudos e olhos vermelhos. O líder deles, ostentando cabelos em tranças como um guerreiro viking, olha com surpresa para Noriel e, com um sorriso cínico, começa a dizer:
— Noriel... Há muito não o vejo... Velho amigo.
— Há muito não somos mais amigos, Samyaza. — responde Noriel protegendo Abel atrás de si. — Então o diabo o libertou de seu castigo? Deu-lhe salvo conduto? A você e seus Vigilantes?
— A resposta é tão clara como a luz de Kristos Lúficer, nosso senhor. Nosso exílio no pó da terra terminou.[1]
— Mas isso há de acabar! — provoca Noriel.
— Não diga tolices. Tu não passas de um morto. Não ascenderás ao paraíso e nem na Mansão dos Mortos ficarás... Teu lugar é no Inferno!! — Samyaza ergue sua lança contra Noriel, mas em vez de atingi-lo, golpeia o chão propagando uma onda de choque que faz, aos poucos, o piso ruir.
A fenda traga Noriel e Abel para o fundo, que é como uma caverna escura e revestida de lodo, aparentemente sem fim. Em meio à queda, Noriel vê que Samyaza e seus Vigilantes se jogam em sua direção. Além da lança, Samyaza agora saca sua espada e mira seu ataque em Noriel. Porém ao tocá-lo, é repelido pela magia da marca em sua nuca. Como se ofuscado por uma forte luz, Samyaza e os seus gritam e chiam, ficando parados, com suas asas batendo freneticamente, enquanto Noriel e Abel caem naquele poço.
— Não ficará assim, Noriel. — brada Samyaza. — Irei te buscar para que sofra, assim como todos os anjos que assassinaram meus filhos no passado! Principalmente Gabriel! — dito isso, Zamyaza volta com sua tropa para o alto.
— Quatro minutos. — anuncia Lorde Gabriel.
O poço não é sem fundo e Noriel constata isso quando vê o brilho das tochas e fogueiras e o reboliço dos condenados nos espirais de vapor e cinzas do primeiro círculo. Pegando Abel pelo braço, Noriel procura acessar os sentidos angelicais que pensa ainda ter, para que tenham uma queda segura. Porém o máximo que consegue é se afastar do tufão e cair na rocha. Apesar de estar morto, a dor ainda existe. Pois ali é o local dos condenados, e a dor é seu castigo.
— Levanta-te, nefilim. — diz uma potente voz. Noriel levanta a cabeça e vê um homem num trono, de pele verde e podre com a cabeça costurada no pescoço, vestido com um sudário branco e com adornos em ouro velho e lápis-lazúli. Na cabeça, uma coroa egípcia branca. Tal figura, após ver que Noriel - e Abel logo atrás dele - se colocam de pé, resolve se apresentar: — Sou Osíris, o juiz dos mortos. — Noriel o olha por um instante e logo responde:
— Não, não és.
— Como ousas?! — responde irado Osíris.
— Você é algum demônio em mais um dos seus disfarces! — e Noriel vira a nuca para ele. Osíris se contorce em dor e, se levantando do trono, diz:
— Nefilim maldito! Por tamanho desrespeito, condeno-o ao vale dos hereges na Cidade de Dite!
E batendo seu cetro no chão, Osíris faz a fumaça de vapor carregar Noriel e seu companheiro até o meio do fosso, de onde, em espiral, se dá acesso aos círculos inferiores. Tamanha a força do vento, Noriel não vê os condenados por onde passa e seus castigos. Poços de lama e excremento; mordidas dilacerantes de feras; o rio Estige, de sangue fervente e envenenado entre outras atrocidades. Mas o vento cessa, e em seguida Noriel e Abel são deixados dentro da Cidade de Dite, a cidade da Dor Eterna.
— Ótimo. Isso nos poupa tempo. — diz Noriel se pondo de pé e ajudando Abel.
— Você foi condenado, não eu. — diz o pastor primitivo.
— Escute Abel. Suspeito que seu pai e os outros justos estão aqui. É minha intenção salva-los também.
— Como faria isso? Descendo ao Abismo?
— Exato. — e sem mais nada a dizer, Noriel se põe a seguir em frente, quando é cercado pelos guardiões de Dite. Anjos caídos, da casta do próprio Lúcifer.
— Aonde pensa que vais, condenado? — diz um deles.
— Afastem-se! — e Noriel apresenta a marca na nuca. E os demônios fogem como previsto. E então ele avança por entre o mar de condenados, em covas ardentes e entoando seus gritos de dor. Fitando suas faces, constata, para sua máxima surpresa, que ali estão os injustos e maus. Pensava que Lúcifer lhes teria dado o paraíso, mas não. Irônico, pois certamente eles pensaram que se dariam bem com a ascensão do diabo. Mas esqueceram que ele é o pai das mentiras. E certamente se rejubila com o sofrimento merecido deles.
Mas virando os olhos para o outro lado, vê que ali também se encontram os justos e bons, santos e heróis. Tirados do Paraíso e do Limbo, sofrem por pecados que não cometeram. Noriel vê, numa cova profunda, rostos que conhece, como do líder indiano, da freira de bom coração, do velho papa polonês, do reverendo negro, de mártires e libertadores, e mesmo de crianças inocentes e mães e pais honrados e anônimos. Tal visão lhe encheu de indignação.
Com um ar um pouco mais perverso, Noriel viu também que ali, em outra cova, estavam os ateus. É claro que Lúcifer condenaria que não cresse em Deus, pois automaticamente não creria nele próprio. Noriel viu lá Nietzsche, Che Guevara, Hitchcock, José Saramago, Richard Dawkins entre muitos outros. Em outras valas viu também agnósticos e seguidores de outras crenças. Apesar de não estarem reunidos por esses critérios, mas por outros. Foi nessa ocasião que se ateve e viu Abel fitando um ponto distante.
— Meu pai. — disse o pastor indicando um fosso onde Adão e outros patriarcas jaziam. — Devo ficar com ele. — Noriel assentiu, sem nada dizer. Só viu Abel, andando como um chimpanzé, seguir entre as pontes que dividem as covas até sumir entre os gritos de sofrimento. Mas tem a impressão de ouvir Abel dizer: — Bem aventurado seja em tua busca, nefilim. Aqui estarei esperando que devolva a ordem como pretende.
— Isso eu prometo. — era hora de seguir sozinho. As portas do Abismo não estão longe. Noriel só espera que ainda lhe reste tempo suficiente. No plano material, lorde Gabriel lhe dá a resposta:
— Três minutos.
O precipício no fim da Cidade de Dite leva ao sétimo círculo. Por lá sobe um fedor sem igual. Noriel encontra lá os violentos, ladrões, tiranos e assassinos, mergulhados no rio de sangue fervente chamado Flegetonte. O rio corta um longo trajeto, divido em três vales. No primeiro, mergulhados no rio e tentando escapar, Noriel vê ali todos os senhores da guerra: Hitler, Stalin e Napoleão, Bush e antigos papas. Também estão ali os fabricantes de armas.
Entrando no segundo vale, onde uma escura e fria floresta rodeia o rio, Noriel é forçado a repelir mais demônios que tentam barrar seu avanço. Faz isso facilmente e o clarão da magia pagã do seu “amuleto” ilumina o lugar. Vê então que as árvores da floresta eram outrora os suicidas, e que os demônios devoram suas folhas e galhos. Ouve-se o fantasmagórico lamento daqueles que julgaram serem donos da própria vida para decidir quando tirá-la.
No terceiro vale Noriel encontra um deserto de areia escaldante onde precipita uma chuva de brasas e mesmo grandes pedras incandescentes sobre os condenados. São os chamados violentos contra Deus... e também contra o diabo. Entre blasfemadores e sodomitas, Noriel vê os exorcistas e caçadores de demônios, ali sofrendo em dobro por tudo que fizeram e disseram contra os mesmos.
Após uma longa jornada, Noriel chega ao final do sétimo círculo, se deparando com a nascente do rio Flegetonte numa cachoeira. No fundo do caminho, a passagem para o próximo círculo: Malebolge.
— Dois minutos.
Toda a corrupção é punida no Malebolge. Espalhados em dez fossos numa fortaleza de pedra, milhões de fraudulentos recebem o devido castigo: os rufiões e sedutores; aduladores e bajuladores; os sonegadores; os adivinhos e falsos profetas; os que desviam dinheiro; os hipócritas; os ladrões, os maus conselheiros; os semeadores de discórdias; e os falsários de toda espécie. Por demônios são castigados e Noriel não sente pena. Aqui, se alguém parar para contar, verá que é o local mais cheio de todo o mundo do além. Porém quando acessa os portões do novo círculo, Noriel vê toda a perversão de Lúficer.
Aqui é o rio Cócito. O inferno de gelo, onde são deixados os traidores de toda sorte. Desde os adúlteros aos inimigos de suas pátrias. Seu destino é padecerem no frio. Quanto mais intensa a traição, mais intenso será o frio. Porém, junto com os pecadores, Noriel vê seus irmãos nefilins. Outrora os anjos de Deus, mortos por Lúcifer e seus demônios ou nas guerras contra os homens, fadados ao pior dos infernos. Os piores inimigos de Satanás sendo castigados com a maior das violências.
— Toma teu lugar entre os seus, infeliz! — diz um demônio que se aproxima.
— Não! Afaste-se de mim! — bradou Noriel, mais com tristeza do que com fúria. Mas mesmo assim o demônio se foi pela força da magia que o protege.
Então Noriel vê os rostos congelados dos seus irmãos. Ele chora, e suas próprias lágrimas congelam em seu rosto. Os pés já se prendem ao gelo e na tentativa de se libertar, Noriel cai de joelhos. “Será que não conseguirei avançar?” Se pergunta. “Seria esse o fim? Padecer por toda a eternidade junto aos meus?”
O frio o toma como naquela banheira. De joelhos, cruzando os braços sobre seu peito, ele percebe que talvez não consiga seu objetivo. Os olhos se tornam pesados como se o sono da hipotermia voltasse.
— Não. — Ouve alguém dizer. Com muito esforço move a cabeça para procurar o dono da voz, mas não o encontra. Então, sentindo mais uma vez o cortante frio, abaixa sua cabeça. É quando ouve outro “não”, e vê uma flutuação debaixo dele. Fixando o olhar para aquilo, ainda com a vista turva e com a mente confusa, ele vê um rosto se movimentar debaixo da camada de gelo. Aproximando mais a cabeça do solo, Noriel sente um arrepio ao ver quem é.
— M-miguel...! — soterrado no gelo, entre corpos de outros anjos, emerge o rosto do Arcanjo Miguel.
— Noriel... — diz a voz fantasmagórica do arcanjo. — Não desista...
— Mas meu senhor--
— Lute! O Abismo... Está perto... Profaniel... Deve ser libertado...!
— Como sabes...?
— Não importa... Vá! Salve todos nós!
Dito isso, Miguel submergiu de volta para as profundezas até não mais poder ser visto. Noriel ainda ponderou sobre tal visão, refletindo se era mesmo Miguel ou alguma alucinação. Assombra-se como sua mente está materialista. Então percebe que, mesmo que fosse coisa de sua mente, o que Miguel disse era verdade. E ele precisa continuar. Tentou ergue-se. Falhou. Reuniu mais forças e tentou novamente. Falhou. E numa nova tentativa, sentiu o gelo que envolvia seus braços e pernas se partindo. O joelho dormente se apartou da superfície do rio congelado.
E de pé Noriel ficou.
O Abismo está perto.
— Um minuto.
Além do Cócito, e do Malebolge. Muito além das esferas já tão distantes. A escuridão que tudo consome. Um vale profundo, vazio e assombroso. É como o final do universo. Ou mesmo seu começo. Noriel contempla o Abismo. E sente que o Abismo lhe contempla de volta.
Lá embaixo, pensa Noriel, está seu amigo. Sozinho. Sofrendo. Noriel cruzou todo o Inferno dos homens. O Abismo é o inferno dos anjos pecadores. Mas Profaniel é o único ali. Todos os demônios têm medo daqui. Nenhum se aproxima. Nem mesmo Lúcifer. Mas Noriel avança.
Um salto na escuridão. É como perder toda e qualquer esperança. Noriel se atira nas trevas. É agora.
— PROFANIEL!! — ele grita. Não há eco. Não há nada. Nem vento contra o rosto. Chega a pensar que não está indo pra lugar nenhum. Mas então ele vê, na imensidão, se aproximando lentamente, o brilho do fogo eterno e do enxofre em saraivas. — PROFANIEL!!!! — grita novamente, e ouve sua voz voltando, parecendo ecoar em paredes cavernosas. — PROFANIEEEEEEELLLL!!!!
A figura esquelética se contorce. Mas as correntes não permitem muitos movimentos. Teve a impressão de ouvir uma voz chamar o nome que um dia foi seu. Uma voz um tanto familiar. Está louco. Há muito tempo ficou louco.
— PROFANIEL!! — ouve outra vez. Isso o deixa perturbado. Será algum tipo novo de provocação? Como se já não bastasse a dor e o ódio que aspira naquele lugar? Com esforço ele ergue a cabeça, aperta os olhos e tenta ver algo além da escuridão que paira sobre si. E para seu total e grato espanto, ele vê.
Noriel sente o calor. Mil vezes mais do que os homens condenados recebem. Insuportável, mas ele não se entrega. Vê um rio de lava ali embaixo e quase mergulhado nele, um monstro nu e magro atado em correntes e fios. Tal monstro não é outro senão Profaniel. Noriel desce sob as pedras ardentes o mais próximo que pode do outro. Sente a pele das mãos ficar grudada na pedra. Profaniel lhe devolve um olhar de dúvida.
— No-noriel? — diz, com sua asquerosa boca selada.
— Sim, meu amigo. Vim para tirar-te daqui! — o anjo condenado não responde, incrédulo. — Venha e--
De repente Noriel sente um tremendo mal estar. Dores fortes do peito e uma sensação realmente desconfortante (apesar dali não ser nada confortável). Ele se aproxima de Profaniel, entre respingos de lava, sentido a dor infligida pelo fogo e o mal estar crescente. Ele ergue o braço para Profaniel, alcançando a corrente que prende seu braço direito. Profaniel acompanha tudo confuso quando vê Noriel perder os sentidos e cair na lava, se agarrando às correntes e ao anjo caído.
— Profaniel... — diz Noriel, já sem forças. — Venha...
— Acabou o tempo.
* * *
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[1] - A história de Samyaza e seus Vigilantes e seu exílio será contada em breve.
Agradecimentos ao amigo João “Resgate” Norberto pela revisão!
Continua...
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