Stahl morreu? Não? Sim?
Afinal o que aconteceu e quem são os misteriosos inimigos do mais novo herói de Campinas?
Quase todas as respostas no segundo capítulo dessa flamejante história!
Conheça o Inferno. Parte 2.
Por João Norberto da Silva.
“Merrrddaaa!!!!!!!!!!!!”
Foi a própria voz que fazia eco na mente do jovem Renato, quando ele finalmente despertou.
Sem se lembrar direito de mais nada, ele tentou se levantar, mas bateu com a cabeça em algo extremamente duro, fazendo um estranho barulho abafado e metálico.
Começando a ficar assustado ele tentou em vão abrir os olhos, mas percebeu que tinha algo impedindo-o e, já se entregando ao desespero, levantou o braço esquerdo, sentindo o mesmo bater em paredes pelo caminho, já imaginando o pior, ele finalmente retirou o que impedia seus olhos de se abrirem.
- Maldita remela e... O quê que é isso!!!!!!!!!
Ele olhava desesperadamente ao redor e percebeu, com crescente pânico, que estava fechado numa das típicas “gavetas” de um necrotério e que seu corpo estava todo tomado pelas típicas manchas pretas, que resultavam de seu contato com o fogo.
“Pensapensapensa...” Aos poucos as lembranças voltavam e ele se recordou do incêndio que fora ajudar a combater e cujas chamas se tornaram um enorme dragão que, parecendo perceber as habilidades do rapaz, veio em sua direção como se estivesse realmente vivo.
Ele apenas ergueu os braços, gritou o mais alto que pôde ao perceber que não iria aguentar, e então nada.
Tudo ficou escuro.
Agora ele despertara daquele jeito. Renato respirou profundamente e percebeu que, se o lugar fosse realmente todo fechado ele poderia morrer sufocado, o que fez uma nova onda de pânico tomar o seu corpo, mas que logo passou, quando ele começou a ouvir o som de passos do lado de fora.
“Ufa... Ainda bem e... Peraí!!!!” Os pensamentos calmos logo deram lugar a mais desespero “O que os caras vão fazer se me acharem vivo aqui?!! Tô fora!!!”
Ele se concentrou e, em seguida, entrou com tudo no Caminho do Fogo.
- Arghhh... Cof-cof... – O legista que abriu a gaveta onde o rapaz estava sofreu uma crise de tosse, devido à fumaça deixada no rastro do teleporte de Renato. – Mas que diabos...
- Uuuufaaa... Por pouco e... – Renato reapareceu na sala da quitinete onde ele morava com seu amigo Santos, imaginando como o mesmo deveria estar preocupado, mas o rapaz não esperava ver quem ele viu. - Heim?!!!!
- Meu Deus!!!! Era Verdade!!! Ooooohhh...
Bete desmaiou nos braços do estupefato Santos.
- Ca-cacete!!! Renato!!!
- É... Tô vivo cara... – Renato dava alguns passos na direção do amigo, querendo abraçar o mesmo e ter certeza de que estava realmente de volta. – Eu...
- Não! – O amigo virou o rosto violentamente.
- Não o que cara?
- Vai por uma roupa pô!!!
Como se finalmente percebesse o estranho “ventinho” que estava sentindo, Renato se cobriu com as mãos e correu para o quarto, voltando só quando estava totalmente vestido e então ele ajudou o desajeitado Santos a colocar a amiga no sofá.
- Saco cara... Por que cê trouxe a Bete aqui? Pirou é?
- Mano!! – Sempre que ficava nervoso, Santos começava a falar de modo, como ele chamava, “descolado”. – Tu tinha sumido no alto do prédio... Eu ouvi que tinham achado só um corpo carbonizado lá e então fiquei mó perdido! A Bete me achou enquanto eu tava andando por aí e me trouxe prá cá... Quando ligamos a televisão e tava passando notícias do lance eu desabei... Falei que você tinha morrido e, quando a Bete perguntou por que eu achava isso... E-eu...
- Cê contou tudo prá ela né? Putz Santos... Cê é fo...
- Cara! Dá um desconto!!! Eu achei que cê tinha MORRIDO!!!
- Tá... Tudo bem... O negócio é a gente pensar no que dizer quando ela acordar e...
- Oooohhhh... – Aos poucos Bete ia abrindo os olhos e parecia se recuperar enquanto olhava para Santos, mas quando se virou para Renato. – Ai meu Deus!
- Calma Bete eu...
- Oooohhhh....
- Cacete... De novo?
- Vai ver foi a emoção de te ver peladão...
- Acredite... Ela não viu nada de novo... Nada que já não tenha visto... Espero que ela não desmaie de novo... Isso já tá ridículo demais... Parece até quando você me pegou usando meus poderes e...
- Opa! Peraí... Eu não desmaiei e... – O outro apenas lançou um olhar penetrante na direção do amigo e este pigarreou antes de continuar. – Tá bom... Mas pelo menos foi só uma vez né? Eu... – Mais um olhar e outro pigarro. – Tá bom! Tá bom! Ficamos nessa por algumas horas, eu desmaiei umas quatro vezes até eu me acalmar e cê contar tudo... Contente?
- Agora tá melhor...
Alguns minutos se passaram sem que nenhum dos dois falasse nada, apesar das milhares de perguntas que Renato sabia que seu amigo queria fazer, mas ele mesmo não sabia todas as respostas, portanto preferiu apenas tentar lembrar o que havia acontecido e se preparar para quando Bete acordasse novamente. O que não demorou a acontecer.
- Oooohhh... O-onde eu tô e... Essa Não! Não foi um sonho!
- Olha Bete... Fica calma tá? Eu posso explicar tudo... Não desmaia mais, por favor... Isso... Respira fundo e se acalma...
- E-eu... Certo... Tô mais calma... Mas espero que a explicação seja muito, mas muito boa...
Renato lançou um olhar para Santos que parecia dizer “Viu? Ela desmaiou menos que você...”, mas guardou o comentário para si, enquanto, depois de pensar um pouco, começou a explicar sua história para a amiga:
- Foi há mais de cinco meses que descobri esses poderes estranhos...
Enquanto isso, em outra parte da cidade, um casal se encontrava no porão da casa de Ana e Rodrigo Dantas. Eram os dois verdadeiros responsáveis pelo dragão de fogo que quase destruiu dois prédios na noite passada.
- Como?!!! – Enquanto gritava, a mulher deu um tapa contra o rosto do dono da casa, devidamente amarrado a uma cadeira. Amordaçado, ele não pôde nem gritar quando sentiu que o local atingido ardia como se estivesse queimado. – Como foi que o nosso Dragão foi vencido daquele jeito?!!!! Não acredito!!! Você deve ter feito algo errado...
- E lá vem você com essas acusações... – O parceiro da mulher mantinha a dona da casa nua e amarrada a uma cadeira, passando seu dedo indicador pelo corpo dela e deixando marcas de queimado por toda a pele. Amordaçada com estava a pobre mulher apenas gemia baixinho, o que parecia instigar ainda mais o invasor e este se abaixou sussurrando no ouvido da mesma. – Hum... Aposto que, em algum nível, você está adorando isso...
- Será que dá prá prestar atenção um pouco na SUA esposa? – Mais um tapa e, além da marca de queimadura, o pobre coitado sentiu sua boca se encher de sangue, ameaçando sufocá-lo. – Você não ficou nem um pouco intrigado com o que aconteceu?
- Ela é muito ciumenta... Já, já eu volto – O homem se afastou de sua refém, não sem antes dar uma beliscada na bochecha da mesma, deixando mais uma dolorosa marca de queimadura. – Certo... Você quer fazer mais daquele negócio... Como é que chamam? Terapia de casal?
Enquanto o homem se afastava e começava uma violenta discussão com aquela que ele chamou de esposa, Ana olhou para seu próprio marido e seus olhos se encheram de novas lágrimas, dessa vez de desespero e não apenas de dor, pelo modo como Rodrigo se encontrava, quase sem se mexer e com um filete de sangue escorrendo pela fita que mantinha a boca dele tapada.
Depois ela viu bem seus captores, sabendo que isso seria importante caso os dois fugissem ou quando alguém viesse salvá-los. O homem era negro, quase dois metros, aparentava ter uns quarenta anos e tinha o físico avantajado, que aparecia mesmo com ele usando roupas tão diferentes, que deixavam praticamente apenas suas mãos e sua cabeça descobertas. Já a mulher usava roupas finas, tinha longos cabelos loiros e um corpo escultural que ela nem tentava esconder, mas tudo maculado pela feição de ódio que ela trazia no rosto naquele momento.
- Eu não faço a menor idéia do que pode ter acontecido saco... Prá que ficar esquentando com isso e...
- Não começa com isso...
- Com isso o que inferno?
- Com essa mania idiota de usar termos como “esquentando” ou outros ligados a fogo... Eu acho isso tão ridículo...
- Ah... Pára com isso... Eu nem pensei prá falar isso e... Ai! – Um tapa desferido de surpresa pela mulher atingiu em cheio o rosto de seu marido e logo ela deu outro. – Ai! Pára com isso agora!!!
- Vem me fazer parar, desgraçado!! Sai... Tira suas mãos imundas e... Uuunnnnffff....
Um longo beijo e, sem se importar, ou mesmo lembrar que tinham outras duas pessoas presentes, ambos tiraram a roupa e descarregaram todas suas tensões ali mesmo.
Momentos depois eles se vestiram, ambos com um sorriso enorme no olhar e começaram a sair do porão bem devagar.
- Sabe querido... Esse “exercício” me abriu o apetite... Vamos ver o que esses babacas têm na geladeira e cair fora... Tô tão feliz que acho até que vou deixá-los viver...
- Você é quem sabe paixão... Você é quem sabe... Quando sairmos ligamos prá polícia prá vir socorrê-los?
- Claro... Porque não?
Os dois logo sumiram das vistas de Ana e Rodrigo e a mulher se pegou agradecendo a todos os santos que ela conhecia, para logo lançar um olhar de súplica ao marido, que voltava a abrir os olhos, “Aguenta firme meu amor... Vamos conseguir sair dessa...”
Minutos depois, no entanto, a loira retornava, olhando para o casal preso com um sorriso insano nos lábios.
- Vocês não acharam mesmo que a gente ia sair assim né?
Ela estendeu a mão, com a palma aberta para cima e os dois prisioneiros olharam amedrontados quando uma pequena chama surgiu a poucos centímetros da pele da loira e ia crescendo cada vez mais até que a mulher segurou nas duas mãos o que parecia um enorme gato feito de fogo.
Para maior desespero de Ana, a mulher jogou o animal flamejante no chão do porão e o mesmo começou um incêndio que se espalhou rapidamente, indo na direção de Rodrigo, que logo foi cercado pelas chamas.
- Já terminou? – O homem estava diante da casa, aguardando sua mulher, quando sentiu o cheiro inconfundível de carne queimada, que antecedia a chegada dela. – Pelo visto já... Podemos ir agora? Acho que os mestres estão esperando nosso relatório...
- Humpf... Já falei o que eu gostaria de fazer com aqueles monstros né?
- Já sim amor... Já sim...
E os dois se perderam pelas ruas de Campinas, rindo alto e acordando alguns dos vizinhos, que terminaram por ligar para os Bombeiros quando a casa da família Dantas começou a arder em chamas.
De volta para a quitinete de Renato e Santos, os dois acabavam de explicar tudo para Bete, esperando alguma reação, mas a garota permanecia em silêncio sepulcral.
- Hum... Bete? – Santos se levantou e começou a mover a mão diante do rosto da garota, que permanecia como que congelada. – Nada... Isso é algum poder novo que você não me contou?
- Juro que não fiz nada e...
- BBBUUUU!!!!!!
- AAAAAIIIIII!!!!!!!!!!! – Santos caiu sentado depois do susto que levou, quando Bete se ergueu de repente e gritara bem perto da orelha dele. – Quem me matar?!!!!
- Hahahahahahahahahahaahahahaha... – A gargalhada da garota era contagiante e logo ela era seguida por Renato, que também havia se assustado um pouco. – Pô Santos!! Você gritou feito uma menininha!!! Hahahahahahahahahahaha...
- Desculpa cara... Mas foi mesmo... hahahahahaha
- Isso... Podem rir à vontade do babaca aqui... - Santos cruzou os braços e se esforçava para fazer sua melhor careta de descontentamento.
- Desculpa Santos... – Bete deu um longo abraço no rapaz e, como num passe de mágica, sua raiva pareceu desaparecer, ela então o soltou e se virou para o outro. – Mas vem cá Renato... Me diz de novo que raio de nome é esse que você escolheu... Stan... Stu...
- É Stahl... Saco... Depois te mando um e-mail explicando a Teoria do Flogisto... Sou só eu ou vocês também estão com fome... Acordei morto de fome hoje...
Os três se entreolharam depois da piada de Renato e, como que para compensar a loucura de toda a situação, riram muito até que finalmente Bete e Santos admitiram que também estavam com fome e os três se levantaram, indo na direção da cozinha.
- Hum... Inacreditável como queimou tudo desse jeito, heim Capitão Oliveira... – Horas mais tarde, um bombeiro, retirando o capacete e mostrando sua feição cansada, se aproximou de seu superior e melhor amigo, logo após finalmente terem controlado o fogo que acabara de consumir a residência do casal Dantas. – E o pior é que não é o primeiro assim né? Tá igual ao dos prédios de ontem e do asilo da semana passada...
- É verdade Cabral... – José Luiz Oliveira, o pai adotivo de Renato também tirou seu capacete e olhou demoradamente para os restos da casa, que ainda exalavam um pouco de fumaça. Ele nunca vira um fogo tão difícil de apagar. – Só espero que isso não continue por mais tempo... O duro é não fazer idéia de como estão fazendo isso...
- O senhor ainda acha que são criminosos?
- Se não forem criminosos, então são mágicos... Você também estranhou o modo como as chamas estavam se movendo?
- Hum... Eu não iria comentar, mas realmente estavam estranhas né?
- É... – O bombeiro olhou fixamente para os restos da casa mais uma vez e então se voltou para o caminhão que os trouxera ali. – Vamos embora que eu prometi almoçar com minha família hoje e tô cheio de relatórios para preencher... Enquanto não conseguirmos alguma prova de que tem alguém responsável por esses incêndios só podemos mesmo é fazer o possível quando algum acontece... – Ele se voltou para o restante de seus homens. – Vamos pessoal! Recolham tudo e vamos embora!!
Todos seguiram o capitão e logo estavam de volta à base, onde Luiz seguiu direto até seu escritório, querendo eliminar logo o trabalho para ir o mais cedo possível para sua casa.
Mais tarde a família Oliveira estava toda reunida em torno da mesa de almoço, tendo como convidados Bete e Santos, que haviam passado toda a manhã com Renato e, desse modo, foram convidados por Carla, a mãe do rapaz, ou melhor foram literalmente “obrigados” a entrar e se aprontar, pois a comida seria servida em poucos minutos.
Conforme o prometido logo todos estavam se servindo do delicioso e farto almoço, todos entretidos em conversas comuns, sobre escola, ou sobre o fato de Renato não estar se alimentando direito, como sua mãe não conseguia deixar de comentar.
- É sério filho... Você devia voltar a morar com a gente...
- Não dá mãe... O Santos morreria se tivesse que morar sozinho... A senhora lembra que a família dele mora longe né? Se eu não estou lá ele logo faz alguma besteira...
- Ele podia vir morar aqui também né mãe? - Andressa, irmã menor de Renato, prestes a fazer quinze anos, não escondia a pequena atração pelo amigo do irmão. - Ia ser legal todo mundo morando aqui...
- Larga mão de ser tonta!! - André, o irmão gêmeo de Andressa, sempre estava disposto a provocar a outra. - Você podia disfarçar mais que tá a fim de...
- Pai!!!! Olha o André!!!
- Vamos parar com essas besteiras... Os rapazes já são bem grandinhos e podem se virar bem... Sua mãe continuaria dizendo que você está magro, mesmo se pesasse uns duzentos quilos... Que é o que você poderia pesar se continuar morando aqui... Olha quanta comida deliciosa...
- Sei... Humpf... Se acha que esse último comentário vai te salvar “Capitão Oliveira” está muito enganado... Se eu te deixo tão gordo você não deveria comer a sobremesa... O delicioso pudim de chocolate que eu fiz...
- Opa... Quer dizer... Ô meu amor... Não faz isso não... Eu sempre deixo um lugar especial aqui prá esse pudim...
O casal, para divertimento dos filhos e convidados, se envolveu em uma cômica discussão que, como sempre, terminou com todos se fartando com o doce oferecido por Carla. Todos continuavam a conversar animadamente até que André resolveu fazer uma pergunta:
- Ô pai... Na escola todos tão falando do defunto que sumiu... É verdade?
- Ptu! - Renato cospiu um pouco de pudim, mas logo tentou se recompor. - Como é que é?
- Vai pegar um pano de prato prá limpar isso Renato... - O rapaz se levantou lentamente, escutando com atenção o que seu pai respondia ao irmão. - No incêndio dos prédios de ontem realmente foi encontrado um corpo todo carbonizado no topo do segundo prédio a pegar fogo, levamos ele pro necrotério, mas essa manhã o legista contou que, assim que abriu a gaveta só tinha fumaça lá... Pelo visto o corpo deve ter tido uma combustão espontânea, ou algo assim... O pessoal ainda está investigando
- Ai... Que assunto mais sem graça prá hora do almoço... - Carla começava a recolher os pratos, enquanto Renato voltava a respirar aliviado. - Vem Andressa... Me ajuda com a louça...
- Ah, mãe...
- Eu posso ajudar também... - Bete se levantou e antes mesmo da outra falar algo, já pegava o próprio prato e seguia a dona da casa até a cozinha.
- Obrigada querida...
Mais tarde os jovens precisaram voltar para suas casas, pois logo estaria na hora de ir para a faculdade e então todos se despediram da família Oliveira.
- Muito prazer te conhecer Bete... - Carla abraçou carinhosamente a garota. - Que bom que o Renato achou uma namorada tão boa...
- Hã... A gente não... É...
- Isso... A gente é... Hã... Só amigos e... Hã...
- Claro... Claro... Até mais queridos...
Os três amigos seguiram seu caminho, indo deixar Bete em sua casa, conversando sobre o dia que passaram e todas as surpresas do mesmo.
- Puxa... Ainda é difícil de acreditar... Se eu não tivesse visto com meus olhos eu mesma não ia acreditar... E você nunca pensou em contar pro seus pais? Eles são tão legais...
- E dona Carla faz mais uma “vítima”...
- Heim? Como assim?
- Minha mãe tem o dom de encantar as pessoas... Muitas namoradas que eu tive demoravam a aceitar os fins de namoro, mais por causa da minha mãe do que por minha causa...
Todos riram com gosto e a bela mulata se despediu dos amigos com estalados beijos nas bochechas, o que deu em Renato chegou a tocar no canto da boca dele e, antes de entrar, ela sussurrou no ouvido dele um último segredo.
- Nunca te esqueci, a agora eu imagino o motivo...
Logo depois os amigos chegavam na quitinete e Santos já foi falando:
- O que ela disse? Aposto que ela disse algo... Contaí vai...
- Ela não falou nada cara... Se tivesse falado eu te contava pô... Nem esquenta com isso...
Mesmo falando assim, o próprio Renato ficou com as palavras da amiga ressoando em sua mente e as lembranças do curto período em que ficaram juntos voltavam com tudo. Ele se lembrou exatamente de como se sentiu usado no momento em que Bete viera falando que deveriam ser apenas amigos para, pouco tempo depois, começar a ficar com outro cara.
Agora aquele beijo e a frase que ela sussurrou, ele se pergunta se era verdade, se ele podia confiar nas palavras dela. Ele se pegou pensando também da bela Carla, que ele não teve coragem de convidar para sair até agora. Se apenas seus problemas pessoais são fossem o suficiente, ele se preocupava com os misteriosos incêndios e o dragão formado pelas chamas que o atingiram.
Renato mal prestou atenção às aulas daquela noite, sempre tendo que ser cutucado por Santos para “acordar”, o que acabava irritando os dois e quando finalmente o último sinal tocou, eles se encontraram com Bete, que queria ir com eles até o barzinho próximo da faculdade, onde os alunos costumavam ir no fim de noite.
Antes de chegarem, porém, Renato sentiu um mal estar já conhecido.
- Saco! Mais um?
- É assim que você sente que tem um incêndio perto?
- Sim... O pior é que no de ontem a roupa que eu costumo usar se queimou toda...
- Vai em casa antes e abre a Batcaverna... Tem umas surpresas lá...
- O quê?
- Vai logo... A chave tá na minha gaveta de cuecas...
- Mais uma vez... O quê?
- Vai logo pô!!
Renato desapareceu numa explosão de fogo e Bete não deixou de dar um gritinho de susto, se voltando para Santos.
- Batcaverna?
O rapaz apenas sorriu envergonhado.
Na casa dos amigos, Renato surgiu diante da Batcaverna, na verdade um armário que Santos comprou pouco depois de descobrir os poderes do amigo e que ele mantinha sempre fechado, sem mostrar seu interior para ninguém, nem para o rapaz que agora tinha uma tarefa difícil pela frente.
Mexer da gaveta de cuecas do Santos.
- Eca... Bem lá vamos nós. - Apesar da repulsa ele seguiu em frente, tateando até achar a chave e usá-la em seguida para abrir o armário secreto de seu amigo. - Mas que filha da...
Diante do rapaz surgiram vários casacos iguais ao que foi destruído, bem como botas e também máscaras de oxigênio. Renato balançou a cabeça, incrédulo e enquanto começava a se vestir, pensou em como Santos havia comprado tudo aquilo e mantido em segredo até então.
Uma vez que o rapaz estava todo equipado, foi Stahl quem se teleportou até o local onde devia estar ocorrendo o incêndio.
Assim que ele chegou, percebeu estar no Cemitério Parque das Flores, mas estranhamente não havia nenhum foco de incêndio por ali.
Ele olhou ao seu redor e tudo permanecia em silêncio.
Quando finalmente se preparava para ir embora ele viu um casal se aproximar e antes que ele se teleportasse, pretendendo evitar qualquer problema, não conseguiu e logo via algo que parecia ainda mais estranho que o dragão da noite passada.
Os dois moviam seus braços, chamas saindo dos mesmos e serpenteando pelo ar até que pararam do lado deles. Foi então que um enorme leão de fogo surgiu ao lado da mulher e um urso, também de fogo, surgiu ao lado do homem.
- Então é você que está atrapalhando nossas obras de arte não é? Hum... Ele é realmente alto Xangô... Será que é feio também? Prá usar aquela máscara...
- Se concentra Héstia, minha querida... O sujeitinho deve ser poderoso, não esquece como ele derrotou nosso dragão ontem... - O homem se voltava para Stahl, dando alguns passos e erguendo novamente sua mão. - Mas vamos ver do que ele é capaz agora...
Um círculo de fogo cercou a todos, atingindo uma altura impossível de ser pulada e então o jovem se colocou em posição de luta, esperando pelo ataque que devia vir logo.
- Hum... Olha só meu amor... Ele quer lutar... - A mulher abaixou levemente o rosto e sua face se contorceu num sorriso insano, que cresca cada vez mais, enquanto o leão ao seu lado começava a se mover. - Será que isso vai demorar muito?
- Acho que não minha querida, mas nada impede de nos divertirmos, não importa o pouco tempo que isso dure...
Sem mais nenhuma palavra, os animais de fogo se lançaram ao ataque e Stahl, lembrando da noite anterior, não teve outra escolha a não ser erguer os braços diante do corpo e mais uma vez gritar, quando as chamas começaram a atingi-lo:
- Merrrddaaa!!!!!!!!!!!!
Continua.
Afinal o que aconteceu e quem são os misteriosos inimigos do mais novo herói de Campinas?
Quase todas as respostas no segundo capítulo dessa flamejante história!
Conheça o Inferno. Parte 2.
Por João Norberto da Silva.
“Merrrddaaa!!!!!!!!!!!!”
Foi a própria voz que fazia eco na mente do jovem Renato, quando ele finalmente despertou.
Sem se lembrar direito de mais nada, ele tentou se levantar, mas bateu com a cabeça em algo extremamente duro, fazendo um estranho barulho abafado e metálico.
Começando a ficar assustado ele tentou em vão abrir os olhos, mas percebeu que tinha algo impedindo-o e, já se entregando ao desespero, levantou o braço esquerdo, sentindo o mesmo bater em paredes pelo caminho, já imaginando o pior, ele finalmente retirou o que impedia seus olhos de se abrirem.
- Maldita remela e... O quê que é isso!!!!!!!!!
Ele olhava desesperadamente ao redor e percebeu, com crescente pânico, que estava fechado numa das típicas “gavetas” de um necrotério e que seu corpo estava todo tomado pelas típicas manchas pretas, que resultavam de seu contato com o fogo.
“Pensapensapensa...” Aos poucos as lembranças voltavam e ele se recordou do incêndio que fora ajudar a combater e cujas chamas se tornaram um enorme dragão que, parecendo perceber as habilidades do rapaz, veio em sua direção como se estivesse realmente vivo.
Ele apenas ergueu os braços, gritou o mais alto que pôde ao perceber que não iria aguentar, e então nada.
Tudo ficou escuro.
Agora ele despertara daquele jeito. Renato respirou profundamente e percebeu que, se o lugar fosse realmente todo fechado ele poderia morrer sufocado, o que fez uma nova onda de pânico tomar o seu corpo, mas que logo passou, quando ele começou a ouvir o som de passos do lado de fora.
“Ufa... Ainda bem e... Peraí!!!!” Os pensamentos calmos logo deram lugar a mais desespero “O que os caras vão fazer se me acharem vivo aqui?!! Tô fora!!!”
Ele se concentrou e, em seguida, entrou com tudo no Caminho do Fogo.
- Arghhh... Cof-cof... – O legista que abriu a gaveta onde o rapaz estava sofreu uma crise de tosse, devido à fumaça deixada no rastro do teleporte de Renato. – Mas que diabos...
- Uuuufaaa... Por pouco e... – Renato reapareceu na sala da quitinete onde ele morava com seu amigo Santos, imaginando como o mesmo deveria estar preocupado, mas o rapaz não esperava ver quem ele viu. - Heim?!!!!
- Meu Deus!!!! Era Verdade!!! Ooooohhh...
Bete desmaiou nos braços do estupefato Santos.
- Ca-cacete!!! Renato!!!
- É... Tô vivo cara... – Renato dava alguns passos na direção do amigo, querendo abraçar o mesmo e ter certeza de que estava realmente de volta. – Eu...
- Não! – O amigo virou o rosto violentamente.
- Não o que cara?
- Vai por uma roupa pô!!!
Como se finalmente percebesse o estranho “ventinho” que estava sentindo, Renato se cobriu com as mãos e correu para o quarto, voltando só quando estava totalmente vestido e então ele ajudou o desajeitado Santos a colocar a amiga no sofá.
- Saco cara... Por que cê trouxe a Bete aqui? Pirou é?
- Mano!! – Sempre que ficava nervoso, Santos começava a falar de modo, como ele chamava, “descolado”. – Tu tinha sumido no alto do prédio... Eu ouvi que tinham achado só um corpo carbonizado lá e então fiquei mó perdido! A Bete me achou enquanto eu tava andando por aí e me trouxe prá cá... Quando ligamos a televisão e tava passando notícias do lance eu desabei... Falei que você tinha morrido e, quando a Bete perguntou por que eu achava isso... E-eu...
- Cê contou tudo prá ela né? Putz Santos... Cê é fo...
- Cara! Dá um desconto!!! Eu achei que cê tinha MORRIDO!!!
- Tá... Tudo bem... O negócio é a gente pensar no que dizer quando ela acordar e...
- Oooohhhh... – Aos poucos Bete ia abrindo os olhos e parecia se recuperar enquanto olhava para Santos, mas quando se virou para Renato. – Ai meu Deus!
- Calma Bete eu...
- Oooohhhh....
- Cacete... De novo?
- Vai ver foi a emoção de te ver peladão...
- Acredite... Ela não viu nada de novo... Nada que já não tenha visto... Espero que ela não desmaie de novo... Isso já tá ridículo demais... Parece até quando você me pegou usando meus poderes e...
- Opa! Peraí... Eu não desmaiei e... – O outro apenas lançou um olhar penetrante na direção do amigo e este pigarreou antes de continuar. – Tá bom... Mas pelo menos foi só uma vez né? Eu... – Mais um olhar e outro pigarro. – Tá bom! Tá bom! Ficamos nessa por algumas horas, eu desmaiei umas quatro vezes até eu me acalmar e cê contar tudo... Contente?
- Agora tá melhor...
Alguns minutos se passaram sem que nenhum dos dois falasse nada, apesar das milhares de perguntas que Renato sabia que seu amigo queria fazer, mas ele mesmo não sabia todas as respostas, portanto preferiu apenas tentar lembrar o que havia acontecido e se preparar para quando Bete acordasse novamente. O que não demorou a acontecer.
- Oooohhh... O-onde eu tô e... Essa Não! Não foi um sonho!
- Olha Bete... Fica calma tá? Eu posso explicar tudo... Não desmaia mais, por favor... Isso... Respira fundo e se acalma...
- E-eu... Certo... Tô mais calma... Mas espero que a explicação seja muito, mas muito boa...
Renato lançou um olhar para Santos que parecia dizer “Viu? Ela desmaiou menos que você...”, mas guardou o comentário para si, enquanto, depois de pensar um pouco, começou a explicar sua história para a amiga:
- Foi há mais de cinco meses que descobri esses poderes estranhos...
Enquanto isso, em outra parte da cidade, um casal se encontrava no porão da casa de Ana e Rodrigo Dantas. Eram os dois verdadeiros responsáveis pelo dragão de fogo que quase destruiu dois prédios na noite passada.
- Como?!!! – Enquanto gritava, a mulher deu um tapa contra o rosto do dono da casa, devidamente amarrado a uma cadeira. Amordaçado, ele não pôde nem gritar quando sentiu que o local atingido ardia como se estivesse queimado. – Como foi que o nosso Dragão foi vencido daquele jeito?!!!! Não acredito!!! Você deve ter feito algo errado...
- E lá vem você com essas acusações... – O parceiro da mulher mantinha a dona da casa nua e amarrada a uma cadeira, passando seu dedo indicador pelo corpo dela e deixando marcas de queimado por toda a pele. Amordaçada com estava a pobre mulher apenas gemia baixinho, o que parecia instigar ainda mais o invasor e este se abaixou sussurrando no ouvido da mesma. – Hum... Aposto que, em algum nível, você está adorando isso...
- Será que dá prá prestar atenção um pouco na SUA esposa? – Mais um tapa e, além da marca de queimadura, o pobre coitado sentiu sua boca se encher de sangue, ameaçando sufocá-lo. – Você não ficou nem um pouco intrigado com o que aconteceu?
- Ela é muito ciumenta... Já, já eu volto – O homem se afastou de sua refém, não sem antes dar uma beliscada na bochecha da mesma, deixando mais uma dolorosa marca de queimadura. – Certo... Você quer fazer mais daquele negócio... Como é que chamam? Terapia de casal?
Enquanto o homem se afastava e começava uma violenta discussão com aquela que ele chamou de esposa, Ana olhou para seu próprio marido e seus olhos se encheram de novas lágrimas, dessa vez de desespero e não apenas de dor, pelo modo como Rodrigo se encontrava, quase sem se mexer e com um filete de sangue escorrendo pela fita que mantinha a boca dele tapada.
Depois ela viu bem seus captores, sabendo que isso seria importante caso os dois fugissem ou quando alguém viesse salvá-los. O homem era negro, quase dois metros, aparentava ter uns quarenta anos e tinha o físico avantajado, que aparecia mesmo com ele usando roupas tão diferentes, que deixavam praticamente apenas suas mãos e sua cabeça descobertas. Já a mulher usava roupas finas, tinha longos cabelos loiros e um corpo escultural que ela nem tentava esconder, mas tudo maculado pela feição de ódio que ela trazia no rosto naquele momento.
- Eu não faço a menor idéia do que pode ter acontecido saco... Prá que ficar esquentando com isso e...
- Não começa com isso...
- Com isso o que inferno?
- Com essa mania idiota de usar termos como “esquentando” ou outros ligados a fogo... Eu acho isso tão ridículo...
- Ah... Pára com isso... Eu nem pensei prá falar isso e... Ai! – Um tapa desferido de surpresa pela mulher atingiu em cheio o rosto de seu marido e logo ela deu outro. – Ai! Pára com isso agora!!!
- Vem me fazer parar, desgraçado!! Sai... Tira suas mãos imundas e... Uuunnnnffff....
Um longo beijo e, sem se importar, ou mesmo lembrar que tinham outras duas pessoas presentes, ambos tiraram a roupa e descarregaram todas suas tensões ali mesmo.
Momentos depois eles se vestiram, ambos com um sorriso enorme no olhar e começaram a sair do porão bem devagar.
- Sabe querido... Esse “exercício” me abriu o apetite... Vamos ver o que esses babacas têm na geladeira e cair fora... Tô tão feliz que acho até que vou deixá-los viver...
- Você é quem sabe paixão... Você é quem sabe... Quando sairmos ligamos prá polícia prá vir socorrê-los?
- Claro... Porque não?
Os dois logo sumiram das vistas de Ana e Rodrigo e a mulher se pegou agradecendo a todos os santos que ela conhecia, para logo lançar um olhar de súplica ao marido, que voltava a abrir os olhos, “Aguenta firme meu amor... Vamos conseguir sair dessa...”
Minutos depois, no entanto, a loira retornava, olhando para o casal preso com um sorriso insano nos lábios.
- Vocês não acharam mesmo que a gente ia sair assim né?
Ela estendeu a mão, com a palma aberta para cima e os dois prisioneiros olharam amedrontados quando uma pequena chama surgiu a poucos centímetros da pele da loira e ia crescendo cada vez mais até que a mulher segurou nas duas mãos o que parecia um enorme gato feito de fogo.
Para maior desespero de Ana, a mulher jogou o animal flamejante no chão do porão e o mesmo começou um incêndio que se espalhou rapidamente, indo na direção de Rodrigo, que logo foi cercado pelas chamas.
- Já terminou? – O homem estava diante da casa, aguardando sua mulher, quando sentiu o cheiro inconfundível de carne queimada, que antecedia a chegada dela. – Pelo visto já... Podemos ir agora? Acho que os mestres estão esperando nosso relatório...
- Humpf... Já falei o que eu gostaria de fazer com aqueles monstros né?
- Já sim amor... Já sim...
E os dois se perderam pelas ruas de Campinas, rindo alto e acordando alguns dos vizinhos, que terminaram por ligar para os Bombeiros quando a casa da família Dantas começou a arder em chamas.
De volta para a quitinete de Renato e Santos, os dois acabavam de explicar tudo para Bete, esperando alguma reação, mas a garota permanecia em silêncio sepulcral.
- Hum... Bete? – Santos se levantou e começou a mover a mão diante do rosto da garota, que permanecia como que congelada. – Nada... Isso é algum poder novo que você não me contou?
- Juro que não fiz nada e...
- BBBUUUU!!!!!!
- AAAAAIIIIII!!!!!!!!!!! – Santos caiu sentado depois do susto que levou, quando Bete se ergueu de repente e gritara bem perto da orelha dele. – Quem me matar?!!!!
- Hahahahahahahahahahaahahahaha... – A gargalhada da garota era contagiante e logo ela era seguida por Renato, que também havia se assustado um pouco. – Pô Santos!! Você gritou feito uma menininha!!! Hahahahahahahahahahaha...
- Desculpa cara... Mas foi mesmo... hahahahahaha
- Isso... Podem rir à vontade do babaca aqui... - Santos cruzou os braços e se esforçava para fazer sua melhor careta de descontentamento.
- Desculpa Santos... – Bete deu um longo abraço no rapaz e, como num passe de mágica, sua raiva pareceu desaparecer, ela então o soltou e se virou para o outro. – Mas vem cá Renato... Me diz de novo que raio de nome é esse que você escolheu... Stan... Stu...
- É Stahl... Saco... Depois te mando um e-mail explicando a Teoria do Flogisto... Sou só eu ou vocês também estão com fome... Acordei morto de fome hoje...
Os três se entreolharam depois da piada de Renato e, como que para compensar a loucura de toda a situação, riram muito até que finalmente Bete e Santos admitiram que também estavam com fome e os três se levantaram, indo na direção da cozinha.
- Hum... Inacreditável como queimou tudo desse jeito, heim Capitão Oliveira... – Horas mais tarde, um bombeiro, retirando o capacete e mostrando sua feição cansada, se aproximou de seu superior e melhor amigo, logo após finalmente terem controlado o fogo que acabara de consumir a residência do casal Dantas. – E o pior é que não é o primeiro assim né? Tá igual ao dos prédios de ontem e do asilo da semana passada...
- É verdade Cabral... – José Luiz Oliveira, o pai adotivo de Renato também tirou seu capacete e olhou demoradamente para os restos da casa, que ainda exalavam um pouco de fumaça. Ele nunca vira um fogo tão difícil de apagar. – Só espero que isso não continue por mais tempo... O duro é não fazer idéia de como estão fazendo isso...
- O senhor ainda acha que são criminosos?
- Se não forem criminosos, então são mágicos... Você também estranhou o modo como as chamas estavam se movendo?
- Hum... Eu não iria comentar, mas realmente estavam estranhas né?
- É... – O bombeiro olhou fixamente para os restos da casa mais uma vez e então se voltou para o caminhão que os trouxera ali. – Vamos embora que eu prometi almoçar com minha família hoje e tô cheio de relatórios para preencher... Enquanto não conseguirmos alguma prova de que tem alguém responsável por esses incêndios só podemos mesmo é fazer o possível quando algum acontece... – Ele se voltou para o restante de seus homens. – Vamos pessoal! Recolham tudo e vamos embora!!
Todos seguiram o capitão e logo estavam de volta à base, onde Luiz seguiu direto até seu escritório, querendo eliminar logo o trabalho para ir o mais cedo possível para sua casa.
Mais tarde a família Oliveira estava toda reunida em torno da mesa de almoço, tendo como convidados Bete e Santos, que haviam passado toda a manhã com Renato e, desse modo, foram convidados por Carla, a mãe do rapaz, ou melhor foram literalmente “obrigados” a entrar e se aprontar, pois a comida seria servida em poucos minutos.
Conforme o prometido logo todos estavam se servindo do delicioso e farto almoço, todos entretidos em conversas comuns, sobre escola, ou sobre o fato de Renato não estar se alimentando direito, como sua mãe não conseguia deixar de comentar.
- É sério filho... Você devia voltar a morar com a gente...
- Não dá mãe... O Santos morreria se tivesse que morar sozinho... A senhora lembra que a família dele mora longe né? Se eu não estou lá ele logo faz alguma besteira...
- Ele podia vir morar aqui também né mãe? - Andressa, irmã menor de Renato, prestes a fazer quinze anos, não escondia a pequena atração pelo amigo do irmão. - Ia ser legal todo mundo morando aqui...
- Larga mão de ser tonta!! - André, o irmão gêmeo de Andressa, sempre estava disposto a provocar a outra. - Você podia disfarçar mais que tá a fim de...
- Pai!!!! Olha o André!!!
- Vamos parar com essas besteiras... Os rapazes já são bem grandinhos e podem se virar bem... Sua mãe continuaria dizendo que você está magro, mesmo se pesasse uns duzentos quilos... Que é o que você poderia pesar se continuar morando aqui... Olha quanta comida deliciosa...
- Sei... Humpf... Se acha que esse último comentário vai te salvar “Capitão Oliveira” está muito enganado... Se eu te deixo tão gordo você não deveria comer a sobremesa... O delicioso pudim de chocolate que eu fiz...
- Opa... Quer dizer... Ô meu amor... Não faz isso não... Eu sempre deixo um lugar especial aqui prá esse pudim...
O casal, para divertimento dos filhos e convidados, se envolveu em uma cômica discussão que, como sempre, terminou com todos se fartando com o doce oferecido por Carla. Todos continuavam a conversar animadamente até que André resolveu fazer uma pergunta:
- Ô pai... Na escola todos tão falando do defunto que sumiu... É verdade?
- Ptu! - Renato cospiu um pouco de pudim, mas logo tentou se recompor. - Como é que é?
- Vai pegar um pano de prato prá limpar isso Renato... - O rapaz se levantou lentamente, escutando com atenção o que seu pai respondia ao irmão. - No incêndio dos prédios de ontem realmente foi encontrado um corpo todo carbonizado no topo do segundo prédio a pegar fogo, levamos ele pro necrotério, mas essa manhã o legista contou que, assim que abriu a gaveta só tinha fumaça lá... Pelo visto o corpo deve ter tido uma combustão espontânea, ou algo assim... O pessoal ainda está investigando
- Ai... Que assunto mais sem graça prá hora do almoço... - Carla começava a recolher os pratos, enquanto Renato voltava a respirar aliviado. - Vem Andressa... Me ajuda com a louça...
- Ah, mãe...
- Eu posso ajudar também... - Bete se levantou e antes mesmo da outra falar algo, já pegava o próprio prato e seguia a dona da casa até a cozinha.
- Obrigada querida...
Mais tarde os jovens precisaram voltar para suas casas, pois logo estaria na hora de ir para a faculdade e então todos se despediram da família Oliveira.
- Muito prazer te conhecer Bete... - Carla abraçou carinhosamente a garota. - Que bom que o Renato achou uma namorada tão boa...
- Hã... A gente não... É...
- Isso... A gente é... Hã... Só amigos e... Hã...
- Claro... Claro... Até mais queridos...
Os três amigos seguiram seu caminho, indo deixar Bete em sua casa, conversando sobre o dia que passaram e todas as surpresas do mesmo.
- Puxa... Ainda é difícil de acreditar... Se eu não tivesse visto com meus olhos eu mesma não ia acreditar... E você nunca pensou em contar pro seus pais? Eles são tão legais...
- E dona Carla faz mais uma “vítima”...
- Heim? Como assim?
- Minha mãe tem o dom de encantar as pessoas... Muitas namoradas que eu tive demoravam a aceitar os fins de namoro, mais por causa da minha mãe do que por minha causa...
Todos riram com gosto e a bela mulata se despediu dos amigos com estalados beijos nas bochechas, o que deu em Renato chegou a tocar no canto da boca dele e, antes de entrar, ela sussurrou no ouvido dele um último segredo.
- Nunca te esqueci, a agora eu imagino o motivo...
Logo depois os amigos chegavam na quitinete e Santos já foi falando:
- O que ela disse? Aposto que ela disse algo... Contaí vai...
- Ela não falou nada cara... Se tivesse falado eu te contava pô... Nem esquenta com isso...
Mesmo falando assim, o próprio Renato ficou com as palavras da amiga ressoando em sua mente e as lembranças do curto período em que ficaram juntos voltavam com tudo. Ele se lembrou exatamente de como se sentiu usado no momento em que Bete viera falando que deveriam ser apenas amigos para, pouco tempo depois, começar a ficar com outro cara.
Agora aquele beijo e a frase que ela sussurrou, ele se pergunta se era verdade, se ele podia confiar nas palavras dela. Ele se pegou pensando também da bela Carla, que ele não teve coragem de convidar para sair até agora. Se apenas seus problemas pessoais são fossem o suficiente, ele se preocupava com os misteriosos incêndios e o dragão formado pelas chamas que o atingiram.
Renato mal prestou atenção às aulas daquela noite, sempre tendo que ser cutucado por Santos para “acordar”, o que acabava irritando os dois e quando finalmente o último sinal tocou, eles se encontraram com Bete, que queria ir com eles até o barzinho próximo da faculdade, onde os alunos costumavam ir no fim de noite.
Antes de chegarem, porém, Renato sentiu um mal estar já conhecido.
- Saco! Mais um?
- É assim que você sente que tem um incêndio perto?
- Sim... O pior é que no de ontem a roupa que eu costumo usar se queimou toda...
- Vai em casa antes e abre a Batcaverna... Tem umas surpresas lá...
- O quê?
- Vai logo... A chave tá na minha gaveta de cuecas...
- Mais uma vez... O quê?
- Vai logo pô!!
Renato desapareceu numa explosão de fogo e Bete não deixou de dar um gritinho de susto, se voltando para Santos.
- Batcaverna?
O rapaz apenas sorriu envergonhado.
Na casa dos amigos, Renato surgiu diante da Batcaverna, na verdade um armário que Santos comprou pouco depois de descobrir os poderes do amigo e que ele mantinha sempre fechado, sem mostrar seu interior para ninguém, nem para o rapaz que agora tinha uma tarefa difícil pela frente.
Mexer da gaveta de cuecas do Santos.
- Eca... Bem lá vamos nós. - Apesar da repulsa ele seguiu em frente, tateando até achar a chave e usá-la em seguida para abrir o armário secreto de seu amigo. - Mas que filha da...
Diante do rapaz surgiram vários casacos iguais ao que foi destruído, bem como botas e também máscaras de oxigênio. Renato balançou a cabeça, incrédulo e enquanto começava a se vestir, pensou em como Santos havia comprado tudo aquilo e mantido em segredo até então.
Uma vez que o rapaz estava todo equipado, foi Stahl quem se teleportou até o local onde devia estar ocorrendo o incêndio.
Assim que ele chegou, percebeu estar no Cemitério Parque das Flores, mas estranhamente não havia nenhum foco de incêndio por ali.
Ele olhou ao seu redor e tudo permanecia em silêncio.
Quando finalmente se preparava para ir embora ele viu um casal se aproximar e antes que ele se teleportasse, pretendendo evitar qualquer problema, não conseguiu e logo via algo que parecia ainda mais estranho que o dragão da noite passada.
Os dois moviam seus braços, chamas saindo dos mesmos e serpenteando pelo ar até que pararam do lado deles. Foi então que um enorme leão de fogo surgiu ao lado da mulher e um urso, também de fogo, surgiu ao lado do homem.
- Então é você que está atrapalhando nossas obras de arte não é? Hum... Ele é realmente alto Xangô... Será que é feio também? Prá usar aquela máscara...
- Se concentra Héstia, minha querida... O sujeitinho deve ser poderoso, não esquece como ele derrotou nosso dragão ontem... - O homem se voltava para Stahl, dando alguns passos e erguendo novamente sua mão. - Mas vamos ver do que ele é capaz agora...
Um círculo de fogo cercou a todos, atingindo uma altura impossível de ser pulada e então o jovem se colocou em posição de luta, esperando pelo ataque que devia vir logo.
- Hum... Olha só meu amor... Ele quer lutar... - A mulher abaixou levemente o rosto e sua face se contorceu num sorriso insano, que cresca cada vez mais, enquanto o leão ao seu lado começava a se mover. - Será que isso vai demorar muito?
- Acho que não minha querida, mas nada impede de nos divertirmos, não importa o pouco tempo que isso dure...
Sem mais nenhuma palavra, os animais de fogo se lançaram ao ataque e Stahl, lembrando da noite anterior, não teve outra escolha a não ser erguer os braços diante do corpo e mais uma vez gritar, quando as chamas começaram a atingi-lo:
- Merrrddaaa!!!!!!!!!!!!
Continua.
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