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Heavy Metal 2099 #02 - Linha de Montagem


Após ser resgatado pelo grupo rebelde do Japão, o Homem-Máquina tem que reagrupar seus velhos companheiros mecânicos... parafuso por parafuso.

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SM2099 – HEAVY METAL

CAPÍTULO 02 – Linha de Montagem


Por Alex Nery



O comboio rebelde avançava rapidamente. Após se apossarem da carga do depósito da Falange, eles não perderam tempo e partiram rumo à base rebelde de Kanagawa. Graças aos caminhões de esteiras, podiam seguir por onde não havia estrada alguma e isso permitia que eles cortassem caminho por áreas devastadas, desviando dos postos habitados por unidades-falange.
Da cabine de um dos veículos, o Homem-Máquina observava contrariado o cenário de destruição. O Japão, antes um belo país, agora era uma terra árida e desolada. Hiroshi, o jovem motorista, percebe o olhar perdido do antigo herói.

- É triste mesmo... – comenta o rapaz.

O andróide suspira profundamente, num gesto tão humano que impressiona o japonês. Ele continua:

- Sabe, antes dos aliens, eu pensava que a humanidade iria destruir o planeta com toda aquela agressão ao meio ambiente. Quero dizer, parecia lógico que isso aconteceria, mas... eu ainda tinha esperança de que tomaríamos a direção certa.
- A decisão foi tirada de nossas mãos – murmura o Homem-Máquina.
- Pra você deve parecer ainda mais idiota toda essa devastação.
- Para mim?
- É, claro.
- Como assim?
- Quero dizer... você é um robô, age logicamente e tudo o mais... destruir o planeta desse jeito deve parecer uma tremenda idiotice.
- Ah, é idiotice, seja você um andróide ou um humano. Não faz diferença.
- O que pretende fazer?
- Remontar, literalmente, o Heavy Metal.
- Que pau é “heavy metal”?
- Um grupo de amigos que reuni uma vez.

O Homem-Máquina parecia cada vez mais estranho para Hiroshi. Ele falava num tom completamente humano e agora mencionava amigos como qualquer pessoa.

- Sei o que está pensando, Hiroshi...
- Hein?
- “Como ele pode ter amigos?”
- Ahn, eu não... er...
- É sempre assim que reagem na primeira vez que me encontram. Esperam que eu aja como um boneco ou simplesmente uma máquina, mas logo percebem que estou um pouco além disso.
- Pô, desculpa, X51...
- Esqueça. O que importa é usar o que temos à mão para eliminar os aliens. E me chame de Aaron.
- Aaron??
- É. Longa história.

O comboio de quatro caminhões chega à beira do lago Ashi, outrora uma área freqüentada por turistas do mundo todo, agora uma região de mata selvagem, abandonada e ideal para esconder a base rebelde. Hiroshi pára o caminhão à beira do lago, sendo seguido pelos demais.
O Homem-Máquina olha em volta procurando por sinais de atividade e nada encontra.

- Não vejo nada. Nem com meus sensores. Cadê a base? – pergunta o andróide.
- Se você encontrasse algo, aí estaríamos realmente encrencados – diz HIroshi.

Subitamente, sem sinal algum, uma ponte submersa começa a se erguer em frente ao comboio. Os motoristas não esperam ela estar completamente visível e já aceleram subindo na rampa emergente.
A rampa abre um caminho sobre as águas até o centro do lago, onde uma grande comporta se abre, como a boca de um monstro, para recebê-los.

- Uma base submersa – constata o Homem-Máquina.
- É isso aí. Escondida com o que há de melhor da tecnologia genuinamente japonesa – responde Hiroshi com orgulho.

Mal o último veículo atravessa a comporta, ela já começa a se fechar e a estrutura toda vibra. O andróide tem a certeza de que estão submergindo.

- Muito bom, Hiroshi – parabeniza o herói.
- O crédito não é todo nosso. Essa base já estava aqui quando chegamos. Nós tomamos posse e fizemos alguns ajustes. Alguns acham que ela era um posto da IMA ou da Hidra, umas décadas atrás – explica o japonês descendo do veículo.

O Homem-Máquina também desce do veículo e ambos observam a imensa plataforma que desce com os quatro caminhões por um poço com paredes transparentes. Dali eles podem ver todo o fundo do lago. A água é suja e existem muito lixo e sucata depositados no fundo.

- Não é uma visão bonita. Eu queria mesmo era ver os peixinhos... – murmura Hiroshi, como se procurasse se desculpar.
- Ainda existe algum peixe no mundo? – pergunta o Homem-Máquina amargurado.
- É uma boa pergunta. Provavelmente os figurões ainda conseguem um peixe.
- E os figurões são aliens...
- É. Merda.

Os dois permanecem em silêncio até chegarem ao andar mais profundo da base. Lá, os caminhões se encaminham para a área de descarga, onde o conteúdo apreendido do depósito da Falange começa a ser classificado e dividido.

- Hiroshi! Você é o desgraçado mais irresponsável que eu conheço! – grita um homem moreno, de aproximadamente trinta e cinco anos, ao se aproximar.
- Também é bom te ver Rocky... – cumprimenta o japonês.
- E se essas drogas de caixas tivessem sensores? A esta altura estaríamos mergulhados em circuitos aliens – diz Rocky.
- Colocamos os bloqueadores conforme os procedimentos normais, fique calmo.

O homem bufa e finalmente percebe o Homem-Máquina de pé ao lado de Hiroshi.

- Eu não acredito... – murmura o líder rebelde.
- Pode acreditar! Tiramos a sorte grande, chefe.

Hiroshi explica entusiasmado o que a equipe rebelde encontrara no depósito: além do Homem-Máquina, várias caixas com componentes do Andróide do Pensador Louco, do Sentinela 459 e do Superadaptóide.

- E você acha que dá pra usar eles? – pergunta Rocky.
- Temos que tentar ativá-los. Com o Aaron aqui foi fácil – responde Hiroshi.
- To vendo que foi... Ok. Manda bala e vê se põe essas sucatas pra lutar diz Rocky enquanto se afasta.
- Er... não leva a mal o Rocky. É que ele ta muito estressado e... – diz Hiroshi.
- Não se incomode – responde o Homem-Máquina – Me dê as caixa e acesso a uma oficina. Vou ver o estado deles agora mesmo.

Hiroshi consegue um espaço para o Homem-Máquina na oficina mais ampla do complexo. Após ler os códigos de barras de todas as caixas, Aaron classifica-as de acordo com o andróide a que pertencem e decide começar a montagem pelo Andróide do Pensador Louco.
O Homem-Máquina analisa as partes do andróide e percebe que ele está bem conservado. Ele remonta o andróide sobre uma mesa larga da oficina, pois a criação do Pensador Louco mede três metros de altura por dois metros de largura, sendo uma criatura de força bruta. Suas baterias solares não possuem nenhuma carga, mas isso não é problema, pois o Homem-Máquina utiliza um cabo de força da base e descarrega milhares de volts nas baterias do andróide.
Imediatamente a criatura se senta na mesa.

- “Ele está vivo, Igor!” – cita o Homem-Máquina.

O andróide do Pensador levanta-se e dá um passo para frente. Os técnicos que trabalham próximos em outros projetos se assustam com o repentino ativamento da criatura humanóide de cabeça quadrada e sem feições. Ao ver os humanos, o andróide ergue seu poderoso braço e cerra o punho, preparando um golpe brutal.

- ANDY! – grita o Homem-Máquina.

O andróide pára e volta-se para o herói mecanizado. Lentamente ele baixa o braço e se aproxima do Homem-Máquina. Ele se abaixa e aproxima sua imensa cabeça do rosto do Homem-Máquina, como um animal selvagem farejando a presa.
Sem aviso, ele encosta a própria cabeça no peito do herói, em busca de afago, como um cão faria com seu dono.

- Olá, Andy. Também senti sua falta... – o Homem-Máquina coça a cabeça do andróide.

Nas horas seguintes, o Homem-Máquina trabalha sozinho na oficina. Os técnicos decidiram que era arriscado demais trabalhar perto dele.
Aaron coloca Andy sentado em um canto da oficina plugado à rede nuclear da base para que complete a carga de energia. Para acelerar o processo, o Homem-Máquina desativa o andróide do Pensador Louco. Em seguida o herói reúne as caixas do Superadaptóide.
Um projeto complexo. É o mínimo que pode ser dito sobre o Superadaptóide. Inicialmente criado pela IMA como protótipo de um andróide capaz de simular os poderes dos heróis, o projeto foi abandonado depois de alguns fracassos. Os próprios chefes da IMA respiraram aliviados quando seu pretenso agente especial foi desativado.
Dois anos após a desativação, o Homem-Máquina foi em busca do andróide e o reprogramou para que pudesse auxilia-lo numa luta contra uma antiga ameaça mundial. Após isso, o Superadaptóide sumiu pelo mundo, com o intuito de não se envolver nos problemas humanos novamente.
A forma primária do Superadaptóide é a de um humanóide completamente branco, sem feições, sem olhos, nariz ou boca visíveis. Praticamente um boneco de massa.
Mas tão logo ele é remontado e ativado, ele começa a “respirar”, ou melhor, a simular uma respiração. E isso lhe dava um aspecto assustadoramente humano. Vê-lo respirar dessa forma era o mesmo que observar um ser humano sem vias respiratórias buscando impossivelmente o ar. Uma imagem de terror.
Uma imagem que durou pouco, pois em poucos instantes ele “absorveu” os traços do rosto do próprio Aaron, formando uma boca e um nariz idênticos. O Homem-Máquina sorri.

- Bem-vindo de volta, Sup...

O Superadaptóide salta da mesa e atinge Aaron com um forte soco. O Homem-Maquina cambaleia para trás, surpreso. O inimigo não perde tempo e salta sobre ele, atingindo-o no meio do tórax. Novamente o herói cambaleia e cai. O adaptóide atinge o chão com um soco direto que racha o piso, por pouco não atingindo a cabeça do Homem-Máquina, que desviara meio segundo antes.
Aaron estende seus braços hidráulicos e enrola nas pernas nas pernas do adversário, levando-o ao chão. O adaptóide agarra os braços de Aaron e começa a esmaga-los. O Homem-Máquina geme de dor, e desfaz o laço. O adaptóide se volta encarando o herói. Aaron recolhe seus barcos e em seguida estende-os juntamente com as pernas, projetando-se para frente e atingindo a cabeça do Superadaptóide com o máximo de impulso que conseguira. A cabeça do andróide da IMA é arrancada do corpo e cai para trás. Seu corpo permanece de pé, estático.
O Homem-Máquina senta-se no chão, buscando “fôlego”.

- Sorte que não apertei bem os parafusos... – ironiza ele.

Depois de alguns minutos se recompondo, o Homem-Máquina apanha a cabeça do Superadaptóide e conecta a CPU do andróide a um terminal de computador da oficia. Dali ele pode acessar a programação do ex-agente da IMA.
Aaron percebe que ele possui a programação original, aquela destinada a derrotar os heróis. Não existe nenhum traço da programação que o próprio Aaron havia feito anos atrás. Do seu dedo polegar, o Homem-Máquina estende um cabo USB e o conecta no terminal. O herói varre seu banco de dados e encontra a programação que já utilizara uma vez no Superadaptóide. Imediatamente ele inicia o backup para a CPU do andróide, acrescentando as memórias do tempo em que atuaram juntos e as informações obtidas com Hiroshi.
Meia hora depois, após se certificar de que a programação atualizada estava corretamente armazenada no andróide, o Homem-Máquina recoloca a cabeça do Superadaptóide no corpo e o ativa completamente.
Desta vez a reação do andróide é bem diferente.

- A-Aaron? – murmura ele ao reconhecer o Homem-Máquina.
- Sim, sou eu.
- Então a humanidade encontrou seu fim?
- Ainda não. Ainda há uma chance.
- Você continua o mesmo, Aaron. Seu criador exagerou ao incluir na sua programação o conceito de esperança.
- Pode ser. Mas estou disposto a lutar até o fim. Já deu pra ver que somos resistentes, não?
- Por que simplesmente não me reprogramou para ajuda-lo ao invés de pedir a minha ajuda?
- Você é um ser vivo. Deve ter o direito de escolha.
- Como vou ter a certeza de que você já não programou a minha resposta?
- Confiando em mim.
- Você fala de escolhas e confiança como um humano. Às vezes é difícil crer que você é um andróide.
- Andróide ou não, este mundo também é nosso.
- É lógico.
- E então?
- Estou com você. Ao menos por enquanto. Sabe que não aprecio participar de questões humanas.
- Você é apenas mais um alvo para os aliens, adaptóide. Eles não farão diferença entre você e um humano.
- Como eu disse, por enquanto estou com você.
- Ótimo, então. Me ajude com nosso terceiro colega.

Os dois seres artificiais se voltam para a caixa quadrada medindo dois metros de lado que os observa silenciosamente no fundo do deposito, junto com outras quatro caixas maiores ainda.

- Quer reativar um sentinela KREE? – pergunta irônico o adaptóide.
- Claro.
- Corrija-me se eu estiver errado, mas... os Krees não são parte da frota invasora?
- Sim, são.
- E reativar um aparelho letal kree dentro de uma base humana não é ilógico?
- Eu disse que ia precisar da sua ajuda, não disse?
- Aaron, isso é extremamente arriscado e desnecessário.
- Além disso, vamos precisar dele.
- Para quê, afinal?
- Para destruir a Falange e retomar o planeta, é claro.

Se o adaptóide possuísse olhos visíveis, o Homem-Máquina poderia perceber a incredulidade neles.


Continua...

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